sinal vermelho

Não proponho que os ciclistas descumpram o Código de Trânsito Brasileiro. Entretanto cabe lembrar alguns fatos, uns mais evidentes que outros, sobre por que existe o sinal vermelho. Isso pode ajudar a compreender alguns comportamentos no espaço público.

semáforos foram inventados para disciplinar o tráfego de veículos motorizados
Quando só os seres vivos se movimentavam, e as máquinas viviam paradas, não havia semáforos. As máquinas se desenvolveram, passaram a andar por aí e se proliferaram. Por isso existem os semáforos. Em cidades pequenas, onde há poucos carros e as pessoas têm o hábito de olhar nos olhos umas das outras, semáforos são desnecessários. Na China, mesmo em cidades razoavelmente populosas, ainda é possível haver cruzamentos em que motoristas, ciclistas e pedestres negociam como seres vivos a passagem pelo espaço comum, sem a mediação dos sinais luminosos e sem que isso resulte em acidentes.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com um veículo motorizado
A afirmação parece óbvia, e muitos dirão que ela vale também para automóveis. Seria estranho dizer que os motoristas querem acidentes, mas é difícil aceitar que eles façam tudo para evitá-los. Na disputa pelos espaços, o motorista blefa: vou por ali, o outro que reduza ou desvie, e me deixe passar. Só que nem sempre o blefe funciona. Pequenos acidentes entre automóveis acontecem aos montes a cada minuto, e resultam apenas em danos materiais. Custa dinheiro, mas é isso. No máximo terão que decidir quem aciona a seguradora, e talvez desmarcar a terapia amanhã cedo para poder levar o carro na vistoria.

Acidentes entre um carro e uma bicicleta sempre machucam bastante.

Motorista, entenda uma coisa: qualquer que seja a gravidade da colisão, eu, ciclista, sempre levarei a pior. O choque será entre o meu corpo e o seu patrimônio.

nenhum ciclista tem interesse em envolver-se numa colisão com outro ciclista, com outro ser humano ou com outro ser vivo
Quem anda sobre uma bicicleta está infinitamente mais próximo da situação do pedestre que do lugar do motorista. Está perto das pessoas, pode ver e ouvir os outros. Pode comunicar-se com gestos, com expressões no rosto, pode parar instantaneamente para dar passagem, pode saudar e agradecer apenas balançando a cabeça. Pode deslocar-se na mesma velocidade de alguém que caminha, quando for necessário.

A potência cara e artificial da máquina e o isolamento dos vidros e do aço não afastam apenas a brisa, o canto dos pássaros e algumas belas cenas, que acontecem na rua o tempo todo. Afastam os outros. Sem o outro não existe convivência. Sem convivência é difícil sentir-se semelhante.

Ciclistas e pedestres devem respeitar o sinal vermelho simplesmente porque esse é o acordo. Mas não precisam dele para saber compartilhar o espaço comum.

3 Comentários

Arquivado em bicicleta

3 Respostas para “sinal vermelho

  1. Ana

    Sou motorista de carro.
    Por opção, sim, é verdade. Mas uma falsa opção. Onde moro praticamente não tem transporte público (Zona Sul de SP), ao menos nenhum transporte público digno, que me leve a um ponto mais central da cidade sem ao menos uma caminhada de 2km, um percurso sobre rodas ou trilhos de menos de 1h30. Optei por morar na Zona Sul… discutível.
    Em suma, sou motorista de carro.
    A bicicleta seria uma opção, mas ainda não tenho fôlego para longos percursos, sobe e desce, etc. e, claro, tenho um pouco de receio do impacto máquina-corpo. Assim mesmo, quem sabe um dia. Preciso treinar.

    Bom, digressões à parte. Este post lembrou bem, carros isolam.

    Outro dia, numa conversa entre motoristas de carro lembramos de outros fatores de isolamento. O vidro fumê, o ar condicionado, o celular…
    Uma colega com seus cinquentinhas lembrou: “não tem mais paquera no trânsito! Lembra, o sinal vermelho era o momento da paquera… Agora, no sinal, fico vendo e-mail no celular, nem olho para os lados”… Isolamento voluntário. Este sim, plenamente opcional.

    Não sofro desse mal, mas sofro de outro. Como carro, no trânsito, sou uma coisa, não sou uma pessoa. Sou tratada no trânsito como obstáculo a ser transposto. E se não me cuidar, entro em transe e sou capaz de ver outros carros como obstáculos.
    Outro dia, fui rasgada por um caminhão por estar a 80 km/h numa faixa da direita da pista expressa. O caminhão ficou p. de me ver abaixo da velocidade máxima, mesmo numa faixa da direita, e meu deu um cotoco, para eu ficar esperta, imagino. Se eu morresse ou me ferisse na brincadeira, a consciência talvez pesasse, ele se lembraria que ali havia uma pessoa. Naquele momento, como em muitos outros fui apenas um obstáculo.

    Infelizmente preciso concordar. Carros “Afastam os outros. Sem o outro não existe convivência. Sem convivência é difícil sentir-se semelhante.”

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