dia 2 – rios marcam o caminho

Acordei sentindo ares de estrada, a alegria de estar no meio do caminho.

Dormir e seguir viagem, a fórmula simples que dá à bicicleta o alcance ilimitado. A diferença entre “viajar” e “seguir viagem” corresponde à diferença entre um e dois. Hoje eu acordava para seguir viagem.

Era muito gosto junto. Gosto da fuga, gosto dos 120 quilômetros já conquistados, gosto de estar a caminho de Minas, gosto do dia de sol que me aguardava lá fora.

No trajeto de saída de Bragança, fui observando devagar a mudança na paisagem, conforme atravessava a borda da cidade.

O comércio denso do centro vai sendo substituído por casas e alguns terrenos vazios. Cruzo o riozinho, uma rotatória e logo chego numa grande avenida, que é na verdade a fase urbana da estrada que atravessa a cidade. Nessa avenida há depósitos de material de construção, marmorarias, madeireiras e comércio de peças para automóveis e caminhões. Ainda predominam os lotes construídos, mas as cercas são transparentes e já se pode ver capim e árvores. Há uma grande área verde aberta, e então percebo que estou acompanhando o riozinho que cruzei há pouco. Vejo barrancos mordidos por máquinas, pilhas de tubos prontos para virarem uma adutora ou rede de esgoto, conjuntos habitacionais ao longe e o galpão de uma empresa de terraplenagem, com alguns tratores. Um ônibus escolar passa trazendo crianças dos bairros afastados. Mais uma rotatória. Barracas de frutas e de caldo de cana. E enfim estou na estrada aberta.

Na época da seca de 2014, estudei um pouco a hidrografia do Sistema Cantareira e localizei bem alguns rios: Juqueri, Atibaia, Jaguari, Camanducaia (perdão pela rima infame, essa é a ordem de passagem por eles, e qualquer outra ordem daria também efeito ruim). Nesta viagem eu poderia vê-los de perto, então fiquei atento ao ponto em que cruzaria com eles. Fiz deles marcos no caminho. Até porque em regiões montanhosas um rio desses geralmente marca o início de um trecho de subida e fica bem evidente no perfil altimétrico do trajeto. O Juqueri e o Atibaia, eu cruzei no primeiro dia da viagem.

Logo no começo deste segundo dia eu cruzei o rio Jaguari, pouco abaixo da represa Jaguari-Jacareí. A água que bebo em casa sai desta represa e chega até lá por um caminho bem diferente do que estou fazendo agora. Se eu bebesse água engarrafada, ela viajaria de caminhão pelas mesmas estradas que eu. Leitos fluviais, canais e adutoras são caminhos de água. Prefiro beber a água que segue seus próprios caminhos.

Pouco antes de Pedra Bela, fiz uma parada para tomar meu isotônico. Foi no meio de um trecho de subida. Eu nunca havia sentido tão claramente o efeito fisiológico dessa bebida. Quando voltei a pedalar, parecia que eu havia “lubrificado o mecanismo” das minhas pernas. Como era fácil!

Na chegada a Pedra Bela, fiquei fazendo hora na sombra do mirante até dar vontade de almoçar.

Entrei devagar em Pedra Bela e logo encontrei um lugar simpático para comer. Ao me ver, o rapaz do restaurante abriu a garagem da casa dele para que eu guardasse a bicicleta durante o almoço.

O restaurante estava cheio de gente, e o clima era mais de uma grande família do que de funcionários em horário de almoço. Vinham de cantos diferentes da cidade para almoçar juntos, e depois cada um volta para a sua vida. Foi a impressão que tive.

Minha fome era bem maior que no primeiro dia. Na hora de servir, mais uma certeza absoluta: preciso de macarrão junto com este arroz-feijão! Macarrão com arroz e feijão é uma combinação que nunca faço. Mas aquele macarrão acabou sendo a melhor parte da refeição, pois eu precisava de carboidrato para o trecho da tarde. Este almoço me caiu muito melhor que o anterior.

A estrada ficou mais fechada no trecho seguinte. Segui devagar, barriga cheia.

De repente, sem qualquer aviso, numa curva à esquerda, eu encontro a divisa de estados. Finalmente eu estava em solo mineiro!

A ponte, com placa da inauguração em 1984, ficou sem asfaltar. Embaixo dela passa o rio Guardinha, que divide os estados.

Havia um certo pioneirismo em chegar até Minas Gerais por uma estrada em que eu nunca havia passado. Fiquei um tempo parado ali, celebrando aquele momento.

Será possível que existe mesmo este boteco de parede azul, chamado Bar & Boteco Mineiro, bem aqui na divisa? Que bom que estava fechado, ia ser difícil seguir se eu entrasse nele. A Malu ficou um tempo curtindo em frente ao boteco, ela estava pisando pela primeira vez em Minas Gerais. Imaginem como ela estava, ainda mais sabendo que foi até lá sozinha!

Então eu montei e segui viagem.

Logo depois do limite entre os municípios de Toleto e Munhoz, uma descida longa e íngreme, onde o velocímetro da bicicleta registrou a máxima da viagem: irresponsáveis 72,1km/h. Essa descida foi terminar numa ponte bem antiga com estrutura de ferro e piso de madeira, que me lembrou pontes ferroviárias antigas. Dos dois lados da estrada, porteiras de sítios e paisagens maravilhosas de vale. Pessoas de sorte, as que moram nesse lugar.

Estrada de pedra, plantação e o vale do rio Corrente.

O céu já começava a mudar de cor quando entrei em Munhoz. A única pousada da cidade ficava em cima de um restaurante junto ao posto de gasolina. Peguei o último quarto disponível, ou seja, por pouco eu não fiquei sem hospedagem.

Depois do banho, coloquei todos os agasalhos que tinha e achei uma pizzaria na praça da matriz. Me esbaldei e pedi para embrulhar os pedaços que sobraram. Eles me salvariam no dia seguinte.

Durante a noite, levantei algumas vezes e abri a janela para sentir o cheiro da noite mineira de Munhoz. O vento frio na cara e a imagem das luzes da rua na neblina eram o nutriente que eu precisava ali. Tenho certeza de que isso ajuda na recuperação muscular.

altimetria dia 2

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