Nos anos recentes, ao acompanhar a implantação de infraestrutura cicloviária nesta cidade dominada por motores, um pensamento pessimista sempre atormentava: conquistamos essa batalha, mas como e em quanto tempo será a reação das forças carrocratas para tomar de volta esses espaços?
A forma mais provável dessa retomada, imaginávamos, seria a remoção pura e simples das estruturas, tornando-as novamente vagas gratuitas de estacionamento ou redistribuindo esse espaço entre as faixas carroçáveis da via. E isso de fato acontece, ao menos de forma pontual, em São Paulo. Mas creio que poucos previram essa retomada acontecendo também de outra maneira, e tão rapidamente: bastaria encontrarem uma maneira de ocupar esses novamente espaços com motores, de forma legítima.
E aí está. Calçadas, ciclovias e ciclofaixas estão sendo invadidas por veículos motorizados levíssimos, nessa profusão de aparelhos de diferentes formas, mas que basicamente consistem em patinetes elétricos e motocicletas elétricas, ainda que estas últimas se disfarcem de bicicletas por trazerem pedais, raramente usados. Esses espaços, concebidos para serem dedicados à mobilidade ativa, agora podem ser ocupados por motores, e obviamente isso está produzindo conflitos e muita gente machucada.
Tentativas de regulamentação estão em curso, mas sabemos bem que jamais serão efetivas, dada a dificuldade da fiscalização e a criatividade da indústria em criar produtos que se encaixem em quaisquer normas que vierem a existir, de forma que a experiência do consumidor motorizado jamais seja comprometida.
O fato concreto por trás desse fenômeno é que parte da população jamais cogita abrir mão de motores para fazer seus deslocamentos. E tudo bem, individualmente cada um tem seus motivos, e devemos pressupor que são legítimos. Mas existe um fenômeno coletivo que precisa ser notado: a dependência generalizada de motor que existe em nossa cultura.

Para compreender isso, há um recorte em grande escala, bastante conhecido de quem lê sobre mobilidade, pautado por aspectos urbanísticos, econômicos e sociológicos, que chama a atenção para a forma como o automóvel e o ônibus orientam o desenvolvimento das cidades. Ao tornar possível, nos deslocamentos diários, cobrir distâncias grandes e de forma capilarizada, o transporte motorizado sobre pneus cria bairros afastados que servem apenas para dormir, muito escassos em serviços e oportunidades de trabalho, com desenvolvimento econômico precário. Dessa forma, segrega populações e cria uma dependência estrutural por esse tipo de transporte, destruindo a autonomia das pessoas. Como observa Ivan Illich, temos uma sociedade com dependência crescente de energia e com várias outras mazelas que isso produz. Esta perspectiva traz um entendimento macroestrutural da dependência de motor, seja ele em um automóvel ou uma moto elétrica.
Pode ser interessante também olhar para essa dependência por uma perspectiva mais individual, e aqui é preciso observar que ela se manifesta tanto na decisão de migrar do automóvel para uma moto elétrica como também, cotidianamente, a cada vez que se escolhe usar carro – próprio ou via aplicativo – para um deslocamento que poderia ser feito a pé, ou usar elevador para subir um ou dois andares.
A resposta rápida nos leva a resolver o assunto falando do sedentarismo da vida contemporânea, do cotidiano em uma mesa de escritório, quase sempre na frente de um computador, dos momentos de lazer no sofá ou na cama consumindo séries em serviços de streaming ou conteúdos aleatórios de mídias sociais. Porém, mesmo para pessoas que não são totalmente sedentárias, que correm na academia ou no parque, parece que quando o que está em jogo são decisões de mobilidade, o motor sempre acaba prevalecendo sobre o uso das próprias pernas.
Em vez da tentação das respostas rápidas, proponho uma pergunta geradora que possa levar a reflexão para novos campos. O que faz com que tantas pessoas abram mão da capacidade do próprio corpo de se movimentar com energia humana e entreguem essa tarefa a um motor, renunciando ao seu potencial natural para a autonomia?
Por trás dessas escolhas automáticas em favor do motor, sempre o motor, parece haver uma espécie de desempoderamento essencial. A capacidade humana para o movimento é perdida de vista. Recorrendo-se a justificativas ligadas a condições desfavoráveis da vida contemporânea, o motor é naturalizado, praticamente elevado a uma extensão imprescindível do corpo humano. Somos paralíticos conceituais.
O próprio discurso que exalta a bicicleta por ser uma opção que faz bem à saúde e ao planeta reflete essa cultura. Há por trás disso o pressuposto de que é preciso haver um motivo para que alguém se desvie das escolhas naturais de mobilidade, que sempre incluem um motor, e passe a usar a bicicleta como meio de transporte.
Junto com essa cultura de exaltação ao motor, parece haver também certa aversão ao uso do corpo. Por que aquela sensação de que o corpo foi utilizado, geralmente denominada de cansaço, desperta tanto aversão em parcela tão grande das pessoas?
Quando alguém recusa uma carona para ir daqui até ali, dizendo “agradeço mas vou a pé mesmo”, a própria recusa é muitas vezes julgada como comportamento estranho, para alguns chega a soar como desfeita. A pessoa que recusa se sente na obrigação de justificar sua preferência por ir a pé. Desde um simples ‘eu gosto de caminhar’ até um discurso quase clínico do tipo ‘tenho procurado caminhar mais porque ando muito sedentário, e caminhar faz bem’. Chegamos ao ponto de precisar de justificativas para abrir mão de uma máquina e usar o próprio corpo de forma íntegra e ativa.
Esquecemos que a verdadeira autonomia pessoal está em não necessitar de apoios para aquilo que o corpo já faz bem? Que fim levou a ideia de que vida é movimento, energia circulando? Será necessário estar preso a um leito hospitalar para se dar valor à liberdade e à dádiva de poder caminhar sobre esta terra?
E que impactos profundos e ocultos, afinal, as repetidas decisões tomadas em cima dessa impotência construída poderão ter sobre a autoconfiança e a personalidade?
É evidente que pessoas autônomas são ameaças ao sistema econômico. Quem tem as próprias soluções para os problemas que a vida apresenta deixa de consumir as soluções que o mercado oferece. Uma cultura de consumo jamais nos lembrará que nossos corpos precisam do movimento para funcionar, exceto, é claro, se for para vender um tênis de corrida.
Boa parte dos usuários desses veículos motorizados levíssimos que hoje infestam as cidades são pessoas que jamais cogitaram uma bicicleta convencional, migraram para esses aparelhos diretamente do automóvel. “Bicicleta é mesmo algo elegante, mas enquanto tiver que fazer força, estou fora.” O mais assustador é ver isso inclusive entre pessoas jovens e saudáveis que, em muitas visões equivocadas, são o estereótipo da única condição possível para ser usuário de bicicleta.
Mobilidade ativa se refere a formas de deslocamento baseadas na energia do próprio corpo, sendo a caminhada e a bicicleta os modos mais comuns (skate e patins são outros exemplos). Se antes era um conceito mais restrito a ambientes em que se discute transporte e urbanismo, hoje é chamado a sair desses círculos para nos ajudar a observar a cidade e certos fenômenos que acontecem nela.
Veículos motorizados levíssimos não são mobilidade ativa. São, como o nome diz, produtos destinados a quem sofre dessa dependência psicológica incapacitante que analisamos aqui. Esta é a verdadeira doença primária. Problemas cardíacos e outros males da vida inativa são apenas suas complicações.