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país da terra dura

Faz pouco mais de dois anos que voltei a morar aqui. Retorno inesperado e às vezes confuso aos territórios da infância. O sonho de morar a alguns quarteirões da escola do meu filho e o desligamento de uma relação de trabalho diário na Paulista me fizeram rever promessas e cá estou, de novo, no Butantã.

Como qualquer bairro, aqui tem seus cheiros elementais. Tem fogo na madeira das pizzarias se preparando para abrir e nas infalíveis churrasqueiras dos domingos; tem a água da mangueira regando os jardins nas manhãs de sol e da chuva que vem e para; o vento chega de lugares distantes e traz aromas da Serra do Mar ou do Planalto Central; a terra molhada ou seca, sempre com seu verde, goiabas maduras pelo chão, damas-da-noite e jasmins.

Uma neblina densa, também cheirosa, continua descendo em raras manhãs por ano e me lembra de cenas distantes do momento de ir para a escola, anos oitenta. Na época, essa neblina parecia ser mais frequente. Seria isso efeito de mudança climática ou da ilha da edição que é a memória?

São Paulo vista do Butantã em uma manhã de neblina leve. Foto: Dionizio Bueno.

Dizem que o País da Terra Dura sempre foi local de passagem. Em tempos recentes, é acesso às terras nos municípios do canto oeste da Região Metropolitana. Aqui se encontram os caminhos do Paraná (rodovia Raposo Tavares), de Santo Amaro (avenida Morumbi), de Itu (avenida Corifeu) e tantos outros. Foi rota de tropeiros, bandeirantes, jesuítas. Na Fonte do Peabiru, gente que viajava para bem longe parava para saciar a sede, encher os cantis, tomar banho em sua banheira de azulejos.

Em tupi antigo, yby é ‘terra’ e ãtã é o adjetivo ‘duro’. Na hipótese mais aceita, yby-ãtã-ãtã (a duplicação de um adjetivo tem efeito gramatical de intensificador) é ‘terra muito dura’, Butantã.

Antes o Butantã era para mim destino, geralmente para encontrar a família. “Hoje é dia de almoçar no País da Terra Dura”, eu costumava dizer. Agora passou a ser origem dos meus deslocamentos. Como moro na beira de uma estrada, a SP-312, ela naturalmente se tornou meu caminho da roça, a principal rota de acesso à cidade vizinha. Rapidamente me acostumei à ponte Eusébio Matoso, que antes eu evitava e agora considero das mais tranquilas de atravessar.

Hoje meu pai já não está mais aqui para eu lhe contar dos meus caminhos.

Há mais prédios, muitos prédios. Mas ainda há no País da Terra Dura importantes casas, quarteirões, vizinhanças, histórias que seguem de pé. De todos os ângulos, as visões da caixa d’água continuam me fascinando.

Aqui encontro amigos ao acaso quando caminho até a padaria ou o mercado. Aqui tem fogueira na praça, samba de mesa, maracatu, boi do Maranhão, roda de coco, bar com mesa na rua, kafta no pão com vinagrete, sopaipillas chilenas e, claro, caldo de cana e pastel nas feiras.

E os sons da vida, sempre. Panela de pressão no fogo, portão que abre rangendo, maritacas berrando a tarde toda, um vizinho pede que apaguem a luz, crianças brincam, apita o amolador de faca, vovó continua regando o jardim.

Enquanto eu puder sustentar o céu, firmo sobre esta terra dura.

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visão dos pássaros

“Enquanto os olhos do corpo permanecem perto do chão, o olho da mente – que é testemunha dessa representação em mapa – está lá em cima, com os pássaros.” (Tim Ingold, 2000)

Procuro no mapa o meu caminho até um lugar desconhecido. Localizo o ponto onde quero chegar. Encontro por ali uma grande via que vem da direção onde estou, traço o caminho que leva dessa via até o destino. Penso em como chegar daqui até essa via, ou até outra grande via que dê nessa via. Está pronto o meu trajeto.

Em um mapa, seja no papel ou na tela, todas as vias são linhas padronizadas e atravessam territórios monocromáticos. Posso antecipar sensações que penso que vou sentir ao chegar lá. Cada um tem sua forma de lidar com o desconhecido. Observo as imagens que criei a partir de histórias contadas sobre o lugar. Se o mapa for numa foto de satélite, posso ter uma pista sobre as cores predominantes mas, essencialmente, pouca diferença faz. Estou vendo o mundo pelos olhos dos pássaros, sem ser um pássaro.

Ao chegar lá, tudo isso vai mudar. Somente lá é que vou conhecer as janelas das casas, sentir o vento na cara e o sol batendo, seguir os cheiros, ver o rostos. É só lá que vou saber se as pessoas caminham com pressa, sobre o que conversam, o que fazem quando estão em frente de casa, se cuidam das plantas, como modificam a paisagem. É só lá que estarei aqui agora.

Foto: Dionizio Bueno

Tem uma coisa que sempre me acontece: enquanto o avião em que estou sobrevoa os subúrbios da cidade, já baixo, preparando para pousar, eu olho pela janela aquelas ruas e praças, talvez vazias se o vôo chega tarde da noite, desejando estar lá. A luz da iluminação pública, sobretudo nas cidades que ainda usam lâmpadas de luz quente amarela, são um convite acolhedor para estar com os pés no chão, sentado na guia ou num banco da praça, sentindo a temperatura da noite. Mas como é difícil descer desse avião.

Viver aqui agora nunca foi simples. O estado de presença se conquista com muita atenção, prática e persistência. Pode-se buscar o presente na forma de uma iluminação definitiva, dada geralmente a pessoas de cabeça raspada que vivem em retiro numa montanha do Himalaia. Ou pode-se viver sobre o chão, simplesmente. A iluminação vem em breves lampejos, pequenos presentes. Desse jeito, “nada especial”, como dizem os mestres zen.

É o momento em que você consegue olhar em volta e perceber profundamente onde está, onde essa caminhada de tantos anos te trouxe. Ver aquilo que está logo ali, sentir a brisa, a terra firme sob seus pés. E o céu lá em cima. Estar dentro da vida, em vez de sobrevoá-la.

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quinze minutos

Escolhemos morar em cidades para estar perto de outras pessoas, do comércio, dos serviços e oportunidades profissionais que não existem no campo. Porém, cá estamos e quase tudo está longe. Precisamos viajar diariamente dentro da própria cidade até para ter o básico. Onde foi que erramos?

A ideia de cidade de quinze minutos propõe uma forma de organização da cidade em que as pessoas possam ter perto de casa tudo que precisam em seu dia a dia. Nas propostas mais ambiciosas, esse perto significa quinze minutos de caminhada ou cinco minutos de bicicleta. Segundo o conceito, as vizinhanças devem suprir localmente as necessidades das pessoas dentro de seis funções sociais: moradia, trabalho, abastecimento, cuidados de saúde, educação e lazer.

Modelo de bairro conforme o projeto parisiense. Imagem: Ville de Paris (paris.fr). CLIQUE PARA AMPLIAR

Para a maioria das pessoas, a realidade não poderia estar mais distante disso. O cotidiano é marcado por muitas horas gastas em deslocamentos, seja em transporte público ou em veículos individuais motorizados. O trabalho distante de casa produz os movimentos pendulares, no início e fim do dia. As compras muitas vezes são feitas em mercados grandes, projetados para quem vem de carro fazer compras volumosas, já que não é todo dia que dá para ir a um mercado longe de casa. A cidade também concentra, apenas em certas regiões, as instituições privadas de saúde e de educação, que nada mais são que nichos específicos de mercado. Somente redes públicas de educação e saúde, planejadas com objetivo de servir a sociedade, e não de ganhar dinheiro, podem estar distribuídas igualmente em todos os pontos da cidade. Bairros desprovidos de espaços públicos em que a convivência aconteça espontaneamente, como praças, parques ou o próprio mobiliário urbano das ruas, obrigam as pessoas a se deslocarem quando podem para encontrar espaços destinados ao lazer, muitas vezes privados e associados ao consumo.

São muitos os desafios para a implantação desse conceito urbanístico, e morar perto de tudo pode muito bem não ser o sonho de qualquer morador da cidade. Sempre haverá, por exemplo, aqueles que preferem morar em bairros residenciais, chamados de ‘ilhas de tranquilidade’ nas concepções modernistas de urbanismo. Na década de 1960, em seu livro Morte e Vida de Grandes Cidades, Jane Jacobs fez uma importante crítica a esse modelo de cidade, que de tão organizada se torna fria, mostrando de uma forma muito bonita como a diversificação de usos traz vivacidade às ruas. A importância de bairros de uso misto, capazes de suprir as funções urbanas essenciais à vida diária das pessoas, é novamente colocada em pauta nesta época em que tanto tempo é perdido em deslocamentos urbanos.

No caminho em direção à cidade de quinze minutos, é preciso atuar em várias frentes: diversificação e distribuição do comércio local para que atendam necessidades diárias, conservação e reconfiguração de espaços comuns para que acolham os cidadãos, abertura de equipamentos públicos à comunidade para que desenvolvam atividades culturais e esportivas, limitação de vagas de estacionamento de forma a tornar a paisagem urbana mais acolhedora e incentivar mudanças nos hábitos de mobilidade. É preciso pensar simultaneamente nesses diversos aspectos, atuando sobre eles com os instrumentos de gestão apropriados.

O momento de discussões públicas sobre o plano diretor parece particularmente propício para se pensar, tendo essa visão de cidade como referência, nos efeitos de cada artigo da lei. Talvez o maior desafio seja evitar que essas experiências sigam o caminho da gentrificação, tendência natural do mercado imobiliário, e isso só é possível com forte resistência da sociedade civil. É importante que essas experiências sejam acessíveis, com oportunidades de moradias de diferentes tamanhos e custos e, sobretudo, com poucas ou nenhuma vaga de garagem. Afinal, a grande inspiração aqui é justamente uma caminhada de quinze minutos.

É claro que deslocamentos para fora dessas centralidades continuam existindo, com finalidades específicas e eventuais. Ao suprir necessidades básicas diárias, a cidade de quinze minutos propõe reduzir sensivelmente os deslocamentos longos, não eliminá-los. Até porque, para muita gente que escolheu morar em uma cidade grande, jamais ter que sair do bairro poderia tornar a vida bem menos interessante.

Experiências em cidades como Paris, Dublin e Portland mostram que é possível unir um modo de vida mais local e saudável à vivacidade das grandes cidades. Ainda que a tecnologia e as máquinas tragam outras alternativas a quem tem acesso a elas e escolhe viver dessa forma, as cidades precisam oferecer a todos a possibilidade de uma vida dentro da escala humana. É este, talvez, o lugar de onde jamais deveríamos ter saído.

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varan-dô

Entre o aqui dentro e o lá fora, existe um espaço liminar onde parte da vida precisa acontecer: a varanda. A necessidade humana de não fazer nada encontra aí o ambiente perfeito. Estrategicamente localizada lá fora, onde estão o vento, as árvores, as luzes do dia, os cheiros da noite, mas ao abrigo do sol e da chuva, a varanda permite que se fique lá fora por horas a fio.

Esse espaço privilegiado, presente há muitos séculos na arquitetura vernacular brasileira, permitiu o surgimento de uma arte que vem sendo aperfeiçoada sem mestres, em inúmeras linhagens espontâneas, conhecida como varan-dô – o caminho da varanda.

Como acontece com qualquer caminho de desenvolvimento pessoal e espiritual, o varan-dô deve ser praticado com seriedade e respeito a certos princípios básicos. Talvez o mais importante deles seja: não fazer nada. Deve-se encontrar uma posição confortável na cadeira, na rede, em uma almofada ou mesmo no chão e ali permanecer de maneira descompromissada, de olhos abertos, apenas olhando.

Foto: Dionizio Bueno

Existe aqui uma curiosa semelhança com o princípio taoísta da não-ação (wu-wei), sem que haja qualquer evidência de origem comum ou influência mútua entre esses dois caminhos milenares.

Deve-se fazer um alerta ao praticante novato, que tende a confundir as coisas. Tendo encontrado uma posição confortável, especialmente quando dispõe de uma rede, o praticante pode se sentir tentado a fechar os olhos, e isso vai fazer com que se perca de sua prática, a ponto de adormecer. Nesse caso, novato, você não está praticando o varan-dô, você está dormindo. O varan-dô, conhecido em muitas províncias também como varandismo, se pratica de olhos abertos. Qualquer que seja o caminho, o verdadeiro desenvolvimento demanda certos esforços.

Dificuldade semelhante encontra também o praticante do yoga com a postura shavasana, na qual deve haver, junto com um relaxamento profundo em posição deitada, um sério empenho para evitar que se adormeça. A respiração correta pode ajudar bastante nos dois casos.

A prática do varan-dô pode também acontecer em grupos. Quando se ocupa uma varanda junto com os amigos, os momentos se sucedem de maneira natural: conversa, risada geral, cantoria. E há também os momentos em que todos se calam. É aí, nesse silêncio grupal, que se pratica coletivamente o varan-dô. Cada um olhando aquilo que quiser: uma nuvem, uma formiga, a lua, a árvore que balança ao vento, o pássaro que também apenas olha, as galinhas ciscando, o pensamento e seus caminhos ao infinito.

Na ausência de uma varanda física, o varan-dô pode ser praticado, ainda que de forma bastante limitada, sob um beiral, em um quintal ou junto a uma janela. A intenção é essencial nesta prática.

No encontro do aqui dentro com o lá fora está o grande portal. A prática diária traz equilíbrio e grandes benefícios à saúde do corpo e da mente.

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destino

Tempos de confinamento e trabalho remoto, a rua vai ficando longe, ou apenas para saídas estritamente necessárias. Para diversão, não pode. A preguiça começa a se misturar aos julgamentos. Preciso mesmo sair? Deixa pra lá.

Eis que surge um motivo qualquer para sair de bicicleta: encontrar alguém que você não vê há tempos, uma questão prática para resolver na rua, um lugar agradável para comer ou beber numa cidade vizinha, ou apenas ver se aquela praça tão bacana ainda está no mesmo lugar. Eis que surge um destino.

Felizmente o destino está lá, não aqui. A viagem se faz necessária.

Técnicos de transportes dizem que as zonas e os locais da cidade “produzem ou atraem viagens”, definidas como o “deslocamento de uma pessoa, por motivo específico, entre dois pontos determinados (origem e destino), utilizando um ou mais modos de transporte”.

Aqui diremos simplesmente que o destino cria o caminho.

Um caminho existe porque alguém precisa ir. Caminho é uma linha, e linhas são histórias. Fora disso, é tudo espaço, sem forma nem sujeito.

Então você sai atrás do seu destino, encontra o ar da primavera e se dá conta da confusão que estava prestes a te tragar. Destino era tudo que faltava para você sair lá fora, tomar sol, sentir o vento na cara.

Na avenida, um clarão de teoria da compexidade chega na forma de um tostines: está faltando vento na cara porque a vida anda sem destino ou a vida anda sem destino porque está faltando vento na cara? Girando em velocidade de cruzeiro, os aros da sua bicicleta vão te afastando da zona de conforto.

Destino é uma dádiva. É a vida te convidando ao movimento. Sem ele, não pense que a cabeça aguenta.

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cidade vizinha

Uma das coisas boas de morar em cidade pequena é ter que pegar a estrada para ir até outra cidade fazer compras, resolver coisas, visitar pessoas. Ter estrada na vida faz bem para a cabeça. Quem vive em uma mancha urbana contínua e interminável também viaja, muitas vezes o mesmo tanto ou até mais. Apenas perde a parte boa que é a estrada.

As cidades sempre tiveram suas entradas e saídas, conexões com outras cidades ou com seus bairros e distritos afastados. Quando o núcleo urbano ainda é pequeno, esses bairros e distritos ficam separados da sede municipal e entre si por áreas rurais. É preciso algum esforço para imaginar Lapa, Santo Amaro, Penha ou Freguesia do Ó separados de São Paulo por áreas de mata. Com o tempo a mancha urbana cresce e começa a englobar bairros e até cidades que estão em volta, num processo chamado conurbação. O crescimento acompanha as estradas que ligam esses núcleos, elas perdem o aspecto de estradas rurais e vão se transformando em vias urbanas muito movimentadas, já que preservam sua função histórica de serem conexões entre centralidades importantes.

A bicicleta não recupera a paisagem, mas pode recuperar o sentido de estrada. No ritmo da bicicleta, a estrada continua onde sempre esteve.

Próximo à igreja da Consolação começa o caminho de Pinheiros. Imagem: Carta da Capital de Saõ Paulo – 1842 (fragmento). José Jacques C. Ourique / Wikimedia Commons. CLIQUE PARA VER IMAGEM COMPLETA

Daqui do Butantã, meu trajeto para São Paulo geralmente vai pela SP-312, pelo menos até cruzar o rio Pinheiros e a primeira ferrovia. Quando eu morava do lado de lá, eu vinha para o Butantã por outro caminho. A ponte da SP-312, conhecida como Eusébio Matoso, me parecia feia e perigosa. Agora vejo que era apenas falta de costume. Hoje ela parece uma das mais simples de atravessar, pois a subida é leve em ambos os sentidos, dá para manter uma boa velocidade, a tensão da travessia dura poucos segundos.

Menos de um quilômetro depois da ponte é preciso fazer uma escolha. Virando à direita, atravessamos uma planície cheia de riozinhos e alagados, onde hoje existe uma grande cidade-jardim. Vamos então subindo aos poucos até encontrar uma imensa área verde urbana com um lago. Indo em frente, seguimos rumo a São Paulo, mas teremos antes uma longa subida para cruzar o Caaguaçu em um de seus pontos mais altos. E seguindo à esquerda chegamos a um largo, em Pinheiros, onde havia o Mercado Caipira e de onde saíam os bondes para São Paulo. Dali, podemos pegar a Estrada da Boiada, por onde se chega à Lapa e à outra ferrovia, contornando o Caaguaçu.

Na volta, dependendo do roteiro da viagem, às vezes escolho pegar outra ponte, aquela que eu costumava usar antes. Ela fica logo ao lado da Adutora de Cotia, sai da várzea próxima da Estrada da Boiada e vai dar bem perto dos portões da universidade. Nesse local, pego um trecho de uma importante estrada federal, a BR-116. Mesmo sendo uma via de tráfego intenso (reduziu bem com a abertura do rodoanel), esse trecho não me parece tão perigoso (será o costume?). Logo essa estrada encontra a SP-312, onde viro à direita, no sentido de Itu. Há então um trecho plano e um tanto monótono, num falso-plano ascendente, onde é comum haver também um leve vento de noroeste (vento contra, portanto). Felizmente já estou perto de casa.

Às vezes é bom não ter tudo por perto. Dependendo do olhar, uma viagem urbana pode ser uma boa oportunidade de pegar a estrada.

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paisagem urbana

Localizada na borda de um morro, esta praça costumava ser um local para apreciar a vista da cidade. Tanto que ganhou o nome de Mirante da Vila Gomes. Só que a vegetação cresceu.

Foto: Dionizio Bueno (março/2021)

A folhagem é linda, forma uma parede verde que envolve aquele espaço. Porém a praça perdeu um de seus atrativos mais especiais.

Outros usos continuam existindo, como se pode comprovar em alguns minutos de observação no local: levar o cachorrinho fazer cocô, encontrar vizinhos e conversar, fumar um cigarro, praticar nos aparelhos de ginástica, sentar no banco e olhar a rua. Esses são os usos possíveis de praticamente qualquer outra praça da cidade. Esta, por sua posição, tinha um uso peculiar, e agora não tem mais.

Uma foto tirada pouco mais de dois anos antes da anterior dá uma pequena ideia da vista que havia. Em primeiro plano, o casario do outro lado do vale logo atrás. Depois, as árvores do espigão onde passa a rodovia Raposo Tavares. E ao fundo, o horizonte de prédios lá para os lados da Vila Sônia, a alguns quilômetros dali.

Foto: Murilo Capelini (janeiro/2019)

Espaços públicos bem aproveitados em todas suas potencialidades tornam-se lugares vivos, cheios de gente, acolhedores. São um convite para que as pessoas estejam ali convivendo, em vez de ficarem isoladas em espaços privados.

Queremos muitas árvores e áreas verdes em nossa cidade, mas é também preciso compreender como o excesso de vegetação pode, em algumas situações, ser um fator limitante. Praças com mato alto onde deveria haver um gramado não são atrativas. Locais com excesso de cobertura arbórea tornam-se escuros e transmitem sensação de insegurança. Uma parede de vegetação cria pontos em que as pessoas não se sentem vistas, e isso traz sensação de vulnerabilidade. E, como mostra o exemplo desta praça, inviabilizam um mirante.

Casos como esses mostram que, mesmo quando se trata de verde, mais não é necessariamente melhor.

A paisagem urbana é um elemento importante das cidades. Cenários como o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, a Cordilheira dos Andes em Santiago e o Monte Fuji em Tóquio tornam esses lugares únicos. Em alguns casos, o valor da paisagem pode inclusive ser monetizado: apartamentos com uma vista bonita são mais caros que imóveis equivalentes porém sem a vista.

Se a topografia de um espaço público proporciona uma bela vista que pode ser desfrutada por todos, é difícil entender como isso pode ser jogado fora, seja por gesto intencional ou por descuido.

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o feio e o desconhecido

Avenida periférica, longos quarteirões desertos, imóveis comerciais fechados, as portas pichadas, cimento quebrado, ninguém caminha pela calçada. O asfalto deformado da pista faz tremer a bicicleta, fico atento a qualquer buraco que pode aparecer à frente.

As travessas desta avenida dão em ruas residenciais onde o vazio da noite nos faz desconfiados. As pessoas já se recolhem em suas casas. De cada facho da iluminação pública vem um conforto, que fica para trás conforme sigo, e então vem outro.

Num lampejo de pensamento, vejo isso tudo feio, como se estivesse pedalando de noite em um bairro desconhecido.

No passado, estas bandas já foram meu caminho da roça, este era o meu território. Feio ou bonito, eu não julgava. Via apenas o caminho de casa.

Então eu passei um tempo longe, raramente vinha de bicicleta a estas bandas.

Meu olhar se afastou.

O tempo longe me devolveu o olhar de estrangeiro. Voltei a ter nesta paisagem a mesma sensação que tenho em avenidas semelhantes, igualmente periféricas, de bairros da cidade em que quase nunca passo.

Percebi que muitas vezes o feio de certas paisagens é apenas o desconhecido.

De longe, no estranhamento, o feio sobressai numa paisagem que, vista de perto, é simplesmente o meu caminho.

Faz poucos meses que mudei, volto a viver e pedalar por aqui. Com o tempo, nem perceberei mais essas rebarbas. Na manhã nebulosa, no sol escaldante, na noite quente de primavera, na madrugada voltando do bar, minha bicicleta logo desviará sozinha dos buracos no asfalto, estarei em casa.

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bioindicadores

Certos locais da cidade sofrem processo de desertificação. O desenho viário e o uso do solo são talvez os maiores determinantes desse processo.

Vias expressas, por exemplo, são locais que tendem à desertificação total. Formam paisagens urbanas extremamente hostis, lugares desagradáveis de se estar ou caminhar. Cada vez menos gente vai querer andar por ali, geralmente só se veem máquinas nesses lugares. Além do prejuízo à paisagem urbana, as atividades econômicas são também muito afetadas. Estabelecimentos comerciais ou prestadores de serviços que dependem da presença das pessoas tendem a fechar, a menos que ofereçam vagas próprias de estacionamento.

Áreas exclusivamente residenciais também costumam ser desertas de gente. Especialmente no caso das áreas ricas, a presença humana costuma ser restrita aos guardinhas da rua, ao vizinho (ou seu empregado) que vai apressadamente deixar o lixo na caçamba de coleta, ao dono (ou passeador) de cachorro que sai para atender às necessidades fisiológicas do animal. Nesses lugares as ruas geralmente só servem para a passagem de máquinas.

Ar puro é condição para a existência de líquens. Foto: Jacques Gaimard / Pixabay.

Diante desse processo de rarefação da presença humana, certos elementos da cidade acabam adquirindo sentidos que vão além de sua função instrumental original. Fazemos aqui um paralelo com os líquens, formas de vida muito sensíveis que sobrevivem apenas em lugares onde o ar é minimamente limpo. Assim, no contexto de um planeta poluído, os líquens passam a ser bioindicadores. Se você mora numa cidade cheia de fumaça, mas encontra líquens nas cascas das árvores perto da sua casa, considere-se um privilegiado.

Em cidades que de tantas formas incentivam que as pessoas passem a vida dentro de bolhas de aço, barracas de café da manhã podem ser consideradas bioindicadores. Assim como os líquens dependem de ar puro, barracas de café da manhã dependem de gente para sobreviver.

Presença certa de café quente e calor humano. Foto: Dionizio Bueno.

A rigor, vendedores de quaisquer produtos que montem suas barracas nas calçadas poderiam ser considerados bioindicadores. Porém, por ficarem montadas apenas nas primeiras horas do dia, barracas de café da manhã são menos sujeitas à fiscalização, e isso torna possível que estejam em mais lugares. São encontradas não apenas em lugares óbvios, como calçadões centrais ou proximidades de terminais de ônibus e estações de trem e metrô. Nestes casos, sua presença traz uma informação redundante, esses lugares são evidentemente cheios de gente.

Barracas de café da manhã eventualmente aparecem em áreas sujeitas a desertificação, nas quais a presença de pessoas andando pela rua já não é tão óbvia. Esses bioindicadores urbanos dificilmente serão vistos naqueles bairros considerados nobres, com suas ruas tortuosas e quarteirões intermináveis. Esses bairros são deliberadamente projetados para dificultar o acesso de pessoas a pé, e geralmente seus planejadores são bem sucedidos nesse objetivo.

Porém é possível encontrar esses bioindicadores em bairros que, mesmo sendo residenciais ou predominantemente residenciais, sirvam de passagem para áreas de uso misto, áreas comerciais ou estações de transporte de alta capacidade. Graças a esses elementos de atração, algumas ruas desses bairros se tornarão rotas de pessoas caminhando. Ao ver uma barraca de café da manhã em uma rua não comercial, podemos ter certeza de que por ali passa gente.

Há quem encha a boca para falar que mora em um bairro estritamente residencial, e possivelmente esse cidadão se sente incomodado com a presença de pessoas e comerciantes na rua, além de talvez ficar aflito com a perspectiva de uma estação de metrô perto de sua casa.

Felizmente há também cidadãos que gostam de gente, que se sentem seguros e confortáveis quando percebem que há outras pessoas por perto e não estão cercados apenas de máquinas. Esses podem sentir-se privilegiados não só quando encontrarem líquens nas árvores, mas também quando notarem a presença de alguém vendendo pão de queijo, bolo de fubá e café com leite todos os dias, bem cedinho, perto de suas casas.

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jane

Algumas teorias do urbanismo defendem que, no planejamento de uma cidade, deve haver um lugar para cada tipo de uso. Lugar de morar só serve para morar, e portanto não deve haver aí qualquer outro tipo de atividade. A expressão ‘zona estritamente residencial’ vem dessa ideia de cidade. Nos lugares para trabalhar, você encontra prédios e mais prédios de escritórios. Nas áreas de alimentação há padarias, restaurantes, bares, cafés, bistrôs. Há também as áreas comerciais, onde ficam estabelecimentos de todos os tipos, e as ruas passam o dia todo cheias de gente entrando e saindo das lojas.

Porém, quando termina o horário comercial, as lojas fecham e as ruas ficam completamente desertas. Pense em uma rua da sua cidade onde há somente lojas, porém nenhum bar de esquina que continue aberto para as pessoas jantarem ou tomarem alguma coisa depois do trabalho. À noite, não dá vontade de passar por esses lugares. Além disso, nesse tipo de cidade, como existe um bairro para cada coisa, as pessoas são obrigadas a fazer deslocamentos, às vezes longos, para quase tudo que não seja ficar em casa: comprar pão, trabalhar, comer fora, fazer compras.

Essa lógica de planejamento urbano foi diretamente criticada no livro Morte e Vida de Grandes Cidades, publicado em 1961 pela jornalista, escritora e ativista estadunidense Jane Jacobs.

Jane ganhou destaque ao organizar movimentos de resistência contra obras de reconfiguração urbana que destruiriam bairros que, mesmo sendo lugares de intensa vida comunitária, consolidada há décadas, eram considerados problemáticos pela visão higienista da administração municipal e de alguns grupos de interesse. Algumas dessas obras incluíam a construção de grandes avenidas em locais onde havia parques ou moradias.

O então prefeito, Robert Moses, era representante de uma concepção urbanística na qual as regiões da cidade eram comparadas a partes do corpo, as quais podiam ser saudáveis ou doentes. As áreas consideradas degradadas, por exibirem mazelas sociais, eram vistas como tecidos degenerados a serem extirpados da paisagem.

Em seu livro, Jane Jacobs apresenta e defende algumas diretrizes de planejamento urbano com a finalidade de fomentar a vivacidade dos bairros e cidades: usos mistos, alta densidade de ocupação, quadras curtas que facilitem os deslocamentos a pé, entre outras. As diretrizes buscam incentivar a presença das pessoas nas ruas e a interação entre elas.

Se a segurança pública era uma questão que estava (parece que de alguma forma sempre está) no centro das discussões sobre a cidade, Jane argumentava que um fator determinante para aumentar a segurança e coibir a violência são os olhos das ruas: pessoas passando, pessoas conversando nas calçadas, pessoas entrando e saindo dos estabelecimentos comerciais, pessoas observando a rua das janelas. Dia e noite.

Aqui está a importância dos usos mistos dos bairros em vez da ocupação especializada, defendida por muitos urbanistas. Em locais com uso diversificado, existe vida na rua praticamente o tempo todo. Logo cedo há muita gente indo para o trabalho, depois tem gente caminhando até o mercado para comprar algo, ou segurando uma criança pela mão para levá-la à escola, ou indo ao parque praticar algum esporte. À noite, findo o movimento dos trabalhadores voltando para casa, as ruas estarão ocupadas por aqueles que estão indo jantar fora, encontrar amigos em bares, ou estão voltando de um programa cultural.

Diversidade de usos anda junto de diversidade social. Jane Jacobs faz uma interessante defesa da presença de “estranhos”. No lugar do discurso da exclusividade que marca muitos bairros residenciais, buscando restringir a frequência local à presença dos nossos conhecidos, Jane exalta a presença de gente de outro lugar. Pessoas diferentes têm hábitos, agendas e interesses diferentes, portanto usam a cidade de maneira diferente. Isso contribui para que os estabelecimentos e os equipamentos urbanos sejam usados nos diversos horários, dia e noite, tornando as ruas mais seguras. “Quanto mais estranhos houver, mais divertida ela [a rua] será” (p. 41).

Episódios de violência são mais comuns em ruas desertas do que em locais povoados. Ruas exclusivamente residenciais produzem medo, e isso acaba levando a soluções privatistas como o fechamento de ruas, que eliminam definitivamente o caráter publico desses espaços urbanos.

Assim, Jane Jacobs propõe uma cidade que, literalmente, olha para as pessoas e as convida a ocupar as calçadas, as praças e as ruas. Aqui, o outro deixa de ser visto como uma ameaça e passa a ser um aliado na construção de uma dinâmica urbana viva e inclusiva.

=== ATUALIZAÇÃO em março/2022 ===

O conceito de cidade de quinze minutos, sobre a qual vim a escrever em 2022, recebeu grande influência das reflexões de Jane Jacobs.

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