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épico

ÉPICO s.m. Viagem de bicicleta feita sem o auxílio de qualquer outro meio de transporte, com início e término na residência do viajante e com duração igual ou maior que três dias. Geralmente envolve uma partida venturosa e um retorno triunfante.

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processo civilizatório

Neste blogue, o conceito de civilização se refere simplesmente a um conjunto de práticas e valores que tornam possível viver coletivamente e de forma harmoniosa no espaço comum.

Portanto, o processo civilizatório diz respeito à adoção de fato de novas práticas que contribuem para isso, sejam elas impostas por lei ou não.

Por vários motivos, os seres humanos preferem viver juntos. Formam cidades e aglomerações de diferentes magnitudes, pois a proximidade traz benefícios para todos. Para que possam viver juntos, precisam criar acordos de convivência, especialmente aqueles que neutralizam as diferenças de força entre as pessoas. Na falta desses acordos, os conflitos tendem a se resolver em favor da parte mais forte. Temos então aquilo que algumas teorias sociológicas chamam de barbárie.

Alguns acordos de convivência são leis institucionalizadas. A legislação de trânsito contém alguns exemplos de acordos que organizam a convivência no espaço comum de forma que a disputa não se dê pela força. Em um cruzamento com semáforo, cada um tem a sua vez de passar. Quando o sinal está verde para uma das vias, quem vem por ela pode exercer seu direito de passar pelo cruzamento sem precisar disputar aquele espaço, sabendo que os da outra via saberão aguardar. Este acordo, de fato, costuma ser cumprido.

Sem o semáforo, a disputa pode acabar sendo resolvida pela força: o tamanho e a imponência do veículo, a velocidade de aproximação, a agressividade do motorista ao conduzi-lo e projetá-lo no espaço do cruzamento e outros elementos da linguagem do automóvel que podem ser usados para intimidar, como buzina, farol alto ou o barulho do motor e do escapamento.

Há também acordos de convivência que funcionam sem que estejam estabelecidos na forma de lei. As pessoas têm o hábito de formar fila ao aguardar por um atendimento, seja ele numa padaria, na bilheteria de um estádio, no carrinho de pipoca. A fila é um acordo de convivência que é regulado espontaneamente pelas próprias pessoas, e quem burlar esse acordo será repreendido pelos outros presentes.

É raro ver alguém tentar burlar uma fila, pelo menos quando se trata de uma fila de pessoas (no caso de filas de automóveis, a regra da fila é violada com frequência). Mesmo rapazes muito fortes, ostentando indícios de que praticam artes marciais, geralmente aguardarão sua vez para serem atendidos, respeitando aqueles que já estavam ali antes. Podemos então dizer que, mesmo sem depender de uma lei escrita, o acordo da fila é eficaz em neutralizar diferenças de força.

A faixa de pedestres é um exemplo de acordo de convivência que, apesar de estar estabelecido na forma de lei, raramente é cumprido no Brasil. A proteção dada pela estrutura do automóvel torna o motorista fisicamente mais forte que o pedestre. Não havendo qualquer forma de regulação dessa diferença, nem pelo agende oficial de trânsito e nem pelas pessoas que estão em volta, a superioridade física do motorista costuma prevalecer, e a faixa de pedestres é sistematicamente desrespeitada na maioria das cidades brasileiras.

Duas cidades podem ser bastante diferentes no que se refere ao respeito à faixa de pedestres, e essa diferença pode ser considerada, junto com outros indicadores, para avaliar e comparar o grau de civilização dessas cidades.

Qualquer ação do poder público que tenha o efeito de garantir os direitos de pedestres e ciclistas ao uso do espaço comum, neutralizando a superioridade física dos veículos mais pesados, pode ser considerada como um ato civilizatório.

A necessidade de esclarecer aqui o conceito de ‘civilização’ se deve ao fato de que o termo é por vezes utilizado de maneira imprecisa e, em muitos casos, está associado a uma visão etnocêntrica da sociedade. Segundo essa visão, o grau de civilização da sociedade se mede pela quantidade de hábitos europeus adotados por ela, geralmente em substituição aos hábitos tradicionais praticados anteriormente. Nessa visão, a Europa ocidental é assumida como modelo de sociedade e é chamada de ‘A Civilização’ (com maiúscula inicial).

Neste blogue, quando se fala em processo civilizatório, não se trata de tomar a sociedade europeia como modelo. Várias de suas cidades são, certamente, muito mais civilizadas do que as cidades brasileiras, mas o são apenas na medida em que praticam de fato os acordos de convivência que geram respeito entre as pessoas e um uso harmonioso do espaço comum.

Ao mesmo tempo em que gosta de ostentar hábitos da Civilização (com maiúscula) e se dizer civilizada, a sociedade brasileira parece confirmar diariamente a sua opção por evitar o processo de civilização (com minúscula e conforme definido aqui) pois, com sua imensa desigualdade, parece interessante a certos grupos que a força física, econômica ou simbólica continue prevalecendo.

Portanto, parece ingênuo esperar que venham de cima as mudanças que tornará mais civilizada a vida nas cidades brasileiras. Ao ocupar as ruas, conquistando seu espaço e fazendo-se respeitar sem esperar pela instalação de ciclovias, os ciclistas atuam em favor do processo civilizatório.

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meninões

Quando uso o termo ‘meninões’ neste blogue, certamente não estou me referindo a pessoas do sexo masculino, jovens e de tamanho grande, como a palavra poderia sugerir.

Uso ‘meninões’ para me referir a um grupo de pessoas que não se define por fatores como gênero ou faixa etária, mas sim por um tipo de comportamento. Especificamente, por um conjunto de atitudes relacionadas à forma como usam o automóvel.

Meninões são pessoas de qualquer gênero ou faixa etária que se comportam de maneira infantil quando dirigem um veículo. Além disso, ou talvez em decorrência disso, são geralmente bastante agressivas ao volante.

Crianças mimadas que são, os meninões têm uma necessidade incontrolável de chamar a atenção quando passam. Seja pelo som alto do carro, seja pelo barulho do motor, do turbo ou do escapamento, o fato é que eles precisam ser notados.

Entre as várias propriedades simbólicas do automóvel, uma delas se produz na maneira de dirigir. Podemos falar numa linguagem do automóvel, já que as atitudes e manobras transmitem mensagens que são facilmente interpretadas por qualquer pessoa.

Assim sendo, aproveitam o volante para expressar seus estados de espírito: dirigem com agressividade, utilizam o espaço público das ruas de maneira egoísta e imatura, aceleram para que todos saibam de sua pressa e sua ansiedade.

Aceleram com violência e dirigem em velocidade muito acima da razoável. Em uma via pequena e local, o espaço entre duas esquinas ou duas lombadas é uma oportunidade imperdível para demonstrarem a potência de seus motores e, portanto, sua superioridade: arrancam como se estivessem numa corrida, atingem a maior velocidade possível e freiam bruscamente no fim do trecho, completando a exibição.

Aliás, é exclusivamente graças aos meninões que as ruas da cidade estão cheias de lombadas.

Um psicólogo faria observações interessantes sobre as fontes profundas do comportamento desses meninões, eventualmente falando numa fase anal ou mesmo uma fase oral mal resolvida (sim, já ouvi isso de gente da área). Qualquer psicólogo-de-boteco costuma concluir que o meninão trata o carro como uma extensão do próprio pênis.

Seja como for, há meninões do sexo masculino e também do sexo feminino, ainda que os primeiros existam em maior número (alguém pode preferir falar em ‘meninonas’, mas meninões do sexo feminino me parece mais adequado). Todos exalam testosterona em seu comportamento. Lembram aqueles mamíferos chifrudos dos documentários sobre natureza, que se exibem ou brigam violentamente por território ou por acasalamento.

Há meninões de todas as idades, e aqui nem dá para falar em predominância entre os mais jovens. Por algum motivo, os meninões têm uma profunda necessidade de demonstrar um espírito jovem e ágil, e fazem isso na maneira de dirigir essa máquina de uma tonelada.

Como sabem que seu comportamento costuma desagradar, muitos deles praticam alguma técnica de luta e fazem questão de ostentar isso colocando no carro adesivos com letras japonesas ou nomes de academias. Uma forma simples de, por meio da intimidação, evitar alguma crítica pela sua irresponsabilidade.

Sobretudo uma forma de mostrar que, mesmo sendo desprovidos da maturidade mental necessária para conduzir um veículo, eles continuarão lá e estarão sempre com a razão.

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carteirada

Sempre que Alguém, ao dizer algo para Outro, quer que este lhe dê crédito, pode escolher entre duas estratégias.

Na primeira, Alguém apresenta ao Outro seus argumentos. O Outro então escuta os argumentos, refaz algumas conexões lógicas, confronta o que ouviu com as informações que tem sobre o assunto, confere tudo isso com seus valores pessoais e, ao fim do processo, o Outro decidirá se deve ou não dar crédito ao que Alguém diz.

Na segunda estratégia, Alguém apresenta ao Outro suas credenciais técnicas e sociais. Credenciais técnicas são títulos, certificados, habilidades, experiências profissionais. Credenciais sociais são as posições na sociedade, a quantidade e qualidade de amigos e contatos, as viagens que fez, os lugares em que morou, os consensos e palavras da moda utilizadas em sua fala. O Outro, ao reconhecer tais credenciais, se dará por convencido, e então não há necessidade de prolongar o assunto.

A esta segunda estratégia, dou o nome de carteirada.

Mais estranha que a frequência com que essa estratégia é usada é a frequência com que ela funciona.

Ela é mais rápida que a primeira, e traz “vantagens” para os dois lados. Nela, Alguém não tem o trabalho de selecionar e apresentar argumentos. Nela, o Outro não tem o trabalho de pensar se aquilo que está ouvindo faz sentido ou não, o que nem sempre é tarefa simples.

Com esta estratégia, não existe necessidade de o Outro ter informações e opiniões próprias sobre as coisas. Ele repetirá que Alguém é mesmo uma autoridade no assunto, afinal tem esta e aquela credencial. A discussão será dada como concluída, a interação social estará completa, ambos sairão sentindo que dialogaram.

Um bom observador irá constatar que a estratégia da carteirada é bastante comum, especialmente em alguns meios sociais.

É ela que explica, por exemplo, a necessidade de tanta informação curricular quando alguém é apresentado.

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região metropolitana

A porção de terra usualmente referida por Região Metropolitana de São Paulo é, entre todos os lugares que existem, um lugar bastante estranho e peculiar. Se cidades são parte do fenótipo estendido da espécie humana, não há metáfora quando se diz que esse lugar estranho e peculiar é também um tecido nocivo em estado de metástase.

Divide-se em sub-regiões e seu contorno externo forma uma figura bem definida, ainda que sem nome. Se você mora nesse lugar, descubra qual sub-região você habita.

mapa da Região Metropolitana de São Paulofonte: Pesquisa Origem e Destino 2007 – Síntese das Informações da Pesquisa Domiciliar, p. 9

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