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carros elétricos e a cidade do futuro

Os automóveis elétricos chegarão mais cedo ou mais tarde, e a tendência é que eles substituam a frota de veículos movidos a combustível. Muitas pessoas estão vendo nisso a grande salvação para a mobilidade urbana, pois acreditam que os carros elétricos vão eliminar os males causados pelos carros com motor de combustão.

Para sistematizar um assunto e facilitar sua compreensão, tabelas e listas comparativas são recursos bastante didáticos. O próximo passo seria desenhar, mas vou assumir que por enquanto isso é desnecessário.

Segue então uma breve lista para ajudar a avaliar até onde vai essa melhoria.

males dos automóveis com motor de combustão

  1. Produzem gases tóxicos, material particulado e mau cheiro.
  2. Fazem muito barulho.
  3. Alimentam a demanda por petróleo, que motiva guerras e intervencionismo na disputa pelas jazidas.
  4. Provocam grandes catástrofes humanas e ambientais, decorrentes do derramamento de petróleo nos oceanos, vazamento de oleodutos e tanques de gás, explosão de refinarias.
  5. Têm alto poder de letalidade em atropelamentos e colisões.
  6. São usados para intimidar os outros na disputa por espaço nas vias.
  7. Favorecem o espalhamento das cidades, a gentrificação e o afastamento entre a maioria das pessoas e os serviços disponíveis, comprometendo de forma ampla o direito à cidade.
  8. Oferecem uma proteção visual ao motorista, facilitando ainda mais a adoção de comportamentos agressivos, incivilizados e antissociais.
  9. Isolam as pessoas umas das outras, afetando o convívio social, destruindo comunidades e contribuindo com a epidemia de distúrbios psiquiátricos.
  10. Geram demanda por vagas de estacionamento em locais públicos e privados, fazendo com que um espaço precioso seja retirado das pessoas e reservado para máquinas ficarem paradas.
  11. Produzem um padrão de convivência em que os outros tendem a ser vistos como obstáculos ou como rivais na disputa por um espaço altamente escasso.
  12. Modificam sensivelmente a paisagem urbana, que fica entulhada desses objetos de metal e vidro opaco quando poderia ser dominada por árvores, pessoas conversando, crianças brincando, obras arquitetônicas, arte urbana, paisagismo, montanhas, horizonte de vida.
  13. Ao proporcionar deslocamentos com pouco esforço e muitos privilégios, estimulam comportamentos infantis, típicos de crianças mimadas.
  14. Favorecem o sedentarismo, aumentam a preguiça, a obesidade e a incidência de doenças cardíacas e distúrbios do aparelho digestivo.
  15. Dispondo de equipamentos que podem ser usados para agredir, estimulam a intolerância e promovem uma lógica egocêntrica de ocupação do espaço comum.
  16. Contando com fortes incentivos e subsídios públicos, colaboram para a perda da prática de caminhar, provocando a desertificação das ruas e consequente aumento da sensação de insegurança, o que naturalmente alimenta a indústria do medo, para a alegria de uns poucos.
  17. Pelos mesmos motivos, com as caminhadas cada vez mais raras, comprometem o acesso a pequenos comércios e serviços locais, provocando o desaparecimento desse tipo de atividade econômica e a migração dessa demanda para grandes empreendimentos comerciais, para a alegria de uns mais poucos ainda, aumentando a desigualdade econômica e social.

Acho que está bom, né? Esta lista está longe de ser exaustiva, pois isto aqui não é nenhum doutorado. E eu imagino que você esteja curioso para ver logo a lista de males dos automóveis com motor elétrico, afinal ela deve ser bem menor. Passemos a ela.

Como em uma versão textual do Jogo dos Sete Erros, observe atentamente e procure encontrar as diferenças, que talvez nem cheguem a sete…

males dos automóveis com motor elétrico

  1. Produzem gases tóxicos, material particulado e mau cheiro. [ELIMINADO]
  2. Fazem muito barulho. [ELIMINADO]
  3. Alimentam a demanda por lítio, componente essencial das baterias elétricas, o que certamente motivará guerras e intervencionismo na disputa pelas jazidas.
  4. Provocarão grandes catástrofes humanas e ambientais, decorrentes do descarte massivo de lítio e outros componentes das baterias elétricas.
  5. Têm alto poder de letalidade em atropelamentos e colisões.
  6. São usados para intimidar os outros na disputa por espaço nas vias.
  7. Favorecem o espalhamento das cidades, a gentrificação e o afastamento entre a maioria das pessoas e os serviços disponíveis, comprometendo de forma ampla o direito à cidade.
  8. Oferecem uma proteção visual ao motorista, facilitando ainda mais a adoção de comportamentos agressivos, incivilizados e antissociais.
  9. Isolam as pessoas umas das outras, afetando o convívio social, destruindo comunidades e contribuindo com a epidemia de distúrbios psiquiátricos.
  10. Geram demanda por vagas de estacionamento em locais públicos e privados, fazendo com que um espaço precioso seja retirado das pessoas e reservado para máquinas ficarem paradas.
  11. Produzem um padrão de convivência em que os outros tendem a ser vistos como obstáculos ou como rivais na disputa por um espaço altamente escasso.
  12. Modificam sensivelmente a paisagem urbana, que fica entulhada desses objetos de metal e vidro opaco quando poderia ser dominada por árvores, pessoas conversando, crianças brincando, obras arquitetônicas, arte urbana, paisagismo, montanhas, horizonte de vida.
  13. Ao proporcionar deslocamentos com pouco esforço e muitos privilégios, estimulam comportamentos infantis, típicos de crianças mimadas.
  14. Favorecem o sedentarismo, aumentam a preguiça, a obesidade e a incidência de doenças cardíacas e distúrbios do aparelho digestivo.
  15. Dispondo de equipamentos que podem ser usados para agredir, estimulam a intolerância e promovem uma lógica egocêntrica de ocupação do espaço comum.
  16. Contando com fortes incentivos e subsídios públicos, colaboram para a perda da prática de caminhar, provocando a desertificação das ruas e consequente aumento da sensação de insegurança, o que naturalmente alimenta a indústria do medo, para a alegria de uns poucos.
  17. Pelos mesmos motivos, com as caminhadas cada vez mais raras, comprometem o acesso a pequenos comércios e serviços locais, provocando o desaparecimento desse tipo de atividade econômica e a migração dessa demanda para grandes empreendimentos comerciais, para a alegria de uns mais poucos ainda, aumentando a desigualdade econômica e social.

Portanto, aí está. Seja bem-vindo à cidade do futuro!

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comandar e punir

Estar no espaço comum implica conviver com formas diferentes de ocupá-lo.

Uns têm pressa, outros querem ver e viver o caminho. Alguns são atentos ao que acontece ao redor, outros só têm olhos para seu mundo interior.

Há os que têm dificuldades ao conduzir seu automóvel ou sua bicicleta e há os que esbanjam habilidades de pilotagem. Há os que acabam de chegar e ainda estão perdidos, há os que fazem seu trajeto até de olhos vendados.

Diante da diversidade, é preciso de um mínimo de tolerância para que o convívio seja possível.

Acontece que, muito mais que meio de transporte, o automóvel é uma máquina com múltiplas funções e dispõe de pelo menos dois recursos que, havendo intenção, podem ser usados para agredir: a buzina e o farol alto.

Protegido dentro da armadura de aço, o motorista tem pouco a temer. Assim, não hesita em usar esses recursos de agressão para tentar impor a sua própria lei e vontade a quem encontrar pelo caminho.

A buzina e o farol alto agridem porque causam desconforto físico. Ao acionar a buzina, o motorista emite uma agressão sonora a quem estiver por perto. Sons fortes e estridentes provocam sustos, irritam, fazem as crianças chorarem. O contexto e a posição do automóvel muitas vezes informam a quem a agressão é dirigida. Mas todos que estão em volta também recebem a agressão, que atinge quem quer que esteja por perto, infernizando a vida de todos.

O farol alto produz uma agressão luminosa. Luzes fortes ofuscam, fazem doer os olhos, causam reação de aversão e cegueira temporária. Este tipo de agressão é mais direcionável, atinge somente quem estiver na direção do raio de luz, e por isso funciona em situações mais específicas. Para aumentar o poder de agressão, muitos meninões mandam instalar lâmpadas bem mais fortes que o normal nos faróis de seus carros.

Comandar e punir. Eis a finalidade das agressões sonoras e luminosas que acontecem no cotidiano das nossas cidades.

Seria até mais simples contar situações em que o uso da buzina ou do farol alto não tem intenção de agredir: buzinadas curtas e amigáveis para cumprimentar pessoas, agradecer, chamar a atenção de alguém ou “fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes” (principal finalidade da buzina num automóvel, conforme o art. 41 do CTB); lampejos curtos dos faróis altos para ceder prioridade, agradecer a passagem ou alertar o motorista que vem em sentido contrário sobre um perigo na estrada e, naturalmente, o uso contínuo do farol alto quando há necessidade de iluminação mais longa e não há ninguém na direção do facho de luz.

Praticamente todos os outros usos da buzina e do farol alto têm a intenção de dar uma ordem ou de punir alguém por uma atitude considerada errada.

Dois segundos após a abertura de um semáforo já começam as primeiras buzinadas de “anda logo”, para dar aqui apenas um exemplo da ampla gama de possibilidades de comandar os outros através da buzina.

O farol alto, naturalmente por estar posicionado na dianteira do veículo, costuma ser usado como uma ordem de “sai da frente”. Há variações contextuais dessa ordem como “anda logo” (quando não há opção de sair da frente) ou “não para” (quando há um semáforo prestes a fechar logo adiante).

Quando dirigida a um ciclista, a agressão sonora equivale a um grito “vai pra ciclovia” ou simplesmente um “sai da minha frente, você está atrasando a minha vida”. Como poucas bicicletas têm retrovisor, a agressão luminosa é raramente usada quando o automóvel vem por trás. É mais comum em cruzamentos no qual o motorista, tendo ou não prioridade, ordena ao ciclista que “fique onde está”.

E dirigida a um pedestre é quase sempre um “sai daí, seu maluco”.

Em todas essas situações, alguém está dando uma ordem a uma pessoa por julgar, segundo seu critério individual e egocêntrico, que a outra está sendo inadequada: andando muito devagar, demorando demais para partir, sendo um obstáculo em seu caminho.

A proteção da armadura de aço dá ao motorista a possibilidade de dar ordens aos outros. É impressionante a frequência com que ele de fato usa esse recurso, ele realmente acredita que tem esse direito. O automóvel é uma máquina de imposição do EU.

Agora uma situação um pouco diferente. Um carro para e o outro acaba tendo que parar atrás. O da frente vai desembarcar uma pessoa. O motorista do carro de trás fica impaciente. Alguns segundos depois ele resolve desviar e seguir viagem. Ele faz a manobra e sai de trás do carro parado. Ao passar do lado dele, lança-lhe uma longa buzinada.

Repare que aqui não interessa mais ao motorista de trás que o carro da frente ande, pois já saiu de trás dele. Esta buzinada não é um comando. O carro de trás já resolveu o seu “problema”, o da frente já não lhe prende. Mesmo assim ele buzina. Esta agressão sonora é uma punição.

Na situação de punição, o agressor entende que a atitude do agredido justifica a agressão. O agressor pune por acreditar que o outro merece aquilo. Se houver algum passageiro ao lado, este motorista geralmente fará algum comentário para mostrar como está coberto de razão. Nos casos em que o agredido está aparentemente cometendo uma infração, o agressor considera o seu gesto ainda mais justificado.

Algumas atitudes são frequentemente punidas com agressão sonora ou luminosa: uma parada para embarcar ou desembarcar um passageiro, uma conversão que obrigue uma parada, uma fechada ou qualquer outra manobra repentina ou arriscada, uma parada diante da travessia de pedestres.

Muitos motoristas acreditam que os ciclistas não deveriam estar nas ruas e que elas são só para os veículos motorizados, e sabemos o quanto o senso comum e a forma de as leis serem aplicadas contribuem para reforçar isso. Com base nessa crença, buzinam para os ciclistas com a intenção de puni-los.

Qualquer que seja a situação, seja punindo ciclistas ou outros motoristas, ao fazer agressões como essas o motorista se coloca na posição de um juiz. Num breve instante acontece um processo judicial completo: o gesto do outro é percebido como errado; o motorista assume a posição de juiz; o suposto transgressor é considerado culpado e merecedor de punição; a punição é aplicada.

Pouca diferença faz se o suposto transgressor está de fato violando a lei de trânsito ou o bom senso, o que de fato é bastante comum. Pouco importa também se o agressor tem ou não o hábito de fazer o mesmo gesto pelo qual está punindo o outro agora.

Uma aparente contradição pode estar surgindo aqui. Nos casos em que uma pessoa está de fato violando acordos de convivência, não seria positivo para a coletividade que alguém lhe chamasse a atenção? Não seria esse um mecanismo de controle social importante para uma sociedade?

Seria, se isso acontecesse de maneira pessoal, verbal e educada, e não por meio da proteção e dos recursos de agressão proporcionados por uma máquina. Aliás, aqui fica evidente a contradição entre, de um lado, a disposição que as pessoas têm de punir os outros quando estão dentro de um automóvel e, de outro, a sistemática omissão de chamar a atenção de alguém que está se comportando de maneira inadequada no espaço público.

Ao nos dirigirmos a uma pessoa por meio da fala e olhando nos olhos, estamos abrindo a possibilidade do diálogo e da argumentação. Agredir através da máquina é um gesto que, além de ser covarde, fecha qualquer possibilidade de conversa. É essencialmente autoritário.

A frequência com que a punição é usada numa sociedade automobilista evidencia o quanto ela é marcada pela intolerância. E talvez não tenha como ser diferente, já que o automóvel é provavelmente o mais poderoso recurso já inventado para o exercício do individualismo.

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todos estão certos

O sujeito entra de carro na viela que dá acesso à praia, onde existe uma enorme placa ‘proibido automóvel’. Os pedestres têm que se espremer junto ao muro para que o sujeito passe com seu carrão. Um deles reclama, dizendo que não pode entrar de carro ali. O sujeito responde agressivo: “Não está vendo que estou levando a minha mãe, que já tem idade?”. Aproveita para xingar o pedestre e mandá-lo cuidar de sua vida.

Um motorista vem com velocidade e entra direto na rotatória. Quase provoca um acidente. A placa ‘dê a preferência’ está bem visível na entrada da rotatória. O outro motorista, que tinha a prioridade nessa situação, reclama do gesto do primeiro, mostrando a placa. Ele passa ali todos os dias, sempre da mesma forma, e nunca havia reparado na tal placa. Mas ele não pode aceitar essa situação. “Eu estava em maior velocidade, você é que deveria ter esperado.” E sai fazendo um gesto feio.

A rua tem três faixas, e o cara está na faixa da direita, mesmo sabendo que vai entrar à esquerda logo que o semáforo abrir. Quando os carros começam a andar, ele bloqueia todas as faixas, pedindo passagem com um amigável sinal de positivo. Muitos perderão o verde por causa disso. Se alguém reclama, ele logo começa a xingar. Está convicto de que são os outros que não colaboram e que é por causa desse tipo de gente egoísta é que o trânsito na cidade anda tão ruim.

Caminhando pelo parque, o pedestre só tem olhos para o seu telefone portátil. Sem nenhuma preocupação em saber o que acontece ao redor, ele está em cima da ciclofaixa, quase parado. Ao passar, o ciclista lhe pede atenção e cuidado com a ciclofaixa. O pedestre reclama da bronca, continua no mesmo lugar e xinga o ciclista, dizendo que é ele que tem que tomar cuidado.

Em cada um dos casos ilustrativos existe uma pessoa prejudicando os outros pois está desrespeitando os acordos de convivência. Seja pela lei escrita, seja pelo bom senso, a pessoa está errada.

Mas estamos no Brasil, e portanto ela jamais admitirá que está errada.

Aqui, todos estão certos.

A pessoa que está errada poderia demonstrar um mínimo de respeito a quem foi prejudicado, acenando com a mão em um gesto de desculpas. Mas nada disso acontece, muito pelo contrário. Ela ainda vai se defender, argumentar que está certa, torcer a lei a seu favor e eventualmente vai agredir aquele que reclamou.

Mesmo quando está no espaço público, o brasileiro está sempre convicto de seus motivos, naturalmente mais importantes que os motivos dos outros. Seus gestos são sempre justificáveis. Se ele está certo ou errado naquela situação, não faz a menor diferença.

No Brasil, as leis costumam ser vistas a partir de uma perspectiva particular e vão permanentemente sendo adaptadas aos motivos e propósitos de alguém que se considera o centro do universo.

A humildade de reconhecer um erro, gesto essencial para a convivência no espaço comum, é bastante rara por aqui. É como se a pessoa sentisse sua honra manchada ao aceitar que está errada.

Brasileiro parece ter um problema de autoimagem. Há uma certa divergência entre a imagem de pessoa civilizada que ele mantém de si próprio e as suas práticas e atitudes em relação ao espaço público e aos outros.

Mais um traço do doloroso processo civilizatório brasileiro.

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olho no olho

Escolhemos viver entre as máquinas, precisamos aprender a conviver com elas.

Elas têm sua própria linguagem, comunicam-se através de gestos e sons. São bastante enfáticas ao realizar demonstrações de força e atos de intimidação. As máquinas criam suas próprias formas de interação e isso estabelece as leis das ruas. Ao optar por dirigir, o motorista está aceitando viver segundo essas leis.

Mas pedestres e ciclistas não somos máquinas. Ainda que estejamos sempre vulneráveis à superioridade física das máquinas, sem uma armadura de aço para nos proteger, nem por isso devemos colaborar para reafirmar as leis das ruas.

Com frequência teremos que disputar espaço com as máquinas, mas faremos isso sem perder a ternura.

Ao caminhar pela cidade, o pedestre terá que cruzar o caminho das máquinas a cada esquina. Faixas de pedestre podem ou não existir nesses pontos de travessia, mas isso não fará muita diferença.

Ao pedalar pela cidade, o ciclista terá que se impor sobre as máquinas sempre que, estando na via preferencial, aproximar-se de um cruzamento. Pode até haver placas sinalizando essa preferência, mas isso também não garante nada, e é possível que a máquina, sendo mais forte, tente entrar na frente.

Nos dois casos, somente um recurso poderá prevalecer sobre a força bruta da máquina: olho no olho.

Pedestre ou ciclista, se você estiver em posição que lhe dê prioridade, faça o que tem que fazer. Ocupe o seu espaço. Mas faça isso olhando nos olhos do motorista que tentar disputar com você.

A mensagem emitida pelo seu olhar será bem clara.

“Sim, eu estou passando aqui. Tenho prioridade neste local e o senhor vai sim esperar.”

É incrível como essa mensagem chega com eficácia lá do outro lado, o motorista entende perfeitamente e age de acordo.

Evidentemente você vai fazer isso com algum grau de segurança para recuar ou desviar caso o motorista permaneça na sua arrogância. As ruas estão cheias de psicopatas e, protegido por uma armadura de aço, o motorista não tem quase nada a perder. Você tem.

Em alguns casos será difícil encontrar o motorista lá dentro por causa dos vidros pretos. O olhar de uma pessoa é de fato algo muito poderoso e ameaçador, e assim cada vez mais motoristas escolhem se proteger atrás de um capuz.

Você não precisa ver o motorista para olhar em seus olhos. Você sabe mais ou menos em que posição do pára-brisa ele se encontra, simplesmente olhe naquela direção. Ele não tem como saber que você não está enxergando. Seu olhar e sua mensagem chegarão do mesmo jeito, e ele vai esperar.

Junto com o olhar, deve vir um gesto e uma postura corporal de quem está seguro no que está fazendo e tem conhecimento dos seus direitos. Seja assertivo. A assertividade é uma atitude que transmite clareza e segurança, sem agredir. Ambiguidade e hesitação podem comprometer a sua mensagem, e você não vai atingir seu objetivo, que é ocupar o seu espaço com segurança.

As máquinas são muito mais fortes do que você, não espere dela qualquer compaixão. É bem possível que exista lá dentro um outro ser humano, capaz de agir com responsabilidade e de respeitar os acordos de convivência. Mas, caso não exista, o olho no olho é o melhor recurso para tentar atingir algum resquício de humanidade que haja lá dentro.

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motivos

A avenida tem ciclovia. Mas mesmo assim, você vê um ciclista trafegando pela rua.

Antes de criticá-lo, você pode ao menos supor que ele tem os seus motivos.

Afinal, ele está abrindo mão de usar um espaço que, supostamente, deveria tornar seu deslocamento mais fácil e seguro. Acontece que isso nem sempre é verdade.

Há diversos motivos para preferir a rua à ciclovia. Vamos a alguns deles.

Ciclovias perigosas

Algumas ciclovias são cheias de curvas (que obrigam a reduzir a velocidade), têm árvores no meio (comprometendo a visibilidade) ou são feitas de um material muito liso (que fica perigosamente escorregadio quando molhado).

Ciclovias em canteiro central são cheias de intersecções e passagens de automóveis. Por mais que os ciclistas tenham prioridade nesses casos, os motoristas nem sempre respeitam, alguns sequer olham antes de cruzar a ciclovia. Nas estatísticas internacionais, essa é a situação onde ocorre o maior número de colisões.

E algumas das chamadas ciclovias nada mais são que calçadas pintadas de vermelho. Costumam estar cheias de pedestres, que têm outra velocidade e outra forma de ocupar o espaço e se deslocar por ele. Muitos caminham ou ficam parados no meio da pista, sem a menor preocupação com o que acontece ao redor, obstruindo a passagem.

Tudo isso atrapalha a viagem e reduz bastante a velocidade média do deslocamento, além do evidente perigo de o ciclista se envolver em acidente, sozinho ou com pedestres.

Uma conversão próxima

Se a ciclovia fica à esquerda ou no canteiro central e o ciclista vai converter à direita logo adiante, é muito mais seguro e inteligente ir pela rua, trafegando pela faixa da direita. Essas ciclovias não costumam ter acessos em todas as esquinas, e nem todo lugar é seguro para se atravessar a via movimentada. Assim, por questões de segurança, o ciclista muitas vezes antecipa sua saída da ciclovia e percorre um trecho pela rua para fazer sua conversão.

Assaltantes

Quando a ciclovia fica no meio da avenida, o ciclista não tem alternativas de fuga caso se sinta ameaçado. Está preso por uma cerca feita de máquinas em movimento, que o impedem de fazer qualquer movimento de evasão. Ao segregar o ciclista, a ciclovia o afasta das pessoas. Se ele estivesse trafegando pela rua, próximo à calçada, estaria cercado de gente, o que aumenta a segurança.

Ainda que seja raro alguém fazer alguma coisa para impedir que uma outra pessoa seja assaltada, a presença de gente por perto costuma inibir o ladrão. Dessa forma, esse tipo de ciclovia acaba ajudando os assaltantes. Nas ciclovias de canteiro central, o ciclista geralmente se encontra cercado e sozinho. Cenário perfeito para um assalto. Não é por acaso que os índices de criminalidade são especialmente altos em ciclovias.

Portanto, apesar dos benefícios, as ciclovias também acabam criando diversas formas de perigos e dificuldades para o ciclista, a ponto de ele abrir mão da suposta segurança oferecida por elas e assumir o risco de continuar na rua, sob a constante ameaça das máquinas.

Mesmo sabendo de tudo isso, alguns motoristas continuam recriminando os ciclistas que preferem a rua.

Cada vez que ouvimos de um motorista uma crítica desse tipo, podemos concluir que ele é daqueles que, se defendem ciclovias, não estão preocupados com a segurança dos ciclistas. Estão apenas buscando uma forma de tirá-los da sua frente.

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troca justa

Críticas e agressões de caráter legalista são muito comuns contra ciclistas e pedestres.

— Ciclista, pare no sinal vermelho. Se você quer uma cidade diferente, comece fazendo a sua parte.

— Pedestre, atravesse somente na faixa. Você sabe muito bem que na Europa as pessoas são multadas quando atravessam fora da faixa.

Pera lá, não venha com esse papinho.

Se você quer a Europa como modelo, as pessoas lá são multadas quando atravessam fora da faixa mas os motoristas também são multados quando deixam de dar prioridade a um pedestre que está atravessando pela faixa. Seja por causa da multa, seja pela convicção quanto ao que é certo ou errado, ali existe respeito à faixa de pedestres.

Lá os ciclistas são multados por queimar um sinal vermelho mas têm, de fato, prioridade e respeito na circulação. Lá, um motorista que mata ou fere um ciclista certamente será punido.

Se a ideia é que todos cumpram a lei, pedestres e ciclistas serão os primeiros a apoiar.

Andar um pouco mais para atravessar na faixa seria um esforço bem pequeno em troca do respeito à faixa de pedestres. Partir um pouco antes da abertura do semáforo para se colocar numa posição de maior segurança seria uma manobra desnecessária se pudéssemos dividir a rua com motoristas mais empenhados em respeitar do que em agredir.

Seria uma troca justa.

O lado mais fraco só tem a ganhar com a aplicação efetiva das leis que, equilibrando as forças, organizam a convivência. O não cumprimento de leis geralmente só beneficia o lado mais forte. E a nossa legislação de trânsito está cheia de leis em desuso ou mesmo leis que nunca foram aplicadas. Neste engraçado país, há leis que pegam e leis que não pegam.

Pedestres e ciclistas são aqui a parte mais interessada em que a lei seja cumprida. Só não dá para aceitar esse discurso hipócrita propondo que justamente o lado mais vulnerável “comece fazendo a sua parte”.

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duas soluções

Diz a lenda que, numa certa província, algumas pessoas estavam sendo enterradas vivas por engano. Ninguém sabia como isso estava acontecendo, mas o fato é que um dia, ao andar pelo cemitério, alguém notou que alguns túmulos haviam sido forçados por dentro para serem abertos, levando a concluir que aquelas pessoas haviam sido enterradas vivas.

A notícia logo correu e deixou a população chocada. O chefe local mandou então chamar os sábios da província e pediu que estudassem como resolver o caso.

O que fazer para que ninguém mais seja enterrado vivo?

Duas soluções foram apresentadas.

O primeiro sábio propôs que fosse criada uma área especial, junto ao cemitério, onde as pessoas supostamente mortas fossem deixadas em observação. Só depois de alguns dias, uma vez que houvesse absoluta certeza de que a pessoa não estava viva, é que seria feito o enterro.

O segundo sábio propôs um novo modelo de caixão. Na tampa desse caixão haveria uma estaca pontiaguda, posicionada exatamente na altura do coração. No momento em que o caixão fosse fechado, a estaca perfuraria o peito da pessoa, eliminando qualquer dúvida.

As duas soluções são igualmente eficazes para o problema. De fato, qualquer que fosse a solução adotada, ninguém mais seria enterrado vivo naquele lugar.

Esta história faz lembrar muitas soluções adotadas no Brasil, sobretudo na área da mobilidade e do uso do espaço público.

O que fazer para diminuir o número de atropelamentos?

Uma solução seria fiscalizar e punir os motoristas para que eles deixem de dirigir da forma animalesca e brutal que dirigem. A outra solução é tornar algumas vias tão inacessíveis, desertas e hostis que caminhar por elas pareça, cada vez mais, uma insanidade. Sem pedestres, não há quem atropelar.

O que fazer para impedir que ciclistas sejam assassinados?

Uma solução seria controlar os motoristas que não têm condições psicológicas para compartilhar uma via e, portanto, não podem ser habilitados a portar uma arma como o automóvel. A outra solução é difundir a ideologia da segregação, segundo a qual os ciclistas só podem trafegar se e onde houver ciclovias. Impedindo que os ciclistas compartilhem a via com motoristas, jamais haverá novos assassinatos.

Como evitar a violência em praças e espaços públicos?

Uma solução seria estimular de todas as maneiras possíveis o uso permanente dessas áreas, criando um sistema de controle social que inibe a atuação de agressores. A outra solução é abandonar definitivamente os espaços públicos e criar uma cultura de lazer em locais privados. Nesses locais, os frequentadores podem contar com agentes privados de segurança que são responsáveis pela restrição do acesso (afinal, os agressores são sempre os diferentes, os outros, certo?) e pelo controle dos comportamentos dos frequentadores, como vemos acontecer em qualquer lugar privado. Nossa cultura de padronização tem horror à diferença. Esconde ou elimina os desviantes e se especializa cada vez mais na “arte de evitar contatos”.

Há sempre pelo menos duas soluções para um problema. Criar a impressão de que não há alternativas é um mecanismo muito utilizado por sistemas autoritários para desestimular a reflexão e favorecer a aceitação passiva de certas soluções que, vistas de fora, pareceriam tão absurdas como a do caixão com estaca pontiaguda.

Uma sociedade faz suas escolhas o tempo todo. Ao deixar de sequer questionar as escolhas feitas pela nossa sociedade, oferecemos a ela a nossa conivência, ou mesmo o nosso apoio.

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capuz

Ao fazer o seu trabalho, o carrasco usa um capuz. Isso lhe garante o anonimato. Ele oculta a face para garantir que em nenhum momento vai se sentir constrangido por fazer o que está fazendo.

Quando se pratica um gesto moralmente condenável, é melhor não oferecer o próprio rosto ao conhecimento dos demais, especialmente daqueles que sofrem as consequências de tal gesto.

Em outras palavras: é mais fácil ofender ou prejudicar os outros tendo a identidade escondida.

Tal lógica parece explicar, ao menos parcialmente, a proliferação de vidros escuros nos automóveis que circulam pela cidade.

Antigamente, vidros escuros eram utilizados apenas nos carros de chefes de estado ou de gente muito, mas muito rica e importante. Hoje é praticamente a regra. Muitos carros saem da loja com o filme escuro já aplicado nos vidros.

A resolução 254/2007 do CONTRAN, que regulamenta a matéria, é praticamente ignorada. O texto estabelece que a transmissão luminosa não pode ser inferior a 70% no para-brisa e nos vidros laterais dianteiros do veículo.

Entretanto, bastam alguns minutos de observação dos carros que circulam pela cidade para constatar que películas mais escuras que o permitido são comercializadas e usadas livremente. Tudo indica que, no julgamento dos motoristas, os benefícios percebidos das películas escuras superam de longe os custos das improváveis sanções pelos vidros fora da regulamentação.

Ter um carro com vidros escuros – ou muito escuros – permite não apenas que o motorista, escondido dos agentes de trânsito, fale ao telefone ou fique fuçando em seus brinquedinhos digitais enquanto dirige. Permite que ele seja muito mais agressivo na forma de dirigir, podendo cometer gestos escabrosos sem nenhum receio de possíveis olhares de reprovação.

Observe e verá. Alguns carros têm os vidros muito escuros. Esses motoristas são justamente aqueles que, com mais tranquilidade, furam filas no trânsito, ignoram faixas de pedestres, tiram finas de ciclistas, entram e saem de garagens jogando o carro em cima dos obstáculos humanos que estiverem na calçada.

Ao ser vítima de uma manobra agressiva como essas, você procura o motorista para, no mínimo, lançar-lhe um olhar zangado. E você não encontra o agressor. Olha para o vidro do carro e, por mais que faça uma ideia de onde está o rosto dele, você não consegue ver nem a mais sutil silhueta.

Se ele está rindo da sua cara ou apenas olhando para frente como se você não estivesse ali, você jamais saberá. E isso também não faz a menor diferença. Ele completará a manobra, seguirá tranquilamente e continuará agindo dessa maneira, pois está protegido física e moralmente.

Nesse momento fica bem fácil entender por que o carrasco usa o capuz.

E em meio ao nosso estranho processo civilizatório, o número de motoristas que escolhem andar encapuzados continua aumentando.

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crimes no acostamento

O acostamento é um espaço importante de uma estrada ou rodovia. Do ponto de vista dos motoristas, a importância está em ser uma área de refúgio para quem, por qualquer motivo, precisa parar. Seja uma parada obrigatória (pane mecânica, mal estar do condutor ou de algum passageiro), seja uma parada não tão obrigatória (consultar um mapa, fazer uma ligação, beber água, tirar fotos), é essencial que haja um espaço fora da pista para isso, ou uma situação muito perigosa seria criada.

Além disso, um acostamento é o espaço para o tráfego de pedestres e ciclistas, que têm tanto direito de usufruir da estrada quanto aqueles que andam em veículos motorizados.

Entretanto, existem duas práticas terrivelmente criminosas, relacionadas ao acostamento, que estão se tornando cada vez mais comuns e, portanto, tidas como naturais. Uma delas é o crime praticado pelos motoristas que trafegam pelo acostamento, geralmente usando esse espaço para ultrapassar ou furar fila. A outra prática vem das empresas privadas que exploram e administram estradas. O crime delas consiste em autorizar o tráfego de automóveis pelo acostamento, transformando esse espaço, ainda que temporariamente, em uma faixa adicional de rolamento.

Ultrapassar ou furar fila?

Nem todos percebem a diferença entre ultrapassar e furar fila. Quando um motorista passa à frente de alguém que está andando devagar por opção, está ultrapassando. Porém, quando um motorista passa à frente de alguém que está parado ou andando devagar porque a via está congestionada ou bloqueada, esse motorista está furando fila.

É curiosa a maneira como a cultura brasileira lida com as filas. Por um lado, o respeito às filas é uma prática simples e trivial na maioria das situações, como em uma padaria ou na entrada de uma sala de cinema. Porém, quando investidas de uma armadura de aço e um capuz que cobre o rosto, muitas pessoas ignoram o princípio da precedência e passam por cima de quem quer que esteja à sua frente. São poucos os que resistem à tentação de furar fila quando existe essa possibilidade. E menos ainda os que manifestem sua desaprovação a essa gente esperta. Coisas da cultura do automóvel.

Quando uma estrada está congestionada, o acostamento logo passa a ser usado para furar fila. E nas estradas de pista simples, quando não há uma segunda faixa e o tráfego em sentido contrário é intenso, sem brechas para ultrapassagem, o acostamento é também usado para ultrapassar.

Nos dois casos, a manobra é feita com uma certa velocidade e com muita agressividade. Um ciclista ou pedestre que esteja andando pelo acostamento, em seu pleno direito de transitar, pode a qualquer momento ser esmagado por um motorista criminoso que trafega pelo acostamento.

A institucionalização do crime

Mais recentemente, algumas concessionárias responsáveis pela gestão de estradas passaram a instalar no acostamento uma sinalização luminosa que, quando acionada, autoriza o uso desse espaço como uma faixa de rolamento adicional.

Supostamente, usa-se esse recurso quando o número de veículos está acima de um determinado nível, geralmente em dias e horários de pico. Nessas condições, o tráfego evidentemente está mais lento. Portanto, os motoristas estão andando mais devagar não por opção, mas porque sua velocidade está limitada pelas condições de tráfego.

Assim, ao autorizar o tráfego pelo acostamento, a empresa incentiva que os motoristas furem fila.

De fato, é comum que a velocidade dos veículos que vão pelo acostamento seja maior do que em todas as outras faixas.

Com essa infame medida operacional, a empresa criminosa elimina de maneira irresponsável o espaço dos pedestres, ciclistas e veículos motorizados que precisem parar.

E talvez o maior dano seja o fato de institucionalizar a prática de trafegar pelo acostamento.

O Código de Trânsito Brasileiro proíbe o uso do acostamento para transitar (artigo 193). Quando um gestor de estrada autoriza essa prática, além de contrariar abertamente uma lei, está abrindo um precedente, na cabeça do usuário, para que ele use o acostamento para transitar em outras situações. Bastará uma boa desculpa para que qualquer motorista se sinta autorizado a andar pelo acostamento sempre que julgar necessário. Assim, a função do acostamento começa a ser ressignificada.

Assassinatos de pedestres e ciclistas nos acostamentos tendem a se tornar mais frequentes.

As concessionárias que incentivam o uso do acostamento, contrariando o Código de Trânsito Brasileiro, deveriam ser corresponsabilizadas a cada vez que um pedestre ou ciclista for assassinado por um veículo motorizado no acostamento.

Porém, estamos no Brasil. Essas empresas já contam com a conivência dos agentes públicos e da agência nacional de transportes para proibir o tráfego de ciclistas em certos trechos, dando-se o direito de apreender as bicicletas de quem desobedeça as regras que eles mesmos criam, por mais que essas regras estejam em desacordo com leis brasileiras. A vida nos espaços públicos é, cada vez mais, regida pela lógica privada. Não seria diferente em uma estrada.

Como no Brasil é comum que se escolha a solução estúpida, logo os gestores de estradas encontrarão a solução definitiva para o problema. Conseguirão que a lei federal seja alterada de forma a proibir definitivamente a presença de pedestres e ciclistas no acostamento.

O banimento de pessoas acontecerá em nome do extremo do individualismo: o direito de furar filas.

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motoristas na ciclovia

É muito comum encontrar motoristas trafegando pelas ciclovias e ciclofaixas, especialmente na ciclofaixa dominical. Mas não estou falando daqueles que invadem esses espaços com seus automóveis.

Estou me referindo aos ciclistas que se comportam como motoristas. Muda o meio de transporte mas não muda a atitude.

Tem aqueles que têm muita pressa e gostam de correr. Quando precisam ultrapassar alguém, pedem passagem de maneira bem pouco educada, exigindo que os outros limpem o caminho seu imediatamente. Ao passar, tem alguns que até olham feio ou fazem alguma expressão de falta de paciência, para mostrar como não têm tempo para essa gente lerda.

É bastante comum que esses tipos ostentem em bicicletas caras, o que é coerente com sua pose de quem tem mais direito que os outros. Deve ser igualzinho com seus carrões.

Alguns ficam buzinando para os outros usuários como quem lhes diz “sai da frente”. Assim como aquelas pessoas inconvenientes que buzinam em túneis, acreditam que sua diversão barulhenta é mais importante que o respeito aos outros e agem como uma criança que acabou de ganhar um brinquedo sonoro.

Diferentes, mas nem tanto, são aqueles que pedalam lado a lado em grupos de 2 ou 3, ocupando toda ou quase toda a largura da faixa. Vão conversando tranquilamente, sem a menor preocupação com quem precise passar por eles, seja ultrapassando, seja em sentido contrário. “Quer passar? Problema seu. Desvie, esprema-se no canto ou fique aí esperando.”

Mostram imensa dificuldade em compartilhar o espaço comum. Enquanto estiverem lá, o espaço público torna-se temporariamente privado. Agem como se estivessem na sua própria casa, mal reparam no que está acontecendo ao redor.

Todos esses tipos se comportam como donos da ciclofaixa, pois certamente se consideram os donos da rua quando dirigem seus automóveis. Nem mesmo a eliminação da bolha de aço superprotetora serviu para que eles entendam que estão em um espaço de uso coletivo e que ninguém tem mais direito que os outros ali.

Curioso como esse tipo de atitude é bem mais comum na ciclofaixa dominical do que nas outras ciclofaixas e ciclovias. E parece haver uma interessante explicação para isso.

Ao manter a bicicleta no território do lazer, a ciclofaixa dominical cria um imenso parque de diversões linear pela cidade. Com toda sua estrutura de proteção, permite não só a presença de crianças desacompanhadas, mas também de adultos que jamais teriam coragem de pedalar desprotegidos pelas ruas da cidade, usando a bicicleta como meio de transporte.

O automóvel oferece tantas formas de superproteção que dispensa o motorista de ter certos cuidados. Exatamente por esse motivo é que acontecem todos os dias tantas pequenas colisões, que contribuem para entupir ainda mais a cidade.

A ausência da bolha de aço superprotetora, por outro lado, elimina qualquer sentimento de superioridade em relação aos outros, gerando um outro tipo de relação.

Criam-se acordos de convivência bem diferentes daqueles que existem entre pessoas dentro de máquinas.

Ainda que tácitos, esses novos acordos de convivência são bastante claros para quem usa a bicicleta como meio de transporte urbano e não apenas em ambientes de lazer. Quem passa a pedalar pelas ruas com frequência percebe isso rapidamente. E mesmo que continue usando o automóvel, tende adotar outro tipo de atitude, inclusive quando dirige.

A bicicleta favorece o surgimento de uma outra ética de uso do espaço comum.

Quem faz a passagem rápida do carro para a bicicleta não tem o tempo e nem as condições de vivenciar tudo isso. Troca-se o volante pelo guidão, mas os comportamentos prepotentes continuam os mesmos.

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razão

Fui com um amigo ao centro, ele ia passar uns dias no sertão e estava providenciando os equipamentos que faltavam para a viagem. Entramos numa loja e ele começou a examinar uns facões, daqueles com lâmina de uns cinquenta centímetros.

Ele me mostrou a faca, segurando com as duas mãos, e brincou:

— Isso aqui se chama razão!

Continuamos com a piada imaginando mais algumas falas:

“Sim senhor, vejo que o senhor está com a razão.”

“Quem está com a razão aqui sou eu.”

“Lá tá cheio de jagunço, é bom sempre estar com a razão.”

Em terra sem lei, uma disputa tende a ser resolvida pela força. Ostentar a superioridade física pode até mesmo tornar desnecessário que se chegue às vias de fato. O nome dessa estratégia é intimidação.

Na disputa diária dos motoristas pelo espaço limitado nas ruas, a necessidade de estar sempre com a razão explica, por exemplo, a proliferação daqueles automóveis muito grandes, verdadeiros tanques de guerra urbanos.

Explica também aqueles adesivos de artes marciais e de técnicas de briga que os meninões colam em seus carros.

E quando um ciclista tenta ocupar o espaço que é seu por direito nas vias de uma cidade, muitas vezes encontra uma resistência agressiva e acaba cedendo. Pois armados com uma tonelada de aço, os motoristas geralmente estão com a razão.

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cérebro reptiliano

Segundo a Teoria do Cérebro Trino, o cérebro humano se divide em três diferentes unidades funcionais: o cérebro reptiliano, responsável pelas funções fisiológicas do corpo e pelos reflexos simples, como reações agressivas e outros comportamentos sujeitos a condicionamento; o sistema límbico, que controla o comportamento emocional do indivíduo; e o neocórtex, que dá aos seres humanos a capacidade de realizar raciocínios lógicos e processar a linguagem.

O neocórtex é também conhecido como cérebro racional, sendo a estrutura que diferencia o homem dos demais mamíferos.

Quando observamos o comportamento dos motoristas no trânsito, percebemos um grande número de gestos completamente desprovidos de razão. Alguns até mesmo vão na direção contrária do que seria um gesto racional.

Como explicar, por exemplo, a estranha pressa do motorista em chegar logo até um semáforo vermelho para ali parar e ficar esperando? Ele já consegue ver o sinal vermelho mas, em vez de ir diminuindo a velocidade ou pelo menos deixar de acelerar, ele continua acelerando, troca de marcha, acelera de novo, até ser obrigado a parar totalmente o carro no semáforo.

Ou então o motorista que buzina para o ciclista à sua frente, sem considerar que a faixa logo à sua esquerda está livre para fazer a ultrapassagem, como faria se em vez do ciclista fosse ali um automóvel em baixa velocidade.

Aliás, sendo o responsável pelos comportamentos agressivos de qualquer animal, o cérebro reptiliano é quem produz a grande maioria das buzinadas e das outras formas de agressão possíveis através da linguagem do automóvel.

Outro gesto produzido nas estruturas primitivas do cérebro é o do motorista que, estando o sinal ainda fechado, começa a andar só de perceber que o carro ao seu lado se mexeu, por mero reflexo condicionado.

Comportamentos como esses não parecem ser comandados pelo neocórtex, já que não são resultantes de raciocínios.

São, ao contrário, típicos exemplos de condicionamento. São respostas automáticas a estímulos. O gesto acontece simplesmente porque já aconteceu milhares de vezes. São, portanto, comportamentos produzidos pelo cérebro reptiliano. Uma lagartixa não faria diferente.

Obviamente sabemos por que isso acontece: ansiedade. A mesma ansiedade que faz alguém ficar ligando para uma pessoa que está demorando a chegar, só para perguntar em que ponto do caminho ela está. É evidente que o telefonema não vai fazer com que o outro chegue mais rápido. A pessoa que liga até sabe disso. Mas a ansiedade torna qualquer um insensível a argumentos racionais.

Por falta de uso, o neocórtex vai atrofiando. Pense em milhões de cérebros reptilianos conectados a estruturas de aço de uma tonelada e motores potentes. Isso é o fenômeno conhecido como caos do trânsito.

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potência

Pedalando pela avenida, ele percebe o motorista logo atrás bastante incomodado. Este buzina, acelera, joga o carro para a esquerda num gesto cheio de atitude e ultrapassa fazendo gestos feios.

Logo à frente, no semáforo, o encontro inevitável:

— Se fosse um carro lento, você ultrapassaria sem reclamar. Por que é tão difícil ultrapassar uma bicicleta? Tá faltando potência?

O motorista fica enfurecido.

Talvez sem querer, o ciclista tocou num assunto delicado. Numa cidade cheia de meninões, é melhor tomar cuidado com o uso de certas palavras.

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passar por cima

A ideia de passar com o carro por cima dos outros sempre teve simpatizantes.

Na capital do império, onde destruir para consumir é uma filosofia levada a sério, existe o bigfoot: um utilitário adaptado com pneus enormes, com o qual se pode literalmente passar por cima de outros automóveis, levando ao delírio enormes plateias em arenas lotadas. Espetáculos desse tipo existem nos EUA desde a década de 70.

bigfoot

Mais recentemente, perceberam que existia uma demanda de mercado associada à ideia de passar por cima dos outros. Então criaram o SUV (Sport Utility Vehicle na língua original, que pode ser traduzido livremente por Automóvel Muito Grande). E essa coisa está se proliferando rapidamente por aqui.

Até o momento, não tenho notícia de que alguém, com seu SUV, tenha passado por cima de outra pessoa (pelo menos no sentido físico de passar por cima, como fazem os bigfoots originais). Não me espantarei no dia em que isso acontecer. Muitos proprietários de SUVs não passam fisicamente por cima dos outros por considerarem que isso não é uma coisa certa e/ou bonita de se fazer, mas há aqueles que não o fazem apenas para evitar a dor de cabeça que teriam com a justiça durante alguns meses.

A expressão passar por cima tem outros sentidos além do físico. Há também o sentido social e o sentido simbólico.

Socialmente, pode-se passar por cima de alguém dando demonstrações de superioridade segundo algum critério. Como o fator econômico, em nossa cultura, é amplamente aceito como critério válido de comparação, demonstrações de superioridade econômica são uma forma de passar por cima dos outros. Neste aspecto, os SUVs não são novidade: carros caríssimos de menor porte ou qualquer outro produto, prática ou ambiente caro (ou exclusivo, como gostam de chamar) sempre serviram para isso.

A rigor, o que chamo de sentido social da expressão é também um sentido simbólico, pois não é físico, mas reservo o que chamo de sentido simbólico para me referir a uma outra situação.

No sentido simbólico, é possível passar por cima dos outros de um jeito bastante próximo do sentido físico mas sem chegar às vias de fato. Consiste num gesto simbólico no qual se apresenta a superioridade física, no caso o tamanho do automóvel, com a intenção de intimidar.

Isso é frequente nas ruas, especialmente em situações de disputa por espaço. Por exemplo, num encontro de duas faixas, no qual dois automóveis (um SUV e um de tamanho normal) irão decidir qual deles vai entrar primeiro. Uma manobra um pouco mais agressiva do SUV muitas vezes é suficiente para que ele se imponha e ocupe o espaço, mesmo que isso contrarie o bom senso, a precedência ou a regra da via preferencial. Com esse gesto, o motorista do SUV passa por cima dos outros.

O mesmo acontece noutras situações: em ultrapassagens nas estradas, na disputa por vagas em estacionamentos, em rotatórias e cruzamentos.

Uma vez ouvi, em uma sala de espera, um proprietário de SUV comentar, plenamente satisfeito, que “hoje não dá mais para viver sem um carro desse, senão ninguém respeita”.

Os marqueteiros que viram na vontade de passar por cima dos outros uma demanda de mercado de fato estavam certos.

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então mata

Uma cena provável. Tanto, que aconteceu comigo esses dias.

Depois de ser fisicamente ameaçado pelo motorista do microônibus, que passou muito perto buzinando agressivamente, paro ao seu lado no semáforo e digo:

— Desse jeito você ainda vai matar alguém!

— Tudo bem, isso não dá cadeia, só matando com arma que dá.

Nada a acrescentar. O motorista está coberto de razão.

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ultrapassagem pela direita

Ultrapassar pela direita é uma manobra bastante usual nas vias urbanas. Apesar de proibida pelo CTB é, na prática, permitida. Segundo o senso comum, a manobra parece ser perfeitamente regular e inofensiva: não há com ela nada de errado nem de perigoso.

Uma pesquisa provavelmente mostraria que boa parte dos motoristas acreditam que a regra que determina que ultrapassagens devem ser feitas pela esquerda (artigos 29 e 199 do CTB) vale apenas para as estradas, ou mesmo que está em desuso.

O problema é que as ultrapassagens pela direita contribuem para tornar a vida do ciclista urbano ainda mais perigosa. Os ciclistas trafegam pela direita porque é ali que ficam os veículos mais lentos. Dividir o espaço com veículos lentos é obviamente menos perigoso que ter veículos passando em alta velocidade do seu lado. Além disso, muitas vezes a ultrapassagem pela direita é feita com um desvio brusco para esse lado, aumentando a possibilidade de o motorista não ver o ciclista que já estava ali.

A regra da ultrapassagem pela esquerda é bastante simples e justificável. Ela organiza o uso do espaço público permitindo a convivência entre os veículos mais lentos e os mais velozes. Os mais lentos ficam à direita porque é aí que está a calçada, o acostamento, os locais de parada e as entradas e saídas da via, que exigem redução de velocidade. Os mais velozes vão pela esquerda e, quando querem ultrapassar em vias de mão dupla, assumem o risco de trafegar na pista de sentido contrário.

Muitos motoristas deixam de observar esse acordo simples, e permanecem à esquerda quando estão em baixa velocidade. Esta é apenas uma entre diversas situações em que se demonstra o desrespeito pelo espaço coletivo, esquecendo-se que há ali outras pessoas que podem estar com mais pressa. Situação idêntica a esta acontece nas escadas rolantes do metrô.

Na prática brasileira, em vez de esperar que o veículo da frente ceda passagem indo para a direita, muitos motoristas preferem ultrapassar pela direita: a solução individual, a forma mais conveniente de resolver o seu problema, danem-se as regras. E há também aqueles que ultrapassam pela direita por hábito, mesmo que haja uma faixa livre à esquerda.

Cria-se um círculo vicioso.

O motorista que anda devagar pela faixa da esquerda dá um “motivo” para que outros ultrapassem pela direita. E o motorista apressado que faz manobras agressivas pela direita contribui para que os mais lentos sintam-se mais seguros à esquerda.

Ambos estão igualmente errados. Ambos contribuem para alimentar a situação e aumentar a chance de acidentes, que podem envolver ciclistas.

Mais errado ainda está o agente de trânsito que, ao não aplicar o código que todos teoricamente leram ao tirar a habilitação, cria uma cultura em que a convivência nas ruas segue uma interpretação pessoal das regras e que as soluções individuais são muito mais efetivas que o cumprimento de acordos.

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autódromos públicos

O meninão vê a propaganda na TV. Potência e agilidade. É a minha cara, pensa. Vai até a loja.

À vista ou em vezes, dinheiro suado ou ganho sem nenhum esforço, não importa. Mais um carro está nas ruas.

Brinquedo novo, o meninão agora pode fazer que nem o galã que dirigia o carro no reclame. Antes, a diferença entre eles era só o carro, agora é nenhuma.

Problema são os outros. Na rua, que dizem ser de todos, algumas brincadeiras não seriam muito adequadas. O meninão precisaria entender a diferença entre o mundo HD da propaganda e o mundo povoado em que ele vive. Isso é difícil para um meninão.

E então começamos a ver gente se machucando, gente morrendo.

Proibir de fato certos comportamentos tão cheios de atitude, como correr, acelerar, tirar finas, fazer curvas em alta velocidade, proibir isso tudo seria muita crueldade, não é mesmo?

Tamanha crueldade que, na prática, esses comportamentos não são proibidos. Aqui pode fazer tudo isso. As ruas estão aí para que o meninão possa correr, expressar-se, gozar da potência do brinquedo. Afinal, pagou caro por ele. Comprou o direito de usar as ruas para se divertir.

Mas eu acho que encontrei a solução para que menos gente morra e os meninões continuem felizes. Autódromos públicos.

Aí sim, o poder público se sentiria à vontade para instalar radares fotográficos de velocidade em todas as vias da cidade, sem receio de cometer alguma crueldade com aqueles que precisam correr e ameaçar os outros para conseguir enfrentar o tédio da vida.

Autódromos públicos em vários cantos da cidade. Pistas de asfalto e pistas de terra, com algumas poças para os meninões passarem correndo levantando água, que nem na propaganda.

Um espaço considerável seria gasto com isso. Mas seria um gasto justificado, pois trata-se de um caso de saúde pública.

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processo civilizatório

Neste blogue, o conceito de civilização se refere simplesmente a um conjunto de práticas e valores que tornam possível viver coletivamente e de forma harmoniosa no espaço comum.

Portanto, o processo civilizatório diz respeito à adoção de fato de novas práticas que contribuem para isso, sejam elas impostas por lei ou não.

Por vários motivos, os seres humanos preferem viver juntos. Formam cidades e aglomerações de diferentes magnitudes, pois a proximidade traz benefícios para todos. Para que possam viver juntos, precisam criar acordos de convivência, especialmente aqueles que neutralizam as diferenças de força entre as pessoas. Na falta desses acordos, os conflitos tendem a se resolver em favor da parte mais forte. Temos então aquilo que algumas teorias sociológicas chamam de barbárie.

Alguns acordos de convivência são leis institucionalizadas. A legislação de trânsito contém alguns exemplos de acordos que organizam a convivência no espaço comum de forma que a disputa não se dê pela força. Em um cruzamento com semáforo, cada um tem a sua vez de passar. Quando o sinal está verde para uma das vias, quem vem por ela pode exercer seu direito de passar pelo cruzamento sem precisar disputar aquele espaço, sabendo que os da outra via saberão aguardar. Este acordo, de fato, costuma ser cumprido.

Sem o semáforo, a disputa pode acabar sendo resolvida pela força: o tamanho e a imponência do veículo, a velocidade de aproximação, a agressividade do motorista ao conduzi-lo e projetá-lo no espaço do cruzamento e outros elementos da linguagem do automóvel que podem ser usados para intimidar, como buzina, farol alto ou o barulho do motor e do escapamento.

Há também acordos de convivência que funcionam sem que estejam estabelecidos na forma de lei. As pessoas têm o hábito de formar fila ao aguardar por um atendimento, seja ele numa padaria, na bilheteria de um estádio, no carrinho de pipoca. A fila é um acordo de convivência que é regulado espontaneamente pelas próprias pessoas, e quem burlar esse acordo será repreendido pelos outros presentes.

É raro ver alguém tentar burlar uma fila, pelo menos quando se trata de uma fila de pessoas (no caso de filas de automóveis, a regra da fila é violada com frequência). Mesmo rapazes muito fortes, ostentando indícios de que praticam artes marciais, geralmente aguardarão sua vez para serem atendidos, respeitando aqueles que já estavam ali antes. Podemos então dizer que, mesmo sem depender de uma lei escrita, o acordo da fila é eficaz em neutralizar diferenças de força.

A faixa de pedestres é um exemplo de acordo de convivência que, apesar de estar estabelecido na forma de lei, raramente é cumprido no Brasil. A proteção dada pela estrutura do automóvel torna o motorista fisicamente mais forte que o pedestre. Não havendo qualquer forma de regulação dessa diferença, nem pelo agende oficial de trânsito e nem pelas pessoas que estão em volta, a superioridade física do motorista costuma prevalecer, e a faixa de pedestres é sistematicamente desrespeitada na maioria das cidades brasileiras.

Duas cidades podem ser bastante diferentes no que se refere ao respeito à faixa de pedestres, e essa diferença pode ser considerada, junto com outros indicadores, para avaliar e comparar o grau de civilização dessas cidades.

Qualquer ação do poder público que tenha o efeito de garantir os direitos de pedestres e ciclistas ao uso do espaço comum, neutralizando a superioridade física dos veículos mais pesados, pode ser considerada como um ato civilizatório.

A necessidade de esclarecer aqui o conceito de ‘civilização’ se deve ao fato de que o termo é por vezes utilizado de maneira imprecisa e, em muitos casos, está associado a uma visão etnocêntrica da sociedade. Segundo essa visão, o grau de civilização da sociedade se mede pela quantidade de hábitos europeus adotados por ela, geralmente em substituição aos hábitos tradicionais praticados anteriormente. Nessa visão, a Europa ocidental é assumida como modelo de sociedade e é chamada de ‘A Civilização’ (com maiúscula inicial).

Neste blogue, quando se fala em processo civilizatório, não se trata de tomar a sociedade europeia como modelo. Várias de suas cidades são, certamente, muito mais civilizadas do que as cidades brasileiras, mas o são apenas na medida em que praticam de fato os acordos de convivência que geram respeito entre as pessoas e um uso harmonioso do espaço comum.

Ao mesmo tempo em que gosta de ostentar hábitos da Civilização (com maiúscula) e se dizer civilizada, a sociedade brasileira parece confirmar diariamente a sua opção por evitar o processo de civilização (com minúscula e conforme definido aqui) pois, com sua imensa desigualdade, parece interessante a certos grupos que a força física, econômica ou simbólica continue prevalecendo.

Portanto, parece ingênuo esperar que venham de cima as mudanças que tornará mais civilizada a vida nas cidades brasileiras. Ao ocupar as ruas, conquistando seu espaço e fazendo-se respeitar sem esperar pela instalação de ciclovias, os ciclistas atuam em favor do processo civilizatório.

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meninões

Quando uso o termo ‘meninões’ neste blogue, certamente não estou me referindo a pessoas do sexo masculino, jovens e de tamanho grande, como a palavra poderia sugerir.

Uso ‘meninões’ para me referir a um grupo de pessoas que não se define por fatores como gênero ou faixa etária, mas sim por um tipo de comportamento. Especificamente, por um conjunto de atitudes relacionadas à forma como usam o automóvel.

Meninões são pessoas de qualquer gênero ou faixa etária que se comportam de maneira infantil quando dirigem um veículo. Além disso, ou talvez em decorrência disso, são geralmente bastante agressivas ao volante.

Crianças mimadas que são, os meninões têm uma necessidade incontrolável de chamar a atenção quando passam. Seja pelo som alto do carro, seja pelo barulho do motor, do turbo ou do escapamento, o fato é que eles precisam ser notados.

Entre as várias propriedades simbólicas do automóvel, uma delas se produz na maneira de dirigir. Podemos falar numa linguagem do automóvel, já que as atitudes e manobras transmitem mensagens que são facilmente interpretadas por qualquer pessoa.

Assim sendo, aproveitam o volante para expressar seus estados de espírito: dirigem com agressividade, utilizam o espaço público das ruas de maneira egoísta e imatura, aceleram para que todos saibam de sua pressa e sua ansiedade.

Aceleram com violência e dirigem em velocidade muito acima da razoável. Em uma via pequena e local, o espaço entre duas esquinas ou duas lombadas é uma oportunidade imperdível para demonstrarem a potência de seus motores e, portanto, sua superioridade: arrancam como se estivessem numa corrida, atingem a maior velocidade possível e freiam bruscamente no fim do trecho, completando a exibição.

Aliás, é exclusivamente graças aos meninões que as ruas da cidade estão cheias de lombadas.

Um psicólogo faria observações interessantes sobre as fontes profundas do comportamento desses meninões, eventualmente falando numa fase anal ou mesmo uma fase oral mal resolvida (sim, já ouvi isso de gente da área). Qualquer psicólogo-de-boteco costuma concluir que o meninão trata o carro como uma extensão do próprio pênis.

Seja como for, há meninões do sexo masculino e também do sexo feminino, ainda que os primeiros existam em maior número (alguém pode preferir falar em ‘meninonas’, mas meninões do sexo feminino me parece mais adequado). Todos exalam testosterona em seu comportamento. Lembram aqueles mamíferos chifrudos dos documentários sobre natureza, que se exibem ou brigam violentamente por território ou por acasalamento.

Há meninões de todas as idades, e aqui nem dá para falar em predominância entre os mais jovens. Por algum motivo, os meninões têm uma profunda necessidade de demonstrar um espírito jovem e ágil, e fazem isso na maneira de dirigir essa máquina de uma tonelada.

Como sabem que seu comportamento costuma desagradar, muitos deles praticam alguma técnica de luta e fazem questão de ostentar isso colocando no carro adesivos com letras japonesas ou nomes de academias. Uma forma simples de, por meio da intimidação, evitar alguma crítica pela sua irresponsabilidade.

Sobretudo uma forma de mostrar que, mesmo sendo desprovidos da maturidade mental necessária para conduzir um veículo, eles continuarão lá e estarão sempre com a razão.

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sobras de faixa

Muitos motoristas reclamam quando há um ciclista à sua frente, ocupando uma faixa. Isso dá até para entender. A sensação de superioridade lhes é natural na cultura brasileira, e eles continuarão reclamando. Há pouco que possamos fazer além de esperar o lento processo civilizatório.

Mas tem um lugar em que a reclamação é inaceitável: as sobras de faixa. Quando há carros estacionados na faixa da direita, geralmente sobra algo em torno de um metro dessa faixa. Esse espaço é suficiente para uma bicicleta trafegar, mas não cabe um carro nele.

Não há qualquer motivo racional para um motorista querer ocupar esse espaço. Tomados pela ansiedade, portanto sem nenhuma razão, motoristas tentam usar esse espaço para fazer perigosas ultrapassagens pela direita. Ou, quando o tráfego está parado, para tentar furar fila.

Motorista, se tivesse espaço para mais um carro, haveria outra faixa ali. Mas não tem. Não tente ocupar um lugar em que você não cabe, você assim atrapalha aqueles que podem ocupá-lo.

Ciclista, esse espaço é nosso! Ocupe as sobras de faixa. Tome cuidado com portas que abrem mas siga tranquilo. Quem reclamar está totalmente sem razão.

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o olhar das pessoas

Um depoimento provável.

Andar pelas ruas é uma ameaça constante. E nem adiantou comprar meu carro, continuo sentindo muito medo. É por isso que tenho alarme, travas, seguro, até um serviço de monitoramento via satélite, qualquer coisa eles encontram meu carro usando helicóptero, que nem no cinema.

Mas ainda tinha uma coisa me incomodando bastante. O olhar das pessoas.

Às vezes, quando estou com pressa, eu tenho que cortar pela direita e acabo entrando na frente de alguém, sinto muito. Outro dia sem querer eu virei pro lado, a pessoa estava olhando feio, um olhar de reprovação como se eu estivesse furando fila…

Quando a gente vai entrar numa rua e vem vindo um ciclista, ele vem sempre olhando nos nossos olhos, e aí a gente acaba tendo que esperar. Quanto tempo a gente perde!

Agora tem também essa história de ter que parar pros pedestres na faixa. Antes eles nos esperavam sem reclamar, agora eles ficam olhando pra gente com aquela cara… Se a gente para em cima da faixa, tem uns que até dão bronca!

Eu pago meus impostos, paguei caro por meu carro, tenho liberdade de ir e vir e não quero ninguém me recriminando pelo que faço, então prefiro não ser visto.

Realmente não tive opção. Tive que colocar filmes escuros nos vidros do meu carro.

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a expressividade dos motoristas

A necessidade que o ser humano tem de se expressar é realmente algo formidável. Através de música, literatura, pintura, artes corporais e várias outras formas de expressão, o homem fala o tempo todo de seus sentimentos, desejos e frustrações.

Nas grandes cidades brasileiras, o tipo de interação que ocupa parte cada vez maior da vida das pessoas está fazendo surgir uma nova forma de expressar as emoções diárias: o automóvel. A linguagem do automóvel vai muito além de ser um jeito de mostrar quem a pessoa é ou, para usar o clichê, um “símbolo de status social”. Diante do tédio, da necessidade humana de expressar-se e de um volante, o motorista precisa encontrar maneiras de compartilhar o que sente.

Como então entender tanta buzina?

O sinal abriu, já faz três segundos, e o veículo à frente não se mexe. Buzina. Um carro parado espera uma pessoa que atravessa na faixa. Buzina. O trânsito travou, não se sabe o motivo, não existe a quem reclamar. Buzina. Como um bebê que sente dor ou frio, o motorista esperneia para quem estiver por perto, grita ao mundo para mostrar seu incômodo, pura expressão de sentimentos.

O gesto é natural: cachorros latem, galinhas cacarejam, cavalos relincham, motoristas buzinam.

Já que o motor também faz barulho, pode também ser usado como forma de expressão. Acelerar o motor estando parado é uma forma de mostrar pressa. Em movimento, levar o motor a uma alta rotação antes de trocar a marcha, especialmente ao ultrapassar alguém, deixa claro ao outro o quanto sua presença ali estava incomodando. A linguagem do motor é especialmente utilizada por meninões, sendo que muitos deles colocam escapamentos especialmente barulhentos para tornar mais eficiente a comunicação e mais clara sua personalidade e atitude.

Mas o automóvel não serve apenas ao deleite dos ouvidos, está também repleto de linguagem corporal. A frente do carro abaixa mais com a intensidade da freada, e levanta com a aceleração. O momento de trocar a marcha é especialmente expressivo, pois soltar a embreagem bruscamente enquanto se acelera forte faz empinar a frente do veículo, como um quadrúpede indomado que se revolta e quer fugir. De carro ou de bicicleta, já observou como é comum alguém praticando esse balé atrás de você?

Esses corpos em movimento também podem fazer movimentos laterais, e um gesto forte no volante ao iniciar uma ultrapassagem faz o carro balançar lateralmente, e assim o motorista deixa claro a quem está na frente que não tem tempo para obstáculos.

Efeitos de luz dão um toque especial à cena. Alguns piscam os faróis, outros jogam luz violentamente na sua cara apenas quando precisam, outros ainda andam com os faróis altos ligados o tempo todo. Cada personagem traz o seu tema. Luzes brancas especialmente fortes e ofuscantes são cada vez mais comuns por esses palcos, criam tensão e dizem muito sobre quem está ali. E para despedir-se, o pisca-alerta deixa carinhosas saudações.

Todo esse espetáculo cênico é reforçado por um farto repertório de expressões faciais e gestos com os braços, mãos e dedos.

Essa vontade de se comunicar é um aspecto muito bonito do ser humano. As ruas da cidade são mesmo um lugar especialmente inspirador, e seus personagens têm sempre muito a dizer.

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até já, motorista

Algo cola em você, faz questão que você saiba como sua presença ali o incomoda. Freia em cima, pensa em buzinar, geralmente buzina, espera impacientemente, acelera, joga o carro pra lá num gesto cheio de atitude e passa por você olhando feio.

Evite agir como um espelho.

Continue sorrindo e apenas diga, mesmo só em pensamento: “Até já, motorista”.

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péssimo argumento

Algumas placas espalhadas pela cidade pedem cuidado ao dirigir argumentando o seguinte: “Motorista, você também é pedestre”.

O argumento é péssimo, pois é falso para muita gente. Existe um grupo nada desprezível de pessoas que de fato nunca são pedestres, pois utilizam o automóvel em 100% dos deslocamentos. Elas jamais fazem um trajeto a pé, jamais passam por um local público sem a proteção da bolha de aço e, às vezes, da blindagem. Caminham apenas dentro de suas casas, escritórios, centros comerciais fechados com estacionamento interno, áreas comuns de condomínios fortificados.

E o grupo é cada vez maior, com vários fatores contribuindo para o crescimento. O principal deles é a cultura do medo. Um outro, decorrente do primeiro, é um projeto de vida que vem se tornando bastante comum: morar em bairros projetados para isolar as pessoas, ou em grandes condomínios fechados, verdadeiros feudos, com serviços locais e diversificados dentro de seus territórios e que protegem os moradores do perigoso contato com o mundo lá fora.

Melhor seria se o argumento não dependesse da inversão de posições. Apesar de as escolas insistirem que nossa sociedade permite a tal da mobilidade social, sabemos que ela é bastante restrita, e que algumas posições sociais são inabaláveis.

Se respeito aos outros depender da possibilidade de as posições se inverterem, ou pelo menos de a pessoa um dia passar a ter as mesmas fragilidades dos outros, temos um grupo de pessoas dispensadas desse trabalhoso cuidado, pois não têm nada a temer.

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doentes mentais ao volante

Estima-se que entre 15% e 20% dos motoristas sejam portadores de doença mental primária, e portanto jamais deveriam ter recebido habilitação para dirigir. A informação é do Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET) em artigo publicado na página eletrônica da entidade.

O médico ainda afirma que casos de reprovação por fatores psicológicos, se existem, não chegam a 0,1% dos candidatos. E atualmente o exame psicológico é exigido somente de pessoas que exercem atividade remunerada ao volante.

Um grande problema das máquinas de andar está na proteção física que dão ao condutor. Gestos irresponsáveis e infantis, por mais que façam grandes estragos do lado de fora, nem sempre afetam o autor do gesto, confortavelmente protegido pela estrutura de metal e pelo cinto de segurança.

Se o quadro clínico é preexistente, ou se é causado justamente pelas condições das vias públicas, parece uma pergunta irrelevante. Pessoas com distúrbios comportamentais, pessoas com tendências clinicamente identificáveis para comportamentos agressivos impulsivos são uma ameaça coletiva.

Vias públicas devem ser pensadas como parte de um sistema de transportes, não como áreas para o desfrute de brinquedos caros. Para quem não tem condições de atender certos requisitos de convivência, considerando que um automóvel é uma arma e um meio de agressão, há os outros meios de transporte disponíveis.

Trata-se de um problema de saúde pública. O agente oficial de trânsito é responsável por um sistema que causa quarenta mil mortes por ano. Cabe a ele, entre outras coisas, identificar quem não está apto para o convívio e retirar essas pessoas das vias públicas, ainda que temporariamente. A aplicação de um teste psicológico rigoroso poderia começar, por exemplo, com motoristas causadores de acidentes graves.

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pressa

Observando as pessoas deste lugar, parece até que é bom estar com pressa.

Com pressa, você não precisa ficar cumprimentando todo mundo na rua e na padaria. Não precisa dar bom dia quando passa pelo porteiro, e pode até passar um sinal vermelho de vez em quando.

Aliás, não só de vez em quando, porque ter pressa aqui não é de vez em quando.

Você diz que está atrasado porque tinha trânsito, portanto hoje você está com pressa e amanhã também estará.

A pressa é um tempo próprio, um estado de espírito permanente.

Tá bom, já sei, você está com pressa então não dá pra esperar… Aproveita e fura a fila de carros que esperam para virar na próxima rua.

Você vem por fora da fila e entra na frente de alguém que já estava ali há mais tempo. Esperto você, né?

Pela maneira de você conduzir seu brinquedinho, vrrrum vrrrum, as pessoas verão que você está com pressa, serão compreensivas com você.

Com pressa você pode furar fila, ultrapassar pela direita arriscando ciclistas e pedestres, virar a esquina correndo sem olhar, passar o sinal vermelho, buzinar como um bebê mimado, agredir o motorista da sua frente jogando o farol alto… Com pressa você não precisa dar passagem para ninguém, nem parar para o pedestre que quer atravessar na faixa.

Já entendi.

A pressa aqui é um ótimo recurso.

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ciclofaixa de brinquedo

Quando foi inaugurada, em agosto de 2009, a ciclofaixa que liga os parques do Ibirapuera, das Bicicletas e do Povo causou bastante repercussão na mídia e entre simpatizantes das bicicletas. Reaparece nas pautas agora que foi estendida até o Villa-Lobos. Andar pela ciclofaixa dominical é certamente uma atividade bastante divertida, especialmente quando você está passeando com seus filhos. Mas não vejo nela “um importante passo na direção de uma cidade com melhores condições para as bicicletas”, como ouvi de muita gente. Pelo menos não com a mesma lógica. Por vários motivos.

O maior deles é que, sendo um equipamento criado para funcionar somente aos domingos, reforça a ideia de bicicleta como brinquedo e não como meio de transporte. Domingo é dia de alegria, dá até para andar de bicicleta pelas ruas. A ciclofaixa dominical ensina que há um dia da semana para andar de bicicleta e seis para não andar.

Tanto ciclistas quanto motoristas participam de uma brincadeira que acontece em condições que em nada lembram a relação entre carros e bicicletas no dia a dia da cidade. Em grande parte do traçado, a ciclofaixa está à esquerda da pista, quando o normal é que motoristas tenham as bicicletas à sua direita, por serem veículos mais lentos.

Além disso, a sinalização pintada no chão à esquerda da pista sugere a alguns ciclistas que é por ali que eles devem andar nos dias em que a ciclofaixa está desativada, o que além de incorreto é perigoso.

Ciclistas inexperientes costumam andar mais devagar, e nesse caso deveriam ficar na parte direita da ciclofaixa, liberando a esquerda para quem vai mais rápido. Esses ciclistas muitas vezes não conseguem equilibrar-se direito e manter uma linha reta constante. Acontece que como a ciclofaixa fica quase sempre à esquerda da pista, a parte direita da ciclofaixa é a posição mais próxima da área dos automóveis. Portanto os ciclistas inseguros têm duas péssimas opções: ou ficam em posição perigosa, correndo o risco de por um pequeno vacilo caírem na faixa dos automóveis, ou têm que pedalar pela esquerda, forçando os outros ciclistas a ultrapassarem pela direita. A escolha é entre o perigo e o mau hábito.

Há uma linha de cones entre a ciclofaixa e a área dos automóveis, criando uma separação entre a área dos carros e a das bicicletas. Ou seja, nem pelo aspecto didático de acostumar os motoristas a dividir o espaço e conviver pacificamente com as bicicletas a ciclofaixa de brinquedo serve.

Ao contrário, são frequentes os relatos de comportamentos muito agressivos por parte dos motoristas, e até de alguns acidentes. Muitas pessoas não têm estrutura psicológica para suportar a diversão alheia. Ver parte de seu espaço sendo oferecido aos outros, ainda que em condições bastante restritas, é para muitos motivo para um gesto de ódio.

Há também o uso inadequado que o poder público faz da ciclofaixa dominical no plano simbólico. Ela é contabilizada, junto com umas poucas ciclovias de verdade existentes na cidade, como um equipamento de mobilidade, quando deveria ser considerada um equipamento de lazer e recreação. Além disso, sua extensão é contada em dobro, já que o projeto foi benevolente, vejam só, a ponto de construir uma pista para ir e outra para voltar! Os que optaram por esperar que a administração pública lhes dê ciclovias para só então cogitarem sair às ruas de bicicleta, esses talvez comecem a perceber na mão de quem estão seus planos de ter na bicicleta um meio de transporte efetivo.

Mas talvez alguns efeitos positivos, bastante indiretos e de longo prazo, possam resultar da ciclovia de brinquedo. Muitas bicicletas novas serão compradas, e outras que estavam encostadas num quartinho receberão manutenção e ficarão em condições de uso. Isso acabará por aumentar o número de bicicletas com potencial de ocupar nas ruas o lugar a que têm direito.

Mesmo na condição de brinquedo, a bicicleta na ciclofaixa está onde deve estar, na rua, e talvez comece a aparecer como veículo de verdade nos planos de algumas pessoas. Os motoristas terão tempo de sobra para sonhar, nas horas diárias que passam encurralados nas avenidas enquanto as bicicletas fluem livremente entre as máquinas.

Assim como acontece a uma criança, que começa a formar seus ideais de consumo ao ganhar seu primeiro carrinho de brinquedo, quem sabe uma ciclovia de brinquedo possa mostrar, na clareza de um domingo, onde está a liberdade que muitos acreditam estar no automóvel.

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a linguagem da buzina

O sentido das palavras e expressões de uma língua é determinado, em grande parte, pela situação de uso. Algumas palavras praticamente não têm um significado próprio, e nós precisamos do contexto para interpretá-las.

Um bom exemplo é a interjeição “ah”. Se eu te perguntar o que significa “ah”, simplesmente assim, de maneira descontextualizada, você provavelmente vai responder que não sabe, ou que depende da situação. É o contexto que atribui sentido a essa palavra. A entonação também influencia o sentido: tom ascendente ou descendente, pronúncia longa ou curta etc.

Quando você recusa o convite de um amigo para uma festa, ele provavelmente dirá “Ah…”, e você não terá dúvida em interpretar isso como “Que pena!”.

Alguém prova a salada e acha que ela está fraca de sal. Pega o saleiro, joga um pouco mais de sal sobre o tomate e a rúcula. Volta a provar e diz “Ah!”. Você imediatamente entenderá que ela quis dizer “Agora está boa!”.

Uma pessoa te pede para repetir uma frase que ela não entendeu. Você repete ou reformula a frase. A pessoa então diz “Ah!”, e você interpreta seguramente essa palavra como “Agora sim eu entendi”.

A língua funciona assim, e isso não acontece somente com as interjeições, preste atenção e verá: é a partir de um contexto que o ouvinte atribui sentido para as palavras. O mesmo acontece com o falante: ele escolhe uma palavra e usa uma certa entonação sabendo qual o sentido que isso vai produzir naquele contexto determinado. Qualquer usuário de uma língua sabe desse fato, ainda que apenas intuitivamente.

Com a buzina acontece algo bem parecido. Uma buzinada é um ruído que obviamente não tem um significado próprio. Interpretamos uma buzinada de acordo com o contexto e de acordo com sua duração que, no caso da buzinada, equivale à entonação da fala.

Algumas buzinadas são claramente amigáveis. Um toque curto quando alguém acabou de ceder a passagem equivale a um “Obrigado!” ou algo semelhante. Um ou dois toques curtos quando um motorista passa por um grupo de pessoas conhecidas paradas na calçada ou em frente a um bar tem um tom claro de saudação e, portanto, equivale a um “Olá!”.

Há também alguns tipos de buzinadas que não permitem uma interpretação tão amigável assim.

Abre o semáforo, dois segundos já se passaram e o carro da frente ainda não andou. O motorista de trás buzinará: “Anda logo, porra!”. De fato, o “porra” é opcional nesta interpretação. Mas repare que o simples “anda logo” já é bastante agressivo por si só. Em que situação se dirige um “anda logo” a um desconhecido sem que isso seja um gesto de extrema grosseria?

Um motorista se aproxima de um cruzamento sem semáforo com uma via que é preferencial. Ele vem a uma velocidade acima da razoável e não demonstra a menor intenção de reduzir para olhar se vem alguém na outra via. Dois toques mais ou menos longos: “Estou chegando, quem estiver na transversal, que pare para eu passar!”. Você já viu uma cena como essa? Ela é bastante comum, especialmente de noite e de madrugada.

Motorista vai ultrapassar o ciclista. Um toque curto pode sim até ser interpretado como um aviso amigável, para o caso (um tanto improvável!) de o ciclista não ter percebido que tem um carro logo atrás dele. Mas um ou mais toques longos já não permitem essa interpretação. Só consigo entender isso como algo equivalente a “Sai da rua!”, ou “Que é que você está fazendo aí?”, ou “Por que você não vai pra calçada, seu imbecil?”. E ainda há quem diga que é preciso educar os motoristas para que eles não façam mais isso…

Um carro para por qualquer motivo: para desembarcar alguém, para fazer uma conversão permitida ou proibida, ou simplesmente porque o motor do carro morreu. O motorista dispara a buzina num longo e agressivo toque: “Por que você não anda, seu desgraçado?”, ou “Sai da minha frente, seu idiota!”. O mais curioso é observar que, depois de buzinar por alguns segundos, o motorista dá um jeito de desviar do carro parado e segue viagem normalmente. Ele poderia ter feito isso logo, em vez de buzinar. Mas ele não pode abrir mão do seu esperneio. Se a situação lhe dá a chance de agredir alguém, ainda que isso não vá resolver seu problema, por que não agredir?

Qualquer um sabe interpretar muito bem essas e outras buzinadas. Pode talvez usar palavras um pouco diferentes para traduzi-las, mas o teor da frase será essencialmente o mesmo. A intenção da buzinada é sempre muito clara: uma saudação, um aviso, uma reclamação, um insulto leve, um insulto violento, um esperneio.

Naturalmente existe uma reação psíquica e fisiológica a esses estímulos. Quando uma pessoa faz ou recebe um gesto agressivo, o organismo libera substâncias nocivas no sangue e a mente experimenta sensações bastante desagradáveis, daquelas que se acumulam e fazem a pessoa chegar em casa achando que teve um dia horrível, sem saber por quê.

Até mesmo quem não está envolvido em uma troca de gentilezas desse tipo acaba sendo afetado. Não se trata simplesmente do efeito de poluição sonora. Diferente do barulho de uma britadeira, neste caso todos nós compreendemos a mensagem de ódio que uma buzinada longa carrega.

A vida de um motorista nas ruas de uma cidade entupida é repleta de sentimentos desse tipo.

Optar por um esquema de vida que te obrigue a usar o carro na maioria dos seus deslocamentos implica, entre outras coisas, escolher uma vida em que você passa boa parte do dia cercado de desgosto, raiva, desprezo, vingança ou outros sentimentos violentos.

Motoristas vivem isso o tempo inteiro. Podem tentar negar ou minimizar os efeitos disso na saúde, mas seus corpos estão ouvindo tudo.

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carga viva

Pegue uma estrada pelo interior e verá caminhões que levam vacas, porcos, cavalos, galinhas. Os motoristas desses caminhões tomam mais cuidado com as peças que carregam do que a maioria dos motoristas de ônibus urbanos de São Paulo.

Não entendo o prazer destes motoristas em fazer acelerações e freadas tão bruscas, aumentando o sofrimento dos passageiros e eventualmente derrubando alguns. Pior é que muitos passageiros não percebem nada de errado nisso, alguns acreditando que os motoristas estão assim contribuindo para que eles cheguem mais rápido ao seu destino, como se houvesse essa possibilidade numa via entupida.

Seja por não perceber, seja por intimidação, ninguém reclama. E todos sofrem mais que gado.

Por estarem em posição privilegiada, na cabine alta dos ônibus, esses motoristas poderiam, mais que os outros, perceber antecipadamente quando o sinal está fechado ou a fila está parada, deixar de acelerar sem necessidade, frear de maneira gradual. Ao contrário, todos preferem compartilhar dessa estranha pressa. Ansiedade é uma doença altamente contagiosa.

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a guerra dos motoristas

Em matéria publicada no dia 28 de abril de 2010, a repórter Mariana Barros alerta os leitores de Veja para mais uma guerra a ser enfrentada pelos motoristas em sua sofrida rotina. O inimigo: os ciclistas.

Mas por que os ciclistas ameaçam tanto? A foto da matéria responde: porque “costuram” entre os carros parados no trânsito.

É mesmo insuportável para o motorista ver que, sobre uma bicicleta ou uma moto, muitos seguem seu caminho enquanto ele fica lá encurralado. Não é à toa que a repórter, nesse ponto, iguala ciclistas aos motociclistas (ou “motoqueiros”, como prefere).

Ela ainda lamenta que nada acontece com os que deixam de seguir as normas (usar equipamentos de segurança, sinalizar manobras com o braço, respeitar semáforos, trafegar na mão de direção), pois bicicletas não têm placa de identificação. Cara repórter, acontece sim. Um acidente entre uma bicicleta e um automóvel dói bastante, e pode resultar em morte ou sequelas graves. Se qualquer pequeno acidente de automóvel doesse, certamente eles não aconteceriam aos milhares por hora.

Há de fato muitos ciclistas irresponsáveis. Mas eles sempre serão as maiores vítimas de sua irresponsabilidade. E o dano que podem causar aos outros é muito pequeno. Motorista, entenda uma coisa: ciclista nenhum tem interesse em lhe causar prejuízo jogando o próprio corpo contra o seu patrimônio.

Discretamente apresentado pela matéria como exemplo a ser seguido pelos ciclistas é o grupo que só pedala à noite (“porque o tráfego é menos intenso”) e anda em pelotão. Como então eu faço para ir trabalhar?

A mania de tratar bicicleta como um brinquedo, e não como um meio de transporte, aparece também na expressão infantilizadora “turma do pedal”.

É só no penúltimo parágrafo, depois de falar na quantidade de ciclistas mortos em 2009, que vai aparecer mais um elemento, até então esquecido, dessa guerra. Repare: “a intransigência dos motoristas é outro fator que contribui para a insegurança no trânsito”. Fala da pouco praticada regra da preferência dos veículos mais leves sobre os mais pesados. Mas conclui que o problema não está aí: “ainda que os condutores respeitassem a preferencial e fossem gentis uns com os outros, ninguém estaria a salvo de acidentes”. Formidável!

O especialista em educação no trânsito mencionado no final do artigo é citado apenas para lembrar os leitores que ciclovias tirariam espaço de outros veículos para dar às bicicletas. Ele é contra incentivar as “pedaladas” enquanto não houver locais seguros para as bicicletas. Só uma questão: quando será que isso aconteceria? A cada dia que passa, estamos mais perto ou mais longe de um ambiente seguro no trânsito?

A solução do tal especialista, mais uma vez tratando bicicleta como brinquedo, é uma pérola: “se é para estimular a preservação do meio ambiente e a prática de atividade física, não seria melhor fazer uma ampla recuperação de calçadas e incitar as pessoas a caminhar?”.

Usando termos como “guerra”, “embate” e “espinhosos desafios”, a repórter alerta a classe média motorizada leitora de Veja para mais esse perigo das ruas. Ainda que ciclistas estejam em situação de enorme desvantagem quanto à segurança física, é neles que está o problema. A matéria é praticamente um alerta aos motoristas para que tomem o devido cuidado e não arrumem o problema pra cabeça que seria um processo por lesão corporal ou homicídio resultante de um acidente.

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sinal vermelho

Não proponho que os ciclistas descumpram o Código de Trânsito Brasileiro. Entretanto cabe lembrar alguns fatos, uns mais evidentes que outros, sobre por que existe o sinal vermelho. Isso pode ajudar a compreender alguns comportamentos no espaço público.

semáforos foram inventados para disciplinar o tráfego de veículos motorizados
Quando só os seres vivos se movimentavam, e as máquinas viviam paradas, não havia semáforos. As máquinas se desenvolveram, passaram a andar por aí e se proliferaram. Por isso existem os semáforos. Em cidades pequenas, onde há poucos carros e as pessoas têm o hábito de olhar nos olhos umas das outras, semáforos são desnecessários. Na China, mesmo em cidades razoavelmente populosas, ainda é possível haver cruzamentos em que motoristas, ciclistas e pedestres negociam como seres vivos a passagem pelo espaço comum, sem a mediação dos sinais luminosos e sem que isso resulte em acidentes.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com um veículo motorizado
A afirmação parece óbvia, e muitos dirão que ela vale também para automóveis. Seria estranho dizer que os motoristas querem acidentes, mas é difícil aceitar que eles façam tudo para evitá-los. Na disputa pelos espaços, o motorista blefa: vou por ali, o outro que reduza ou desvie, e me deixe passar. Só que nem sempre o blefe funciona. Pequenos acidentes entre automóveis acontecem aos montes a cada minuto, e resultam apenas em danos materiais. Custa dinheiro, mas é isso. No máximo terão que decidir quem aciona a seguradora, e talvez desmarcar a terapia amanhã cedo para poder levar o carro na vistoria.

Acidentes entre um carro e uma bicicleta sempre machucam bastante.

Motorista, entenda uma coisa: qualquer que seja a gravidade da colisão, eu, ciclista, sempre levarei a pior. O choque será entre o meu corpo e o seu patrimônio.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com outro ciclista, com outro ser humano ou com outro ser vivo
Quem anda sobre uma bicicleta está infinitamente mais próximo da situação do pedestre que do lugar do motorista. Está perto das pessoas, pode ver e ouvir os outros. Pode comunicar-se com gestos, com expressões no rosto, pode parar instantaneamente para dar passagem, pode saudar e agradecer apenas balançando a cabeça. Pode deslocar-se na mesma velocidade de alguém que caminha, quando for necessário.

A potência cara e artificial da máquina e o isolamento dos vidros e do aço não afastam apenas a brisa, o canto dos pássaros e algumas belas cenas, que acontecem na rua o tempo todo. Afastam os outros. Sem o outro não existe convivência. Sem convivência é difícil sentir-se semelhante.

Ciclistas e pedestres devem respeitar o sinal vermelho simplesmente porque esse é o acordo. Mas não precisam dele para saber compartilhar o espaço comum.

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estranha pressa

Abre o semáforo. As motos disparam como um enxame de mariposas em direção ao próximo sinal fechado, e lá ficam grudadas, atraídas pela luz vermelha. A imagem é de Joca Reiners Terron (Hotel Hell), e é perfeita não só para as motos, mas também automóveis, ônibus e outros veículos motorizados.

O sinal logo adiante está vermelho, o motorista do carro ou ônibus sabe disso, e mesmo assim acelera, muda marcha, ultrapassa o carro lento à frente, buzina para o ciclista, numa estranha pressa de chegar logo ali na frente. E parar.

É o domínio absoluto do cérebro reptiliano sobre a mente racional.

Nem o desperdício de combustível e freios, nem a consciência da estupidez do gesto ou do desconforto desnecessário imposto aos passageiros (sobretudo no caso dos ônibus); nada disso conta. Não há tempo para rever comportamentos. Quem conduz devagar nesse momento, porque já percebeu que em ponto morto chegará no mesmo lugar ao mesmo tempo, esse será xingado, no mínimo em pensamento. Alguns motoristas ansiosos farão a ultrapassagem olhando feio e concluindo que é por causa desse tipo de gente lerda que o trânsito não anda.

Até isso eles poderiam aprender pedalando pelas ruas da cidade. Se vou ter que brecar logo ali, por que gastar tanta energia acelerando? O gasto de energia física, sentido no corpo, ensina o que um raciocínio simples, se houvesse, já poderia ter mostrado. E a aprendizagem não pararia por aí.

Pois não se trata somente de desperdício de combustível e freios. Há uma série de movimentos totalmente desnecessários (pisar na embreagem, mudar a marcha, pisar no freio e segurar o corpo do efeito da freada) que só se justificam como formas de enfrentar o tédio que é viver no trânsito.

E o mais importante. Há uma grande quantidade de energia não física colocada nesses movimentos todos: a atenção nos gestos rápidos e nas decisões apressadas, o falso relaxamento quando o carro pára, a expectativa do outro amarelo que anuncia a abertura e do melhor momento para engatar a primeira, a falsa sensação de que está abreviando a viagem ao se comportar dessa forma.

Tudo isso atende por um nome: ansiedade. Ansiedade é doença.

Essas pessoas deveriam estar se tratando; não dirigindo.

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kriptonita

Termino a leve subida da Patápio Silva e paro no primeiro sinal da Henrique Schaumann. Daqui até meu destino final só há descida e um grande trecho plano.

Uns carros se incomodam atrás de mim, e fazem manobras um pouco mais agressivas para me ultrapassar e logo parar no próximo sinal ali em baixo, na Cardeal ou na Teodoro. Adiante, na grande caixa da Brasil, eu passarei pelo meio de todos eles e, pelo menos até meu destino final, uns 4km adiante, nenhum automóvel voltará a me alcançar.

Nenhum, independente de potência, marca, tamanho ou preço.

Do planeta kripton, berço do Super-Homem, vem um intrigante elemento do mito, a kriptonita.

Um mito é bom quando explica com elegância, e por diferentes lados, algum aspecto da vida. Interessante assistir, de cima de uma bicicleta, ao outro momento da força. Aquele em que o superpoder vai pelo ralo.

“Pobre Super-Homem, nada pode contra mim neste lugar!”, e talvez seja esse um adjetivo particularmente ofensivo para muitos super-homens.

Fica fácil entender o ódio dessas máquinas contra ciclistas e motociclistas, que seguem livres seu caminho apesar de uma ou outra gota de chuva.

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buzina

Por estranho que possa parecer a quem mora em uma cidade grande, a buzina é um simples sinalizador sonoro que existe nos automóveis por ser item de segurança.

O Código de Trânsito Brasileiro traz orientações para seu uso.

Art. 41. O condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações:

I – para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes;

II – fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo.

Atualmente, deixou de ser item de segurança e passou a ser um instrumento de agressão, provavelmente o mais utilizado no dia-a-dia.

É através dela que motoristas insultam-se uns aos outros no trânsito o tempo inteiro.

Alguns, especialmente requintados, instalam buzinas ainda mais potentes para aumentar o prazer que sentem ao agredir os outros.

Demorar mais que dois segundos para andar depois que o sinal abre; parar antes de uma faixa de pedestre para que alguém atravesse; fazer uma manobra, permitida ou proibida, que atrapalhe o tráfego. Tudo isso é hoje motivo de agressão, provavelmente alguém vai buzinar. E muita gente terá que ouvir.

Buzinar é um dos gestos mais egocêntricos que existem.

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ocupar a faixa

Ontem eu pedalava com amigos pela zona oeste da cidade. Estávamos em três, e durante a maior parte do trajeto ocupamos inteiramente a faixa da direita em vez de pedalar em fila, grudados na guia.

Era domingo, e mesmo assim fomos agredidos com várias buzinadas. Mas muitos motoristas tiveram a nobre atitude de desviar por uma das faixas à esquerda, que se já não estavam livres bastava esperar um pouco e fazer a ultrapassagem.

Fiquei então refletindo sobre como o gesto de ocupar inteiramente a faixa da direita (evidentemente quando essa não for a única da via) pode ser, pelo menos num domingo, uma prática bastante instrutiva para os motoristas.

Vem o motorista pela faixa da direita. Ao avistar um grupo de ciclistas à frente, haverá um impulso para o gesto condicionado de buzinar, provavelmente originado em seu cérebro reptiliano, aquele núcleo nervoso primitivo, presente também em qualquer lagartixa, responsável pelos movimentos relacionados a sobrevivência, agressividade e outras reações que normalmente não são processadas racionalmente.

Alguns motoristas de fato buzinarão.

Em outros, porém, já que é domingo, haverá tempo para que uma parte mais desenvolvida do sistema nervoso central, o neocortex, interceda bloqueando o gesto agressivo. Esse motorista olhará pelo retrovisor e irá constatar que a faixa à sua esquerda está livre, ou ficará livre em alguns segundos. Fará então a ultrapassagem, civilizadamente.

Que momento mais sublime! O exato instante em que se dá a aprendizagem! Nosso motorista terá percebido (e quem sabe leve a lição para os outros dias da semana) que há espaço para todos, que a agressão é muitas vezes desnecessária. Que a bicicleta é um veículo que deve ser ultrapassado como qualquer outro veículo mais lento, sem reclamação.

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educar motoristas?

Alguns motoristas se comportam de maneira bastante agressiva em relação às bicicletas. Em várias situações fica claro que não se trata apenas de falta de cuidado, mas de um gesto deliberado com a finalidade de agredir: buzinam, fazem cara feia, freiam em cima, xingam, fazem gestos de insulto.

A presença da bicicleta na rua incomoda profundamente essas pessoas, no mínimo por ser mais um obstáculo em seu caminho, entre tantos outros motivos que uma investigação psicológica mais profunda poderia revelar.

Diante disso, é comum ouvirmos a opinião de que os motoristas devem ser educados. Educados?

Educar consiste em ensinar pessoas a fazer coisas que elas não sabem, coisas que quando sabidas trazem benefícios práticos (saber fazer conta de vezes permite prever a conta do supermercado antes de passar pelo caixa) e coisas que quando ignoradas podem resultar em rejeição social (entrar em certos lugares sem pedir licença pode gerar confusão).

Portanto, quando dizemos que motoristas buzinam, xingam ou tiram finas de ciclistas porque não são educados estamos também afirmando, por pressuposto, que essas pessoas não sabem que a buzina assusta, não aprenderam na doce infância que xingar é feio, não desconfiam que uma colisão com um ciclista pode resultar em graves ferimentos ou morte.

Os motoristas agressivos sabem disso, sim.

Não acho interessante ceder a eles o confortável refúgio da ignorância.

Existe, de fato, uma coisa que boa parte dos motoristas provavelmente desconhece (ainda que eu duvide bastante que todos os motoristas agressivos desconheçam isso): de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, bicicleta é um meio de transporte e deve trafegar pela rua. Mesmo neste caso, penso que o termo educação não é muito bem adequado. Trata-se, aqui, simplesmente de informação, e de fato todos os motoristas devem estar informados de que lugar de bicicleta é na rua. A partir daí, não se trata mais de problema de informação. E muito menos de educação.

Trata-se, sim, de uma opção individual, a ser tomada por cada motorista, de respeitar ou não um semelhante.

E aqui está uma boa questão. Será que esses motoristas agressivos consideram o ciclista ali fora como um semelhante ou será que eles se veem como seres intrinsecamente superiores, sendo um dos indícios disso a opção que fizeram por estar dentro de uma máquina enquanto que o outro está ali fora fazendo força física para se locomover? De fato, aquela investigação psicológica aprofundada revelaria coisas bastante curiosas.

Claro que os ciclistas não são alvos exclusivos, nem mesmo preferenciais, da agressividade dessas pessoas. Outros motoristas, os motociclistas e principalmente os pedestres conhecem bem esta vida.

O problema é que cada vez mais ciclistas precisamos ocupar um espaço tomado por motos, carros e veículos maiores ainda, mas sem os invólucros de aço, o que nos dá a mesma fragilidade dos pedestres. Os veículos motorizados de certa forma já estabeleceram suas regras tácitas de convivência, e vemos que elas são bastante falhas, o que pode ser constatado pelo grande número de acidentes. Ciclistas não podem participar desse sistema de regras, pois sua integridade física está permanentemente ameaçada.

Se não existe o bom senso e nem, na falta dele, um sistema de leis efetivo o suficiente para garantir a coexistência pacífica dos indivíduos no espaço público, o único resultado é que prevalecerão os mais protegidos, os mais potentes, os maiores. Isso indica um estágio bastante precário no processo civilizatório.

Para que motoristas e ciclistas possam coexistir pacificamente, não basta ensinar aos motoristas o que eles já sabem, talvez nem mesmo informá-los de algo que pouco se refletirá em suas atitudes. É preciso que eles sejam civilizados.

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