dia 1 – pressa de chegar na estrada

Eu olhava pela janela de vez em quando, conforme fazia os últimos ajustes na bagagem. Repassava a lista e conferia mentalmente se estava faltando algo. A garoa cairia a qualquer momento. Companheira e filho haviam saído mais cedo, e isso de certa forma facilitou a saída. Nada de apegos ou despedidas.

No térreo do prédio, coloquei a bagagem na bicicleta. O portão da garagem subiu, acionado pelo porteiro. Parti.

Enquanto você não sai de casa, a ansiedade só aumenta. No momento em que você está na sua rota, baixa uma grande determinação e você se foca no trabalho a ser feito, não há hesitação.

Ainda pelas ruas do bairro, eu girava o pedal sentindo o peso de cada um dos itens que escolhi levar comigo. Cenário familiar, sensação totalmente diferente com a bicicleta carregada. Eu não estava indo daqui ali, a caminho de uma reunião, um treino ou um encontro com amigos. Estava indo para Minas Gerais. Depois que eu completasse a viagem aquelas ruas perto de casa passariam a ser, para mim, parte do Caminho de Minas.

Um trajeto longo acaba se dividindo em metas parciais. Quando você ainda está pedalando pelas avenidas barulhentas da cidade grande, a meta é uma só: “Quero sair daqui o mais rápido possível e chegar logo na estrada”. Felizmente meu trecho urbano era bem curto na saída, a estrada começaria no km 8 e pouco deste primeiro dia.

Aquela garoa prometida não caiu. Céu bastante encoberto, nem usei protetor solar, senti até um pouco de frio em alguns momentos. O vento de sul ajudou bastante no primeiro trecho. Eu girava de leve, poupando forças, viagem apenas começando. Era o mais certo a fazer ali.

Parada pro lanche no vale do rio Jundiaí-Mirim, já na estrada para Itatiba.

A cada pedalada, eu ia aprendendo a lidar com a incerteza e a insegurança, que sempre vão estar lá numa viagem como essa, especialmente viagem solo. E o conto do Saramago está aí para nos lembrar disso: “Chegar, sempre se chega”.

Tem também os pensamentos zombeteiros de medos, perigos ou paranoias. Chuva? Sol forte demais? Problemas mecânicos? Pneus furados? Assaltos? Acidentes? Fome em hora errada? Fraqueza? Dores pelo corpo? Saudade insuportável?

Tudo isso pode sim vir à cabeça, e tudo isso passa. É só olhar para frente, corrigir a postura, coordenar pedaladas e respiração, sentir o vento, contemplar a paisagem. Tudo isso passa.

Sobre uma bicicleta, existem momentos de certeza absoluta. Quando precisa tomar uma decisão, você simplesmente olha e já sabe: “É aqui”. O intervalo entre demanda, decisão e ação tende a zero. De repente, você já está fazendo, porque a bicicleta permite que seja dessa forma (andando a pé também acontece, numa máquina isso é bem mais difícil). Essa certeza absoluta decide o caminho a tomar numa bifurcação, o momento de parar para descansar ou o lugar onde comer.

Foi o que aconteceu quando vi um restaurante simpático na beira da estrada, pouco antes do perímetro urbano de Itatiba. É aqui. Parei.

Senti moleza e sono quando sentei no restaurante. Isso pode acontecer no primeiro dia, enquanto o corpo ainda não entendeu que a vida será assim pelos próximos dias. O apetite demorou um pouco a chegar. Mas era preciso comer, já estava na hora e eu não encontraria outro restaurante tão simpático adiante.

Saco vazio não para em pé e nem sobe montanha. PF é vida!

A vida ordinária já ia ficando longe. Terça-feira, hora do almoço. Estou em Itatiba, de bicicleta. Eu não sabia bem de que mundo falava o telejornal e sua ladainha de crimes e políticos inaugurando postos de saúde. Mas eu olhava a tela de vez em quando, talvez da mesma forma que gosto de olhar a marginal do Tietê ficando para trás quando sigo rumo ao aeroporto ou à Fernão Dias, fugindo desta cidade.

Na SP-063, a primeira subidona rumo a Bragança. Mantiqueira chegando. Paisagem começando a mudar pra valer. Faixa adicional no trecho em aclive, vários caminhões passando, e nem deu tempo de sentir medo.

Lá pelo centésimo quilômetro do dia, veio aquele solzinho de fim de tarde.

Já bem perto de Bragança, senti o pneu traseiro furado, murchando devagar. Era melhor que tivesse murchado de uma vez, pois eu não teria caído na besteira de ficar adiando a troca, parando de tempos em tempos para encher pneu. Acontece que conforme a roda gira o buraco vai aumentando. Chega um ponto em que você tem que parar para encher o pneu a cada minuto. No último quilômetro o pneu simplesmente já não enchia. Só que aí eu já estava decidido a só trocar o pneu no hotel.

Tirei o alforje do bagageiro para aliviar peso e evitar danos maiores à câmera. Fui empurrando a bicicleta com uma mão enquanto carregava o alforje com a outra. Acabei deixando de curtir plenamente um momento muito especial do dia: a chegada ao destino. E eu estava pisando pela primeira vez em Bragança Paulista.

Banho tomado, saí rumo à parte alta do centro da cidade, atrás de um lanche de linguiça do Rosário. Na hora de subir as ladeiras, os quase 120km pedalados estavam ali comigo, em minhas pernas. Como é bom sentir essa manifestação corporal da distância! Depois de comer, ainda deu para passear pelo centro da cidade vazio na noite de terça feira.

Passei no mercado para comprar isotônicos e reforçar o lanche do dia seguinte. Na pousada, troquei a câmera furada, montei a roda e a deixei ao lado da cama. Deitei e dormi instantaneamente.

altimetria dia 1

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