dia 6 – reentrada

Depois de uma foto na varanda com Alex e seu tio, olhei aquela paisagem urbana calma e silenciosa e me despedi de São José dos Campos. Vou para casa.

Nos meus primeiros quilômetros do dia, tive a companhia do Alex. Saímos por uma via expressa que nos levou até a SP-070. Paramos num posto logo em seguida, de onde ele retornou. Tomei toda água da garrafinha, voltei a enchê-la e segui.

No rio Paraíba começa uma subida longa e leve até o divisor de águas, já na Grande São Paulo, onde entramos na bacia do Tietê.

Um pouco depois, logo que o nome da rodovia muda para Ayrton Senna, pneu furado. Conforme a amostra desta e de outras experiências semelhantes, posso dizer que a maior probabilidade de furar pneu nesse tipo de viagem está no primeiro e no último dia. As grandes rodovias, que usamos para nos afastar rapidamente da capital ou chegar de volta nela, têm o acostamento cheio de pedaços de vidro e de malha de aço. No Brasil, os acostamentos jamais são limpos pela ação humana. Quando muito, por uma chuva forte.

Os dejetos deixados por automóveis e caminhões são a maior causa de furos de pneus.

Numa viagem ao espaço, um dos momentos mais difíceis é o da reentrada na atmosfera. Num Épico, é o momento da reentrada na inóspita mancha urbana, caso você more em uma. Portanto sempre haverá momentos de tensão e incerteza reservados para as etapas finais, não existe aquele ponto da viagem em que a gente pensa, “Pronto, daqui para frente é só doçura, cheguei”. Talvez seja precisamente isso que faz do Épico um Épico.

Os morros ao redor da estrada começam a se tornar povoados. Primeiro alguns bairros esporádicos, depois mais frequentes, até virarem uma coisa contínua.

Parei no posto de Itaquaquecetuba para descansar um pouco e comer. O clima da cidade grande estava todo ali: pessoas entrando e saindo rapidamente, estacionando e manobrando seus carros, acelerando com força para encarar os últimos quilômetros de estrada antes de mergulhar na cidade. A chuva já se avizinhava, e começou logo que saí do posto.

Então, pouco antes do pedágio, eu encontrei a placa que eu não esperava: proibido bicicleta. A administradora da rodovia transformou todo o espaço da pista em faixas para o tráfego, eliminando o acostamento. Junto do pedágio ainda havia uma calçada, por onde fui, mas ela acabou logo adiante.

Foram momentos de terror. Caminhões passavam rentes à minha orelha. Os pneus em alta velocidade jogavam para cima aquela água suja, tornando tudo ainda mais cinza. À direita da pista, a menos de um metro da minha bicicleta, havia uma enorme vala para o escoamento da água da chuva. Logo depois, o guard-rail da estrada, o mato e um barranco. Não havia alternativa, não havia como parar para descansar ou desistir no meio. A única opção era seguir adiante.

Mantive o ritmo mais intenso que pude, odiando a administradora e rezando para nenhum caminhão me varrer dali. Quando o acostamento voltou, finalmente pude relaxar. Eu ria alto e com gosto, celebrando por continuar vivo.

Saí da rodovia no acesso à avenida Jacu-Pêssego. Começava o longo trecho zona leste da minha reentrada. A chuva já ia parando. Eu conhecia pouco essa avenida, mas já estava na cidade. Foram vários quilômetros até a saída para Itaquera, onde segui pela avenida José Pinheiro Borges, construída sobre o leito ferroviário da Central do Brasil, cujos trilhos foram removidos recentemente. O trânsito um pouco saturado de automóveis ajudou bastante nesse trecho, pois a segurança do ciclista aumenta conforme a velocidade média dos automóveis diminui.

Finalmente cheguei na estação Itaquera, onde começa a ciclovia que me levaria até o Tatuapé: aproximadamente 12 quilômetros de relativo sossego, sem preocupação com automóveis. Apenas pedalar e ficar atento ao entorno e às muitas poças d’água, pois é fácil derrapar no chão molhado extremamente liso da ciclovia.

Quase 20 quilômetros ainda pela frente, e eu já me sentia em casa.

Depois da ciclovia começava o trecho Belenzinho. Foi bom ter feito um reconhecimento desse caminho algumas semanas antes da viagem, para me sentir à vontade e saber meu caminho sem depender de um roteiro de ruas. Era domingo, fui contemplando a vida de bairro que acontecia ali: bares, missas, vizinhos, música, gente se encontrando.

Ao cruzar o rio Tamanduateí, ao lado do mercado municipal e da Zona Cerealista, tive uma bela tomada panorâmica do centrão da cidade. Lugar conhecido, mas poucas vezes percorrido assim, de bicicleta. E nenhuma delas com bagagem, vindo de longe.

Comemorei o fim da última subida da viagem, fiz o retorno perto da igreja logo adiante e desci rumo à minha rua, girando devagar para curtir o momento. O portão do prédio subiu. Estou em casa.

Fui até Minas Gerais e voltei!

Larguei a roupa molhada e suja no chão da cozinha e corri para o banho quente. O banho da chegada! Eu ria sem parar. Ria do calor da água, ria por estar de volta, ria da sensação que a estrada deixa nas pernas.

Gosto muito de uma frase que minha mãe sempre me disse: “Boa viagem faz quem em casa fica em paz”. Uma nobre verdade. Existe também a relação inversa. Viagens como esta trazem imensa paz em estar em casa. A paz que só a estrada ensina.

altimetria dia 6

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