escolhas energéticas

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Viver consome energia. Tal afirmação diz respeito ao fluxo da vida. Nossas células consomem a energia dos alimentos para funcionar (nível fisiológico), nossa espécie converte energia do ambiente para se aquecer (nível ecológico), seja a lenha usada na fogueira dos povos antigos, seja o gás ou a eletricidade que esquenta a água do nosso banho.

O chuveiro aquecido, os aparelhos domésticos que ajudam a preparar alimentos, a tela que mostra imagens, o dispositivo que traz de longe a voz de uma pessoa querida, a máquina que nos transporta sem que façamos qualquer esforço, tudo isso são confortos que escolhemos ter em troca de certa quantidade de energia. Depois que nos acostumamos a tomar banho quente, bater um caldinho no liquidificador, assistir filmes, conversar por telefone e andar de carro, fica difícil abrir mão de confortos como esses. Cria-se certo nível de dependência.

Quando nos oferecem um novo conforto, e uma vez que podemos pagar pelo custo monetário imediato desse conforto, não parece haver motivo para não aceitarmos incorporá-lo à nossa vida. O problema é que, ao fazer essa escolha, raramente levamos em conta o montante de energia que aquela novidade irá somar ao nosso orçamento energético. Se já somos grandinhos e sabemos como é difícil abrir mão de algo bom depois de nos acostumarmos, ao fazer a escolha precisamos estar cientes de que o novo nível de consumo de energia tende a ser irreversível.

Muitas vezes decidimos morar longe do trabalho, do local de estudo e de outros locais que precisamos frequentar diariamente, longe a ponto de precisarmos de máquinas para chegar até lá. Se a energia para esse deslocamento faltar, a vida para.

Como observado, viver consome energia. Neste outro contexto, a afirmação tem outro valor semântico. Não mais um imperativo da fisiologia da sobrevivência, mas o resultado do modo de vida que escolhemos. Aqui, viver consome a energia que optamos por consumir.

Há algumas semanas, Narendra Modi pediu ao povo indiano que adotasse hábitos de menor consumo de energia. E antes que os mecanismos individuais e coletivos de negação desencadeassem resistência geral com a alegação de ser impossível atender o pedido, o primeiro-ministro da Índia usou um interessante argumento. “Durante a pandemia do coronavírus, trabalhamos de casa, realizamos reuniões virtuais e videoconferências. Nós nos acostumamos a isso. A necessidade do momento é voltar a esses métodos”, disse o primeiro-ministro em discurso.

O que motivou o pedido, neste caso, foi a necessidade de o país poupar reservas, já que é bastante dependente de energia importada e, no contexto de uma guerra que afeta a produção e distribuição de petróleo no mundo, encontra-se muito vulnerável às variações de oferta e de preços.

Entre muitos outros pedidos, Modi também enfatizou a importância de as pessoas usarem metrô, ônibus e caronas compartilhadas em detrimento do transporte individual.

A situação inusitada de um chefe de estado dirigir-se à nação pedindo mudança de hábitos para economizar energia chama atenção para o fato de que existe escolha.

Porém, se a escolha é possível, por que a preocupação com o consumo de energia deve ficar restrita a situações excepcionais? Já sabemos bem que as fontes de energia são naturalmente sujeitas a limites, não sabemos?

Segundo uma crença amplamente difundida em nossa cultura, o único motivo para querer menos de algo é a existência de uma restrição. Não posso simplesmente dizer, “isto basta para mim, não necessito de mais que isto”, é preciso justificar: estou com pouco dinheiro, meu estômago já está cheio, não tenho espaço para isso em minha casa. Sempre devo querer mais, a menos que haja motivo para eu querer menos.

Muitos repetem que o grande problema é o fato de os recursos do planeta serem finitos. Existe um implícito aí: se o espaço e os recursos não fossem finitos, não haveria problema em ter sempre mais, indefinidamente. Mas quem disse que eu quero sempre mais? Você quer sempre mais? Alguém aí estava no dia em que foi combinado que o problema está na finitude do planeta? Por que é tão difícil ver quão estúpida é essa lógica?

Obviamente estamos aqui diante de um dogma da sociedade de consumo, uma crença que está lá atuando sem que a gente possa perceber ou questionar. O peixe não enxerga a água em que vive.

Então, se o combustível fosse infinito e gratuito (e não existisse o fenômeno do trânsito para infernizar a vida), não haveria motivo para preferir trabalhar perto de casa? Seria tudo bem passar boa parte do dia – e da vida – dentro de uma máquina? Curioso que, para muita gente, mesmo o combustível sendo um recurso caro e sujeito a problemas no fornecimento, esse é de fato o projeto de vida, e não há nada de estranho nisso.

Nesse universo, andar a pé é algo que só se justifica se o cardiologista recomendou a prática de caminhadas. Ou é para aquelas pessoas que não têm dinheiro para comprar e manter um carro. Ou só para quando o governante pede para as pessoas economizarem energia.

Por trás dessa compulsão por gastar energia parece haver a estranha convicção em uma incapacidade fundamental das pessoas. O consumidor ideal é um indivíduo essencialmente incapaz. Um morto vivo.

Energia flui continuamente dentro de cada célula. Para a sociedade de consumo, é interessante que as pessoas se esqueçam disso.

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