todos estão certos

O sujeito entra de carro na viela que dá acesso à praia, onde existe uma enorme placa ‘proibido automóvel’. Os pedestres têm que se espremer junto ao muro para que o sujeito passe com seu carrão. Um deles reclama, dizendo que não pode entrar de carro ali. O sujeito responde agressivo: “Não está vendo que estou levando a minha mãe, que já tem idade?”. Aproveita para xingar o pedestre e mandá-lo cuidar de sua vida.

Um motorista vem com velocidade e entra direto na rotatória. Quase provoca um acidente. A placa ‘dê a preferência’ está bem visível na entrada da rotatória. O outro motorista, que tinha a prioridade nessa situação, reclama do gesto do primeiro, mostrando a placa. Ele passa ali todos os dias, sempre da mesma forma, e nunca havia reparado na tal placa. Mas ele não pode aceitar essa situação. “Eu estava em maior velocidade, você é que deveria ter esperado.” E sai fazendo um gesto feio.

A rua tem três faixas, e o cara está na faixa da direita, mesmo sabendo que vai entrar à esquerda logo que o semáforo abrir. Quando os carros começam a andar, ele bloqueia todas as faixas, pedindo passagem com um amigável sinal de positivo. Muitos perderão o verde por causa disso. Se alguém reclama, ele logo começa a xingar. Está convicto de que são os outros que não colaboram e que é por causa desse tipo de gente egoísta é que o trânsito na cidade anda tão ruim.

Caminhando pelo parque, o pedestre só tem olhos para o seu telefone portátil. Sem nenhuma preocupação em saber o que acontece ao redor, ele está em cima da ciclofaixa, quase parado. Ao passar, o ciclista lhe pede atenção e cuidado com a ciclofaixa. O pedestre reclama da bronca, continua no mesmo lugar e xinga o ciclista, dizendo que é ele que tem que tomar cuidado.

Em cada um dos casos ilustrativos existe uma pessoa prejudicando os outros pois está desrespeitando os acordos de convivência. Seja pela lei escrita, seja pelo bom senso, a pessoa está errada.

Mas estamos no Brasil, e portanto ela jamais admitirá que está errada.

Aqui, todos estão certos.

A pessoa que está errada poderia demonstrar um mínimo de respeito a quem foi prejudicado, acenando com a mão em um gesto de desculpas. Mas nada disso acontece, muito pelo contrário. Ela ainda vai se defender, argumentar que está certa, torcer a lei a seu favor e eventualmente vai agredir aquele que reclamou.

Mesmo quando está no espaço público, o brasileiro está sempre convicto de seus motivos, naturalmente mais importantes que os motivos dos outros. Seus gestos são sempre justificáveis. Se ele está certo ou errado naquela situação, não faz a menor diferença.

No Brasil, as leis costumam ser vistas a partir de uma perspectiva particular e vão permanentemente sendo adaptadas aos motivos e propósitos de alguém que se considera o centro do universo.

A humildade de reconhecer um erro, gesto essencial para a convivência no espaço comum, é bastante rara por aqui. É como se a pessoa sentisse sua honra manchada ao aceitar que está errada.

Brasileiro parece ter um problema de autoimagem. Há uma certa divergência entre a imagem de pessoa civilizada que ele mantém de si próprio e as suas práticas e atitudes em relação ao espaço público e aos outros.

Mais um traço do doloroso processo civilizatório brasileiro.

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