Arquivo da categoria: bicicleta

olho no olho

Escolhemos viver entre as máquinas, precisamos aprender a conviver com elas.

Elas têm sua própria linguagem, comunicam-se através de gestos e sons. São bastante enfáticas ao realizar demonstrações de força e atos de intimidação. As máquinas criam suas próprias formas de interação e isso estabelece as leis das ruas. Ao optar por dirigir, o motorista está aceitando viver segundo essas leis.

Mas pedestres e ciclistas não somos máquinas. Ainda que estejamos sempre vulneráveis à superioridade física das máquinas, sem uma armadura de aço para nos proteger, nem por isso devemos colaborar para reafirmar as leis das ruas.

Com frequência teremos que disputar espaço com as máquinas, mas faremos isso sem perder a ternura.

Ao caminhar pela cidade, o pedestre terá que cruzar o caminho das máquinas a cada esquina. Faixas de pedestre podem ou não existir nesses pontos de travessia, mas isso não fará muita diferença.

Ao pedalar pela cidade, o ciclista terá que se impor sobre as máquinas sempre que, estando na via preferencial, aproximar-se de um cruzamento. Pode até haver placas sinalizando essa preferência, mas isso também não garante nada, e é possível que a máquina, sendo mais forte, tente entrar na frente.

Nos dois casos, somente um recurso poderá prevalecer sobre a força bruta da máquina: olho no olho.

Pedestre ou ciclista, se você estiver em posição que lhe dê prioridade, faça o que tem que fazer. Ocupe o seu espaço. Mas faça isso olhando nos olhos do motorista que tentar disputar com você.

A mensagem emitida pelo seu olhar será bem clara.

“Sim, eu estou passando aqui. Tenho prioridade neste local e o senhor vai sim esperar.”

É incrível como essa mensagem chega com eficácia lá do outro lado, o motorista entende perfeitamente e age de acordo.

Evidentemente você vai fazer isso com algum grau de segurança para recuar ou desviar caso o motorista permaneça na sua arrogância. As ruas estão cheias de psicopatas e, protegido por uma armadura de aço, o motorista não tem quase nada a perder. Você tem.

Em alguns casos será difícil encontrar o motorista lá dentro por causa dos vidros pretos. O olhar de uma pessoa é de fato algo muito poderoso e ameaçador, e assim cada vez mais motoristas escolhem se proteger atrás de um capuz.

Você não precisa ver o motorista para olhar em seus olhos. Você sabe mais ou menos em que posição do pára-brisa ele se encontra, simplesmente olhe naquela direção. Ele não tem como saber que você não está enxergando. Seu olhar e sua mensagem chegarão do mesmo jeito, e ele vai esperar.

Junto com o olhar, deve vir um gesto e uma postura corporal de quem está seguro no que está fazendo e tem conhecimento dos seus direitos. Seja assertivo. A assertividade é uma atitude que transmite clareza e segurança, sem agredir. Ambiguidade e hesitação podem comprometer a sua mensagem, e você não vai atingir seu objetivo, que é ocupar o seu espaço com segurança.

As máquinas são muito mais fortes do que você, não espere dela qualquer compaixão. É bem possível que exista lá dentro um outro ser humano, capaz de agir com responsabilidade e de respeitar os acordos de convivência. Mas, caso não exista, o olho no olho é o melhor recurso para tentar atingir algum resquício de humanidade que haja lá dentro.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

motivos

A avenida tem ciclovia. Mas mesmo assim, você vê um ciclista trafegando pela rua.

Antes de criticá-lo, você pode ao menos supor que ele tem os seus motivos.

Afinal, ele está abrindo mão de usar um espaço que, supostamente, deveria tornar seu deslocamento mais fácil e seguro. Acontece que isso nem sempre é verdade.

Há diversos motivos para preferir a rua à ciclovia. Vamos a alguns deles.

Ciclovias perigosas

Algumas ciclovias são cheias de curvas (que obrigam a reduzir a velocidade), têm árvores no meio (comprometendo a visibilidade) ou são feitas de um material muito liso (que fica perigosamente escorregadio quando molhado).

Ciclovias em canteiro central são cheias de intersecções e passagens de automóveis. Por mais que os ciclistas tenham prioridade nesses casos, os motoristas nem sempre respeitam, alguns sequer olham antes de cruzar a ciclovia. Nas estatísticas internacionais, essa é a situação onde ocorre o maior número de colisões.

E algumas das chamadas ciclovias nada mais são que calçadas pintadas de vermelho. Costumam estar cheias de pedestres, que têm outra velocidade e outra forma de ocupar o espaço e se deslocar por ele. Muitos caminham ou ficam parados no meio da pista, sem a menor preocupação com o que acontece ao redor, obstruindo a passagem.

Tudo isso atrapalha a viagem e reduz bastante a velocidade média do deslocamento, além do evidente perigo de o ciclista se envolver em acidente, sozinho ou com pedestres.

Uma conversão próxima

Se a ciclovia fica à esquerda ou no canteiro central e o ciclista vai converter à direita logo adiante, é muito mais seguro e inteligente ir pela rua, trafegando pela faixa da direita. Essas ciclovias não costumam ter acessos em todas as esquinas, e nem todo lugar é seguro para se atravessar a via movimentada. Assim, por questões de segurança, o ciclista muitas vezes antecipa sua saída da ciclovia e percorre um trecho pela rua para fazer sua conversão.

Assaltantes

Quando a ciclovia fica no meio da avenida, o ciclista não tem alternativas de fuga caso se sinta ameaçado. Está preso por uma cerca feita de máquinas em movimento, que o impedem de fazer qualquer movimento de evasão. Ao segregar o ciclista, a ciclovia o afasta das pessoas. Se ele estivesse trafegando pela rua, próximo à calçada, estaria cercado de gente, o que aumenta a segurança.

Ainda que seja raro alguém fazer alguma coisa para impedir que uma outra pessoa seja assaltada, a presença de gente por perto costuma inibir o ladrão. Dessa forma, esse tipo de ciclovia acaba ajudando os assaltantes. Nas ciclovias de canteiro central, o ciclista geralmente se encontra cercado e sozinho. Cenário perfeito para um assalto. Não é por acaso que os índices de criminalidade são especialmente altos em ciclovias.

Portanto, apesar dos benefícios, as ciclovias também acabam criando diversas formas de perigos e dificuldades para o ciclista, a ponto de ele abrir mão da suposta segurança oferecida por elas e assumir o risco de continuar na rua, sob a constante ameaça das máquinas.

Mesmo sabendo de tudo isso, alguns motoristas continuam recriminando os ciclistas que preferem a rua.

Cada vez que ouvimos de um motorista uma crítica desse tipo, podemos concluir que ele é daqueles que, se defendem ciclovias, não estão preocupados com a segurança dos ciclistas. Estão apenas buscando uma forma de tirá-los da sua frente.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

passagem livre

Semáforos existem por causa dos automóveis, conforme já foi discutido aqui em outro texto.

Ciclistas e pedestres podem olhar-se nos olhos, e isso permite que negociem a passagem de maneira segura quando se encontram em uma intersecção de caminhos. Por serem leves, podem parar quase que instantaneamente se for necessário, evitando colisões.

Em muitos casos, o semáforo vermelho faz com que o ciclista se coloque em situações de maior risco. Partir ao mesmo tempo em que os veículos motorizados, quando o semáforo abre, pode ser bastante perigoso. Se o ciclista parte dois ou três segundos antes deles, tem tempo de se colocar em uma posição mais visível e segura da via.

Cidades de diversos países (Holanda, França, Bélgica, EUA e outros) já perceberam que, em certas condições, não faz sentido obrigar o ciclista a ficar parado e, portanto, passaram a permitir que eles ignorem o semáforo vermelho.

Em alguns cruzamentos, o ciclista que vai converter à direita está dispensado de aguardar a abertura do sinal. E em algumas intersecções em forma de T, aquele que segue reto também não precisa esperar.

passagem livre para ciclistas

fonte: paris.fr

Naturalmente, todos continuam obrigados a respeitar a prioridade aos pedestres e aos veículos que circulam na via preferencial.

Ao implantarem a passagem livre para ciclistas, as cidades mantiveram um monitoramento atencioso das consequências da mudança. Nenhum acidente foi registrado.

Obedecer cega e mecanicamente a uma regra, como parar em um sinal vermelho e seguir no verde, é um gesto que a pessoa pode fazer sem pensar e sem olhar. Por outro lado, ao ter que avaliar as condições de passagem a cada cruzamento, a pessoa se coloca de maneira ativa dentro da situação, passando a ser responsável por ela, e tal atitude contribui muito para a segurança.

A convivência é melhor e mais segura conforme tivermos mais cidadãos responsáveis pelos seus atos e menos cidadãos cumpridores de regras.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

contramão

Esta combinação de placas é frequente, na França, em vias locais.

sauf vélofoto: março/2016

A de cima indica “sentido proibido” e equivale à nossa placa com uma seta para cima cortada por uma faixa vermelha. E a placa de baixo complementa a regulamentação, dizendo “exceto bicicletas”.

Portanto, a via é de sentido único para veículos motorizados mas as bicicletas podem circular em ambos os sentidos.

Em alguns casos, existe uma ciclofaixa demarcada em um dos bordos da via para as bicicletas trafegarem no sentido oposto. Mas há também muitas vias em que não existe essa ciclofaixa, e neste caso as bicicletas trafegam normalmente pela contramão, coexistindo com os automóveis.

Assim, além de autorizar o tráfego de bicicletas em sentido, a placa determina que elas sejam respeitadas também quando estão na contramão.

O interessante desse tipo de regulamentação é que ela oficializa o bom senso.

Em uma via de pequeno porte, onde os automóveis andam em baixa velocidade, uma bicicleta na contramão não oferece perigo para ninguém. Naturalmente assumindo que haja cuidado e atenção por parte de todos, inclusive em relação aos pedestres.

É preciso sempre lembrar que as regras de trânsito foram criadas para os automóveis, já que eles são máquinas pesadas e perigosas.

As bicicletas devem sim seguir as mesmas regras, já que esse é o combinado.

Entretanto é preciso saber reconhecer as situações em que abrir exceção para as bicicletas é uma questão de bom sendo e, principalmente, de segurança. Trafegar na contramão em algumas vias ou mesmo passar um semáforo vermelho um pouco antes de ele abrir são, muitas vezes, atitudes que contribuem para a segurança daqueles que não estão protegidos pela bolha de aço.

Obrigar mecanicamente que as bicicletas sigam todas as regras de trânsito, sem tolerância a exceções nesse tipo de situação, é sinal de má fé ou de falta de inteligência, e realmente não sei o que é pior.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

épico 2015

ÉPICO 2015

Solo, 6 dias, aproximadamente 490km.

dia 1: São Paulo – Bragança Paulista
dia 2: Bragança Paulista – Munhoz
dia 3: Munhoz – Cambuí
dia 4: Cambuí – Paraisópolis
dia 5: Paraisópolis – São José dos Campos
dia 6: São José dos Campos – São Paulo

EP15

Trajeto completo aqui.

Definição de Épico aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

assertividade

A segurança do ciclista depende em grande parte da maneira como ele ocupa o espaço.

Quando você está usando um pedaço da via pública para trafegar, é muito importante deixar claro para o motorista que você já está ali. Somente depois de entender que um determinado espaço da via já está ocupado é que o motorista vai conseguir aceitar o fato de não poder usá-lo naquele momento e que, portanto, terá que aguardar a sua vez.

Sem a enorme massa metálica dos veículos motorizados, um ciclista precisa usar artifícios para se fazer notado. A forma de ocupar o espaço contribui bastante para isso. Precisamos ter uma atenção especial à clareza da mensagem quando dizemos ao motorista, através dos nossos movimentos, “já estou aqui”.

É aí que entra a assertividade.

Uma fala assertiva é aquela que transmite a mensagem de maneira clara e direta, adotando uma postura que está longe de ser submissa mas é, ao mesmo tempo, bastante diferente de uma postura agressiva.

Em uma bicicleta, a assertividade está no gesto.

Na constante negociação pelo uso do espaço em uma via pública, a hesitação pode muitas vezes comprometer a segurança. Ao hesitar, você deixa o motorista sem saber se você vai ou não vai fazer a manobra.

Dessa forma, você dá a ele duas opções. A primeira é assumir que você não vai, e assim ele acaba ocupando com sua covarde massa de metal o espaço que você está tentando ocupar. A segunda é supor que você vai, ou pelo menos esperar mais um pouco para ver o que você vai fazer. Nesse momento ele vai culpar você e todos os outros ciclistas por lhe fazerem perder o seu tempo. E você sabe como eles sofrem quase constantemente por sentir o seu tempo sendo desperdiçado. Um sofrimento que não será suficiente para provocar uma mudança de projeto de vida mas certamente é suficiente para querer nos ver banidos das ruas.

Quando você precisa ocupar uma faixa (por exemplo, ao se preparar para uma conversão à esquerda ou ao fazer um cruzamento de fluxo) e ela está livre, ela deve ser ocupada de maneira assertiva.

É evidente que você só vai fazer isso numa situação em que é possível ocupar a faixa, ou seja, em que a velocidade dos carros em relação à sua não é muito grande.

Ao verificar que o carro que vem atrás ainda se encontra a uma certa distância, simplesmente ocupe a faixa. Com um gesto firme, ágil e seguro, coloque-se no meio da faixa e fique estável ali. Deixe claro que nenhum movimento seu é aleatório, que não há descuido, que você sabe que tem um carro atrás de você, que é ali mesmo que você quer estar e que você tem um motivo para isso.

Mesmo você se colocando na frente dele, ele não vai passar por cima de você. Ele vai entender claramente que aquele lugar à frente dele agora está ocupado, e então vai reduzir.

Alguns instantes depois, você não precisará mais daquele espaço e vai desocupá-lo, fazendo isso também de maneira assertiva.

Tudo isso vai acontecer em poucos segundos. Quando o motorista se der conta, você já estará fora do seu caminho, talvez até bem antes que ele tenha tempo de se lamentar por ter um ciclista à sua frente.

Para completar, quando você já tiver liberado o espaço e o motorista vier a passar por você, agradeça por ele ter cedido a passagem, mesmo que não tenha sido exatamente isso que aconteceu. Ele se sentirá recompensado, ficará mais feliz e, isto sim importante, mais confiante nas atitudes e movimentos dos ciclistas.

Um agradecimento sincero, olho no olho, jamais é uma atitude de submissão. Muito pelo contrário. Sobretudo quando acompanha um gesto assertivo seu, um agradecimento mostra de que lado está a seriedade, a coragem e, sobretudo, a civilidade.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

contato com a cidade

Há muita diferença entre ir de um ponto ao outro a pé ou de bicicleta e ir de um ponto ao outro dentro de uma bolha de aço.

No primeiro caso, você passa por dentro da cidade. No outro, você desvia dela. O desvio não é por afastamento geográfico, mas simplesmente pela perda de contato.

É difícil imaginar que o peixe e o escafandrista sintam o mar da mesma forma.

Quem desvia da cidade todos os dias jamais vai sentir a diferença de temperatura ao passar de um trecho de puro concreto para um trecho arborizado, onde o asfalto recebeu menos sol e portanto irradia menos calor.

Quem vai pela cidade sente isso no rosto. De bicicleta, a diferença é ainda mais perceptível do que a pé, já que você atravessa rapidamente a mudança de temperatura. De repente, você está dentro de uma massa de ar mais frio e mais úmido.

Dentro de um carro ou um ônibus dificilmente dá para perceber o cheiro de mato, terra e eucalipto ao passar nas imediações de um parque. Quem anda isolado provavelmente desconhece o cheiro de jasmim, manacá ou dama da noite que deve existir em alguma rua do caminho. Jamais receberá a nova estação pelo anúncio das flores. Sentirá a mudança somente quando a chuva trouxer as enchentes, e o congestionamento em sua vida for ainda maior.

Só quem vai de um ponto ao outro por dentro da cidade chega no trabalho com uma alegria meio inexplicável porque o ar no caminho estava um pouco diferente, e isso faz desconfiar que teremos uns bons dias de sol pela frente.

Só quem escolhe estar em contato com a cidade vai chegar mais inspirado ao encontro dos amigos porque no trajeto até o bar tem aquela padaria que está sempre tirando uma fornada naquele horário, e esse cheiro vai ficando associado aos dias de festa.

É pouco provável que o meu dia seja ruim se, a menos de 1km da minha casa, eu já pego a primeira descida do dia, onde o vento a 50km/h me faz chegar lá em baixo rindo não sei de quê.

Quem anda de bicicleta no dia a dia geralmente fica tentando convencer as outras pessoas a experimentar também. Porém, a partir de um certo ponto, argumentos e histórias nada mais podem fazer para mostrar a alguém como lhe faria bem pedalar.

Nada que eu diga poderá criar artificialmente um estado de endorfinas e outros neurotransmissores que reproduza o que você sente como resultado da ação combinada do sol, do vento na cara, dos movimentos do corpo, da respiração e da energia gerada quando você pedala na rua.

A perda do contato com a cidade é um efeito colateral bastante sinistro da escolha do meio de transporte. É muito difícil fazer alguém saber o que está perdendo sem que tenha a sua própria experiência. Cabe apenas torcer para que isso aconteça qualquer hora dessas, de uma forma ou de outra.

E para aqueles que usam conscientemente o medo para justificar sua opção de viver dentro de bolhas, isolados da cidade, eu tenho um palpite. Sentir na própria pele um pouco mais a cidade pode ajudar bastante a perder o medo dos outros.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

cruzamento de fluxo

Ao trafegar por vias urbanas ou estradas, o ciclista normalmente se posiciona junto ao bordo direito da pista, já que aí é a posição mais segura para se trafegar, além de ser também essa a orientação da legislação de trânsito.

Quando existe, por exemplo, uma bifurcação na qual o ciclista seguirá pela opção da esquerda, ele terá que atravessar uma ou mais faixas onde passam os veículos os que seguirão pela opção da direita. Essa situação é aqui denominada cruzamento de fluxo.

Isso também ocorre quando há uma incorporação de tráfego na qual muitos veículos chegam pela direita, fazendo com que o ciclista tenha que atravessar uma ou mais faixas para que volte a ficar posicionado no bordo direito da pista. Usaremos aqui a primeira situação como exemplo, mas tudo vale também para esta, bastando pensar os esquemas de maneira invertida.

O cruzamento de fluxo é semelhante ao que, na engenharia de tráfego, é denominado ‘entrelaçamento’.

A maneira mais segura de fazer o cruzamento de fluxo varia conforme a situação. Depende principalmente da velocidade com que os veículos motorizados trafegam naquele ponto e da existência ou não de brechas.

Em locais onde os automóveis trafegam em alta velocidade, o cruzamento de fluxo só é possível quando há intervalos entre eles. Essa situação, aqui chamada de cruzamento de fluxo com brecha, acontece nas entradas e saídas de rodovias e nas vias urbanas que permitem altas velocidades, como as vias estruturais e algumas pontes.

cruzamento de fluxo com brecha

Na perpendicular, a zona de alta vulnerabilidade é mais curta.

Ao atravessar faixas por onde os carros passam com muita velocidade, você está em uma zona de alta vulnerabilidade. O tempo que você permanece na zona de alta vulnerabilidade deve ser o menor possível.

O melhor ponto para fazer o cruzamento é aquele em que você atravessa as faixas de maneira perpendicular, especialmente se as brechas forem curtas ou se não houver uma boa visibilidade quanto à chegada de novos carros. Se você fizer o cruzamento na diagonal, o tempo que você permanecerá dentro da zona de alta vulnerabilidade será muito maior. O esquema acima ilustra essa diferença.

Para fazer o cruzamento, é preciso ter certeza de que as faixas estão livres. Se achar melhor, pare junto à guia para poder escolher com tranquilidade o momento de passar. Caso exista uma travessia de pedestres, esse provavelmente será o ponto mais seguro. Se houver algum semáforo antes da bifurcação provocando brechas no fluxo de veículos, isso também vai facilitar bastante a passagem.

Uma área de zebra pode ser um bom ponto de apoio para finalizar a travessia. A zebra pode ser usada para que você se reposicione enquanto espera o momento seguro de entrar na via e seguir viagem.

A estratégia será um pouco diferente quando você estiver num local em que os veículos motorizados passam em baixa velocidade. Isso acontece quando há no local um limite de velocidade efetivamente cumprido pelos motoristas ou, o que é mais frequente, quando a alta densidade de veículos os obriga a andar numa velocidade baixa, eventualmente até mais baixa que a da bicicleta.

Nesses casos, existe a opção de se fazer o cruzamento de fluxo com ocupação de faixa. Com os carros em velocidade baixa (apenas um pouco maior que a sua, ou mesmo igual ou menor que a sua), é possível negociar com eles o espaço e ocupar temporariamente as faixas para cruzar o fluxo que segue uma direção diferente da sua. Você ocupa a primeira faixa da direita, fica ali alguns segundos até que seja possível ocupar a segunda faixa e assim por diante, até que esteja na faixa adequada para ir na direção que você busca.

cruzamento de fluxo com ocupação de faixa

Com os automóveis em baixa velocidade, é possível ocupar as faixas.

Se for possível, ocupe totalmente também a faixa por onde você vai seguir, pelo menos até que toda a confusão gerada pela bifurcação já tenha passado. E então continue seguindo na posição da faixa onde você costuma pedalar.

O cruzamento de fluxo com ocupação de faixa é possível quando a velocidade relativa dos veículos motorizados (a velocidade deles em relação a você) não é muito alta. Portanto, num trecho em declive (como a descida de uma ponte, por exemplo), dá para cruzar o fluxo dessa maneira com os automóveis numa velocidade até um pouco maior.

O importante é que você consiga ver quem vem atrás de você e se sinta seguro para negociar e ocupar o seu espaço na faixa. Se você não estiver seguro, não se arrisque. Procure uma posição adequada, pare junto à guia e aguarde uma brecha para fazer o cruzamento de fluxo na perpendicular, ainda que a brecha demore para aparecer.

Tome muito cuidado com aquele tipo de motorista que, mesmo querendo seguir à direita, continua nas faixas da esquerda até o último momento, cruzando várias faixas de uma vez e causando freadas bruscas, perigo e aborrecimento para todos.

Faça as manobras sempre com assertividade e posicionando-se de forma a ficar bem visível para os motoristas que estão atrás de você e ao seu lado.

Finalmente, há lugares e horários em que os veículos estarão em alta velocidade e raramente haverá brechas entre eles, como pode acontecer nas marginais em alguns acessos de estradas. Essas situações devem ser evitadas ao máximo, pois há o risco de você ficar parado por muito tempo, esperando por uma brecha que dificilmente virá.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

ocupar as ruas

Milhares de ciclistas saíram de casa hoje cedo com suas bicicletas e foram trabalhar.

O volume de pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte está aumentando constantemente. Esse crescimento numérico, por si só, já contribui para a melhoria da segurança dos ciclistas nas ruas, pois está cada vez mais evidente para os motoristas que nós estamos lá.

Há alguns anos, quando esse número era bem menor, existia a possibilidade de um motorista jamais ter passado por um ciclista em uma avenida, ou de ter passado por tão poucos que nem pôde se dar conta disso. Na primeira vez que ele reparou em um ciclista, talvez ele tenha pensado que se tratava de um louco sem nada a perder, se arriscando num local onde não deveria estar. Mas a repetição facilita a aprendizagem.

Hoje os motoristas sabem que as ruas estão cheias de bicicletas. Compartilhar a via com um ciclista já não é um acontecimento excepcional e, portanto, eles acabam ficando mais atentos. Ainda que isto lhes desagrade, por acreditarem que estamos atrasando suas vidas, nós estamos lá, e eles sabem disso.

O melhor é que, pouco a pouco, eles vão percebendo que nossa presença não atrapalha ninguém. Ainda que alguns motoristas resistam em aceitar, são os carros, e não as bicicletas, que entopem as vias e tornam as vidas de todos um inferno. Aliás, é cada vez mais frequente que a bicicleta é que tenha que frear para se adaptar à velocidade dos carros, e não o contrário.

Quem pedala sabe que algumas vias são melhores que outras para trafegar de bicicleta. Por vários motivos: o relevo, as condições do asfalto, os locais que ela conecta, o ponto exato (perigoso ou seguro) onde ela vai terminar.

Com base nesses critérios, cada ciclista faz a sua escolha. Todos os dias, um grande número de ciclistas vão fazendo suas escolhas. E, assim, algumas vias vão se transformando em rotas de ciclistas.

Somente a partir disso – um grande número de ciclistas tendo feito suas escolhas – é que começa a existir algum consenso sobre qual rota é melhor para se percorrer de bicicleta.

A decisão sobre onde será uma ciclovia ou ciclofaixa deve acontecer de baixo para cima, deve vir do nível do chão.

Por mais bem informado e bem intencionado que esteja, por mais que receba assessoria de organizações de ciclistas ou de “consultores” respeitados no mundo do cicloativismo, um pequeno grupo dentro de um gabinete com um mapa de ruas aberto à sua frente jamais pode tomar uma decisão tão acertada quanto a de milhares de ciclistas, que fazem e refazem suas escolhas diariamente na realidade viva das ruas, quanto à melhor rota para ser oficializada na forma de uma ciclovia ou ciclofaixa.

É muito importante que ocupemos as ruas agora.

Esperar pelo dia em que haja ciclofaixas ou ciclovias por todo o seu trajeto pode ser muito frustrante e é uma grande perda de tempo.

Mais grave ainda: esperar implica deixar para os outros a decisão sobre qual é o melhor caminho para você.

O nosso direito de trafegar pelas ruas está estabelecido no Código de Trânsito Brasileiro. Mas as atitudes dos motoristas e, principalmente, as políticas públicas no Brasil nos têm mostrado que esse direito não está garantido.

É preciso que ocupemos as ruas para que elas sejam nossas de fato.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

épico 2013

ÉPICO 2013

Solo, 4 dias, aproximadamente 310km.

dia 1: São Paulo – Campinas (Barão Geraldo)
dia 2: Campinas – Holambra
dia 3: Holambra – Morungaba
dia 4: Morungaba – São Paulo

EP13

Trajeto completo aqui.

Definição de Épico aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

sobras de faixa

Muitos motoristas reclamam quando há um ciclista à sua frente, ocupando uma faixa. Isso dá até para entender. A sensação de superioridade lhes é natural na cultura brasileira, e eles continuarão reclamando. Há pouco que possamos fazer além de esperar o lento processo civilizatório.

Mas tem um lugar em que a reclamação é inaceitável: as sobras de faixa. Quando há carros estacionados na faixa da direita, geralmente sobra algo em torno de um metro dessa faixa. Esse espaço é suficiente para uma bicicleta trafegar, mas não cabe um carro nele.

Não há qualquer motivo racional para um motorista querer ocupar esse espaço. Tomados pela ansiedade, portanto sem nenhuma razão, motoristas tentam usar esse espaço para fazer perigosas ultrapassagens pela direita. Ou, quando o tráfego está parado, para tentar furar fila.

Motorista, se tivesse espaço para mais um carro, haveria outra faixa ali. Mas não tem. Não tente ocupar um lugar em que você não cabe, você assim atrapalha aqueles que podem ocupá-lo.

Ciclista, esse espaço é nosso! Ocupe as sobras de faixa. Tome cuidado com portas que abrem mas siga tranquilo. Quem reclamar está totalmente sem razão.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

cruz da babilônia

A Cruz da Babilônia é uma série de quatro roteiros que, projetados sobre a grande mancha de concreto, formam uma intrigante figura.

imagem: Google Earth

Os quatro destinos, Evangelista de Souza, Taiaçupeba, Canguera e Jarinu, estão a mais ou menos setenta quilômetros contados a partir da Praça do Ciclista, em São Paulo. Todos eles estão também relativamente próximos a uma estação de trem, o que nos finais de semana pode facilitar a volta.

Evangelista de Souza, o braço sul da Cruz da Babilônia, é uma vila ferroviária abandonada no extremo sul do município, no distrito de Engenheiro Marsilac. Nesta viagem você não sai do município em momento algum, mas vai pedalar por um bom tempo na área rural de São Paulo. É um trajeto predominantemente plano, apenas com algumas subidas longas na Avenida Teotônio Vilela.

Taiaçupeba, o braço leste da Cruz da Babilônia, é um bairro de Mogi das Cruzes, já bem próximo à divisa com Bertioga, no alto da serra. Para chegar lá você atravessa a imensa zona leste paulistana e alguns municípios pequenos, sem sair da Região Metropolitana de São Paulo. É o trajeto mais plano e fácil dos quatro, atravessando a zona leste pela ciclovia.

Canguera, o braço oeste da Cruz da Babilônia, é um bairro de São Roque localizado no final da Estrada do Vinho, em uma região de pequenas serras. Nesta viagem você atravessa vários municípios da Região Metropolitana e finalmente sai dela por Itapevi. Dos quatro, é o trajeto de maior ascensão total e também o que tem a subida mais inclinada, já bem perto do destino.

Jarinu, o braço norte da Cruz da Babilônia, é um município localizado entre Jundiaí e Atibaia, totalmente fora da Região Metropolitana de São Paulo. É talvez a viagem mais tranquila das quatro, e apesar de a ascensão total ser relativamente grande, não há subidas muito inclinadas. É também um trajeto muito agradável, com paisagens naturais variadas.

Precisando tomar vento na cara? Basta ter uma direção. Foi assim que fiz estas quatro viagens.

4 Comentários

Arquivado em bicicleta

jarinu

O arraial de Campo Largo, hoje município de Jarinu, foi fundado no século XVIII e já pertenceu a Atibaia e a Jundiaí. Faz parte de uma região turística denominada Circuito das Frutas, e promove anualmente a Festa do Morango no fim do mês de junho. A região tem também diversos alambiques e chácaras que vendem mel, frutas e produtos caseiros.

Este roteiro, apesar de ter algumas subidas de dificuldade média, vai por lugares bastante tranquilos. Passado o trecho urbano, há acostamento seguro praticamente o tempo todo, e a condição das estradas é muito boa.

Partindo da Praça do Ciclista, o trajeto sai inicialmente na direção da Lapa, e então toma o rumo norte passando pela Lapa de Baixo, ponte do Piqueri e um atalho que vai te deixar na Raimundo Pereira de Magalhães próximo ao local que foi cogitado para o estádio Piritubão, já bem adiante de uns trechos perigosos. Essa avenida já é a SP-332 (estrada velha de Campinas), e tem tráfego intenso mas suportável até a região de Taipas. Há então uma longa descida até Perus, passando pelo início do Rodoanel.

Logo após a primeira entrada de Caieiras, você estará numa região alta e verde, com vista para praticamente todas as direções. Verá o Pico do Jaraguá já distante, desde um ponto de visão oposto ao da capital. Perto do centro de Caieiras há uma passagem em nível sobre a ferrovia, o que é lamentável para uma estrada estadual com bastante tráfego. (Enquanto não fica pronto o viaduto, a cancela fecha e os motoristas ficam parados o tempo suficiente para sentir raiva das ferrovias, que tanto atrapalham seus sonhos de liberdade.)

Passada a divisa de Franco da Rocha há uma boa subida, depois um trecho relativamente plano, e então uma descida longa e divertida que vai terminar na SP-354. Aqui a paisagem muda outra vez, você está cercado de mato e logo estará fora da Região Metropolitana de São Paulo, no município de Campo Limpo Paulista. Já terá pedalado por mais de duas horas, pense numa parada para alimentação (leve seu lanche!).

No centro de Campo Limpo Paulista, você atravessa um pequeno trecho urbano. Siga placas na direção de Jarinu. De volta à estrada, há algumas subidas um pouco longas mas relativamente leves, exercite a paciência! Logo no primeiro trevo, entre em Jarinu e descanse pedalando, enquanto observa o ritmo tranquilo e aconchegante da cidade.

foto: maio/2012

Seguindo por uma rua cheia de comércio, chegará à praça da matriz: coreto, crianças brincando, bancos de madeira, um lago com fonte e alguns bêbados. Informe-se e encontre um lugar para uma refeição. Você terá pedalado aproximadamente 73km.

A volta pode ser feita pelo mesmo trajeto ou seguindo pela SP-354 até a SP-348 (rodovia dos Bandeirantes). Se for sábado à tarde ou domingo, existe a opção de pegar o trem em Jundiaí. Siga pela estrada municipal JAR-030, que é muito bonita. Depois de alguns bairros, encontrará a SP-360. Siga indicações, e você estará num ramal dessa estrada que te deixará bem próximo ao centro de Jundiaí.

Jarinu é o braço norte da Cruz da Babilônia.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

a sunday in hell

Muito provavelmente o mais belo filme sobre ciclismo feito até hoje, e não é preciso ver todos para saber.

O cara entendeu, e colocou ali para quem quiser ouvir, o silêncio da bicicleta. Isso é suficiente.

a sunday in hell

Conhecida como O Inferno do Norte, a corrida Paris-Roubaix é famosa por seus vários trechos em estradas de pedra. O documentário mostra a prova de 1976, e vale a pena mesmo para quem não é muito fã de filmes sobre competições esportivas. Nenhuma semelhança com os atuais canais de esporte, que precisam de dois idiotas falando o tempo todo para que as pessoas não se sintam entediadas e mudem de canal.

Você verá uma travessia de 258km desde o ponto de vista do ciclista, que ouve apenas o som da corrente, do vento na cara e, quando atravessa um povoado, das pessoas que vieram para ver.

Sobre a trilha sonora, prefiro ficar quieto. Só posso adiantar que você vai ouvir um solo de tímpano.

Veja o filme num momento de tranquilidade e inspiração, num local sem muito barulho, com o áudio ligado em um aparelho de som digno ou em um bom fone de ouvido.

Ouça o filme com atenção. Aproveite que não tem legenda e viaje nas paisagens. O que você puder compreender da tranquila narração em inglês será suficiente.

Quando acabar desligue tudo, pegue sua bicicleta e volte para o vento.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

canguera

A região de Canguera, no município de São Roque, começou a ser povoada no final do século XIX por famílias de viticultores. Em 1917 é erguida a primeira capela e, em 1918, a primeira escola. O bairro fica no final da Estrada do Vinho, que atravessa uma região muito agradável, repleta de quintas, vinícolas e sítios.

É possível evitar quase totalmente a Raposo Tavares indo pela SP-274 até Mailasqui, que está a uns cinco quilômetros da Estrada do Vinho. Nesta estrada há alguns morros, sendo um de inclinação razoável e que terá de ser enfrentado tanto na ida quanto na volta. A recompensa são as várias descidas longas e divertidas, em que a bicicleta pode atingir altas velocidades com segurança.

Neste trajeto você sai de São Paulo no rumo oeste pela região de Presidente Altino. Ali, começa a acompanhar a ferrovia numa sequência de avenidas (SP-312) que atravessa Osasco, Carapicuíba e chega em Barueri, onde começa a Estrada Velha de Itapevi (SP-274). Esta atravessa Jandira por cima de um espigão onde você terá várias vistas para o vale do Tietê, a serra da Cantareira, o Pico do Jaraguá e a serra de Santana do Parnaíba.

Depois do centro de Itapevi o caminho fica bem mais agradável, pois você está saindo da Região Metropolitana de São Paulo. O bairro de São João Novo é um bom lugar para uma parada, e aos sábados tem feira na praça principal. Logo você chegará na Raposo Tavares (SP-270). O trecho até o começo da Estrada do Vinho é praticamente só descida. Em horários de pouco tráfego é possível até mesmo seguir pela faixa principal, evitando o acostamento, que tem muita areia e sujeira que pode furar pneu. Na Estrada do Vinho a tranquilidade é total. Pedale nas subidas com paciência, você está quase lá.

canguerafoto: setembro/2011

Ao chegar em Canguera, irá encontrar um lugar pacato com casas antigas, igreja, estação, muitos restaurantes turísticos e a Estrada de Ferro Mairinque-Santos. Nesse trecho a ferrovia está ativa somente para transporte de carga. Passam aí vários trens por dia, vindos do Mato Grosso e interior de São Paulo, cada um com centenas de toneladas de grãos, e que vão passar por Evangelista de Souza e então descer a Serra do Mar rumo ao porto de Santos.

Se você quer algo diferente dos restaurantes turísticos, encontrará uma excelente comida caseira no sítio da Dona Conceição, que fica um pouco depois do centrinho de Canguera. Você verá à direita um acesso de terra e uma placa falando em pão caseiro. Poderá almoçar na varanda com uma incrível vista para um vale com casas e lagos. De vez em quando, ouvirá o trem que passa praticamente dentro do sítio, logo atrás da horta.

São aproximadamente 65km da zona oeste de São Paulo até Canguera. Na volta, você pode pegar o trem em Itapevi (verifique horários em que bicicletas são permitidas), são cerca de 33km até a estação. A subida na Raposo Tavares é longa mas bem menos inclinada que os morros da Estrada do Vinho. Porém, como ocorre com alguma frequência, nas longas subidas o acostamento é transformado em faixa para veículos lentos, e pedalar pela sarjeta é bastante perigoso. Vá pelo acostamento da pista que desce, prestando atenção nas entradas de propriedades e paradas de ônibus.

Canguera é o braço oeste da Cruz da Babilônia.

=== POST SCRIPTUM ===

Infelizmente, o mencionado sítio que servia comida caseira foi reconfigurado há alguns anos. Chama-se ‘Restaurante Casa da Vovó Conceição’. Passou a ser um lugar que oferece almoço a preços de restaurante executivo da avenida Paulista e vende cerveja a preço de bar badalado na Vila Olímpia. Segundo me foi informado por uma funcionária, a mudança já tem uns 3 anos.
(fevereiro / 2017)

1 comentário

Arquivado em bicicleta

via do sossego

Quando foi descoberta, a rota conhecida por Via do Sossego passou a ser uma alternativa segura de ligação entre Pinheiros e Itaim, antes feita pela avenida Faria Lima, um lugar particularmente tenso. Assim, pelo contraste com a rota anterior, o nome pareceu natural aos viajantes que ali passavam. Especialmente para quem vem das regiões de Perdizes ou Lapa, é o modo mais agradável de chegar, por exemplo, à Vila Olímpia, onde está uma das entradas da ciclovia do rio Pinheiros.

A rota atravessa um daqueles bairros que têm muitas árvores, casas gigantescas e nenhum pedestre na rua. A declividade baixa faz o caminho agradável na descida e na subida. As ruas são tortuosas e cheias de lombadas, que limitam a velocidade com uma eficácia que, em São Paulo, as leis não conseguem.

Na descida (em verde no mapa), o trajeto começa na rua Atlântica (para quem vem pela avenida Brasil) ou na Joaquim Antunes (para quem vem de Pinheiros). Seguindo pela Groenlândia, haverá um semáforo e a rua Polônia começa à direita (a indicação do nome da rua é pouco clara nesse ponto). A sequência então é: Polônia, Áustria, Itália, Rússia. Sem qualquer esforço, você logo estará cruzando a Nove de Julho e entrando no Itaim, de onde poderá seguir rumo a Vila Olímpia, Brooklin, Santo Amaro.

Na subida (em lilás no mapa), chegando pela Bandeira Paulista, a rota é: Alemanha, Inglaterra, Venezuela. A partir daí, segue-se para Pinheiros ou Perdizes pela Brasil ou para a Paulista via Bela Cintra.

Fique atento nas confluências sem semáforos e nas rotatórias.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

ser e parecer

A proteção que um capacete dá ao ciclista começa bem antes de ele bater a cabeça no chão.

Sabemos que na nossa sociedade não basta ser, é preciso também parecer. Sem notar como assim contribuem para alimentar o consumismo, as pessoas, muitas vezes inconscientemente, deixam de legitimar um papel social se ele não for verossímil conforme guarda-roupa, cenografia, maquiagem.

Ainda que você não contribua para esse jogo, lembre-se que ao pedalar pelas ruas de São Paulo sua vida muita vezes depende muito mais dos outros do que de você, portanto é bom levar isso em conta.

Quando você usa capacete, fica mais fácil para muitos motoristas perceber que você não está ali de brincadeira passeando para saborear o ar puro da cidade, que a bicicleta é o seu meio de transporte e que você não está ocupando parte do seu espaço à toa.

Percebendo isso, é bem provável que eles te tratem com um pouco mais de respeito. É impressionante, mas a diferença que isso faz é considerável. Bem antes de atuar no plano físico, o capacete tem também um valor simbólico e contribui para que o acidente não aconteça.

Pelo menos com relação a este aspecto, não precisa do enxoval completo de ciclista para ir trabalhar (use-o se você tem outros motivos para isso). Basta o capacete. É o suficiente para facilitar a aprendizagem do motorista no momento em que ele for te ultrapassar. Logo ali na frente vocês provavelmente vão se encontrar de novo, e você vai ultrapassá-lo. Já serão velhos conhecidos, talvez ele até te reconheça pela cor do seu capacete, e o reencontro vai reforçar a lição. Recordar é viver.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

taiaçupeba

No alto da Serra do Mar, quase na divisa com Bertioga, está Taiaçupeba, distrito de Mogi das Cruzes. É um pequeno e festeiro vilarejo, cercado de chácaras e com um clima rural muito agradável. A poucos quilômetros de Taiaçupeba está a represa do Jundiaí (não confundir com a represa do Taiaçupeba, na divisa com Suzano e às margens da SP-039).

É possível chegar a Taiaçupeba por dentro da cidade, atravessando inteira a zona leste de São Paulo e mais alguns municípios. Você passará por Itaquera, Guaianazes, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Suzano e bairros de Mogi. No caminho, é interessante observar como a paisagem urbana vai mudando de região central para bairro grande, depois para bairro dormitório, então para cidade dormitório e finalmente para área rural.

O trajeto proposto segue o traçado da Estrada de Ferro Central do Brasil. Na Radial Leste, há ciclovia a partir da estação Tatuapé do metrô. Em Itaquera você segue pela avenida José Pinheiro Borges, construída recentemente após a retirada dos trilhos que passavam pela antiga estação Itaquera. Já quase em Guaianazes você deve pegar a estrada Itaquera-Guaianazes, pois assim você passa facilmente para o lado sul da ferrovia, que é por onde segue a rota.

Há um portal na divisa com Ferraz de Vasconcelos, e nessa região está a maioria das poucas subidas deste roteiro. Em Suzano há um longo trecho de paralelepípedos, que pode ser em parte evitado usando ciclovia que existe na frente de um grande parque municipal.

Já no município de Mogi, exatamente na direção da estação Jundiapeba, você pega a SP-039, à sua direita. Se estiver com sorte, encontrará por aí um vendedor de caldo de cana. Aproveite para abastecer, vai ajudar bastante no trecho de subida que fica alguns quilômetros adiante. A estrada é bem sinalizada, você pegará um trecho minúsculo da SP-043 e logo em seguida cairá na SP-102, que passa por dentro de Taiaçupeba.

taiaçupebafoto: setembro/2009

Há um pequeno restaurante caseiro e uma padaria que serve refeições. Se for dia de festa, você ainda pode encontrar algumas barracas de comida. A mais ou menos 3,5km do centro do vilarejo você encontrará a represa, a via de asfalto termina em baixo d’água.

São 75km contados a partir da zona oeste de São Paulo. Na volta, se for domingo ou sábado à tarde, você tem a opção de pegar um trem na estação Jundiapeba, e então o trajeto se reduz a cerca de 20km.

Taiaçupeba é o braço leste da Cruz da Babilônia.

2 Comentários

Arquivado em bicicleta

ciclofaixa de brinquedo

Quando foi inaugurada, em agosto de 2009, a ciclofaixa que liga os parques do Ibirapuera, das Bicicletas e do Povo causou bastante repercussão na mídia e entre simpatizantes das bicicletas. Reaparece nas pautas agora que foi estendida até o Villa-Lobos. Andar pela ciclofaixa dominical é certamente uma atividade bastante divertida, especialmente quando você está passeando com seus filhos. Mas não vejo nela “um importante passo na direção de uma cidade com melhores condições para as bicicletas”, como ouvi de muita gente. Pelo menos não com a mesma lógica. Por vários motivos.

O maior deles é que, sendo um equipamento criado para funcionar somente aos domingos, reforça a ideia de bicicleta como brinquedo e não como meio de transporte. Domingo é dia de alegria, dá até para andar de bicicleta pelas ruas. A ciclofaixa dominical ensina que há um dia da semana para andar de bicicleta e seis para não andar.

Tanto ciclistas quanto motoristas participam de uma brincadeira que acontece em condições que em nada lembram a relação entre carros e bicicletas no dia a dia da cidade. Em grande parte do traçado, a ciclofaixa está à esquerda da pista, quando o normal é que motoristas tenham as bicicletas à sua direita, por serem veículos mais lentos.

Além disso, a sinalização pintada no chão à esquerda da pista sugere a alguns ciclistas que é por ali que eles devem andar nos dias em que a ciclofaixa está desativada, o que além de incorreto é perigoso.

Ciclistas inexperientes costumam andar mais devagar, e nesse caso deveriam ficar na parte direita da ciclofaixa, liberando a esquerda para quem vai mais rápido. Esses ciclistas muitas vezes não conseguem equilibrar-se direito e manter uma linha reta constante. Acontece que como a ciclofaixa fica quase sempre à esquerda da pista, a parte direita da ciclofaixa é a posição mais próxima da área dos automóveis. Portanto os ciclistas inseguros têm duas péssimas opções: ou ficam em posição perigosa, correndo o risco de por um pequeno vacilo caírem na faixa dos automóveis, ou têm que pedalar pela esquerda, forçando os outros ciclistas a ultrapassarem pela direita. A escolha é entre o perigo e o mau hábito.

Há uma linha de cones entre a ciclofaixa e a área dos automóveis, criando uma separação entre a área dos carros e a das bicicletas. Ou seja, nem pelo aspecto didático de acostumar os motoristas a dividir o espaço e conviver pacificamente com as bicicletas a ciclofaixa de brinquedo serve.

Ao contrário, são frequentes os relatos de comportamentos muito agressivos por parte dos motoristas, e até de alguns acidentes. Muitas pessoas não têm estrutura psicológica para suportar a diversão alheia. Ver parte de seu espaço sendo oferecido aos outros, ainda que em condições bastante restritas, é para muitos motivo para um gesto de ódio.

Há também o uso inadequado que o poder público faz da ciclofaixa dominical no plano simbólico. Ela é contabilizada, junto com umas poucas ciclovias de verdade existentes na cidade, como um equipamento de mobilidade, quando deveria ser considerada um equipamento de lazer e recreação. Além disso, sua extensão é contada em dobro, já que o projeto foi benevolente, vejam só, a ponto de construir uma pista para ir e outra para voltar! Os que optaram por esperar que a administração pública lhes dê ciclovias para só então cogitarem sair às ruas de bicicleta, esses talvez comecem a perceber na mão de quem estão seus planos de ter na bicicleta um meio de transporte efetivo.

Mas talvez alguns efeitos positivos, bastante indiretos e de longo prazo, possam resultar da ciclovia de brinquedo. Muitas bicicletas novas serão compradas, e outras que estavam encostadas num quartinho receberão manutenção e ficarão em condições de uso. Isso acabará por aumentar o número de bicicletas com potencial de ocupar nas ruas o lugar a que têm direito.

Mesmo na condição de brinquedo, a bicicleta na ciclofaixa está onde deve estar, na rua, e talvez comece a aparecer como veículo de verdade nos planos de algumas pessoas. Os motoristas terão tempo de sobra para sonhar, nas horas diárias que passam encurralados nas avenidas enquanto as bicicletas fluem livremente entre as máquinas.

Assim como acontece a uma criança, que começa a formar seus ideais de consumo ao ganhar seu primeiro carrinho de brinquedo, quem sabe uma ciclovia de brinquedo possa mostrar, na clareza de um domingo, onde está a liberdade que muitos acreditam estar no automóvel.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

desvantagem, vantagem, igualdade

Ao comparar bicicletas e automóveis no que se refere a mobilidade, são três as situações possíveis.

desvantagem
Em uma pista livre, a bicicleta se encontra em desvantagem de mobilidade em relação ao automóvel, que é uma máquina. A desvantagem naturalmente fica maior em uma subida e menor em uma descida.

vantagem
Nas grandes cidades, a velocidade média dos automóveis vem caindo rapidamente, e a quantidade de vias congestionadas bate um novo recorde a cada mês. Quando a via está totalmente parada, as bicicletas passam a ter vantagem de mobilidade sobre os automóveis. Mesmo quando os automóveis conseguem fazer pequenas mudanças de posição em primeira ou segunda marcha, situação em que sua velocidade média fica abaixo dos 15km/h, as bicicletas ainda estão em vantagem de mobilidade.

É cada vez mais frequente o ciclista ter que frear por causa de automóveis. Também é bastante comum o ciclista ter que esperar parado atrás de um automóvel que bloqueia a passagem quando poderia seguir livremente seu trajeto entre as faixas. Isso acontece quando um automóvel fica encurralado no momento em que tentava trocar de faixa, e quando as várias filas ficam tão espremidas na via que não sobra espaço entre elas ou nos bordos da pista.

igualdade
A situação intermediária, em que bicicletas e automóveis conseguem trafegar praticamente na mesma velocidade, se dá quando as condições da via permitem que o automóvel tenha no máximo uma velocidade entre 15km/h e 30km/h. Velocidades nessa faixa são perfeitamente possíveis para uma bicicleta. Isso depende, é claro, do equipamento e do preparo físico do ciclista, mas grande parte dos ciclistas urbanos consegue manter essa velocidade por algum tempo, quando necessário (atletas conseguem manter velocidades bem maiores que essa).

Normalmente a situação de igualdade de mobilidade dura poucos segundos. Ela logo passa a ser de desvantagem, quando a via permite que os automóveis acelerem, ou de vantagem, quando o tráfego para.

Os declives também são um fator a favor do ciclista, e nesse caso a situação de igualdade é possível em uma velocidade maior, e pode até durar mais tempo.

A situação de igualdade de mobilidade pode ocorrer em locais e momentos mais ou menos característicos: entre dois semáforos próximos, quando o da frente já é visível e está fechado, e os motoristas não aceleram tanto; por alguns poucos segundos, logo que um semáforo acabou de abrir; em locais próximos a esquinas, onde muitos automóveis fazem uma conversão e param logo em seguida; em áreas sem semáforos ou conversões, mas onde existe algum elemento (lombada, veículos manobrando, ônibus parados, excesso de veículos) impede que os automóveis acelerem mais; em qualquer situação em que o declive ajude a bicicleta a atingir uma velocidade igual à dos automóveis naquele local.

É importante avaliar as condições da via por onde você trafega para saber em que situação – desvantagem, vantagem, igualdade – você se encontra num dado momento e, principalmente, em que situação você estará no momento seguinte. Com base nisso, você decide por onde vai seguir. Dou alguns exemplos.

Nas situações de desvantagem de mobilidade, o lugar mais seguro é sempre um bordo da pista, geralmente o da direita. Se houver veículos parados ou outros obstáculos, você vai precisar ir para um ponto mais ao centro da pista, e poderá fazer isso sabendo que os automóveis em movimento vão desviar – não necessariamente de você, mas certamente do obstáculo! Existe sim bom senso e cuidado por parte de muitos motoristas, mas o ciclista, quando está em desvantagem de mobilidade, não deve contar com isso, por razões óbvias.

O bordo da via próximo à sarjeta muitas vezes oferece alguns perigos: costuma ter mais buracos que o meio da pista, pode ter veículos manobrando para entrar ou sair da via e, nos pontos de ônibus, estes param colados à calçada. Se o ciclista estiver em vantagem de mobilidade, trafegar entre as faixas é muito mais seguro nesses locais.

Quando existe um cruzamento de fluxo (por exemplo, bifurcações em que o ciclista seguirá em frente mas muitos automóveis seguirão à direita), o ciclista que está no bordo direito da pista somente conseguirá cruzar o fluxo quando o tráfego parar, seja por causa de um semáforo, seja por causa de congestionamento. Se estiver em situação de igualdade ou vantagem de mobilidade, é possível ao ciclista ocupar uma posição entre os dois fluxos (no exemplo, entre as filas que seguem em frente e as filas que seguem à direita), e poderá continuar seu trajeto sem demora e com segurança.

Nas paradas em semáforos, eventualmente você estará em um ponto mais central da pista, na frente dos automóveis ou entre as faixas, especialmente se você sabe que os automóveis da faixa da direita farão conversão à direita e você seguirá em frente. Logo que o semáforo abrir, você estará em situação de igualdade de mobilidade com os automóveis por alguns poucos segundos (certifique-se de que você está sendo visto!), e após isso a situação poderá passar a ser de desvantagem. Você terá esses poucos segundos para começar a andar, desviar de eventuais obstáculos e colocar-se rapidamente em uma posição segura, no bordo da pista.

Colocar-se no meio dos automóveis é uma atitude que sempre envolve risco. Quanto menor a velocidade média dos automóveis, menor o risco, e ele cai para praticamente zero quando os automóveis param encurralados. Tendo um mínimo de habilidade e condição física para manobras rápidas e, principalmente, conhecendo bem o comportamento dos motoristas nos locais por onde você passa, você faz um bom caminho no meio dessa bagunça toda. Em grande parte das vias da cidade ainda há condições para que os ciclistas trafeguem sem riscos desnecessários e sem tirar o espaço de ninguém.

Deixe um comentário

Arquivado em bicicleta

sinal vermelho

Não proponho que os ciclistas descumpram o Código de Trânsito Brasileiro. Entretanto cabe lembrar alguns fatos, uns mais evidentes que outros, sobre por que existe o sinal vermelho. Isso pode ajudar a compreender alguns comportamentos no espaço público.

semáforos foram inventados para disciplinar o tráfego de veículos motorizados
Quando só os seres vivos se movimentavam, e as máquinas viviam paradas, não havia semáforos. As máquinas se desenvolveram, passaram a andar por aí e se proliferaram. Por isso existem os semáforos. Em cidades pequenas, onde há poucos carros e as pessoas têm o hábito de olhar nos olhos umas das outras, semáforos são desnecessários. Na China, mesmo em cidades razoavelmente populosas, ainda é possível haver cruzamentos em que motoristas, ciclistas e pedestres negociam como seres vivos a passagem pelo espaço comum, sem a mediação dos sinais luminosos e sem que isso resulte em acidentes.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com um veículo motorizado
A afirmação parece óbvia, e muitos dirão que ela vale também para automóveis. Seria estranho dizer que os motoristas querem acidentes, mas é difícil aceitar que eles façam tudo para evitá-los. Na disputa pelos espaços, o motorista blefa: vou por ali, o outro que reduza ou desvie, e me deixe passar. Só que nem sempre o blefe funciona. Pequenos acidentes entre automóveis acontecem aos montes a cada minuto, e resultam apenas em danos materiais. Custa dinheiro, mas é isso. No máximo terão que decidir quem aciona a seguradora, e talvez desmarcar a terapia amanhã cedo para poder levar o carro na vistoria.

Acidentes entre um carro e uma bicicleta sempre machucam bastante.

Motorista, entenda uma coisa: qualquer que seja a gravidade da colisão, eu, ciclista, sempre levarei a pior. O choque será entre o meu corpo e o seu patrimônio.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com outro ciclista, com outro ser humano ou com outro ser vivo
Quem anda sobre uma bicicleta está infinitamente mais próximo da situação do pedestre que do lugar do motorista. Está perto das pessoas, pode ver e ouvir os outros. Pode comunicar-se com gestos, com expressões no rosto, pode parar instantaneamente para dar passagem, pode saudar e agradecer apenas balançando a cabeça. Pode deslocar-se na mesma velocidade de alguém que caminha, quando for necessário.

A potência cara e artificial da máquina e o isolamento dos vidros e do aço não afastam apenas a brisa, o canto dos pássaros e algumas belas cenas, que acontecem na rua o tempo todo. Afastam os outros. Sem o outro não existe convivência. Sem convivência é difícil sentir-se semelhante.

Ciclistas e pedestres devem respeitar o sinal vermelho simplesmente porque esse é o acordo. Mas não precisam dele para saber compartilhar o espaço comum.

3 Comentários

Arquivado em bicicleta

evangelista de souza

A Estrada de Ferro Mairinque-Santos (EFMS) foi concluída em 1937, passando a ser uma alternativa à São Paulo Railway (SPR) na ligação entre o litoral e o interior do estado. Enquanto a SPR vai pelo ABC paulista e desce a serra por Paranapiacaba, a EFMS percorre os municípios de São Roque, Cotia, Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu, passa pelo extremo sul da capital e segue um trajeto com 27 túneis na descida da Serra do Mar, passando por Itanhaém, São Vicente e Praia Grande. Na década de 50 foi construído o ramal Jurubatuba, que atravessa São Paulo margeando o Rio Pinheiros, é hoje administrado pela CPTM e funciona apenas no trecho entre Grajaú e Osasco.

No encontro entre o ramal Jurubatuba e o tronco principal da Mairinque-Santos está a estação Evangelista de Souza. Ali, trens com mais de sessenta vagões carregados de produtos agrícolas fazem uma parada para manutenção de rotina antes de descerem a serra rumo ao porto de Santos. No entorno da estação há ainda algumas casas habitadas, restos do que já foi uma pequena vila ferroviária, e outras parcial ou totalmente em ruínas. Houve uma escola no local. O bar, que já funcionou na plataforma da estação, ocupa hoje uma das casas e é cercado por mato, vagões estacionados e montes de peças de ferro pelo chão.

A partir do bairro de Pinheiros, são praticamente 60km até Evangelista de Souza. Depois de Interlagos, o trajeto é praticamente paralelo ao traçado do ramal Jurubatuba. Siga a Teotônio Vilela, que em Varginha passa a se chamar Sadamu Inoue, a antiga Estrada de Parelheiros. Pouco depois de cruzar as obras do rodoanel, você está no centro de Parelheiros, onde há uma igreja com data de 1898. A Estrada de Colônia passa ao largo da cratera e acaba no bairro fundado pelos alemães. Na Estrada da Barragem há um marco que sinaliza o início da APA Capivari-Monos. Nesse ponto já é preciso certo esforço mental para lembrar que você está no município de São Paulo. O bairro da Barragem é bastante animado, e ali você encontra a represa Billings em um de seus pontos mais ao sul. Aí acaba o asfalto, e você segue pela Estrada de Evangelista de Souza até o ponto em que passa a pedalar pelo leito ferroviário abandonado, que em muitos pontos já perdeu um ou os dois trilhos e praticamente todos os dormentes de madeira.

chegando em evangelista de souzafoto: dezembro/2009

Logo você chegará ao encontro dos trilhos, o lugar em que o ramal Jurubatuba junta-se ao tronco principal da Mairinque-Santos. Há nesse ponto um marco de cimento, e você está a poucos metros da estação.

Na Teotônio Vilela há subidas longas e alguns trechos perigosos, em que automóveis, ônibus e caminhões passam muito perto dos ciclistas. Depois de pegar a Estrada de Parelheiros praticamente não há mais situações estressantes, e o ar já é outro. Na Estrada de Colônia há uma inusitada ciclovia com pouco mais de um quilômetro de extensão. Em Colônia Paulista há um restaurante bastante simpático. Pode ser um bom lugar para uma parada, você ainda está a mais ou menos uma hora do seu destino. Em caso de necessidade, há uma bicicletaria quase em frente ao restaurante!

Depois da Barragem, fique atento à sua direita, logo você passará a seguir os trilhos. Nesse trecho há grandes poças de água ou lama. Em alguns momentos será necessário atravessá-las, pode ser um momento bastante divertido. Tenha cuidado, principalmente se você estiver usando pneus lisos.

Você está no meio do mato. Verá vacas e, com alguma sorte, um céu muito azul. O clima da região é classificado como Tropical Superúmido, chove muito por aí.

Na volta, sendo sábado ou domingo, existe a opção de pegar o trem no Grajaú. Há também como voltar pela Imigrantes: na Barragem começa a Estrada do Curucutu, início de uma rota que vai cruzar a rodovia uns três quilômetros ao sul do pedágio.

Evangelista de Souza é o braço sul da Cruz da Babilônia.

8 Comentários

Arquivado em bicicleta

kriptonita

Termino a leve subida da Patápio Silva e paro no primeiro sinal da Henrique Schaumann. Daqui até meu destino final só há descida e um grande trecho plano.

Uns carros se incomodam atrás de mim, e fazem manobras um pouco mais agressivas para me ultrapassar e logo parar no próximo sinal ali em baixo, na Cardeal ou na Teodoro. Adiante, na grande caixa da Brasil, eu passarei pelo meio de todos eles e, pelo menos até meu destino final, uns 4km adiante, nenhum automóvel voltará a me alcançar.

Nenhum, independente de potência, marca, tamanho ou preço.

Do planeta kripton, berço do Super-Homem, vem um intrigante elemento do mito, a kriptonita.

Um mito é bom quando explica com elegância, e por diferentes lados, algum aspecto da vida. Interessante assistir, de cima de uma bicicleta, ao outro momento da força. Aquele em que o superpoder vai pelo ralo.

“Pobre Super-Homem, nada pode contra mim neste lugar!”, e talvez seja esse um adjetivo particularmente ofensivo para muitos super-homens.

Fica fácil entender o ódio dessas máquinas contra ciclistas e motociclistas, que seguem livres seu caminho apesar de uma ou outra gota de chuva.

3 Comentários

Arquivado em bicicleta

ocupar a faixa

Ontem eu pedalava com amigos pela zona oeste da cidade. Estávamos em três, e durante a maior parte do trajeto ocupamos inteiramente a faixa da direita em vez de pedalar em fila, grudados na guia.

Era domingo, e mesmo assim fomos agredidos com várias buzinadas. Mas muitos motoristas tiveram a nobre atitude de desviar por uma das faixas à esquerda, que se já não estavam livres bastava esperar um pouco e fazer a ultrapassagem.

Fiquei então refletindo sobre como o gesto de ocupar inteiramente a faixa da direita (evidentemente quando essa não for a única da via) pode ser, pelo menos num domingo, uma prática bastante instrutiva para os motoristas.

Vem o motorista pela faixa da direita. Ao avistar um grupo de ciclistas à frente, haverá um impulso para o gesto condicionado de buzinar, provavelmente originado em seu cérebro reptiliano, aquele núcleo nervoso primitivo, presente também em qualquer lagartixa, responsável pelos movimentos relacionados a sobrevivência, agressividade e outras reações que normalmente não são processadas racionalmente.

Alguns motoristas de fato buzinarão.

Em outros, porém, já que é domingo, haverá tempo para que uma parte mais desenvolvida do sistema nervoso central, o neocortex, interceda bloqueando o gesto agressivo. Esse motorista olhará pelo retrovisor e irá constatar que a faixa à sua esquerda está livre, ou ficará livre em alguns segundos. Fará então a ultrapassagem, civilizadamente.

Que momento mais sublime! O exato instante em que se dá a aprendizagem! Nosso motorista terá percebido (e quem sabe leve a lição para os outros dias da semana) que há espaço para todos, que a agressão é muitas vezes desnecessária. Que a bicicleta é um veículo que deve ser ultrapassado como qualquer outro veículo mais lento, sem reclamação.

3 Comentários

Arquivado em bicicleta

aldeia de carapicuíba

Na época da fundação da Vila de São Paulo, falava o Padre Anchieta em “doze aldeias, não muito grandes, de índios, a uma, duas e três léguas por água e por terra”. Nesses locais as missões de catequização foram se estabelecendo, e acabavam se transformando também em refúgios contra a violência dos bandeirantes. Habitada inicialmente pelos índios Guaianases, a Aldeia de Carapicuíba foi oficialmente fundada em 1580. É a única das doze aldeias que não foi totalmente destruída.

Apesar de estar muito próxima à Raposo Tavares, o melhor caminho de bicicleta é pelas avenidas que acompanham a linha do trem. O roteiro continua pela avenida Integração, estrada do Cabreúva e avenida Inocêncio Seráfico, passando por regiões bastante movimentadas da cidade de Carapicuíba. Parece haver uma opção pela avenida que segue no sentido sul paralela ao rodoanel, e depois pela avenida Marginal do Ribeirão.

Partindo da zona oeste de São Paulo, são aproximadamente 24km. A ponte do Jaguaré tem tráfego de veículos grandes e pesados, geralmente em alta velocidade. Pela avenida Corifeu de Azevedo Marques, siga até a divisa com Osasco. Conhecendo, é possível também seguir por dentro do bairro do Jaguaré. No final da avenida principal do Parque Continental você encontra a via férrea na altura da estação Presidente Altino. O trecho paralelo à via é plano e bem tranquilo. O rodoanel é a referência para pegar a avenida Integração, à esquerda. Pouco depois de ela mudar de nome, na estrada do Cabreúva estará a única subida acentuada do trajeto. A avenida Inocêncio Seráfico é movimentada e os veículos motorizados têm pouca mobilidade, o que dá uma certa segurança para o ciclista. Após uma longa descida você avistará uma grande área verde. Encontre o palco com arquibancada de cimento e daí será possível avistar, logo ali em cima, a entrada para o largo da Aldeia.

O trajeto de ida tem pouco menos de uma hora. Na volta, pegue a avenida Marginal do Ribeirão, cruze o viaduto sobre o rodoanel e siga paralelo a ele, no sentido norte, até encontrar novamente a linha do trem.

Estive lá em um primeiro sábado do mês, e por isso havia um palco armado e várias barracas com comida e bebida. No restaurante chileno, você pode comer várias empanadas de carne, as verdadeiras. Bom mesmo é escolher um boteco aberto, pedir uma cerveja e tomar sentado num banco de madeira olhando a igrejinha com cruzeiro em frente.

2 Comentários

Arquivado em bicicleta

velocidade média indicada x velocidade média real

Velocímetros eletrônicos para bicicletas, também conhecidos como ciclocomputadores, são maquininhas divertidíssimas que fornecem várias informações interessantes ao ciclista. Uma dessas informações é a velocidade média do treino, que é obtida, evidentemente, dividindo-se a distância percorrida durante o treino pelo tempo de treino.

Como o velocímetro é programado para uso esportivo, a contagem de tempo é interrompida quando a bicicleta pára. Portanto a velocidade média calculada pelo velocímetro leva em consideração apenas os momentos em que a bicicleta está em movimento. Chamaremos esse dado de velocidade média indicada.

Acontece que, quando se calcula a velocidade média dos veículos motorizados em uma cidade, leva-se em conta também o tempo em que o veículo está parado. Se os veículos motorizados passam, em uma cidade congestionada, mais tempo parados que em movimento, o dado de velocidade média deve mostrar isso. Chamaremos de velocidade média real o dado obtido dividindo-se a distância percorrida pelo tempo total consumido nesse deslocamento, inclusive o tempo em que o veículo está parado, já que aqui o propósito é mostrar a eficiência dos deslocamentos. Dados de velocidade média fornecidos pela CET são calculados com esta metodologia.

Quando comparamos bicicletas com veículos motorizados quanto a eficiência, devemos tomar cuidado na comparação das velocidades médias. A velocidade média indicada pelos velocímetros eletrônicos é sempre superestimada em relação à velocidade média real, pois desconsidera os tempos de parada. Para medir a eficiência de uma bicicleta no uso urbano, deve-se utilizar a velocidade média real. Bicicletas também estão sujeitas às paradas em semáforos.

Comparar a velocidade média indicada da bicicleta com a velocidade média real dos automóveis daria uma falsa vantagem para as bicicletas. Além de incorreto, isso seria um erro primário facilmente contestável pela argumentação adversária. Não me parece interessante, estrategicamente falando. Mesmo porque, a bicicleta leva vantagem sobre os motorizados em muitas situações mesmo considerando as médias reais, e lembrando que tal comparação só leva em conta o fator eficiência (saúde física e mental, entre outros fatores, ficam de fora).

Nos textos aqui publicados, quando houver comparação de velocidades médias entre bicicletas e automóveis, ela será com base nas velocidades médias reais de ambos. De qualquer maneira, o leitor deve ficar atento ao uso dos termos indicada e real.

3 Comentários

Arquivado em bicicleta

colônia paulista

Em 1829, imigrantes alemães fundam Colônia Paulista, aproximadamente 34km (em linha reta) ao sul da vila de São Paulo. Hoje, o bairro faz parte do município e está mais próximo da divisa de Itanhaém que do marco zero da capital. Conserva a impressão de cidade de interior, sendo portanto uma ilha cercada de bairros com aparência de periferia. Era servido por estrada de ferro até o final dos anos 70. A estação foi demolida logo após ser fechada, e hoje os trilhos vão desaparecendo lentamente.

Partindo do bairro de Pinheiros, o roteiro sugerido (trajeto – parte 1) passa pela Faria Lima, Guaraiúva, Verbo Divino, Santo Amaro, Eusébio Stevaux, Miguel Yunes, ponte Vitorino Goulart da Silva, Jangadeiro, Teotônio Vilela. Em vez de ir por Parelheiros, que seria o caminho mais óbvio, é possível chegar em Colônia Paulista passando por dentro da Ilha do Bororé. Detalhes desta primeira parte do trajeto você encontra aqui.

Na Ilha do Bororé, pouco antes da igrejinha, você toma um caldo de cana enquanto proseia com um senhor simpático. Após o rodoanel você entra na terra (trajeto – parte 2). Quando cruza a via férrea volta o asfalto, e você está chegando em Colônia Paulista pela melhor entrada.

colônia paulista - campinhofoto: Lou-Ann Kleppa, março/2009

Ao lado da estrada de ferro há um campo de futebol, o esqueleto de um casebre (provavelmente foi um bar ou uma venda) e uma casinha no pé da montanha, do outro lado do vale.

A menos de um quilômetro de Colônia Paulista está a Cratera de Colônia, com 3,6km de diâmetro. Se tiver tempo, vale a pena dar uma espiada. Há uma grande ladeira para entrar nela pelo bairro de Vargem Grande (lado norte).

No dia em que fiz este roteiro, pegamos chuva pouco depois de chegar na Ilha do Bororé. Pedalar pela terra com chuva é lama na certa, além de diminuir bastante a velocidade, pois a estrada fica bem escorregadia. Também vai encher de lama na transmissão da bicicleta, e você provavelmente pedalará ouvindo barulho de peças moendo.

Contando um pequeno trecho que pegamos por engano, foram 55km até o restaurante em que paramos pra almoçar. A volta pra casa foi só por asfalto: Estrada de Colônia (com ciclovia!), Parelheiros, Varginha, Teotônio Vilela. Essa rota pode ser usada na ida também, mas será bem menor a sensação de estar em área rural.

Tire um dia inteiro para fazer essa viagem, ida e volta. Se for domingo ou sábado à tarde pode-se opcionalmente abreviar o trajeto, usando o trem da linha Jurubatuba (Osasco – Grajaú).

2 Comentários

Arquivado em bicicleta

o que é massa crítica

Massa crítica é o nome de um evento ciclístico que ocorre simultaneamente em várias cidades do mundo, geralmente na última sexta feira de cada mês, desde 1992. No Brasil, o evento recebe o nome de Bicicletada e procura seguir os mesmos princípios que regem o evento em outros países.

A expressão massa crítica é um termo científico utilizado em mais de uma área do conhecimento. Em física nuclear, é a quantidade de material necessária para manter uma reação em cadeia autosustentada: nessas condições, a reação aumenta linearmente sem que novos neutrons sejam introduzidos. Nas ciências humanas, geralmente se refere à quantidade mínima de pessoas, com determinada atitude, necessária para desencadear determinado fenomeno social ou comportamento macro observável.

O que existe de comum nos dois casos é a idéia de que após um certo nível quantitativo ocorre uma mudança qualitativa no sistema.

A idéia de massa crítica relacionada às bicicletas vem da observação do comportamento de ciclistas e motoristas na China. Em algumas cidades desse país não há semáforos controlando o tráfego nos cruzamento e a vida transcorre normalmente, sem acidentes, mesmo havendo um grande número de veículos, motorizados ou não, disputando a vez de passar.

Em uma das vias os veículos passam enquanto na transversal os veículos esperam. Com o tempo, o número de veículos na transversal vai aumentando até que se atinja a massa crítica. Nesse momento a pressão é suficiente para fazer com que os veículos da transversal ocupem o cruzamento e passem a trafegar. Na primeira via, então, os veículos passam a esperar e vão aumentando de número até também atingirem a massa crítica suficiente para voltarem a trafegar pelo cruzamento. No filme Return of the Scorcher (Ted White, 1992) pode-se ver um pouco disso.

Os primeiros eventos ciclísticos ocorreram em São Francisco (EUA) e tinham outras denominações, mas passaram a adotar o nome Massa Crítica após a exibição do filme de Ted White. O nome se espalhou rapidamente e passou a denominar o evento em todo o mundo.

Costuma-se dizer que a Massa Crítica é um movimento horizontal por apresentar algumas características: ausência de hierarquia, estrutura interna, infra-estrutura física, reuniões; a possibilidade de qualquer pessoa aparecer pela primeira vez no evento e ter a mesma voz que teria um participante mais antigo; ausência de planejamento quanto a datas (segue-se apenas o critério da última sexta feira do mês) e roteiro (o trajeto seria decidido na hora, por aqueles que estão na vanguarda do grupo de bicicletas).

O termo massa crítica também está relacionado à teoria dos sistemas emergentes, que seguem uma lógica de baixo para cima, enquanto que outros sistemas, controlados, são estruturados de cima para baixo, ou seja, com hierarquia e comando centralizado.

Ao deslocar-se pelas ruas, há o chamado corking: quando o grupo vai cruzar uma transversal, alguns ciclistas se posicionam de forma a impedir o tráfego nessa via, permitindo que o grupo todo passe pelo cruzamento sem ser dividido pela presença de veículos motorizados ou pelo fechamento de um semáforo.

Na disputa de espaço com os carros, o grande grupo de ciclistas geralmente prevalece. Evidentemente isso gera reclamações, buzinas e insultos por parte dos motoristas.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

educar motoristas?

Alguns motoristas se comportam de maneira bastante agressiva em relação às bicicletas. Em várias situações fica claro que não se trata apenas de falta de cuidado, mas de um gesto deliberado com a finalidade de agredir: buzinam, fazem cara feia, freiam em cima, xingam, fazem gestos de insulto.

A presença da bicicleta na rua incomoda profundamente essas pessoas, no mínimo por ser mais um obstáculo em seu caminho, entre tantos outros motivos que uma investigação psicológica mais profunda poderia revelar.

Diante disso, é comum ouvirmos a opinião de que os motoristas devem ser educados. Educados?

Educar consiste em ensinar pessoas a fazer coisas que elas não sabem, coisas que quando sabidas trazem benefícios práticos (saber fazer conta de vezes permite prever a conta do supermercado antes de passar pelo caixa) e coisas que quando ignoradas podem resultar em rejeição social (entrar em certos lugares sem pedir licença pode gerar confusão).

Portanto, quando dizemos que motoristas buzinam, xingam ou tiram finas de ciclistas porque não são educados estamos também afirmando, por pressuposto, que essas pessoas não sabem que a buzina assusta, não aprenderam na doce infância que xingar é feio, não desconfiam que uma colisão com um ciclista pode resultar em graves ferimentos ou morte.

Os motoristas agressivos sabem disso, sim.

Não acho interessante ceder a eles o confortável refúgio da ignorância.

Existe, de fato, uma coisa que boa parte dos motoristas provavelmente desconhece (ainda que eu duvide bastante que todos os motoristas agressivos desconheçam isso): de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, bicicleta é um meio de transporte e deve trafegar pela rua. Mesmo neste caso, penso que o termo educação não é muito bem adequado. Trata-se, aqui, simplesmente de informação, e de fato todos os motoristas devem estar informados de que lugar de bicicleta é na rua. A partir daí, não se trata mais de problema de informação. E muito menos de educação.

Trata-se, sim, de uma opção individual, a ser tomada por cada motorista, de respeitar ou não um semelhante.

E aqui está uma boa questão. Será que esses motoristas agressivos consideram o ciclista ali fora como um semelhante ou será que eles se veem como seres intrinsecamente superiores, sendo um dos indícios disso a opção que fizeram por estar dentro de uma máquina enquanto que o outro está ali fora fazendo força física para se locomover? De fato, aquela investigação psicológica aprofundada revelaria coisas bastante curiosas.

Claro que os ciclistas não são alvos exclusivos, nem mesmo preferenciais, da agressividade dessas pessoas. Outros motoristas, os motociclistas e principalmente os pedestres conhecem bem esta vida.

O problema é que cada vez mais ciclistas precisamos ocupar um espaço tomado por motos, carros e veículos maiores ainda, mas sem os invólucros de aço, o que nos dá a mesma fragilidade dos pedestres. Os veículos motorizados de certa forma já estabeleceram suas regras tácitas de convivência, e vemos que elas são bastante falhas, o que pode ser constatado pelo grande número de acidentes. Ciclistas não podem participar desse sistema de regras, pois sua integridade física está permanentemente ameaçada.

Se não existe o bom senso e nem, na falta dele, um sistema de leis efetivo o suficiente para garantir a coexistência pacífica dos indivíduos no espaço público, o único resultado é que prevalecerão os mais protegidos, os mais potentes, os maiores. Isso indica um estágio bastante precário no processo civilizatório.

Para que motoristas e ciclistas possam coexistir pacificamente, não basta ensinar aos motoristas o que eles já sabem, talvez nem mesmo informá-los de algo que pouco se refletirá em suas atitudes. É preciso que eles sejam civilizados.

3 Comentários

Arquivado em bicicleta

ciclovias – algumas questões

Nos países civilizados a bicicleta é seriamente tratada como meio de transporte, e uma das evidências disso é a quantidade de ciclovias existentes nas cidades e estradas. Enquanto isso, no Brasil, os usuários de bicicleta sonham com melhores condições de segurança, e as ciclovias muitas vezes ocupam posição central entre as demandas. É preciso tomar cuidado com simplificações, e por isso aqui vai uma breve reflexão sobre o assunto.

demanda imediata
A demanda por alternativas eficientes de transporte é imediata, sem falar na questão ecológica, coisa e tal. Por outro lado, ciclovias custam dinheiro e tempo para o seu planejamento e implantação. Aqueles que já estão decididos a utilizar a bicicleta como meio de transporte diário não podem esperar pelas ciclovias para sairem às ruas.

os cruzamentos
Por mais que as ciclovias sejam seguras, não há como eliminar os cruzamentos. É aí que ocorre grande parte dos acidentes atualmente. Portanto existe boa dose de ilusão na idéia de que ciclovias resolvem o problema.

a armadilha da exclusividade
Uma vez implantado um bom número ciclovias e ciclofaixas, parte do espaço público passa a ser de uso exclusivo dos ciclistas. Em princípio, isso parece ótimo, pois contribui bastante para a segurança de ciclistas e pedestres (já que, por medo de acidentes, muitos ciclistas utilizam, erradamente, a calçada).

O problema, então, passará a estar nos locais que continuarão sem ciclovias ou ciclofaixas. Se hoje, por falta de informação, muitos motoristas insultam os ciclistas e dizem que eles devem trafegar pela calçada, é bastante provável que, pelo mesmo raciocínio, muita gente passe a acreditar que o ciclista deva andar somente pela ciclovia, onde ela estiver disponível.

Em certos tipos de vias, como ruas de tráfego local, simplesmente não há necessidade de se alocar um espaço para uso exclusivo das bicicletas. Neses locais, a segurança do ciclista continuará dependendo da atitude do motorista. Ou seja, a coexistência sempre será necessária em certas situações, e o fato é que os motoristas terão que aprender isso em algum momento. Se é assim, podem começar a aprender a partir de agora.

Eis a palavra chave: coexistência. E essa noção se opõe diretamente à idéia de exclusividade.

O grande problema é que a possibilidade de coexistência não depende de decisões do poder público, não depende de planejamento ou de dotação de verbas. Depende de civilidade. E é bastante difícil acelerar o processo civilizatório.

Trata-se de uma aprendizagem individual relacionada com o uso do espaço público. Nele, cada um é obrigado a dividir o espaço com os outros.

É evidente que ciclovias e ciclofaixas são necessárias e devem ser implantadas o mais rápido possível, e esse possível dependerá da pressão dos interessados.

Porém a coexistência não depende de decisões que “vêm de cima”. Ela já é teoricamente possível neste momento, e esse deve ser o principal foco da demanda dos ciclistas por seu espaço, havendo ou não as ciclovias. Não se deve deixar que a possibilidade de os paulistanos ganharem ciclovias em um futuro mais ou menos próximo deixe a discussão se desviar desse foco.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

lugar de bicicleta é na rua

Boa parte dos motoristas paulistanos não compreende que bicicleta é um meio de transporte e, como tal, tem seu lugar assegurado no sistema viário.

Se não é possível contar com o bom senso, vejamos o que diz o Código de Trânsito Brasileiro. O artigo 58, que faz parte do capítulo III “Das normas gerais de circulação e conduta”, determina a forma de circulação a ser seguida pelos ciclistas e, obviamente, reconhecida e respeitada pelos motoristas.

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

O CTB também estabelece medidas de segurança a serem obrigatoriamente adotadas pelos motoristas. No capítulo XV “Das Infrações” está o artigo 201, que determina a distância lateral mínima.

Art. 201. Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta:
Infração – média;
Penalidade – multa.

Boa parte dos ciclistas também desconhece esse direito. Por isso, e também por medo de sofrer um acidente, trafegam pela calçada causando uma série de problemas. Tal atitude é assunto para outro texto, mas é bom saber que ciclistas também estão sujeitos a penalidades. O artigo 255 também faz parte do capítulo XV.

Art. 255. Conduzir bicicleta em passeios onde não seja permitida a circulação desta, ou de forma agressiva, em desacordo com o disposto no parágrafo único do art. 59:
Infração – média;
Penalidade – multa;
Medida administrativa – remoção da bicicleta, mediante recibo para o pagamento da multa.

A atitude do ciclista dentro do sistema viário depende em grande parte da forma como ele vê sua condição de ciclista. Quem vê a bicicleta como um meio de transporte deve assumir essa condição e ocupar na rua o espaço a que tem direito. Claro que isso envolve riscos, mas a vida é isso aí.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

ilha do bororé

Com a construção da Barragem de Pedreira, em 1927, uma grande área começou a ser inundada às margens do Rio Jurubatuba. Formou-se então a Represa Billings, construída para alimentar a usina hidrelétrica de Henry Borden, em Cubatão. A inundação fez com que algumas áreas ficassem isoladas. Uma grande porção de terra às margens do Rio Taquacetuba transformou-se em península. O acesso por terra é ainda possível pelo sul, mas é mais fácil chegar de balsa.

Esse local ficou conhecido como Ilha do Bororé e tem cerca de três mil habitantes. A oeste está o Grajaú e a leste está o município de São Bernardo do Campo, ambos separados da ilha por grandes braços da represa. Ao sul, liga-se com os arredores dos bairros de Parelheiros e Colônia Paulista.

A paisagem é de área rural, com vegetação nativa de mata atlântica, e faz parte da APA Bororé-Colônia. A Ilha do Bororé será atravessada pelo trecho sul do rodoanel, e devemos torcer para que não haja acesso dessa via à Ilha, pois o isolamento garante a tranquilidade e a preservação do local.

O trajeto até a Ilha do Bororé tem aproximadamente 35km contados a partir do bairro de Pinheiros. Até Jurubatuba, é possível seguir uma rota paralela à Marginal Pinheiros por vias seguras. Cruzado o rio, passa por dentro do bairro de Interlagos e depois pelo Grajaú.

O único trecho relativamente complicado é a Faria Lima. Além de o chão ser muito ruim, motoristas de carros e ônibus têm aí um comportamento particularmente agressivo. No centro de Santo Amaro tem muita gente atravessando a rua; os veículos motorizados costumam ficar praticamente imobilizados, e acabam sendo inofensivos. Os arredores da nova ponte Vitorino Goulart da Silva e do autódromo são o trecho mais tranquilo da parte urbana da viagem. A Teotônio Vilela e a Belmira Marin são cheias de veículos motorizados (fumaça!) e eles têm alguma mobilidade, portanto cuidado. Passada a entrada para o bairro de Xangilá, falta só uma longa descida para chegar na balsa: se joga!

Encoste sua bicicleta em uma das laterais da balsa e receba o vento na cara. A travessia é rápida, portanto aproveite. Às vezes tem biscoito de polvilho pra vender dentro da balsa, e nas duas margens tem cerveja em lata. A partir daqui é só sossego. Dentro da ilha, a estrada tem subidas e descidas suaves e é bem tranquila, passa pouco carro. Tem verde por todos os lados e um visual da represa de vez em quando. Tem uma igrejinha, caldo de cana e um lugar que serve comida caseira.

Em vez de voltar pelo Grajaú, você pode seguir até a segunda balsa, que cruza um canal mais largo que o primeiro. Foi o que fiz da primeira vez que fui à Ilha. No meio do canal passa a divisa entre São Paulo e São Bernardo. Depois da segunda balsa a estrada é de terra. A certa altura você passará por baixo da Imigrantes, e existe uma pequena trilha por onde dá para subir até a rodovia. Nesse local você está pouco mais de três quilômetros ao sul do pedágio. Dá para pedalar com relativa tranquilidade pelo acostamento até a divisa entre Diadema e São Paulo (km 12), cruzar a estrada pela passarela e voltar por dentro do Jabaquara.

Detalhe importante: planeje uma refeição decente em algum ponto da viagem, pois voltando pela Imigrantes são praticamente cinco horas de pedal.

1 comentário

Arquivado em bicicleta