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caminhos de água

Nas montanhas da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, nasce o Jaguari, rio da onça. Vem descendo por Camanducaia, Itapeva e Extrema, como um viajante que vai de Minas para São Paulo. Sem perceber, cruza a divisa de estados, e então é represado. No cativeiro, conhece o Jacareí, rio do jacaré, que passa ali bem pertinho e vira represa logo depois de atravessar Joanópolis. As máquinas cortaram a montanha e fizeram um canal, permitindo que os dois lagos se comuniquem. Fundidos os dois rios, está formada a represa Jaguari-Jacareí.

A 844 metros de altitude, essas águas são colocadas dentro de um túnel, e então começam a descer rapidamente. Vão sair dele na altitude de 821 metros, em outro grande lago. É o rio Cachoeira, que também vinha de Minas mas foi represado pouco antes de chegar a Piracaia. Surge outro túnel, e essa água começa de novo a descer até cair, a 787 metros de altitude, na represa do rio Atibainha. Estamos em Nazaré Paulista.

As poucas águas que escapam das represas seguem os caminhos que lhes eram destinados quando nasceram. O Atibainha cruza a SP-036 e a SP-065. Logo ali, em Bom Jesus dos Perdões, encontra o Cachoeira. Dessa união forma-se o Atibaia, que passa em baixo da BR-381 e vai embora, seguindo de perto a SP-065. Em Itatiba, cruza a SP-063 e a SP-360. Na região de Campinas, cruza a estrada de ferro Mogiana, a SP-340, as ferrovias da Sorocabana e da Fepasa, a SP-332, e finalmente chega em Americana.

O Jaguari, que vinha vindo lá de Minas, segue quase paralelo, pouco mais ao norte. Atravessa a BR-381 pouco antes de Bragança Paulista, onde vai cruzar a SP-008 e a SP-095. Encontra a SP-360 em Morungaba, a SP-340 em Jaguariuna e a SP-332 em Paulínia, para então chegar também a Americana, onde se junta ao Atibaia. Está formado o Piracicaba, que vai se jogar no Tietê 115 quilômetros rio abaixo.

Mas voltemos a Nazaré, onde boa parte da água dos primeiros formadores do Piracicaba ficou represada, com um destino que não mais será as terras de pescadores e violeiros do interior do estado. Essas águas começam a correr por um canal a céu aberto, naqueles 787 metros de altitude em que estávamos, até encontrarem mais um túnel. Só que este túnel faz algo que aqueles outros não fazem: por baixo da montanha, atravessa o divisor de águas. E assim, estas águas deixam definitivamente de pertencer ao Piracicaba. Quando voltam a ver a luz, ainda contidas num extenso canal, elas se encontram na bacia do Alto Tietê. Estão sendo conduzidas para a capital.

O canal, a entrada do túnel e a estrada do Rio Acima se encontrando com a SP-036. Imagem: DigitalGlobe.

Antes de lá chegarem, mergulham numa quarta represa, a do rio Juqueri, em Mairiporã, a 745 metros de altitude, já ao pé da Serra da Cantareira. Atravessar essa montanha não será tão simples. Se até agora elas se deslocaram só por gravidade, mesmo quando dentro de túneis, desta vez elas terão que ser recalcadas. Pela força de um sistema de bombeamento, são elevadas a 855 metros de altitude e chegam na represa de Águas Claras, no alto da Cantareira. A partir daí, seu destino é o uso humano e industrial. Vão abastecer em parte uma das aglomerações urbanas mais intrigantes do mundo.

SP-036, estrada do Rio Acima, SP-023 e estrada de Santa Inês compõem a rota que mais de perto acompanha essa viagem. Nossos caminhos frequentemente cruzam ou seguem caminhos de água, muitas vezes sem que nos demos conta. Na bicicleta, que nos deixa sentir o relevo com as pernas, sabemos que ao cruzar um vale geralmente estamos no início de um trecho em ascensão. A pressa pouco vai ajudar agora. Bom momento para conhecer o vale e seus sons, seus frutos, seus cheiros. O vale é o domínio de um rio. Cada ponte indica o encontro com um caminho de água. Que história corre ali em baixo?

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épico 2015

ÉPICO 2015

Solo, 6 dias, aproximadamente 490km.

dia 1: São Paulo – Bragança Paulista
dia 2: Bragança Paulista – Munhoz
dia 3: Munhoz – Cambuí
dia 4: Cambuí – Paraisópolis
dia 5: Paraisópolis – São José dos Campos
dia 6: São José dos Campos – São Paulo

EP15

Trajeto completo aqui. Definição de Épico aqui.

Leia também o relato desta viagem.

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épico 2013

ÉPICO 2013

Solo, 4 dias, aproximadamente 310km.

dia 1: São Paulo – Campinas (Barão Geraldo)
dia 2: Campinas – Holambra
dia 3: Holambra – Morungaba
dia 4: Morungaba – São Paulo

EP13

Trajeto completo aqui.

Definição de Épico aqui.

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cruz da babilônia

A Cruz da Babilônia é uma série de quatro roteiros que, projetados sobre a sinistra mancha de concreto, formam uma intrigante figura.

imagem: Google Earth

Os quatro destinos, Evangelista de Souza, Taiaçupeba, Canguera e Jarinu, estão a mais ou menos setenta quilômetros contados a partir da Praça do Ciclista, em São Paulo. Todos eles estão também relativamente próximos a uma estação de trem, o que nos finais de semana pode facilitar a volta.

Evangelista de Souza, o braço sul da Cruz da Babilônia, é uma vila ferroviária abandonada no extremo sul do município, no distrito de Engenheiro Marsilac. Nesta viagem você não sai do município em momento algum, mas vai pedalar por um bom tempo na área rural de São Paulo. É um trajeto predominantemente plano, apenas com algumas subidas longas na Avenida Teotônio Vilela.

Taiaçupeba, o braço leste da Cruz da Babilônia, é um bairro de Mogi das Cruzes, já bem próximo à divisa com Bertioga, no alto da serra. Para chegar lá você atravessa a imensa zona leste paulistana e alguns municípios pequenos, sem sair da Região Metropolitana de São Paulo. É o trajeto mais plano e fácil dos quatro, atravessando a zona leste pela ciclovia.

Canguera, o braço oeste da Cruz da Babilônia, é um bairro de São Roque localizado no final da Estrada do Vinho, em uma região de pequenas serras. Nesta viagem você atravessa vários municípios da Região Metropolitana e finalmente sai dela por Itapevi. Dos quatro, é o trajeto de maior ascensão total e também o que tem a subida mais inclinada, já bem perto do destino.

Jarinu, o braço norte da Cruz da Babilônia, é um município localizado entre Jundiaí e Atibaia, totalmente fora da Região Metropolitana de São Paulo. É talvez a viagem mais tranquila das quatro, e apesar de a ascensão total ser relativamente grande, não há subidas muito inclinadas. É também um trajeto muito agradável, com paisagens naturais variadas.

Precisando tomar vento na cara? Basta escolher uma direção. Foi assim que nasceram estas quatro viagens.

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jarinu

O arraial de Campo Largo, hoje município de Jarinu, foi fundado no século XVIII e já pertenceu a Atibaia e a Jundiaí. Faz parte de uma região turística denominada Circuito das Frutas, e promove anualmente a Festa do Morango no fim do mês de junho. A região tem também diversos alambiques e chácaras que vendem mel, frutas e produtos caseiros.

Este roteiro, apesar de ter algumas subidas de dificuldade média, vai por lugares bastante tranquilos. Passado o trecho urbano, há acostamento seguro praticamente o tempo todo, e a condição das estradas é muito boa.

Partindo da Praça do Ciclista, o trajeto sai inicialmente na direção da Lapa, e então toma o rumo norte passando pela Lapa de Baixo, ponte do Piqueri e um atalho que vai te deixar na Raimundo Pereira de Magalhães próximo ao local que foi cogitado para o estádio Piritubão, já bem adiante de uns trechos perigosos. Essa avenida já é a SP-332 (estrada velha de Campinas), e tem tráfego intenso mas suportável até a região de Taipas. Há então uma longa descida até Perus, passando pelo início do Rodoanel.

Logo após a primeira entrada de Caieiras, você estará numa região alta e verde, com vista para praticamente todas as direções. Verá o Pico do Jaraguá já distante, desde um ponto de visão oposto ao da capital. Perto do centro de Caieiras há uma passagem em nível sobre a ferrovia, o que é lamentável para uma estrada estadual com bastante tráfego. (Enquanto não fica pronto o viaduto, a cancela fecha e os motoristas ficam parados o tempo suficiente para sentir raiva das ferrovias, que tanto atrapalham seus sonhos de liberdade.)

Passada a divisa de Franco da Rocha há uma boa subida, depois um trecho relativamente plano, e então uma descida longa e divertida que vai terminar na SP-354. Aqui a paisagem muda outra vez, você está cercado de mato e logo estará fora da Região Metropolitana de São Paulo, no município de Campo Limpo Paulista. Já terá pedalado por mais de duas horas, pense numa parada para alimentação (leve seu lanche!).

No centro de Campo Limpo Paulista, você atravessa um pequeno trecho urbano. Siga placas na direção de Jarinu. De volta à estrada, há algumas subidas um pouco longas mas relativamente leves, exercite a paciência! Logo no primeiro trevo, entre em Jarinu e descanse pedalando, enquanto observa o ritmo tranquilo e aconchegante da cidade.

foto: maio/2012

Seguindo por uma rua cheia de comércio, chegará à praça da matriz: coreto, crianças brincando, bancos de madeira, um lago com fonte e alguns bêbados. Informe-se e encontre um lugar para uma refeição. Você terá pedalado aproximadamente 73km.

A volta pode ser feita pelo mesmo trajeto ou seguindo pela SP-354 até a SP-348 (rodovia dos Bandeirantes). Se for sábado à tarde ou domingo, existe a opção de pegar o trem em Jundiaí. Siga pela estrada municipal JAR-030, que é muito bonita. Depois de alguns bairros, encontrará a SP-360. Siga indicações, e você estará num ramal dessa estrada que te deixará bem próximo ao centro de Jundiaí.

Jarinu é o braço norte da Cruz da Babilônia.

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canguera

A região de Canguera, no município de São Roque, começou a ser povoada no final do século XIX por famílias de viticultores. Em 1917 é erguida a primeira capela e, em 1918, a primeira escola. O bairro fica no final da Estrada do Vinho, que atravessa uma região muito agradável, repleta de quintas, vinícolas e sítios.

É possível evitar quase totalmente a Raposo Tavares indo pela SP-274 até Mailasqui, que está a uns cinco quilômetros da Estrada do Vinho. Nesta estrada há alguns morros, sendo um de inclinação razoável e que terá de ser enfrentado tanto na ida quanto na volta. A recompensa são as várias descidas longas e divertidas, em que a bicicleta pode atingir altas velocidades com segurança.

Neste trajeto você sai de São Paulo no rumo oeste pela região de Presidente Altino. Ali, começa a acompanhar a ferrovia numa sequência de avenidas (SP-312) que atravessa Osasco, Carapicuíba e chega em Barueri, onde começa a Estrada Velha de Itapevi (SP-274). Esta atravessa Jandira por cima de um espigão onde você terá várias vistas para o vale do Tietê, a serra da Cantareira, o Pico do Jaraguá e a serra de Santana do Parnaíba.

Depois do centro de Itapevi o caminho fica bem mais agradável, pois você está saindo da Região Metropolitana de São Paulo. O bairro de São João Novo é um bom lugar para uma parada, e aos sábados tem feira na praça principal. Logo você chegará na Raposo Tavares (SP-270). O trecho até o começo da Estrada do Vinho é praticamente só descida. Em horários de pouco tráfego é possível até mesmo seguir pela faixa principal, evitando o acostamento, que tem muita areia e sujeira que pode furar pneu. Na Estrada do Vinho a tranquilidade é total. Pedale nas subidas com paciência, você está quase lá.

canguerafoto: setembro/2011

Ao chegar em Canguera, irá encontrar um lugar pacato com casas antigas, igreja, estação, muitos restaurantes turísticos e a Estrada de Ferro Mairinque-Santos. Nesse trecho a ferrovia está ativa somente para transporte de carga. Passam aí vários trens por dia, vindos do Mato Grosso e interior de São Paulo, cada um com centenas de toneladas de grãos, e que vão passar por Evangelista de Souza e então descer a Serra do Mar rumo ao porto de Santos.

Se você quer algo diferente dos restaurantes turísticos, encontrará uma excelente comida caseira no sítio da Dona Conceição, que fica um pouco depois do centrinho de Canguera. Você verá à direita um acesso de terra e uma placa falando em pão caseiro. Poderá almoçar na varanda com uma incrível vista para um vale com casas e lagos. De vez em quando, ouvirá o trem que passa praticamente dentro do sítio, logo atrás da horta.

São aproximadamente 65km da zona oeste de São Paulo até Canguera. Na volta, você pode pegar o trem em Itapevi (verifique horários em que bicicletas são permitidas), são cerca de 33km até a estação. A subida na Raposo Tavares é longa mas bem menos inclinada que os morros da Estrada do Vinho. Porém, como ocorre com alguma frequência, nas longas subidas o acostamento é transformado em faixa para veículos lentos, e pedalar pela sarjeta é bastante perigoso. Vá pelo acostamento da pista que desce, prestando atenção nas entradas de propriedades e paradas de ônibus.

Canguera é o braço oeste da Cruz da Babilônia.

=== POST SCRIPTUM ===

Infelizmente, o mencionado sítio que servia comida caseira foi reconfigurado há alguns anos. Chama-se ‘Restaurante Casa da Vovó Conceição’. Passou a ser um lugar que oferece almoço a preços de restaurante executivo da avenida Paulista e vende cerveja a preço de bar badalado na Vila Olímpia. Segundo me foi informado por uma funcionária, a mudança já tem uns 3 anos.
(fevereiro / 2017)

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via do sossego

Quando foi descoberta, a rota conhecida por Via do Sossego passou a ser uma alternativa segura de ligação entre Pinheiros e Itaim, antes feita pela avenida Faria Lima, um lugar particularmente tenso. Assim, pelo contraste com a rota anterior, o nome pareceu natural aos viajantes que ali passavam. Especialmente para quem vem das regiões de Perdizes ou Lapa, é o modo mais agradável de chegar, por exemplo, à Vila Olímpia, onde está uma das entradas da ciclovia do rio Pinheiros.

A rota atravessa um daqueles bairros que têm muitas árvores, casas gigantescas e nenhum pedestre na rua. A declividade baixa faz o caminho agradável na descida e na subida. As ruas são tortuosas e cheias de lombadas, que limitam a velocidade com uma eficácia que, em São Paulo, as leis não conseguem.

Na descida (em verde no mapa), o trajeto começa na rua Atlântica (para quem vem pela avenida Brasil) ou na Joaquim Antunes (para quem vem de Pinheiros). Seguindo pela Groenlândia, haverá um semáforo e a rua Polônia começa à direita (a indicação do nome da rua é pouco clara nesse ponto). A sequência então é: Polônia, Áustria, Itália, Rússia. Sem qualquer esforço, você logo estará cruzando a Nove de Julho e entrando no Itaim, de onde poderá seguir rumo a Vila Olímpia, Brooklin, Santo Amaro.

Na subida (em lilás no mapa), chegando pela Bandeira Paulista, a rota é: Alemanha, Inglaterra, Venezuela. A partir daí, segue-se para Pinheiros ou Perdizes pela Brasil ou para a Paulista via Bela Cintra.

Fique atento nas confluências sem semáforos e nas rotatórias.

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taiaçupeba

No alto da Serra do Mar, quase na divisa com Bertioga, está Taiaçupeba, distrito de Mogi das Cruzes. É um pequeno e festeiro vilarejo, cercado de chácaras e com um clima rural muito agradável. A poucos quilômetros de Taiaçupeba está a represa do Jundiaí (não confundir com a represa do Taiaçupeba, na divisa com Suzano e às margens da SP-039).

É possível chegar a Taiaçupeba por dentro da cidade, atravessando inteira a zona leste de São Paulo e mais alguns municípios. Você passará por Itaquera, Guaianazes, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Suzano e bairros de Mogi. No caminho, é interessante observar como a paisagem urbana vai mudando de região central para bairro grande, depois para bairro dormitório, então para cidade dormitório e finalmente para área rural.

O trajeto proposto segue o traçado da Estrada de Ferro Central do Brasil. Na Radial Leste, há ciclovia a partir da estação Tatuapé do metrô. Em Itaquera você segue pela avenida José Pinheiro Borges, construída recentemente após a retirada dos trilhos que passavam pela antiga estação Itaquera. Já quase em Guaianazes você deve pegar a estrada Itaquera-Guaianazes, pois assim você passa facilmente para o lado sul da ferrovia, que é por onde segue a rota.

Há um portal na divisa com Ferraz de Vasconcelos, e nessa região está a maioria das poucas subidas deste roteiro. Em Suzano há um longo trecho de paralelepípedos, que pode ser em parte evitado usando ciclovia que existe na frente de um grande parque municipal.

Já no município de Mogi, exatamente na direção da estação Jundiapeba, você pega a SP-039, à sua direita. Se estiver com sorte, encontrará por aí um vendedor de caldo de cana. Aproveite para abastecer, vai ajudar bastante no trecho de subida que fica alguns quilômetros adiante. A estrada é bem sinalizada, você pegará um trecho minúsculo da SP-043 e logo em seguida cairá na SP-102, que passa por dentro de Taiaçupeba.

taiaçupebafoto: setembro/2009

Há um pequeno restaurante caseiro e uma padaria que serve refeições. Se for dia de festa, você ainda pode encontrar algumas barracas de comida. A mais ou menos 3,5km do centro do vilarejo você encontrará a represa, a via de asfalto termina em baixo d’água.

São 75km contados a partir da zona oeste de São Paulo. Na volta, se for domingo ou sábado à tarde, você tem a opção de pegar um trem na estação Jundiapeba, e então o trajeto se reduz a cerca de 20km.

Taiaçupeba é o braço leste da Cruz da Babilônia.

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evangelista de souza

A Estrada de Ferro Mairinque-Santos (EFMS) foi concluída em 1937, passando a ser uma alternativa à São Paulo Railway (SPR) na ligação entre o litoral e o interior do estado. Enquanto a SPR vai pelo ABC paulista e desce a serra por Paranapiacaba, a EFMS percorre os municípios de São Roque, Cotia, Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu, passa pelo extremo sul da capital e segue um trajeto com 27 túneis na descida da Serra do Mar, passando por Itanhaém, São Vicente e Praia Grande. Na década de 50 foi construído o ramal Jurubatuba, que atravessa São Paulo margeando o Rio Pinheiros, é hoje administrado pela CPTM e funciona apenas no trecho entre Grajaú e Osasco.

No encontro entre o ramal Jurubatuba e o tronco principal da Mairinque-Santos está a estação Evangelista de Souza. Ali, trens com mais de sessenta vagões carregados de produtos agrícolas fazem uma parada para manutenção de rotina antes de descerem a serra rumo ao porto de Santos. No entorno da estação há ainda algumas casas habitadas, restos do que já foi uma pequena vila ferroviária, e outras parcial ou totalmente em ruínas. Houve uma escola no local. O bar, que já funcionou na plataforma da estação, ocupa hoje uma das casas e é cercado por mato, vagões estacionados e montes de peças de ferro pelo chão.

A partir do bairro de Pinheiros, são praticamente 60km até Evangelista de Souza. Depois de Interlagos, o trajeto é praticamente paralelo ao traçado do ramal Jurubatuba. Siga a Teotônio Vilela, que em Varginha passa a se chamar Sadamu Inoue, a antiga Estrada de Parelheiros. Pouco depois de cruzar as obras do rodoanel, você está no centro de Parelheiros, onde há uma igreja com data de 1898. A Estrada de Colônia passa ao largo da cratera e acaba no bairro fundado pelos alemães. Na Estrada da Barragem há um marco que sinaliza o início da APA Capivari-Monos. Nesse ponto já é preciso certo esforço mental para lembrar que você está no município de São Paulo. O bairro da Barragem é bastante animado, e ali você encontra a represa Billings em um de seus pontos mais ao sul. Aí acaba o asfalto, e você segue pela Estrada de Evangelista de Souza até o ponto em que passa a pedalar pelo leito ferroviário abandonado, que em muitos pontos já perdeu um ou os dois trilhos e praticamente todos os dormentes de madeira.

chegando em evangelista de souzafoto: dezembro/2009

Logo você chegará ao encontro dos trilhos, o lugar em que o ramal Jurubatuba junta-se ao tronco principal da Mairinque-Santos. Há nesse ponto um marco de cimento, e você está a poucos metros da estação.

Na Teotônio Vilela há subidas longas e alguns trechos perigosos, em que automóveis, ônibus e caminhões passam muito perto dos ciclistas. Depois de pegar a Estrada de Parelheiros praticamente não há mais situações estressantes, e o ar já é outro. Na Estrada de Colônia há uma inusitada ciclovia com pouco mais de um quilômetro de extensão. Em Colônia Paulista há um restaurante bastante simpático. Pode ser um bom lugar para uma parada, você ainda está a mais ou menos uma hora do seu destino. Em caso de necessidade, há uma bicicletaria quase em frente ao restaurante!

Depois da Barragem, fique atento à sua direita, logo você passará a seguir os trilhos. Nesse trecho há grandes poças de água ou lama. Em alguns momentos será necessário atravessá-las, pode ser um momento bastante divertido. Tenha cuidado, principalmente se você estiver usando pneus lisos.

Você está no meio do mato. Verá vacas e, com alguma sorte, um céu muito azul. O clima da região é classificado como Tropical Superúmido, chove muito por aí.

Na volta, sendo sábado ou domingo, existe a opção de pegar o trem no Grajaú. Há também como voltar pela Imigrantes: na Barragem começa a Estrada do Curucutu, início de uma rota que vai cruzar a rodovia uns três quilômetros ao sul do pedágio.

Evangelista de Souza é o braço sul da Cruz da Babilônia.

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aldeia de carapicuíba

Na época da fundação da Vila de São Paulo, falava o Padre Anchieta em “doze aldeias, não muito grandes, de índios, a uma, duas e três léguas por água e por terra”. Nesses locais as missões de catequização foram se estabelecendo, e acabavam se transformando também em refúgios contra a violência dos bandeirantes. Habitada inicialmente pelos índios Guaianases, a Aldeia de Carapicuíba foi oficialmente fundada em 1580. É a única das doze aldeias que não foi totalmente destruída.

Apesar de estar muito próxima à Raposo Tavares, o melhor caminho de bicicleta é pelas avenidas que acompanham a linha do trem. O roteiro continua pela avenida Integração, estrada do Cabreúva e avenida Inocêncio Seráfico, passando por regiões bastante movimentadas da cidade de Carapicuíba. Parece haver uma opção pela avenida que segue no sentido sul paralela ao rodoanel, e depois pela avenida Marginal do Ribeirão.

Partindo da zona oeste de São Paulo, são aproximadamente 24km. A ponte do Jaguaré tem tráfego de veículos grandes e pesados, geralmente em alta velocidade. Pela avenida Corifeu de Azevedo Marques, siga até a divisa com Osasco. Conhecendo, é possível também seguir por dentro do bairro do Jaguaré. No final da avenida principal do Parque Continental você encontra a via férrea na altura da estação Presidente Altino. O trecho paralelo à via é plano e bem tranquilo. O rodoanel é a referência para pegar a avenida Integração, à esquerda. Pouco depois de ela mudar de nome, na estrada do Cabreúva estará a única subida acentuada do trajeto. A avenida Inocêncio Seráfico é movimentada e os veículos motorizados têm pouca mobilidade, o que dá uma certa segurança para o ciclista. Após uma longa descida você avistará uma grande área verde. Encontre o palco com arquibancada de cimento e daí será possível avistar, logo ali em cima, a entrada para o largo da Aldeia.

O trajeto de ida tem pouco menos de uma hora. Na volta, pegue a avenida Marginal do Ribeirão, cruze o viaduto sobre o rodoanel e siga paralelo a ele, no sentido norte, até encontrar novamente a linha do trem.

Estive lá em um primeiro sábado do mês, e por isso havia um palco armado e várias barracas com comida e bebida. No restaurante chileno, você pode comer várias empanadas de carne, as verdadeiras. Bom mesmo é escolher um boteco aberto, pedir uma cerveja e tomar sentado num banco de madeira olhando a igrejinha com cruzeiro em frente.

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colônia paulista

Em 1829, imigrantes alemães fundam Colônia Paulista, aproximadamente 34km (em linha reta) ao sul da vila de São Paulo. Hoje, o bairro faz parte do município e está mais próximo da divisa de Itanhaém que do marco zero da capital. Conserva a impressão de cidade de interior, sendo portanto uma ilha cercada de bairros com aparência de periferia. Era servido por estrada de ferro até o final dos anos 70. A estação foi demolida logo após ser fechada, e hoje os trilhos vão desaparecendo lentamente.

Partindo do bairro de Pinheiros, o roteiro sugerido (trajeto – parte 1) passa pela Faria Lima, Guaraiúva, Verbo Divino, Santo Amaro, Eusébio Stevaux, Miguel Yunes, ponte Vitorino Goulart da Silva, Jangadeiro, Teotônio Vilela. Em vez de ir por Parelheiros, que seria o caminho mais óbvio, é possível chegar em Colônia Paulista passando por dentro da Ilha do Bororé. Detalhes desta primeira parte do trajeto você encontra aqui.

Na Ilha do Bororé, pouco antes da igrejinha, você toma um caldo de cana enquanto proseia com um senhor simpático. Após o rodoanel você entra na terra (trajeto – parte 2). Quando cruza a via férrea volta o asfalto, e você está chegando em Colônia Paulista pela melhor entrada.

colônia paulista - campinhofoto: Lou-Ann Kleppa, março/2009

Ao lado da estrada de ferro há um campo de futebol, o esqueleto de um casebre (provavelmente foi um bar ou uma venda) e uma casinha no pé da montanha, do outro lado do vale.

A menos de um quilômetro de Colônia Paulista está a Cratera de Colônia, com 3,6km de diâmetro. Se tiver tempo, vale a pena dar uma espiada. Há uma grande ladeira para entrar nela pelo bairro de Vargem Grande (lado norte).

No dia em que fiz este roteiro, pegamos chuva pouco depois de chegar na Ilha do Bororé. Pedalar pela terra com chuva é lama na certa, além de diminuir bastante a velocidade, pois a estrada fica bem escorregadia. Também vai encher de lama na transmissão da bicicleta, e você provavelmente pedalará ouvindo barulho de peças moendo.

Contando um pequeno trecho que pegamos por engano, foram 55km até o restaurante em que paramos pra almoçar. A volta pra casa foi só por asfalto: Estrada de Colônia (com ciclovia!), Parelheiros, Varginha, Teotônio Vilela. Essa rota pode ser usada na ida também, mas será bem menor a sensação de estar em área rural.

Tire um dia inteiro para fazer essa viagem, ida e volta. Se for domingo ou sábado à tarde pode-se opcionalmente abreviar o trajeto, usando o trem da linha Jurubatuba (Osasco – Grajaú).

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ilha do bororé

Com a construção da Barragem de Pedreira, em 1927, uma grande área começou a ser inundada às margens do Rio Jurubatuba. Formou-se então a Represa Billings, construída para alimentar a usina hidrelétrica de Henry Borden, em Cubatão. A inundação fez com que algumas áreas ficassem isoladas. Uma grande porção de terra às margens do Rio Taquacetuba transformou-se em península. O acesso por terra é ainda possível pelo sul, mas é mais fácil chegar de balsa.

Esse local ficou conhecido como Ilha do Bororé e tem cerca de três mil habitantes. A oeste está o Grajaú e a leste está o município de São Bernardo do Campo, ambos separados da ilha por grandes braços da represa. Ao sul, liga-se com os arredores dos bairros de Parelheiros e Colônia Paulista.

A paisagem é de área rural, com vegetação nativa de mata atlântica, e faz parte da APA Bororé-Colônia. A Ilha do Bororé será atravessada pelo trecho sul do rodoanel, e devemos torcer para que não haja acesso dessa via à Ilha, pois o isolamento garante a tranquilidade e a preservação do local.

O trajeto até a Ilha do Bororé tem aproximadamente 35km contados a partir do bairro de Pinheiros. Até Jurubatuba, é possível seguir uma rota paralela à Marginal Pinheiros por vias seguras. Cruzado o rio, passa por dentro do bairro de Interlagos e depois pelo Grajaú.

O único trecho relativamente complicado é a Faria Lima. Além de o chão ser muito ruim, motoristas de carros e ônibus têm aí um comportamento particularmente agressivo. No centro de Santo Amaro tem muita gente atravessando a rua; os veículos motorizados costumam ficar praticamente imobilizados, e acabam sendo inofensivos. Os arredores da nova ponte Vitorino Goulart da Silva e do autódromo são o trecho mais tranquilo da parte urbana da viagem. A Teotônio Vilela e a Belmira Marin são cheias de veículos motorizados (fumaça!) e eles têm alguma mobilidade, portanto cuidado. Passada a entrada para o bairro de Xangilá, falta só uma longa descida para chegar na balsa: se joga!

Encoste sua bicicleta em uma das laterais da balsa e receba o vento na cara. A travessia é rápida, portanto aproveite. Às vezes tem biscoito de polvilho pra vender dentro da balsa, e nas duas margens tem cerveja em lata. A partir daqui é só sossego. Dentro da ilha, a estrada tem subidas e descidas suaves e é bem tranquila, passa pouco carro. Tem verde por todos os lados e um visual da represa de vez em quando. Tem uma igrejinha, caldo de cana e um lugar que serve comida caseira.

Em vez de voltar pelo Grajaú, você pode seguir até a segunda balsa, que cruza um canal mais largo que o primeiro. Foi o que fiz da primeira vez que fui à Ilha. No meio do canal passa a divisa entre São Paulo e São Bernardo. Depois da segunda balsa a estrada é de terra. A certa altura você passará por baixo da Imigrantes, e existe uma pequena trilha por onde dá para subir até a rodovia. Nesse local você está pouco mais de três quilômetros ao sul do pedágio. Dá para pedalar com relativa tranquilidade pelo acostamento até a divisa entre Diadema e São Paulo (km 12), cruzar a estrada pela passarela e voltar por dentro do Jabaquara.

Detalhe importante: planeje uma refeição decente em algum ponto da viagem, pois voltando pela Imigrantes são praticamente cinco horas de pedal.

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