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conversa sobre o tempo

Vinte graus. A brisa passa refrescando a noite, temperatura perfeita para pedalar pelo bairro ou viajar até uma cidade vizinha, só pelo prazer de sentir o vento na cara. Com esses vinte graus dá para sair de bermuda e camiseta. Uma blusa na bagagem nunca é demais, mas certamente voltarei para casa sem usá-la. Afinal está uma noite agradável de vinte graus.

Alguns dias depois, ainda o mesmo clima da época, mas já no fim da tarde estava fazendo um friozinho. O rolê desta noite exige agasalho e um corta-vento. A curiosidade me leva ao termômetro que tenho ali no quintal. Vinte graus.

Por que vinte graus valem mais numa noite e menos na outra?

Alguns vão desperdiçar esta pergunta tão inspiradora recorrendo ao conceito meteorológico de sensação térmica, ligado à umidade do ar. Mas observe que há diferença de valores das temperaturas mesmo entre duas noites com umidades parecidas.

Calor e frio podem ser uma chave para perceber coisas importantes no corpo. Uma coisa é a temperatura como fenômeno físico. Outra é a sensação, que tem sempre um sujeito. Esse sujeito está vivo porque circula nele uma energia vital, que varia em qualidade e intensidade. Crianças costumam sentir menos frio que adultos. Há pessoas calorentas e pessoas friorentas. E uma mesma pessoa pode ter a energia diferente conforme o dia.

Alimentação, sono, humor, trabalho, movimento, tristezas, sonhos, contrariedades, respiração, risadas e outros elementos mais sutis afetam diretamente a energia vital, muito mais do que as pessoas costumam perceber.

Esse corpo que está aí te acompanhando há tanto tempo pode ser um grande parceiro de jornada. Coisas incríveis podem surgir dessa amizade. Se estiver sem saber como iniciar o diálogo, falar sobre o tempo pode ser uma forma simpática de puxar conversa.

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visão dos pássaros

“Enquanto os olhos do corpo permanecem perto do chão, o olho da mente – que é testemunha dessa representação em mapa – está lá em cima, com os pássaros.” (Tim Ingold, 2000)

Procuro no mapa o meu caminho até um lugar desconhecido. Localizo o ponto onde quero chegar. Encontro por ali uma grande via que vem da direção onde estou, traço o caminho que leva dessa via até o destino. Penso em como chegar daqui até essa via, ou até outra grande via que dê nessa via. Está pronto o meu trajeto.

Em um mapa, seja no papel ou na tela, todas as vias são linhas padronizadas e atravessam territórios monocromáticos. Posso antecipar sensações que penso que vou sentir ao chegar lá. Cada um tem sua forma de lidar com o desconhecido. Observo as imagens que criei a partir de histórias contadas sobre o lugar. Se o mapa for numa foto de satélite, posso ter uma pista sobre as cores predominantes mas, essencialmente, pouca diferença faz. Estou vendo o mundo pelos olhos dos pássaros, sem ser um pássaro.

Ao chegar lá, tudo isso vai mudar. Somente lá é que vou conhecer as janelas das casas, sentir o vento na cara e o sol batendo, seguir os cheiros, ver o rostos. É só lá que vou saber se as pessoas caminham com pressa, sobre o que conversam, o que fazem quando estão em frente de casa, se cuidam das plantas, como modificam a paisagem. É só lá que estarei aqui agora.

Foto: Dionizio Bueno

Tem uma coisa que sempre me acontece: enquanto o avião em que estou sobrevoa os subúrbios da cidade, já baixo, preparando para pousar, eu olho pela janela aquelas ruas e praças, talvez vazias se o vôo chega tarde da noite, desejando estar lá. A luz da iluminação pública, sobretudo nas cidades que ainda usam lâmpadas de luz quente amarela, são um convite acolhedor para estar com os pés no chão, sentado na guia ou num banco da praça, sentindo a temperatura da noite. Mas como é difícil descer desse avião.

Viver aqui agora nunca foi simples. O estado de presença se conquista com muita atenção, prática e persistência. Pode-se buscar o presente na forma de uma iluminação definitiva, dada geralmente a pessoas de cabeça raspada que vivem em retiro numa montanha do Himalaia. Ou pode-se viver sobre o chão, simplesmente. A iluminação vem em breves lampejos, pequenos presentes. Desse jeito, “nada especial”, como dizem os mestres zen.

É o momento em que você consegue olhar em volta e perceber profundamente onde está, onde essa caminhada de tantos anos te trouxe. Ver aquilo que está logo ali, sentir a brisa, a terra firme sob seus pés. E o céu lá em cima. Estar dentro da vida, em vez de sobrevoá-la.

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invasão das bicicletas

Uma cidade do tamanho de São Paulo não pode se contentar com apenas uma Bicicletada.

É verdade que nas regiões centrais estão os tomadores de decisão, os repórteres da imprensa mais influente e as avenidas que adoramos parar com uma massa de ciclistas. Isso seria um argumento para concentrar a mobilização em um ato único.

Porém, é nos locais distantes do centro que mais ciclistas são mortos, sem que haja qualquer repercussão; é aí que a fiscalização de trânsito está mais ausente, fazendo das ruas literalmente uma terra sem lei; é nas periferias que a resistência contra a implantação de ciclofaixas se manifesta da forma mais truculenta.

Além de tudo isso, não faz sentido que um território tão imenso, onde cabem tantos municípios de tamanho mais razoável, tenha um protesto só, apenas porque tem um prefeito só. São Paulo precisa de Bicicletadas pipocando pela cidade toda, brotando da terra como se fosse resultado de uma ação de ativistas verdes que jogam bombas de sementes por toda parte, para ver a vida florescer.

Essa imagem das Bicicletadas simultâneas, que me inspira há anos, parece estar se concretizando, o que é motivo de muita alegria. Acontece hoje, já pela segunda vez, a Bicicletada da zona leste, com concentração em Ermelino Matarazzo.

Imagem: divulgação

Na última sexta-feira do mês passado, aconteceu uma primeira pedalada desse tipo na região, após a exibição do filme Outro Rolê. Há uma coincidência inspiradora aqui. No evento considerado como marco original da Massa Crítica no mundo, ocorrido em 1992 na cidade de São Francisco (EUA), ciclistas também assistiram um filme sobre bicicletas na cidade, só que depois da pedalada. Esse primeiro ato teve um outro nome, e Massa Crítica foi adotado só a partir do seguinte, quando já haviam decidido levar a coisa a sério.

O segundo de uma série de eventos é sempre muito importante. É sinal de que já estamos além do mero acaso, agora é resultado de vontade e mobilização planejada. Já é reincidência.

A Bicicletada de hoje na zona leste é um passo importante e muito simbólico em direção ao momento em que, na última sexta-feira de cada mês, a cidade verá bicicletas brotando por toda parte. Mais ou menos como se uma pessoa tivesse jogado de um helicóptero, “da mesma forma que se joga orégano em pizza”, sementes de luta e vontade de tomar vento na cara.

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varan-dô

Entre o aqui dentro e o lá fora, existe um espaço liminar onde parte da vida precisa acontecer: a varanda. A necessidade humana de não fazer nada encontra aí o ambiente perfeito. Estrategicamente localizada lá fora, onde estão o vento, as árvores, as luzes do dia, os cheiros da noite, mas ao abrigo do sol e da chuva, a varanda permite que se fique lá fora por horas a fio.

Esse espaço privilegiado, presente há muitos séculos na arquitetura vernacular brasileira, permitiu o surgimento de uma arte que vem sendo aperfeiçoada sem mestres, em inúmeras linhagens espontâneas, conhecida como varan-dô – o caminho da varanda.

Como acontece com qualquer caminho de desenvolvimento pessoal e espiritual, o varan-dô deve ser praticado com seriedade e respeito a certos princípios básicos. Talvez o mais importante deles seja: não fazer nada. Deve-se encontrar uma posição confortável na cadeira, na rede, em uma almofada ou mesmo no chão e ali permanecer de maneira descompromissada, de olhos abertos, apenas olhando.

Foto: Dionizio Bueno

Existe aqui uma curiosa semelhança com o princípio taoísta da não-ação (wu-wei), sem que haja qualquer evidência de origem comum ou influência mútua entre esses dois caminhos milenares.

Deve-se fazer um alerta ao praticante novato, que tende a confundir as coisas. Tendo encontrado uma posição confortável, especialmente quando dispõe de uma rede, o praticante pode se sentir tentado a fechar os olhos, e isso vai fazer com que se perca de sua prática, a ponto de adormecer. Nesse caso, novato, você não está praticando o varan-dô, você está dormindo. O varan-dô, conhecido em muitas províncias também como varandismo, se pratica de olhos abertos. Qualquer que seja o caminho, o verdadeiro desenvolvimento demanda certos esforços.

Dificuldade semelhante encontra também o praticante do yoga com a postura shavasana, na qual deve haver, junto com um relaxamento profundo em posição deitada, um sério empenho para evitar que se adormeça. A respiração correta pode ajudar bastante nos dois casos.

A prática do varan-dô pode também acontecer em grupos. Quando se ocupa uma varanda junto com os amigos, os momentos se sucedem de maneira natural: conversa, risada geral, cantoria. E há também os momentos em que todos se calam. É aí, nesse silêncio grupal, que se pratica coletivamente o varan-dô. Cada um olhando aquilo que quiser: uma nuvem, uma formiga, a lua, a árvore que balança ao vento, o pássaro que também apenas olha, as galinhas ciscando, o pensamento e seus caminhos ao infinito.

Na ausência de uma varanda física, o varan-dô pode ser praticado, ainda que de forma bastante limitada, sob um beiral, em um quintal ou junto a uma janela. A intenção é essencial nesta prática.

No encontro do aqui dentro com o lá fora está o grande portal. A prática diária traz equilíbrio e grandes benefícios à saúde do corpo e da mente.

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destino

Tempos de confinamento e trabalho remoto, a rua vai ficando longe, ou apenas para saídas estritamente necessárias. Para diversão, não pode. A preguiça começa a se misturar aos julgamentos. Preciso mesmo sair? Deixa pra lá.

Eis que surge um motivo qualquer para sair de bicicleta: encontrar alguém que você não vê há tempos, uma questão prática para resolver na rua, um lugar agradável para comer ou beber numa cidade vizinha, ou apenas ver se aquela praça tão bacana ainda está no mesmo lugar. Eis que surge um destino.

Felizmente o destino está lá, não aqui. A viagem se faz necessária.

Técnicos de transportes dizem que as zonas e os locais da cidade “produzem ou atraem viagens”, definidas como o “deslocamento de uma pessoa, por motivo específico, entre dois pontos determinados (origem e destino), utilizando um ou mais modos de transporte”.

Aqui diremos simplesmente que o destino cria o caminho.

Um caminho existe porque alguém precisa ir. Caminho é uma linha, e linhas são histórias. Fora disso, é tudo espaço, sem forma nem sujeito.

Então você sai atrás do seu destino, encontra o ar da primavera e se dá conta da confusão que estava prestes a te tragar. Destino era tudo que faltava para você sair lá fora, tomar sol, sentir o vento na cara.

Na avenida, um clarão de teoria da compexidade chega na forma de um tostines: está faltando vento na cara porque a vida anda sem destino ou a vida anda sem destino porque está faltando vento na cara? Girando em velocidade de cruzeiro, os aros da sua bicicleta vão te afastando da zona de conforto.

Destino é uma dádiva. É a vida te convidando ao movimento. Sem ele, não pense que a cabeça aguenta.

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caminho

“O Caminho é o Vazio
E seu uso jamais o esgota.”
Lao Tse

Firmo em lótus sobre a pedra.

Entre céu e terra, imenso fole expande e contrai. Energia para todo universo.

Vento infinito do mar em meu rosto. Ondas vêm e voltam sem intenção. Observo.

Mente vazia, sou leve.

Mão vazia, sou forte.

Estrada vazia, sou livre.

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primavera

Numa tarde de setembro, este blogue quase acabou.

Perdeu o sentido, saiu da estrada, tombou sem alcançar destino.

Curva perigosa, daquelas onde fica depois uma cruz fincada no barranco, a guardar memória.

Uma força então veio me despertar.

Eu estava cercado de flores. Vivas.

Luz dourada brilhava sobre a terra. Um perfume divino.

Era tempo de seguir de volta para casa.

Levantei. Abri a janela, chegava a primavera.

Que venha o Sol.

E o vento continue soprando.

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ciclovias holandesas

O filme How the Dutch got their cycle paths, produzido por NL Cycling, é um documentário curtinho e de muito bom gosto que resume em poucos minutos a história da infraestrutura cicloviária da Holanda (assistir ou baixar).

“Alguns acreditam, incluindo muitos holandeses, que as ciclovias sempre estiveram lá”. O filme mostra que não é bem assim e conta como a Holanda chegou onde está hoje.

Eles também tiveram o seu momento em que as cidades ficaram infestadas de carros como resultado do enriquecimento rápido e do deslumbramento. Quarteirões inteiros foram destruídos, praças foram convertidas em estacionamento, tudo para que as máquinas pudessem tomar o lugar das pessoas no espaço urbano.

Não importa o país. Se os desejos de crianças mimadas forem atendidos sem que haja limites, esse brinquedo de prosperidade que é o automóvel sempre provocará uma profunda reorganização nas cidades e nas vidas das pessoas.

Em determinado momento, a distância média percorrida diariamente pelos holandeses cresceu muito. As pessoas passaram a achar normal trabalhar longe de casa ou – dá na mesma – morar longe do trabalho.

Graças ao automóvel, as pessoas criam projetos de vida completamente bizarros e insalubres. O automóvel é a causa e não consequência da grande distância entre local de moradia e local de trabalho ou qualquer outra atividade frequente.

O filme mostra ainda que é possível um país se revoltar por causa de 3.300 mortes no trânsito em um ano, enquanto esta fiel província do império estadunidense acha que suas 41.000 mortes por ano são um fato banal, um mal necessário do desenvolvimento, mantendo e eventualmente aprofundando as políticas públicas responsáveis por essas mortes.

Vale a pena assistir e depois pensar um pouco na vida, de preferência tomando um vento na cara.

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épico 2015

ÉPICO 2015

Solo, 6 dias, aproximadamente 490km.

dia 1: São Paulo – Bragança Paulista
dia 2: Bragança Paulista – Munhoz
dia 3: Munhoz – Cambuí
dia 4: Cambuí – Paraisópolis
dia 5: Paraisópolis – São José dos Campos
dia 6: São José dos Campos – São Paulo

EP15

Trajeto completo aqui. Definição de Épico aqui.

Leia também o relato desta viagem.

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contato com a cidade

Há muita diferença entre ir de um ponto ao outro a pé ou de bicicleta e ir de um ponto ao outro dentro de uma bolha de aço.

No primeiro caso, você passa por dentro da cidade. No outro, você desvia dela. O desvio não é por afastamento geográfico, mas simplesmente pela perda de contato.

É difícil imaginar que o peixe e o escafandrista sintam o mar da mesma forma.

Quem desvia da cidade todos os dias jamais vai sentir a diferença de temperatura ao passar de um trecho de puro concreto para um trecho arborizado, onde o asfalto recebeu menos sol e portanto irradia menos calor.

Quem vai pela cidade sente isso no rosto. De bicicleta, a diferença é ainda mais perceptível do que a pé, já que você atravessa rapidamente a mudança de temperatura. De repente, você está dentro de uma massa de ar mais frio e mais úmido.

Dentro de um carro ou um ônibus dificilmente dá para perceber o cheiro de mato, terra e eucalipto ao passar nas imediações de um parque. Quem anda isolado provavelmente desconhece o cheiro de jasmim, manacá ou dama da noite que deve existir em alguma rua do caminho. Jamais receberá a nova estação pelo anúncio das flores. Sentirá a mudança somente quando a chuva trouxer as enchentes, e o congestionamento em sua vida for ainda maior.

Só quem vai de um ponto ao outro por dentro da cidade chega no trabalho com uma alegria meio inexplicável porque o ar no caminho estava um pouco diferente, e isso faz desconfiar que teremos uns bons dias de sol pela frente.

Só quem escolhe estar em contato com a cidade vai chegar mais inspirado ao encontro dos amigos porque no trajeto até o bar tem aquela padaria que está sempre tirando uma fornada naquele horário, e esse cheiro vai ficando associado aos dias de festa.

É pouco provável que o meu dia seja ruim se, a menos de 1km da minha casa, eu já pego a primeira descida do dia, onde o vento a 50km/h me faz chegar lá em baixo rindo não sei de quê.

Quem anda de bicicleta no dia a dia geralmente fica tentando convencer as outras pessoas a experimentar também. Porém, a partir de um certo ponto, argumentos e histórias nada mais podem fazer para mostrar a alguém como lhe faria bem pedalar.

Nada que eu diga poderá criar artificialmente um estado de endorfinas e outros neurotransmissores que reproduza o que você sente como resultado da ação combinada do sol, do vento na cara, dos movimentos do corpo, da respiração e da energia gerada quando você pedala na rua.

A perda do contato com a cidade é um efeito colateral bastante sinistro da escolha do meio de transporte. É muito difícil fazer alguém saber o que está perdendo sem que tenha a sua própria experiência. Cabe apenas torcer para que isso aconteça qualquer hora dessas, de uma forma ou de outra.

E para aqueles que usam conscientemente o medo para justificar sua opção de viver dentro de bolhas, isolados da cidade, eu tenho um palpite. Sentir na própria pele um pouco mais a cidade pode ajudar bastante a perder o medo dos outros.

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épico 2013

ÉPICO 2013

Solo, 4 dias, aproximadamente 310km.

dia 1: São Paulo – Campinas (Barão Geraldo)
dia 2: Campinas – Holambra
dia 3: Holambra – Morungaba
dia 4: Morungaba – São Paulo

EP13

Trajeto completo aqui.

Definição de Épico aqui.

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épico

ÉPICO s.m. Viagem de bicicleta feita sem o auxílio de qualquer outro meio de transporte, com início e término na residência do viajante e com duração igual ou maior que três dias. Geralmente envolve uma partida venturosa e um retorno triunfante.

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sortes

Você dirige, eu pedalo.
Você se arrasta, vou voando.
Você tem medo; eu, nem cinto.
Eu vivo vento, você encurralado.

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cruz da babilônia

A Cruz da Babilônia é uma série de quatro roteiros que, projetados sobre a sinistra mancha de concreto, formam uma intrigante figura.

imagem: Google Earth

Os quatro destinos, Evangelista de Souza, Taiaçupeba, Canguera e Jarinu, estão a mais ou menos setenta quilômetros contados a partir da Praça do Ciclista, em São Paulo. Todos eles estão também relativamente próximos a uma estação de trem, o que nos finais de semana pode facilitar a volta.

Evangelista de Souza, o braço sul da Cruz da Babilônia, é uma vila ferroviária abandonada no extremo sul do município, no distrito de Engenheiro Marsilac. Nesta viagem você não sai do município em momento algum, mas vai pedalar por um bom tempo na área rural de São Paulo. É um trajeto predominantemente plano, apenas com algumas subidas longas na Avenida Teotônio Vilela.

Taiaçupeba, o braço leste da Cruz da Babilônia, é um bairro de Mogi das Cruzes, já bem próximo à divisa com Bertioga, no alto da serra. Para chegar lá você atravessa a imensa zona leste paulistana e alguns municípios pequenos, sem sair da Região Metropolitana de São Paulo. É o trajeto mais plano e fácil dos quatro, atravessando a zona leste pela ciclovia.

Canguera, o braço oeste da Cruz da Babilônia, é um bairro de São Roque localizado no final da Estrada do Vinho, em uma região de pequenas serras. Nesta viagem você atravessa vários municípios da Região Metropolitana e finalmente sai dela por Itapevi. Dos quatro, é o trajeto de maior ascensão total e também o que tem a subida mais inclinada, já bem perto do destino.

Jarinu, o braço norte da Cruz da Babilônia, é um município localizado entre Jundiaí e Atibaia, totalmente fora da Região Metropolitana de São Paulo. É talvez a viagem mais tranquila das quatro, e apesar de a ascensão total ser relativamente grande, não há subidas muito inclinadas. É também um trajeto muito agradável, com paisagens naturais variadas.

Precisando tomar vento na cara? Basta escolher uma direção. Foi assim que nasceram estas quatro viagens.

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sinceros agradecimentos

A você, motorista, dirijo meus sinceros agradecimentos. Graças a você, continuo vivo. Se hoje estou aqui escrevendo é porque não fui abalroado enquanto pedalava pela cidade. Você tem estado atento a tudo que acontece à sua frente nas ruas.

Que bom que, na hora em que se aproximava de mim, não resolveu atender o telefone, ou trocar o CD. Já imaginou, por exemplo, se estivesse olhando pra telinha do GPS? Eu não estaria lá no mapa, e alguns minutos depois não estaria mais no mundo real também.

Ainda bem que não resolveu de repente ultrapassar pela direita, bem no momento em que eu estava lá, mesmo porque você teria que reduzir logo adiante e a manobra perigosa não mudaria nada na sua vida. Na minha, sim.

Enquanto você voltava pra casa dirigindo bêbado, depois da festinha, eu pedalava pela cidade tranquilamente, depois de algumas cervejas, tomando o vento fresco na cara. Por sorte, você pegou outra rua, e eu não estava no seu caminho. Você provavelmente teria visto dois ciclistas e tentaria passar no meio deles.

Por tudo isso, te agradeço.

Apenas agradeço, não há muito mais que eu possa fazer. O espaço que ocupo nas ruas é pequeno. Preciso dele tanto quanto você.

Motorista, você tem sido bastante responsável, reconheço isso. E talvez já tenha percebido, isso nunca fez você chegar atrasado ao seu destino. Continue assim.

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a sunday in hell

Muito provavelmente o mais belo filme sobre ciclismo feito até hoje, e não é preciso ver todos para saber.

O cara entendeu, e colocou ali para quem quiser ouvir, o silêncio da bicicleta. Isso é suficiente.

a sunday in hell

Conhecida como O Inferno do Norte, a corrida Paris-Roubaix é famosa por seus vários trechos em estradas de pedra. O documentário mostra a prova de 1976, e vale a pena mesmo para quem não é muito fã de filmes sobre competições esportivas. Nenhuma semelhança com os atuais canais de esporte, que precisam de dois idiotas falando o tempo todo para que as pessoas não se sintam entediadas e mudem de canal.

Você verá uma travessia de 258km desde o ponto de vista do ciclista, que ouve apenas o som da corrente, do vento na cara e, quando atravessa um povoado, das pessoas que vieram para ver.

Sobre a trilha sonora, prefiro ficar quieto. Só posso adiantar que você vai ouvir um solo de tímpano.

Veja o filme num momento de tranquilidade e inspiração, num local sem muito barulho, com o áudio ligado em um aparelho de som digno ou em um bom fone de ouvido.

Ouça o filme com atenção. Aproveite que não tem legenda e viaje nas paisagens. O que você puder compreender da tranquila narração em inglês será suficiente.

Quando acabar desligue tudo, pegue sua bicicleta e volte para o vento.

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ilha do bororé

Com a construção da Barragem de Pedreira, em 1927, uma grande área começou a ser inundada às margens do Rio Jurubatuba. Formou-se então a Represa Billings, construída para alimentar a usina hidrelétrica de Henry Borden, em Cubatão. A inundação fez com que algumas áreas ficassem isoladas. Uma grande porção de terra às margens do Rio Taquacetuba transformou-se em península. O acesso por terra é ainda possível pelo sul, mas é mais fácil chegar de balsa.

Esse local ficou conhecido como Ilha do Bororé e tem cerca de três mil habitantes. A oeste está o Grajaú e a leste está o município de São Bernardo do Campo, ambos separados da ilha por grandes braços da represa. Ao sul, liga-se com os arredores dos bairros de Parelheiros e Colônia Paulista.

A paisagem é de área rural, com vegetação nativa de mata atlântica, e faz parte da APA Bororé-Colônia. A Ilha do Bororé será atravessada pelo trecho sul do rodoanel, e devemos torcer para que não haja acesso dessa via à Ilha, pois o isolamento garante a tranquilidade e a preservação do local.

O trajeto até a Ilha do Bororé tem aproximadamente 35km contados a partir do bairro de Pinheiros. Até Jurubatuba, é possível seguir uma rota paralela à Marginal Pinheiros por vias seguras. Cruzado o rio, passa por dentro do bairro de Interlagos e depois pelo Grajaú.

O único trecho relativamente complicado é a Faria Lima. Além de o chão ser muito ruim, motoristas de carros e ônibus têm aí um comportamento particularmente agressivo. No centro de Santo Amaro tem muita gente atravessando a rua; os veículos motorizados costumam ficar praticamente imobilizados, e acabam sendo inofensivos. Os arredores da nova ponte Vitorino Goulart da Silva e do autódromo são o trecho mais tranquilo da parte urbana da viagem. A Teotônio Vilela e a Belmira Marin são cheias de veículos motorizados (fumaça!) e eles têm alguma mobilidade, portanto cuidado. Passada a entrada para o bairro de Xangilá, falta só uma longa descida para chegar na balsa: se joga!

Encoste sua bicicleta em uma das laterais da balsa e receba o vento na cara. A travessia é rápida, portanto aproveite. Às vezes tem biscoito de polvilho pra vender dentro da balsa, e nas duas margens tem cerveja em lata. A partir daqui é só sossego. Dentro da ilha, a estrada tem subidas e descidas suaves e é bem tranquila, passa pouco carro. Tem verde por todos os lados e um visual da represa de vez em quando. Tem uma igrejinha, caldo de cana e um lugar que serve comida caseira.

Em vez de voltar pelo Grajaú, você pode seguir até a segunda balsa, que cruza um canal mais largo que o primeiro. Foi o que fiz da primeira vez que fui à Ilha. No meio do canal passa a divisa entre São Paulo e São Bernardo. Depois da segunda balsa a estrada é de terra. A certa altura você passará por baixo da Imigrantes, e existe uma pequena trilha por onde dá para subir até a rodovia. Nesse local você está pouco mais de três quilômetros ao sul do pedágio. Dá para pedalar com relativa tranquilidade pelo acostamento até a divisa entre Diadema e São Paulo (km 12), cruzar a estrada pela passarela e voltar por dentro do Jabaquara.

Detalhe importante: planeje uma refeição decente em algum ponto da viagem, pois voltando pela Imigrantes são praticamente cinco horas de pedal.

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marco zero

Começando hoje? Mmm, não é bem assim…

Pois é, máquinas conseguem esquecer tudo, basta apertar um botão, puxar o fio da tomada, arrancar a pilha. A gente se inspira nelas e tenta fazer igual, “dar um reset”. Eu mesmo já tentei algumas vezes, não deu certo.

marco zeroUm dos meus brinquedos favoritos, o velocímetro da bicicleta, ganhou pilha nova no último dia 9 de janeiro. Assim, ele se lembra das minhas andanças sobre duas rodas desde o início deste ano.

Sincronizando as coisas: o marco zero deste blogue equivale à marca 601,8 km percorridos desde o último reset do velocímetro.

Criei este blogue para registrar os ventos que passarão e também os ventos passados antes deste marco zero.

Tomo vento na cara quando estou sobre a bicicleta, mas não só. Tomo vento na cara na janela do meu quarto de dormir, na praia, na caminhada pelas estradas. Fica aqui um pouco dessa brisa.

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