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proteger os outros

Nas estações e trens da CPTM, estão veiculando desde o dia 8 de maio uma excelente campanha para incentivar o uso de máscaras, bem diferente daquilo que vem sendo dito em outros meios de comunicação.

“A minha máscara te protege, a sua máscara me protege.”

O texto é claro e sintético ao passar uma instrução aos usuários, com a peculiaridade de evitar o argumento de autoridade da lei, “use porque é obrigatório”. O mais interessante, porém, é a campanha trazer a ideia de que o uso da máscara é um cuidado com os outros, com a coletividade. Além de explicar como a máscara funciona neste contexto, é uma estratégia exemplar do ponto de vista civilizatório.

Até então, pelo menos naquilo que chegou ao conhecimento desta coluna, nenhuma campanha havia sido tão clara e assertiva quanto ao fato de a máscara ser um cuidado com os outros. Ao omitir esse aspecto da importância da máscara, acabam deixando prevalecer a ideia mais intuitiva de que a máscara é um recurso que a pessoa usa para se proteger dos outros. Lembremos que se trata de um EPI (equipamento de proteção individual).

Claro que uma máscara também dificulta a entrada do vírus no nariz ou na boca. Mas se fosse só essa sua função, a proteção seria ineficaz no contexto desta pandemia por um motivo simples: ela não protege os olhos, e sabe-se que essa é uma das vias contaminação. As pessoas só estariam protegidas se usassem, além da máscara, algo que protegesse totalmente os olhos, como óculos de natação.

A principal importância da máscara consiste em dificultar a saída do vírus durante a fala, onde gotículas de saliva são emitidas involuntariamente. A estratégia é evitar que o vírus seja emitido para o ambiente; sendo utilizada por todos, minimiza-se a chance de contágio. Assim, cada máscara serve muito mais para proteger os outros do que para proteger quem a utiliza. Quando a comunicação falha em esclarecer esse aspecto, a máscara tende a ser entendida como autoproteção.

Se fosse esse o caso, seria legítimo que cada um escolhesse usar ou não a proteção, pois apenas a própria pessoa estaria sujeita às consequências da escolha. Alguém que está menos preocupado com a pandemia, por se considerar forte e saudável o suficiente para enfrentá-la sem maiores danos, poderia exercer sua liberdade individual e evitar o desconforto de ter algo preso ao rosto e às orelhas.

Mais problemático ainda é o aspecto simbólico que decorre disso. Se boa saúde é motivo para não usar máscara, o gesto de não usá-la adquire um sentido social, tornando-se uma forma ostentar condição física, de dizer para o mundo “estou forte e não temo essa ‘gripezinha’”. Não foi por acaso que um pronunciamento desse saiu da pessoa que ocupa atualmente o cargo de presidente da república, um representante tão caricato do extremo individualismo que existe em nossa sociedade.

Principalmente depois de uma frase como essa ter sido veiculada nacionalmente logo nos primeiros momentos da pandemia, as campanhas pelo uso da máscara poderiam ter sido mais rápidas em desfazer esse equívoco, esclarecendo que a máscara é um cuidado com o outro, não um signo social de medo.

Aliás, já é bastante estranho como o uso de máscaras demorou para se tornar obrigatório. O decreto estadual que determinou isso veio somente em 4 de maio, quase dois meses após o início das medidas de isolamento (22 de março) e três meses após ter sido declarada Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (3 de fevereiro). Mesmo sabendo de sua importância por meio de exemplos em outros países (inclusive de epidemias anteriores, como a da SARS, em 2003), os gestores parecem ter resistido à ideia de impor essa prática às pessoas. Talvez tenham avaliado que evitar o custo político dessa imposição fosse mais importante que evitar a disseminação da doença, e que talvez precisassem esperar por um estágio mais avançado da pandemia para que a medida fosse mais bem recebida pela sociedade.

Cabe até indagar o porquê da hesitação ou mesmo resistência de tantas campanhas em explicitar esse aspecto do cuidado com o outro. Será que os criadores das campanhas mais comuns consideraram que um argumento altruísta não faria sentido na cultura brasileira, e portanto uma mensagem focada nisso seria ineficaz? Ou talvez tenham assumido que o sentimento de medo, que leva a pessoa a se proteger dos outros, produziria melhores resultados do que a ideia, um tanto racional e contraintuitiva, de que a máscara serve para proteger quem está em volta e não quem está usando. Talvez ainda tenham avaliado que explicar ao cidadão que ele deve usar a máscara para evitar o risco de infectar os outros faria com que ele se sentisse um “contaminado ameaçador”, gerando resistência à mensagem.

Por seu impacto generalizado na vida cotidiana das pessoas, essa pandemia tem oferecido oportunidades para que se revejam valores e aprendam formas de convivência que se afastam do “cada um por si” que caracteriza muitas práticas culturais brasileiras. A comunicação de massa poderia aproveitar tais oportunidades. O caso da máscara ilustra bem como certas ações individuais têm impacto coletivo, bastando uma simples informação para mostrar isso na prática. Num contexto de pandemia, em que o outro pode sempre ser visto como uma ameaça, uma frase como “a minha máscara te protege, a sua máscara me protege” se torna uma pílula de civilidade.

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alternativa

Ao anunciar notícia sobre a falha que está ocorrendo em algum ponto do sistema de transporte coletivo, o radialista pede a atenção dos ouvintes potencialmente interessados na informação que segue.

– E atenção, você que depende do transporte público!

Note que ele não diz “você que utiliza o transporte público”, mas sim “você que depende do transporte público”.

Na cabeça do radialista, a única condição para que alguém use o transporte público é que dependa dele, ou seja, não disponha de uma alternativa melhor, a saber, o transporte individual motorizado. Pois aqueles que dispõem certamente já terão, no seu entender, optado por ir de automóvel.

A frase é, em primeiro lugar, imprecisa. Por mais que esse radialista ache estranho, existe sim um número significativo de pessoas que têm a opção do transporte individual motorizado mas preferem usar o transporte público para ir até os seus compromissos.

Além disso, a frase é ideológica. Ela reforça a mensagem de que quem tem alternativa ao transporte público irá naturalmente usá-la. Ela justifica o estranho projeto de vida de milhares de motoristas.

O ouvinte que tem alternativa mas prefere o transporte público não encontra lugar no vocativo usado pelo radialista. Esse ouvinte é potencialmente afetado pela tal falha no sistema, portanto a informação lhe diz respeito. Mas ele está excluído da notícia pois, da forma como é anunciada, ela só vai interessar aos que dependem do transporte público, aos que não têm alternativa.

É evidente que, caso perguntado, o radialista dirá que não pensa assim. Difícil assumir explicitamente uma crença como essa, sobretudo quando se trata de um comunicador ou de qualquer figura com visibilidade pública.

Mas de maneira implícita, com ou sem consciência do que ele acabou de dizer, o radialista já deu o seu recado. E a audiência já assimilou.

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