dia 4 – música das montanhas

Do terraço do hotel eu olhava a paisagem montanhosa a leste do vale do rio Itaim, por onde eu seguiria em meu quarto dia de viagem.

Suaves curvas se juntam umas nas outras, tão altas e tão aconchegantes. Aquelas montanhas verdinhas poderiam estar na capa de um disco do Milton Nascimento. É para lá que eu desejo ir desde a primeira vez que sentei no sofá para ouvir o disco Geraes, olhando fixamente a capa do vinil apoiada nas pernas.

Eu já vinha purificado por três dias de estrada e por uma mudança de planos certeira que me trouxe aqui. Bastava tomar meu café da manhã no salão do hotel, arrumar as coisas no alforje e sair. Bastava? Tanto não bastava que demorei bastante nesse processo de saída. A janela do apartamento, com aquela vista da cidade e da Fernão Dias, por onde passo em tantas viagens, estava me segurando. Precisei ainda dar uma volta demorada e contemplativa pela praça da matriz, com a bagagem já montada na bicicleta, antes de tomar meu rumo.

Busquei a saída para Consolação, que nada mais é que uma ladeira que começa na avenida do riozinho, ao lado de um grande supermercado. Subidão logo no início do dia pede cuidado. Marcha leve, paciência, ritmo e nada de querer sair correndo com pernas e joelhos frios.

Quando o asfalto vira terra significa que a rua virou a MG-295. Ela vai se afastando aos poucos da cidade, passando por vários sítios produtivos e alguns bairros rurais. Até que, algumas subidas e descidas depois, passa a acompanhar um maravilhoso vale de rio.

Meu pensamento foi invadido pela canção Fazenda, de Nelson Ângelo, que aparece no disco Geraes do Milton Nascimento, de 1976: “Água de beber, bica no quintal, sede de viver tudo”. Além das lembranças distantes de infância que essa música me traz, eu vivia cantando essa melodia para colocar o Matias, meu filho mais novo, para dormir.

“Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga-rosa, tinha o sol da manhã. E na despedida, tios na varanda, jipe na estrada e o coração lá”.

Uma divagação. Algum tempo depois desta viagem, passei de carro por essa estrada com a família. Em algum ponto desse mesmo vale, de repente ouço o Matias cantando. Ele tinha dois anos e pouco nessa época. Viro para trás admirado. O menino olhava pela janela e cantava “Água de beber, bica no quintal…”. Tenho certeza de que eu não havia cantado essa música em voz alta naquele dia. Ou ele ouviu meus pensamentos ou ele sentiu aqueles versos emanando da terra, soprados pela paisagem.

Então começou a subida mais difícil da viagem, a única de categoria 1, daquelas que a maioria dos carros só sobe em primeira marcha.

Detalhe técnico: eu estava usando pneus lisos (1.95”) para asfalto, sem nenhum cravo. Isso significa que, se você fizer força demais ou se a pedalada não for suficientemente constante e tiver picos de tração, o pneu patina na terra, a bicicleta para e você tem que colocar o pé no chão. Se isso acontece, você tem duas alternativas. Ou termina a subida empurrando (pois não vai conseguir colocar a bicicleta em movimento, já que o pneu vai patinar) ou tem que voltar até o início da subida ou um trecho de inclinação menor para retomar o movimento (alternativa bem pouco interessante).

Como nas artes marciais, tem coisas que não se conquistam pela força. É jeito e precisão. A subida foi dura, eu nem tinha tanta energia de sobra. Mas cheguei firme lá em cima, sem colocar o pé no chão. Muito feliz.

Quando a estrada já estava praticamente plana, foi outra música que me invadiu, e desta vez eu cantei em voz alta. Era o Sal da Terra, do Beto Guedes: “Deixa nascer o amor / Deixa fluir o amor / Deixa crescer o amor / Deixa viver o amor / O sal da Terra!”.

Essa estrada e esses versos me fizeram chorar. Eu estava em êxtase, em conjunção plena com o cenário. Fiquei pedalando em círculos, para não começar ainda a descida, sentindo o vento que só existe ali naquela estrada, em pura contemplação.

Descendo para Consolação, meu caminho encontrou o Caminho da Fé, momento importante da viagem.

Na entrada da cidade tem uma venda de roça com três portas, foto do time de futebol local na parede e, logo ao lado, um banco de madeira estrategicamente montado em baixo de uma árvore. No dia em que cheguei, havia ainda um cavalo junto à árvore. Sentei ali ao lado dele para fazer meu lanche.

Ele observa atentamente os viajantes e peregrinos que chegam à cidade e, eventualmente, param na venda para comer biscoito de polvilho.

Com apenas uns 20 quilômetros por pedalar, numa estrada bonita e tranquila, eu chegaria cedo em Paraisópolis. Era este o melhor lugar para chegar com tempo, certeza absoluta.

A chegada a Paraisópolis foi lenta, até porque começa com uma bela subida. Fui reconhecendo os locais por onde eu havia passado uns bons anos antes. Celebrei minha chegada em frente à igreja, na praça.

Banho, roupa quente e várias horas de céu azul para curtir a cidade.

Bem instalado, agora estava tudo muito fácil. E o mercado municipal fica logo ali em frente. É um mercado aconchegante e cheio de coisas deliciosas. Comprei paçoca de pilão (um pacote para mim e um para o meu pai) e um tijolo de doce de leite (para presentear meu anfitrião da noite seguinte). Algum tempo depois desta viagem, soube que Paraisópolis já teve o nome de São José da Ventania. Paraisópolis sempre me encantou de um jeito muito especial, desde a primeira vez que ali pisei, e eu nunca entendi por quê. Talvez a resposta esteja soprando ao vento.

Depois da janta, a caminho da pousada, fiquei vagando. Eu estava longe, muito longe de casa. Sentia isso nas pernas e na paisagem noturna de Paraisópolis, que me traz memórias de infância. Daquelas que você não sabe se viveu ou se vieram da capa de um disco.

altimetria dia 4

AVANÇAR >> dia 5 >>
VOLTAR << dia 3 <<