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visão dos pássaros

“Enquanto os olhos do corpo permanecem perto do chão, o olho da mente – que é testemunha dessa representação em mapa – está lá em cima, com os pássaros.” (Tim Ingold, 2000)

Procuro no mapa o meu caminho até um lugar desconhecido. Localizo o ponto onde quero chegar. Encontro por ali uma grande via que vem da direção onde estou, traço o caminho que leva dessa via até o destino. Penso em como chegar daqui até essa via, ou até outra grande via que dê nessa via. Está pronto o meu trajeto.

Em um mapa, seja no papel ou na tela, todas as vias são linhas padronizadas e atravessam territórios monocromáticos. Posso antecipar sensações que penso que vou sentir ao chegar lá. Cada um tem sua forma de lidar com o desconhecido. Observo as imagens que criei a partir de histórias contadas sobre o lugar. Se o mapa for numa foto de satélite, posso ter uma pista sobre as cores predominantes mas, essencialmente, pouca diferença faz. Estou vendo o mundo pelos olhos dos pássaros, sem ser um pássaro.

Ao chegar lá, tudo isso vai mudar. Somente lá é que vou conhecer as janelas das casas, sentir o vento na cara e o sol batendo, seguir os cheiros, ver o rostos. É só lá que vou saber se as pessoas caminham com pressa, sobre o que conversam, o que fazem quando estão em frente de casa, se cuidam das plantas, como modificam a paisagem. É só lá que estarei aqui agora.

Foto: Dionizio Bueno

Tem uma coisa que sempre me acontece: enquanto o avião em que estou sobrevoa os subúrbios da cidade, já baixo, preparando para pousar, eu olho pela janela aquelas ruas e praças, talvez vazias se o vôo chega tarde da noite, desejando estar lá. A luz da iluminação pública, sobretudo nas cidades que ainda usam lâmpadas de luz quente amarela, são um convite acolhedor para estar com os pés no chão, sentado na guia ou num banco da praça, sentindo a temperatura da noite. Mas como é difícil descer desse avião.

Viver aqui agora nunca foi simples. O estado de presença se conquista com muita atenção, prática e persistência. Pode-se buscar o presente na forma de uma iluminação definitiva, dada geralmente a pessoas de cabeça raspada que vivem em retiro numa montanha do Himalaia. Ou pode-se viver sobre o chão, simplesmente. A iluminação vem em breves lampejos, pequenos presentes. Desse jeito, “nada especial”, como dizem os mestres zen.

É o momento em que você consegue olhar em volta e perceber profundamente onde está, onde essa caminhada de tantos anos te trouxe. Ver aquilo que está logo ali, sentir a brisa, a terra firme sob seus pés. E o céu lá em cima. Estar dentro da vida, em vez de sobrevoá-la.

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