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destino

Tempos de confinamento e trabalho remoto, a rua vai ficando longe, ou apenas para saídas estritamente necessárias. Para diversão, não pode. A preguiça começa a se misturar aos julgamentos. Preciso mesmo sair? Deixa pra lá.

Eis que surge um motivo qualquer para sair de bicicleta: encontrar alguém que você não vê há tempos, uma questão prática para resolver na rua, um lugar agradável para comer ou beber numa cidade vizinha, ou apenas ver se aquela praça tão bacana ainda está no mesmo lugar. Eis que surge um destino.

Felizmente o destino está lá, não aqui. A viagem se faz necessária.

Técnicos de transportes dizem que as zonas e os locais da cidade “produzem ou atraem viagens”, definidas como o “deslocamento de uma pessoa, por motivo específico, entre dois pontos determinados (origem e destino), utilizando um ou mais modos de transporte”.

Aqui diremos simplesmente que o destino cria o caminho.

Um caminho existe porque alguém precisa ir. Caminho é uma linha, e linhas são histórias. Fora disso, é tudo espaço, sem forma nem sujeito.

Então você sai atrás do seu destino, encontra o ar da primavera e se dá conta da confusão que estava prestes a te tragar. Destino era tudo que faltava para você sair lá fora, tomar sol, sentir o vento na cara.

Na avenida, um clarão de teoria da compexidade chega na forma de um tostines: está faltando vento na cara porque a vida anda sem destino ou a vida anda sem destino porque está faltando vento na cara? Girando em velocidade de cruzeiro, os aros da sua bicicleta vão te afastando da zona de conforto.

Destino é uma dádiva. É a vida te convidando ao movimento. Sem ele, não pense que a cabeça aguenta.

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paisagem urbana

Localizada na borda de um morro, esta praça costumava ser um local para apreciar a vista da cidade. Tanto que ganhou o nome de Mirante da Vila Gomes. Só que a vegetação cresceu.

Foto: Dionizio Bueno (março/2021)

A folhagem é linda, forma uma parede verde que envolve aquele espaço. Porém a praça perdeu um de seus atrativos mais especiais.

Outros usos continuam existindo, como se pode comprovar em alguns minutos de observação no local: levar o cachorrinho fazer cocô, encontrar vizinhos e conversar, fumar um cigarro, praticar nos aparelhos de ginástica, sentar no banco e olhar a rua. Esses são os usos possíveis de praticamente qualquer outra praça da cidade. Esta, por sua posição, tinha um uso peculiar, e agora não tem mais.

Uma foto tirada pouco mais de dois anos antes da anterior dá uma pequena ideia da vista que havia. Em primeiro plano, o casario do outro lado do vale logo atrás. Depois, as árvores do espigão onde passa a rodovia Raposo Tavares. E ao fundo, o horizonte de prédios lá para os lados da Vila Sônia, a alguns quilômetros dali.

Foto: Murilo Capelini (janeiro/2019)

Espaços públicos bem aproveitados em todas suas potencialidades tornam-se lugares vivos, cheios de gente, acolhedores. São um convite para que as pessoas estejam ali convivendo, em vez de ficarem isoladas em espaços privados.

Queremos muitas árvores e áreas verdes em nossa cidade, mas é também preciso compreender como o excesso de vegetação pode, em algumas situações, ser um fator limitante. Praças com mato alto onde deveria haver um gramado não são atrativas. Locais com excesso de cobertura arbórea tornam-se escuros e transmitem sensação de insegurança. Uma parede de vegetação cria pontos em que as pessoas não se sentem vistas, e isso traz sensação de vulnerabilidade. E, como mostra o exemplo desta praça, inviabilizam um mirante.

Casos como esses mostram que, mesmo quando se trata de verde, mais não é necessariamente melhor.

A paisagem urbana é um elemento importante das cidades. Cenários como o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, a Cordilheira dos Andes em Santiago e o Monte Fuji em Tóquio tornam esses lugares únicos. Em alguns casos, o valor da paisagem pode inclusive ser monetizado: apartamentos com uma vista bonita são mais caros que imóveis equivalentes porém sem a vista.

Se a topografia de um espaço público proporciona uma bela vista que pode ser desfrutada por todos, é difícil entender como isso pode ser jogado fora, seja por gesto intencional ou por descuido.

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guerra contra o lazer

Tempos de pandemia, tudo está fechado na cidade, exceto aquilo que é considerado essencial, como farmácias e mercados. Então, na véspera do dia dos namorados, a prefeitura autoriza a reabertura de shoppings. Parques públicos, nem pensar em reabri-los. Eles continuariam fechados ainda por bastante tempo depois disso. O recado é claro: você pode sair de sua casa e frequentar aglomerações em lugares fechados se for para consumir, mas fazer um passeio ao ar livre para cuidar de sua saúde física e mental, isso não pode.

Agora resolvem antecipar feriados municipais deste ano e do ano que vem criando, para os setores que aderirem, um feriadão de dez dias. Algumas dessas pessoas podem querer viajar, todos sabem como tem sido difícil esse período de confinamento que acaba de completar um ano. Viajar não significa necessariamente estar em praias cheias, bares disputados ou outras formas de aglomeração. Espairecer, respirar outros ares, ver pessoas queridas, descansar, essas atividades também são importantes e trazem benefícios para a saúde.

Mas isso não pode.

Quando chega o feriadão, diversas cidades do interior e do litoral anunciam barreiras sanitárias com o objetivo de intimidar as pessoas e desestimular viagens. Ninguém será impedido de passar pelas barreiras, mas quem encontrar uma dessas em seu caminho ficará sujeito a diversas formas de constrangimento: esperas que podem ser longas, uma quantidade imprevisível de perguntas e outros possíveis aborrecimentos.

As milhares de pessoas pegando ônibus e trens cheios para ir ao trabalho todos os dias não parecem preocupar essas autoridades. Mesmo com uma catástrofe em curso, esses gestores resistem às recomendações de especialistas da área da saúde para que seja decretado o lockdown, que poderia em poucas semanas diminuir sensivelmente o ritmo do contágio. Para eles, mais importante que tomar atitudes radicais para conter a pandemia é atender as demandas dos empresários, que querem seus empregados produzindo a qualquer custo. De vez em quando, anunciam alguma medida de efeito midiático para tentar causar na opinião pública a impressão de que estão fazendo alguma coisa.

A decretação desse longo feriado seguida da criação de barreiras sanitárias, mais uma vez mostra como a gestão pública é incapaz de levar em conta a importância do lazer para a saúde das pessoas. Todos conhecem os cuidados a serem adotados quando estão em lugares públicos. É o que as pessoas fazem quando precisam ir trabalhar. Se for para o lazer, porém, tomar os devidos cuidados não basta. A única opção é privar-se disso por tempo indeterminado. Muitos médicos têm alertado para a importância de fortalecer a imunidade neste período, e está demonstrado que o convívio social é benéfico para o sistema imunológico. Impedir que as pessoas mantenham práticas benéficas para a saúde num momento como este é um ato irresponsável. O lazer não pode ser tratado como ameaça coletiva.

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