Arquivo do mês: junho 2009

felicidade interna bruta

Felicidade Interna Bruta (FIB) é uma proposta concreta de índice para quantificar o desenvolvimento social de uma nação. O nome do índice é inspirado no Produto Interno Bruto (PIB), diferenciando-se deste por englobar também valores não materiais que fazem parte da realidade das pessoas e do país.

O conceito foi criado em 1986 por Sua Majestade o 4º Rei do Butão. É hoje efetivamente aplicado no planejamento das políticas públicas desse país. Projetos inspirados na estrutura conceitual do FIB estão hoje em implantação, em diferentes fases de desenvolvimento, no Canadá, Inglaterra, Tailândia e Brasil.

A principal limitação do PIB é o fato de só medir a riqueza material e o trabalho envolvidos em transações monetárias. O serviço realizado por uma empregada doméstica, por exemplo, entra no cálculo por se tratar de uma relação formal de troca. Já o trabalho doméstico de uma dona de casa fica de fora. O PIB mede produção e consumo mas não mede outras formas de capital, como os recursos ambientais, sociais e humanos.

Ter o volume de transações comerciais como medida do desenvolvimento de um país revela um sistema de valores bastante perverso, com consequências sinistras. Bom lembrar que praticamente todos os aspectos ruins da vida, principalmente aqueles típicos de cidades insalubres, também geram transações comerciais.

Problemas respiratórios causados pela poluição aumentam a procura por serviços de saúde. Índices de violência e sensação de insegurança sustentam a indústria do medo, representada principalmente pelos mercados de equipamentos de segurança e de seguros. As condições de vida nas grandes cidades, cheias de ruído, trânsito, insultos (explícitos ou não) e correria, e sem qualquer contato com a natureza e com alimentos e práticas saudáveis, tudo isso traz problemas de saúde mental, ajudando a vender antidepressivos. A falta de civilidade dos motoristas é responsável por boa parte das pequenas colisões que acontecem a cada minuto, e isso aquece o mercado de autopeças e de serviços de mecânica e funilaria.

Tudo isso contribui para aumentar o PIB do país.

Há também os falsos valores relacionados à riqueza material. Pesquisas realizadas em alguns países mostraram que o aumento da renda não se reflete em aumento da satisfação pessoal. Ao longo de vários anos com o PIB em franco crescimento, o percentual de canadenses que declaram estar muito satisfeitos com suas vidas não se alterou. E nos EUA e na Inglaterra, esse percentual diminuiu durante o período.

O economista canadense John Helliwell concluiu que pessoas com o mais alto bem-estar “não são aquelas que vivem nos países mais ricos, e sim aquelas que vivem onde as instituições sociais e políticas são eficazes, onde a confiança mútua é alta, e onde a corrupção é baixa”.

Dentro da estrutura conceitual do FIB há espaço para elementos subjetivos da existência, como satisfação com a própria vida, saúde mental, uso do tempo livre, auto-avaliação da saúde, educação informal, sensação de segurança física e financeira, vitalidade dos laços comunitários, práticas culturais, cultivo de tradições e costumes locais, estado dos recursos naturais, percepção quanto a honestidade e qualidade das instituições (governo, mídia, polícia, judiciário), entre muitos outros. A medição de cada um desses aspectos se dá pela avaliação que o cidadão faz de cada um deles em sua própria vida, e não por critérios únicos pré-determinados.

A grande contribuição do FIB é ter criado uma metodologia capaz de quantificar esses aspectos subjetivos, agrupando-os em índices que representam os vários domínios da vida: cultural, educacional, psicológico, comunitário, ecológico, espiritual, o da saúde física, o do uso do tempo, o da boa governança e também o das condições materiais. Durante a entrevista, a pessoa é levada a refletir sobre a vida que leva.

Os resultados da pesquisa orientam políticas públicas voltadas para aqueles domínios que apresentaram maiores problemas. Trata-se portanto de um índice voltado para melhorar a vida das pessoas, e não a saúde dos mercados.

Dasho Karma Ura, presidente do Centro para os Estudos do Butão, argumenta que “a voz subjetiva, que tem sido relativamente sufocada nas ciências sociais como um todo, e nos indicadores em particular, está sendo restaurada nos indicadores do FIB”. Através de uma metodologia bastante elaborada, o FIB busca o equilíbrio entre as esferas objetivas e subjetivas da vida, conferindo pesos idênticos tanto para os aspectos funcionais da sociedade humana como para o lado emocional da existência.

2 Comentários

Arquivado em mundo possível

velocidade média indicada x velocidade média real

Velocímetros eletrônicos para bicicletas, também conhecidos como ciclocomputadores, são maquininhas divertidíssimas que fornecem várias informações interessantes ao ciclista. Uma dessas informações é a velocidade média do treino, que é obtida, evidentemente, dividindo-se a distância percorrida durante o treino pelo tempo de treino.

Como o velocímetro é programado para uso esportivo, a contagem de tempo é interrompida quando a bicicleta pára. Portanto a velocidade média calculada pelo velocímetro leva em consideração apenas os momentos em que a bicicleta está em movimento. Chamaremos esse dado de velocidade média indicada.

Acontece que, quando se calcula a velocidade média dos veículos motorizados em uma cidade, leva-se em conta também o tempo em que o veículo está parado. Se os veículos motorizados passam, em uma cidade congestionada, mais tempo parados que em movimento, o dado de velocidade média deve mostrar isso. Chamaremos de velocidade média real o dado obtido dividindo-se a distância percorrida pelo tempo total consumido nesse deslocamento, inclusive o tempo em que o veículo está parado, já que aqui o propósito é mostrar a eficiência dos deslocamentos. Dados de velocidade média fornecidos pela CET são calculados com esta metodologia.

Quando comparamos bicicletas com veículos motorizados quanto a eficiência, devemos tomar cuidado na comparação das velocidades médias. A velocidade média indicada pelos velocímetros eletrônicos é sempre superestimada em relação à velocidade média real, pois desconsidera os tempos de parada. Para medir a eficiência de uma bicicleta no uso urbano, deve-se utilizar a velocidade média real. Bicicletas também estão sujeitas às paradas em semáforos.

Comparar a velocidade média indicada da bicicleta com a velocidade média real dos automóveis daria uma falsa vantagem para as bicicletas. Além de incorreto, isso seria um erro primário facilmente contestável pela argumentação adversária. Não me parece interessante, estrategicamente falando. Mesmo porque, a bicicleta leva vantagem sobre os motorizados em muitas situações mesmo considerando as médias reais, e lembrando que tal comparação só leva em conta o fator eficiência (saúde física e mental, entre outros fatores, ficam de fora).

Nos textos aqui publicados, quando houver comparação de velocidades médias entre bicicletas e automóveis, ela será com base nas velocidades médias reais de ambos. De qualquer maneira, o leitor deve ficar atento ao uso dos termos indicada e real.

3 Comentários

Arquivado em bicicleta