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comandar e punir

Estar no espaço comum implica conviver com formas diferentes de ocupá-lo.

Uns têm pressa, outros querem ver e viver o caminho. Alguns são atentos ao que acontece ao redor, outros só têm olhos para seu mundo interior.

Há os que têm dificuldades ao conduzir seu automóvel ou sua bicicleta e há os que esbanjam habilidades de pilotagem. Há os que acabam de chegar e ainda estão perdidos, há os que fazem seu trajeto até de olhos vendados.

Diante da diversidade, é preciso de um mínimo de tolerância para que o convívio seja possível.

Acontece que, muito mais que meio de transporte, o automóvel é uma máquina com múltiplas funções e dispõe de pelo menos dois recursos que, havendo intenção, podem ser usados para agredir: a buzina e o farol alto.

Protegido dentro da armadura de aço, o motorista tem pouco a temer. Assim, não hesita em usar esses recursos de agressão para tentar impor a sua própria lei e vontade a quem encontrar pelo caminho.

A buzina e o farol alto agridem porque causam desconforto físico. Ao acionar a buzina, o motorista emite uma agressão sonora a quem estiver por perto. Sons fortes e estridentes provocam sustos, irritam, fazem as crianças chorarem. O contexto e a posição do automóvel muitas vezes informam a quem a agressão é dirigida. Mas todos que estão em volta também recebem a agressão, que atinge quem quer que esteja por perto, infernizando a vida de todos.

O farol alto produz uma agressão luminosa. Luzes fortes ofuscam, fazem doer os olhos, causam reação de aversão e cegueira temporária. Este tipo de agressão é mais direcionável, atinge somente quem estiver na direção do raio de luz, e por isso funciona em situações mais específicas. Para aumentar o poder de agressão, muitos meninões mandam instalar lâmpadas bem mais fortes que o normal nos faróis de seus carros.

Comandar e punir. Eis a finalidade das agressões sonoras e luminosas que acontecem no cotidiano das nossas cidades.

Seria até mais simples contar situações em que o uso da buzina ou do farol alto não tem intenção de agredir: buzinadas curtas e amigáveis para cumprimentar pessoas, agradecer, chamar a atenção de alguém ou “fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes” (principal finalidade da buzina num automóvel, conforme o art. 41 do CTB); lampejos curtos dos faróis altos para ceder prioridade, agradecer a passagem ou alertar o motorista que vem em sentido contrário sobre um perigo na estrada e, naturalmente, o uso contínuo do farol alto quando há necessidade de iluminação mais longa e não há ninguém na direção do facho de luz.

Praticamente todos os outros usos da buzina e do farol alto têm a intenção de dar uma ordem ou de punir alguém por uma atitude considerada errada.

Dois segundos após a abertura de um semáforo já começam as primeiras buzinadas de “anda logo”, para dar aqui apenas um exemplo da ampla gama de possibilidades de comandar os outros através da buzina.

O farol alto, naturalmente por estar posicionado na dianteira do veículo, costuma ser usado como uma ordem de “sai da frente”. Há variações contextuais dessa ordem como “anda logo” (quando não há opção de sair da frente) ou “não para” (quando há um semáforo prestes a fechar logo adiante).

Quando dirigida a um ciclista, a agressão sonora equivale a um grito “vai pra ciclovia” ou simplesmente um “sai da minha frente, você está atrasando a minha vida”. Como poucas bicicletas têm retrovisor, a agressão luminosa é raramente usada quando o automóvel vem por trás. É mais comum em cruzamentos no qual o motorista, tendo ou não prioridade, ordena ao ciclista que “fique onde está”.

E dirigida a um pedestre é quase sempre um “sai daí, seu maluco”.

Em todas essas situações, alguém está dando uma ordem a uma pessoa por julgar, segundo seu critério individual e egocêntrico, que a outra está sendo inadequada: andando muito devagar, demorando demais para partir, sendo um obstáculo em seu caminho.

A proteção da armadura de aço dá ao motorista a possibilidade de dar ordens aos outros. É impressionante a frequência com que ele de fato usa esse recurso, ele realmente acredita que tem esse direito. O automóvel é uma máquina de imposição do EU.

Agora uma situação um pouco diferente. Um carro para e o outro acaba tendo que parar atrás. O da frente vai desembarcar uma pessoa. O motorista do carro de trás fica impaciente. Alguns segundos depois ele resolve desviar e seguir viagem. Ele faz a manobra e sai de trás do carro parado. Ao passar do lado dele, lança-lhe uma longa buzinada.

Repare que aqui não interessa mais ao motorista de trás que o carro da frente ande, pois já saiu de trás dele. Esta buzinada não é um comando. O carro de trás já resolveu o seu “problema”, o da frente já não lhe prende. Mesmo assim ele buzina. Esta agressão sonora é uma punição.

Na situação de punição, o agressor entende que a atitude do agredido justifica a agressão. O agressor pune por acreditar que o outro merece aquilo. Se houver algum passageiro ao lado, este motorista geralmente fará algum comentário para mostrar como está coberto de razão. Nos casos em que o agredido está aparentemente cometendo uma infração, o agressor considera o seu gesto ainda mais justificado.

Algumas atitudes são frequentemente punidas com agressão sonora ou luminosa: uma parada para embarcar ou desembarcar um passageiro, uma conversão que obrigue uma parada, uma fechada ou qualquer outra manobra repentina ou arriscada, uma parada diante da travessia de pedestres.

Muitos motoristas acreditam que os ciclistas não deveriam estar nas ruas e que elas são só para os veículos motorizados, e sabemos o quanto o senso comum e a forma de as leis serem aplicadas contribuem para reforçar isso. Com base nessa crença, buzinam para os ciclistas com a intenção de puni-los.

Qualquer que seja a situação, seja punindo ciclistas ou outros motoristas, ao fazer agressões como essas o motorista se coloca na posição de um juiz. Num breve instante acontece um processo judicial completo: o gesto do outro é percebido como errado; o motorista assume a posição de juiz; o suposto transgressor é considerado culpado e merecedor de punição; a punição é aplicada.

Pouca diferença faz se o suposto transgressor está de fato violando a lei de trânsito ou o bom senso, o que de fato é bastante comum. Pouco importa também se o agressor tem ou não o hábito de fazer o mesmo gesto pelo qual está punindo o outro agora.

Uma aparente contradição pode estar surgindo aqui. Nos casos em que uma pessoa está de fato violando acordos de convivência, não seria positivo para a coletividade que alguém lhe chamasse a atenção? Não seria esse um mecanismo de controle social importante para uma sociedade?

Seria, se isso acontecesse de maneira pessoal, verbal e educada, e não por meio da proteção e dos recursos de agressão proporcionados por uma máquina. Aliás, aqui fica evidente a contradição entre, de um lado, a disposição que as pessoas têm de punir os outros quando estão dentro de um automóvel e, de outro, a sistemática omissão de chamar a atenção de alguém que está se comportando de maneira inadequada no espaço público.

Ao nos dirigirmos a uma pessoa por meio da fala e olhando nos olhos, estamos abrindo a possibilidade do diálogo e da argumentação. Agredir através da máquina é um gesto que, além de ser covarde, fecha qualquer possibilidade de conversa. É essencialmente autoritário.

A frequência com que a punição é usada numa sociedade automobilista evidencia o quanto ela é marcada pela intolerância. E talvez não tenha como ser diferente, já que o automóvel é provavelmente o mais poderoso recurso já inventado para o exercício do individualismo.

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autoria

Se você é ou aspira ser um geninho, fique à vontade.

Entendo a sua escolha. Ser geninho é cada vez mais importante neste mundo mágico e narcísico, em que a reputação é fator de sobrevivência.

Seja sim um geninho. Escreva textos geniais em seu blogue, solte frases incríveis nas conversas de boteco.

Mas seja um geninho por meio das suas próprias ideias. Quando for usar ideias dos outros, por favor, cite o autor.

Citar autoria está fora de moda, mas é importante. Além de mostrar respeito, a citação cria um diálogo entre as ideias e as pessoas. Ela torna a discussão bem mais interessante, para todos.

E fique tranquilo. Ninguém passará a te achar menos legal se, após soltar uma genialidade, você contar que ela não foi ideia sua.

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cenografia

Às vezes, um objeto é escolhido e utilizado exclusivamente por seu valor simbólico.

cenografia
foto: outubro/2015

As bicicletas coroam a decoração deste estande de vendas de imóveis.

O local será visitado por especuladores a fim de investir nesse ativo com grande potencial de valorização. Afinal, além de boa localização, tem conceito. Tem estilo de vida. Tem atitude. Tem saúde. Tem até bicicleta na frente.

Poderia ser um carrão com uma peituda encostada no capô.

Mas são bicicletas. Ocupam o mesmo lugar do carrão na sintaxe dos formadores de sentido.

Sempre bom alinhar a mensagem aos clichês da época.

Vale lembrar que, neste caso, trata-se potencialmente de um público para quem bicicleta só serve para achar bonito, a ponto de ter valor de cenografia. E metrô perto só serve para valorizar patrimônio.

Ou você acredita que existe ali a proposta de uma construtora para mudar a vida em São Paulo?

Talvez a sua vida não ande muito boa, mas a das construtoras vai muito bem, obrigado. Elas mandam na cidade, no governo municipal, no plano diretor. Mudar para quê?

Se é para mudar, é preciso pensar em ações um pouco mais efetivas e menos simbólicas como usar bicicletas como objeto de decoração.

Por exemplo, começar a construir edifícios sem garagem quando localizados em lugares nobres e centrais, servidos por metrô. Ainda que precisemos de leis para que isso aconteça.

Talvez fique mais fácil ver isso como proposta para um novo projeto de vida.

Se isso um dia acontecer, quem sabe seja um indício de que estejamos a caminho do ponto da virada.

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cérebro reptiliano

Segundo a Teoria do Cérebro Trino, o cérebro humano se divide em três diferentes unidades funcionais: o cérebro reptiliano, responsável pelas funções fisiológicas do corpo e pelos reflexos simples, como reações agressivas e outros comportamentos sujeitos a condicionamento; o sistema límbico, que controla o comportamento emocional do indivíduo; e o neocórtex, que dá aos seres humanos a capacidade de realizar raciocínios lógicos e processar a linguagem.

O neocórtex é também conhecido como cérebro racional, sendo a estrutura que diferencia o homem dos demais mamíferos.

Quando observamos o comportamento dos motoristas no trânsito, percebemos um grande número de gestos completamente desprovidos de razão. Alguns até mesmo vão na direção contrária do que seria um gesto racional.

Como explicar, por exemplo, a estranha pressa do motorista em chegar logo até um semáforo vermelho para ali parar e ficar esperando? Ele já consegue ver o sinal vermelho mas, em vez de ir diminuindo a velocidade ou pelo menos deixar de acelerar, ele continua acelerando, troca de marcha, acelera de novo, até ser obrigado a parar totalmente o carro no semáforo.

Ou então o motorista que buzina para o ciclista à sua frente, sem considerar que a faixa logo à sua esquerda está livre para fazer a ultrapassagem, como faria se em vez do ciclista fosse ali um automóvel em baixa velocidade.

Aliás, sendo o responsável pelos comportamentos agressivos de qualquer animal, o cérebro reptiliano é quem produz a grande maioria das buzinadas e das outras formas de agressão possíveis através da linguagem do automóvel.

Outro gesto produzido nas estruturas primitivas do cérebro é o do motorista que, estando o sinal ainda fechado, começa a andar só de perceber que o carro ao seu lado se mexeu, por mero reflexo condicionado.

Comportamentos como esses não parecem ser comandados pelo neocórtex, já que não são resultantes de raciocínios.

São, ao contrário, típicos exemplos de condicionamento. São respostas automáticas a estímulos. O gesto acontece simplesmente porque já aconteceu milhares de vezes. São, portanto, comportamentos produzidos pelo cérebro reptiliano. Uma lagartixa não faria diferente.

Obviamente sabemos por que isso acontece: ansiedade. A mesma ansiedade que faz alguém ficar ligando para uma pessoa que está demorando a chegar, só para perguntar em que ponto do caminho ela está. É evidente que o telefonema não vai fazer com que o outro chegue mais rápido. A pessoa que liga até sabe disso. Mas a ansiedade torna qualquer um insensível a argumentos racionais.

Por falta de uso, o neocórtex vai atrofiando. Pense em milhões de cérebros reptilianos conectados a estruturas de aço de uma tonelada e motores potentes. Isso é o fenômeno conhecido como caos do trânsito.

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processo civilizatório

Neste blogue, o conceito de civilização se refere simplesmente a um conjunto de práticas e valores que tornam possível viver coletivamente e de forma harmoniosa no espaço comum.

Portanto, o processo civilizatório diz respeito à adoção de fato de novas práticas que contribuem para isso, sejam elas impostas por lei ou não.

Por vários motivos, os seres humanos preferem viver juntos. Formam cidades e aglomerações de diferentes magnitudes, pois a proximidade traz benefícios para todos. Para que possam viver juntos, precisam criar acordos de convivência, especialmente aqueles que neutralizam as diferenças de força entre as pessoas. Na falta desses acordos, os conflitos tendem a se resolver em favor da parte mais forte. Temos então aquilo que algumas teorias sociológicas chamam de barbárie.

Alguns acordos de convivência são leis institucionalizadas. A legislação de trânsito contém alguns exemplos de acordos que organizam a convivência no espaço comum de forma que a disputa não se dê pela força. Em um cruzamento com semáforo, cada um tem a sua vez de passar. Quando o sinal está verde para uma das vias, quem vem por ela pode exercer seu direito de passar pelo cruzamento sem precisar disputar aquele espaço, sabendo que os da outra via saberão aguardar. Este acordo, de fato, costuma ser cumprido.

Sem o semáforo, a disputa pode acabar sendo resolvida pela força: o tamanho e a imponência do veículo, a velocidade de aproximação, a agressividade do motorista ao conduzi-lo e projetá-lo no espaço do cruzamento e outros elementos da linguagem do automóvel que podem ser usados para intimidar, como buzina, farol alto ou o barulho do motor e do escapamento.

Há também acordos de convivência que funcionam sem que estejam estabelecidos na forma de lei. As pessoas têm o hábito de formar fila ao aguardar por um atendimento, seja ele numa padaria, na bilheteria de um estádio, no carrinho de pipoca. A fila é um acordo de convivência que é regulado espontaneamente pelas próprias pessoas, e quem burlar esse acordo será repreendido pelos outros presentes.

É raro ver alguém tentar burlar uma fila, pelo menos quando se trata de uma fila de pessoas (no caso de filas de automóveis, a regra da fila é violada com frequência). Mesmo rapazes muito fortes, ostentando indícios de que praticam artes marciais, geralmente aguardarão sua vez para serem atendidos, respeitando aqueles que já estavam ali antes. Podemos então dizer que, mesmo sem depender de uma lei escrita, o acordo da fila é eficaz em neutralizar diferenças de força.

A faixa de pedestres é um exemplo de acordo de convivência que, apesar de estar estabelecido na forma de lei, raramente é cumprido no Brasil. A proteção dada pela estrutura do automóvel torna o motorista fisicamente mais forte que o pedestre. Não havendo qualquer forma de regulação dessa diferença, nem pelo agende oficial de trânsito e nem pelas pessoas que estão em volta, a superioridade física do motorista costuma prevalecer, e a faixa de pedestres é sistematicamente desrespeitada na maioria das cidades brasileiras.

Duas cidades podem ser bastante diferentes no que se refere ao respeito à faixa de pedestres, e essa diferença pode ser considerada, junto com outros indicadores, para avaliar e comparar o grau de civilização dessas cidades.

Qualquer ação do poder público que tenha o efeito de garantir os direitos de pedestres e ciclistas ao uso do espaço comum, neutralizando a superioridade física dos veículos mais pesados, pode ser considerada como um ato civilizatório.

A necessidade de esclarecer aqui o conceito de ‘civilização’ se deve ao fato de que o termo é por vezes utilizado de maneira imprecisa e, em muitos casos, está associado a uma visão etnocêntrica da sociedade. Segundo essa visão, o grau de civilização da sociedade se mede pela quantidade de hábitos europeus adotados por ela, geralmente em substituição aos hábitos tradicionais praticados anteriormente. Nessa visão, a Europa ocidental é assumida como modelo de sociedade e é chamada de ‘A Civilização’ (com maiúscula inicial).

Neste blogue, quando se fala em processo civilizatório, não se trata de tomar a sociedade europeia como modelo. Várias de suas cidades são, certamente, muito mais civilizadas do que as cidades brasileiras, mas o são apenas na medida em que praticam de fato os acordos de convivência que geram respeito entre as pessoas e um uso harmonioso do espaço comum.

Ao mesmo tempo em que gosta de ostentar hábitos da Civilização (com maiúscula) e se dizer civilizada, a sociedade brasileira parece confirmar diariamente a sua opção por evitar o processo de civilização (com minúscula e conforme definido aqui) pois, com sua imensa desigualdade, parece interessante a certos grupos que a força física, econômica ou simbólica continue prevalecendo.

Portanto, parece ingênuo esperar que venham de cima as mudanças que tornará mais civilizada a vida nas cidades brasileiras. Ao ocupar as ruas, conquistando seu espaço e fazendo-se respeitar sem esperar pela instalação de ciclovias, os ciclistas atuam em favor do processo civilizatório.

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meninões

Quando uso o termo ‘meninões’ neste blogue, certamente não estou me referindo a pessoas do sexo masculino, jovens e de tamanho grande, como a palavra poderia sugerir.

Uso ‘meninões’ para me referir a um grupo de pessoas que não se define por fatores como gênero ou faixa etária, mas sim por um tipo de comportamento. Especificamente, por um conjunto de atitudes relacionadas à forma como usam o automóvel.

Meninões são pessoas de qualquer gênero ou faixa etária que se comportam de maneira infantil quando dirigem um veículo. Além disso, ou talvez em decorrência disso, são geralmente bastante agressivas ao volante.

Crianças mimadas que são, os meninões têm uma necessidade incontrolável de chamar a atenção quando passam. Seja pelo som alto do carro, seja pelo barulho do motor, do turbo ou do escapamento, o fato é que eles precisam ser notados.

Entre as várias propriedades simbólicas do automóvel, uma delas se produz na maneira de dirigir. Podemos falar numa linguagem do automóvel, já que as atitudes e manobras transmitem mensagens que são facilmente interpretadas por qualquer pessoa.

Assim sendo, aproveitam o volante para expressar seus estados de espírito: dirigem com agressividade, utilizam o espaço público das ruas de maneira egoísta e imatura, aceleram para que todos saibam de sua pressa e sua ansiedade.

Aceleram com violência e dirigem em velocidade muito acima da razoável. Em uma via pequena e local, o espaço entre duas esquinas ou duas lombadas é uma oportunidade imperdível para demonstrarem a potência de seus motores e, portanto, sua superioridade: arrancam como se estivessem numa corrida, atingem a maior velocidade possível e freiam bruscamente no fim do trecho, completando a exibição.

Aliás, é exclusivamente graças aos meninões que as ruas da cidade estão cheias de lombadas.

Um psicólogo faria observações interessantes sobre as fontes profundas do comportamento desses meninões, eventualmente falando numa fase anal ou mesmo uma fase oral mal resolvida (sim, já ouvi isso de gente da área). Qualquer psicólogo-de-boteco costuma concluir que o meninão trata o carro como uma extensão do próprio pênis.

Seja como for, há meninões do sexo masculino e também do sexo feminino, ainda que os primeiros existam em maior número (alguém pode preferir falar em ‘meninonas’, mas meninões do sexo feminino me parece mais adequado). Todos exalam testosterona em seu comportamento. Lembram aqueles mamíferos chifrudos dos documentários sobre natureza, que se exibem ou brigam violentamente por território ou por acasalamento.

Há meninões de todas as idades, e aqui nem dá para falar em predominância entre os mais jovens. Por algum motivo, os meninões têm uma profunda necessidade de demonstrar um espírito jovem e ágil, e fazem isso na maneira de dirigir essa máquina de uma tonelada.

Como sabem que seu comportamento costuma desagradar, muitos deles praticam alguma técnica de luta e fazem questão de ostentar isso colocando no carro adesivos com letras japonesas ou nomes de academias. Uma forma simples de, por meio da intimidação, evitar alguma crítica pela sua irresponsabilidade.

Sobretudo uma forma de mostrar que, mesmo sendo desprovidos da maturidade mental necessária para conduzir um veículo, eles continuarão lá e estarão sempre com a razão.

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a expressividade dos motoristas

A necessidade que o ser humano tem de se expressar é realmente algo formidável. Através de música, literatura, pintura, artes corporais e várias outras formas de expressão, o homem fala o tempo todo de seus sentimentos, desejos e frustrações.

Nas grandes cidades brasileiras, o tipo de interação que ocupa parte cada vez maior da vida das pessoas está fazendo surgir uma nova forma de expressar as emoções diárias: o automóvel. A linguagem do automóvel vai muito além de ser um jeito de mostrar quem a pessoa é ou, para usar o clichê, um “símbolo de status social”. Diante do tédio, da necessidade humana de expressar-se e de um volante, o motorista precisa encontrar maneiras de compartilhar o que sente.

Como então entender tanta buzina?

O sinal abriu, já faz três segundos, e o veículo à frente não se mexe. Buzina. Um carro parado espera uma pessoa que atravessa na faixa. Buzina. O trânsito travou, não se sabe o motivo, não existe a quem reclamar. Buzina. Como um bebê que sente dor ou frio, o motorista esperneia para quem estiver por perto, grita ao mundo para mostrar seu incômodo, pura expressão de sentimentos.

O gesto é natural: cachorros latem, galinhas cacarejam, cavalos relincham, motoristas buzinam.

Já que o motor também faz barulho, pode também ser usado como forma de expressão. Acelerar o motor estando parado é uma forma de mostrar pressa. Em movimento, levar o motor a uma alta rotação antes de trocar a marcha, especialmente ao ultrapassar alguém, deixa claro ao outro o quanto sua presença ali estava incomodando. A linguagem do motor é especialmente utilizada por meninões, sendo que muitos deles colocam escapamentos especialmente barulhentos para tornar mais eficiente a comunicação e mais clara sua personalidade e atitude.

Mas o automóvel não serve apenas ao deleite dos ouvidos, está também repleto de linguagem corporal. A frente do carro abaixa mais com a intensidade da freada, e levanta com a aceleração. O momento de trocar a marcha é especialmente expressivo, pois soltar a embreagem bruscamente enquanto se acelera forte faz empinar a frente do veículo, como um quadrúpede indomado que se revolta e quer fugir. De carro ou de bicicleta, já observou como é comum alguém praticando esse balé atrás de você?

Esses corpos em movimento também podem fazer movimentos laterais, e um gesto forte no volante ao iniciar uma ultrapassagem faz o carro balançar lateralmente, e assim o motorista deixa claro a quem está na frente que não tem tempo para obstáculos.

Efeitos de luz dão um toque especial à cena. Alguns piscam os faróis, outros jogam luz violentamente na sua cara apenas quando precisam, outros ainda andam com os faróis altos ligados o tempo todo. Cada personagem traz o seu tema. Luzes brancas especialmente fortes e ofuscantes são cada vez mais comuns por esses palcos, criam tensão e dizem muito sobre quem está ali. E para despedir-se, o pisca-alerta deixa carinhosas saudações.

Todo esse espetáculo cênico é reforçado por um farto repertório de expressões faciais e gestos com os braços, mãos e dedos.

Essa vontade de se comunicar é um aspecto muito bonito do ser humano. As ruas da cidade são mesmo um lugar especialmente inspirador, e seus personagens têm sempre muito a dizer.

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moléculas

O termo fluidez, muito usado pela engenharia de tráfego, parece bem adequado para descrever o comportamento de um amontoado de automóveis. Muita gente vê nele uma intrigante metáfora, mas talvez não seja o caso.

O grau de liberdade de um automóvel em uma avenida entupida equivale ao de uma molécula de água no cano que alimenta a torneira da pia: seguirá quando abrirem o registro, vibrará sozinha no mesmo lugar enquanto as outras moléculas não andarem, pois nesse lugar a vontade não serve para nada.

Não é à toa que alguns modelos de Mecânica dos Fluidos descrevem muito bem vários fenômenos do trânsito.

Na terceira série, certa vez a professora explicou para a classe que líquido tem a propriedade de tomar a forma do recipiente em que é colocado. Suas moléculas ocuparão todo volume do recipiente espalhando-se, enquanto não encontrarem obstáculo físico, por todos os seus cantos.

Não é exatamente assim que se comportam os automóveis? Sabemos que de nada adianta sinalizar com placas ou faixas, “Não vá por aqui”. Se não houver obstáculo físico os automóveis cruzarão faixas, farão conversões proibidas, entrarão em vias incompatíveis com seu tamanho.

Em uma via congestionada, formarão mais e mais filas paralelas, independente do número de faixas, mesmo sabendo que logo à frente encontrarão um funil e perderão ainda mais tempo fundindo as várias filas.

Dá pra imaginar, por exemplo, que as moléculas de água se organizassem de tal forma dentro de um cano que as laterais do cano ficassem livres para o caso de alguma molécula precisar parar por qualquer motivo? Observe uma estrada congestionada e perceba que os acostamentos logo serão ocupados por gente esperta tentando — e conseguindo — furar a fila.

Não se pode esperar das moléculas certos tipos de atitudes, elas não pensam.

Elas se movimentam de acordo com a pressão das que vêm atrás. E se a pressão em um sistema hidráulico aumenta conforme a temperatura, a pressão no sistema viário aumenta conforme a ansiedade.

Se a pressão for muita, até mesmo obstáculos físicos poderão ceder, e então temos o fenômeno conhecido por vazamento.

A única diferença entre os dois sistemas é que um segue as leis da natureza e o outro deveria seguir as leis dos homens, pelo menos acredita-se nisso.

Um número grande de comportamentos individuais produz um comportamento coletivo. Este pode estar mais próximo daquele descrito pelas leis da natureza ou mais próximo daquele escrito nas leis dos homens.

O grau de civilidade de uma sociedade pode ser medido simplesmente por aí: em que medida o comportamento coletivo consegue seguir leis diferentes daquelas que governam a matéria.

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a linguagem da buzina

O sentido das palavras e expressões de uma língua é determinado, em grande parte, pela situação de uso. Algumas palavras praticamente não têm um significado próprio, e nós precisamos do contexto para interpretá-las.

Um bom exemplo é a interjeição “ah”. Se eu te perguntar o que significa “ah”, simplesmente assim, de maneira descontextualizada, você provavelmente vai responder que não sabe, ou que depende da situação. É o contexto que atribui sentido a essa palavra. A entonação também influencia o sentido: tom ascendente ou descendente, pronúncia longa ou curta etc.

Quando você recusa o convite de um amigo para uma festa, ele provavelmente dirá “Ah…”, e você não terá dúvida em interpretar isso como “Que pena!”.

Alguém prova a salada e acha que ela está fraca de sal. Pega o saleiro, joga um pouco mais de sal sobre o tomate e a rúcula. Volta a provar e diz “Ah!”. Você imediatamente entenderá que ela quis dizer “Agora está boa!”.

Uma pessoa te pede para repetir uma frase que ela não entendeu. Você repete ou reformula a frase. A pessoa então diz “Ah!”, e você interpreta seguramente essa palavra como “Agora sim eu entendi”.

A língua funciona assim, e isso não acontece somente com as interjeições, preste atenção e verá: é a partir de um contexto que o ouvinte atribui sentido para as palavras. O mesmo acontece com o falante: ele escolhe uma palavra e usa uma certa entonação sabendo qual o sentido que isso vai produzir naquele contexto determinado. Qualquer usuário de uma língua sabe desse fato, ainda que apenas intuitivamente.

Com a buzina acontece algo bem parecido. Uma buzinada é um ruído que obviamente não tem um significado próprio. Interpretamos uma buzinada de acordo com o contexto e de acordo com sua duração que, no caso da buzinada, equivale à entonação da fala.

Algumas buzinadas são claramente amigáveis. Um toque curto quando alguém acabou de ceder a passagem equivale a um “Obrigado!” ou algo semelhante. Um ou dois toques curtos quando um motorista passa por um grupo de pessoas conhecidas paradas na calçada ou em frente a um bar tem um tom claro de saudação e, portanto, equivale a um “Olá!”.

Há também alguns tipos de buzinadas que não permitem uma interpretação tão amigável assim.

Abre o semáforo, dois segundos já se passaram e o carro da frente ainda não andou. O motorista de trás buzinará: “Anda logo, porra!”. De fato, o “porra” é opcional nesta interpretação. Mas repare que o simples “anda logo” já é bastante agressivo por si só. Em que situação se dirige um “anda logo” a um desconhecido sem que isso seja um gesto de extrema grosseria?

Um motorista se aproxima de um cruzamento sem semáforo com uma via que é preferencial. Ele vem a uma velocidade acima da razoável e não demonstra a menor intenção de reduzir para olhar se vem alguém na outra via. Dois toques mais ou menos longos: “Estou chegando, quem estiver na transversal, que pare para eu passar!”. Você já viu uma cena como essa? Ela é bastante comum, especialmente de noite e de madrugada.

Motorista vai ultrapassar o ciclista. Um toque curto pode sim até ser interpretado como um aviso amigável, para o caso (um tanto improvável!) de o ciclista não ter percebido que tem um carro logo atrás dele. Mas um ou mais toques longos já não permitem essa interpretação. Só consigo entender isso como algo equivalente a “Sai da rua!”, ou “Que é que você está fazendo aí?”, ou “Por que você não vai pra calçada, seu imbecil?”. E ainda há quem diga que é preciso educar os motoristas para que eles não façam mais isso…

Um carro para por qualquer motivo: para desembarcar alguém, para fazer uma conversão permitida ou proibida, ou simplesmente porque o motor do carro morreu. O motorista dispara a buzina num longo e agressivo toque: “Por que você não anda, seu desgraçado?”, ou “Sai da minha frente, seu idiota!”. O mais curioso é observar que, depois de buzinar por alguns segundos, o motorista dá um jeito de desviar do carro parado e segue viagem normalmente. Ele poderia ter feito isso logo, em vez de buzinar. Mas ele não pode abrir mão do seu esperneio. Se a situação lhe dá a chance de agredir alguém, ainda que isso não vá resolver seu problema, por que não agredir?

Qualquer um sabe interpretar muito bem essas e outras buzinadas. Pode talvez usar palavras um pouco diferentes para traduzi-las, mas o teor da frase será essencialmente o mesmo. A intenção da buzinada é sempre muito clara: uma saudação, um aviso, uma reclamação, um insulto leve, um insulto violento, um esperneio.

Naturalmente existe uma reação psíquica e fisiológica a esses estímulos. Quando uma pessoa faz ou recebe um gesto agressivo, o organismo libera substâncias nocivas no sangue e a mente experimenta sensações bastante desagradáveis, daquelas que se acumulam e fazem a pessoa chegar em casa achando que teve um dia horrível, sem saber por quê.

Até mesmo quem não está envolvido em uma troca de gentilezas desse tipo acaba sendo afetado. Não se trata simplesmente do efeito de poluição sonora. Diferente do barulho de uma britadeira, neste caso todos nós compreendemos a mensagem de ódio que uma buzinada longa carrega.

A vida de um motorista nas ruas de uma cidade entupida é repleta de sentimentos desse tipo.

Optar por um esquema de vida que te obrigue a usar o carro na maioria dos seus deslocamentos implica, entre outras coisas, escolher uma vida em que você passa boa parte do dia cercado de desgosto, raiva, desprezo, vingança ou outros sentimentos violentos.

Motoristas vivem isso o tempo inteiro. Podem tentar negar ou minimizar os efeitos disso na saúde, mas seus corpos estão ouvindo tudo.

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