relatividade

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Vinte minutos, dependendo do lugar em que você está, são suficientes para sair de casa, tomar um café, comprar algo no mercado, prosear com alguém que você encontra na rua e ainda chegar pontualmente no compromisso. Vinte minutos ali valem muito.

Agora chegue em São Paulo com vinte minutos no bolso para ver o que acontece. Aqui, vinte minutos não valem nada. É o tempo de juntar as coisas, pôr o pé na rua e no máximo virar a esquina de casa. Se tiver que voltar para pegar a blusa que esqueceu, os vinte minutos talvez se esgotem antes que você saia pelo portão. Haverá uma taxa de câmbio para comparar o valor do tempo de uma localidade em relação ao de outra?

Imagine que no sábado você chega no sítio de um amigo para passar uns dias. Quando é domingo você pensa, “nossa, quanta coisa já aconteceu, que bom que ainda é domingo”. Então você sente que, caso tivesse ficado em São Paulo, naquele mesmo momento você já estaria na segunda ou terça-feira. Parece que ali o tempo rende duas a três vezes mais.

Este exemplo mostra bem a discrepância entre o tempo cronológico, aquele que pode ser registrado por algum instrumento de medição, e o tempo percebido, aquele que é efetivamente vivido e sentido pelos sujeitos. Uma mesma quantidade de tempo medido pode ser vivida de formas bem diferentes conforme a circunstância, a pessoa e, principalmente, o modo de vida que ela adota.

Dizem que foi graças à sociedade urbanizada, baseada em competição, especialização do trabalho e desenvolvimento tecnológico, que a expectativa média de vida aumentou bastante, pois esse sistema socioeconômico teria permitido o avanço da medicina e a melhoria das condições sanitárias para muitas pessoas. Por exemplo, enquanto na Inglaterra, por volta de 1850, aqueles que sobrevivessem ao primeiro ano de vida (ou seja, tirando da conta a mortalidade infantil) viviam entre 45 e 50 anos, na segunda década do século XXI, considerando o mesmo recorte estatístico, a expectativa média de vida é cerca de 80 anos. Se, por um lado, os dados sobre o aumento do tempo cronológico de vida parecem incontestáveis, o mesmo não se pode dizer daquilo que as pessoas percebem sobre seu tempo de vida.

É nessas raras situações de aproximação entre modos de vida que a discrepância pode ser revelada. Assim como um dia no sítio do amigo parece dois ou três para aquele que chega impregnado do modo de vida urbano, talvez os 45 ou 50 anos vividos devagar, num cenário rural, lá em 1850, fossem percebidos por aquelas pessoas como uma quantidade de tempo maior do que aquela que um ser urbano contemporâneo efetivamente vive durante suas 80 voltas em torno do Sol. Assumindo um fator dois, para ser conservador, talvez nós, da vida urbana sobrecarregada de demandas, estímulos e informações, precisássemos viver entre 90 e 100 anos para sentir o mesmo tempo de vida que aquele camponês do século XIX.

Assim, o tempo extra de vida criado pela sociedade urbana tecnológica lembra a emissão excessiva de moeda pelo banco central de um país, sem que haja contrapartida em riquezas reais, o que geralmente resulta, entre outros indicadores, na desvalorização cambial. Há mais dinheiro para todos, porém ele vale muito menos.

Enquanto a sociedade urbana e tecnológica, pelo menos para os mais sortudos na estatística, aumentou a cota de tempo cronológico sobre a Terra, ela nos tira o tempo percebido, verdadeiramente vivido. Ela nos dá mais calendários anuais para ir riscando os dias, sem avisar que não é com esse tempo de papel que se contabiliza a vida.

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