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primavera

Numa tarde de setembro, este blogue quase acabou.

Perdeu o sentido, saiu da estrada, tombou sem alcançar destino.

Curva perigosa, daquelas onde fica depois uma cruz fincada no barranco, a guardar memória.

Uma força então veio me despertar.

Eu estava cercado de flores. Vivas.

Luz dourada brilhava sobre a terra. Um perfume divino.

Era tempo de seguir de volta para casa.

Levantei. Abri a janela, chegava a primavera.

Que venha o Sol.

E o vento continue soprando.

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ciclovias holandesas

O filme How the Dutch got their cycle paths, produzido por NL Cycling, é um documentário curtinho e de muito bom gosto que resume em poucos minutos a história da infraestrutura cicloviária da Holanda (assistir ou baixar).

“Alguns acreditam, incluindo muitos holandeses, que as ciclovias sempre estiveram lá”. O filme mostra que não é bem assim e conta como a Holanda chegou onde está hoje.

Eles também tiveram o seu momento em que as cidades ficaram infestadas de carros como resultado do enriquecimento rápido e do deslumbramento. Quarteirões inteiros foram destruídos, praças foram convertidas em estacionamento, tudo para que as máquinas pudessem tomar o lugar das pessoas no espaço urbano.

Não importa o país. Se os desejos de crianças mimadas forem atendidos sem que haja limites, esse brinquedo de prosperidade que é o automóvel sempre provocará uma profunda reorganização nas cidades e nas vidas das pessoas.

Em determinado momento, a distância média percorrida diariamente pelos holandeses cresceu muito. As pessoas passaram a achar normal trabalhar longe de casa ou – dá na mesma – morar longe do trabalho.

Graças ao automóvel, as pessoas criam projetos de vida completamente bizarros e insalubres. O automóvel é a causa e não consequência da grande distância entre local de moradia e local de trabalho ou qualquer outra atividade frequente.

O filme mostra ainda que é possível um país se revoltar por causa de 3.300 mortes no trânsito em um ano, enquanto esta fiel província do império estadunidense acha que suas 41.000 mortes por ano são um fato banal, um mal necessário do desenvolvimento, mantendo e eventualmente aprofundando as políticas públicas responsáveis por essas mortes.

Vale a pena assistir e depois pensar um pouco na vida, de preferência tomando um vento na cara.

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épico 2015

ÉPICO 2015

Solo, 6 dias, aproximadamente 490km.

dia 1: São Paulo – Bragança Paulista
dia 2: Bragança Paulista – Munhoz
dia 3: Munhoz – Cambuí
dia 4: Cambuí – Paraisópolis
dia 5: Paraisópolis – São José dos Campos
dia 6: São José dos Campos – São Paulo

EP15

Trajeto completo aqui. Definição de Épico aqui.

Leia também o relato desta viagem.

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contato com a cidade

Há muita diferença entre ir de um ponto ao outro a pé ou de bicicleta e ir de um ponto ao outro dentro de uma bolha de aço.

No primeiro caso, você passa por dentro da cidade. No outro, você desvia dela. O desvio não é por afastamento geográfico, mas simplesmente pela perda de contato.

É difícil imaginar que o peixe e o escafandrista sintam o mar da mesma forma.

Quem desvia da cidade todos os dias jamais vai sentir a diferença de temperatura ao passar de um trecho de puro concreto para um trecho arborizado, onde o asfalto recebeu menos sol e portanto irradia menos calor.

Quem vai pela cidade sente isso no rosto. De bicicleta, a diferença é ainda mais perceptível do que a pé, já que você atravessa rapidamente a mudança de temperatura. De repente, você está dentro de uma massa de ar mais frio e mais úmido.

Dentro de um carro ou um ônibus dificilmente dá para perceber o cheiro de mato, terra e eucalipto ao passar nas imediações de um parque. Quem anda isolado provavelmente desconhece o cheiro de jasmim, manacá ou dama da noite que deve existir em alguma rua do caminho. Jamais receberá a nova estação pelo anúncio das flores. Sentirá a mudança somente quando a chuva trouxer as enchentes, e o congestionamento em sua vida for ainda maior.

Só quem vai de um ponto ao outro por dentro da cidade chega no trabalho com uma alegria meio inexplicável porque o ar no caminho estava um pouco diferente, e isso faz desconfiar que teremos uns bons dias de sol pela frente.

Só quem escolhe estar em contato com a cidade vai chegar mais inspirado ao encontro dos amigos porque no trajeto até o bar tem aquela padaria que está sempre tirando uma fornada naquele horário, e esse cheiro vai ficando associado aos dias de festa.

É pouco provável que o meu dia seja ruim se, a menos de 1km da minha casa, eu já pego a primeira descida do dia, onde o vento a 50km/h me faz chegar lá em baixo rindo não sei de quê.

Quem anda de bicicleta no dia a dia geralmente fica tentando convencer as outras pessoas a experimentar também. Porém, a partir de um certo ponto, argumentos e histórias nada mais podem fazer para mostrar a alguém como lhe faria bem pedalar.

Nada que eu diga poderá criar artificialmente um estado de endorfinas e outros neurotransmissores que reproduza o que você sente como resultado da ação combinada do sol, do vento na cara, dos movimentos do corpo, da respiração e da energia gerada quando você pedala na rua.

A perda do contato com a cidade é um efeito colateral bastante sinistro da escolha do meio de transporte. É muito difícil fazer alguém saber o que está perdendo sem que tenha a sua própria experiência. Cabe apenas torcer para que isso aconteça qualquer hora dessas, de uma forma ou de outra.

E para aqueles que usam conscientemente o medo para justificar sua opção de viver dentro de bolhas, isolados da cidade, eu tenho um palpite. Sentir na própria pele um pouco mais a cidade pode ajudar bastante a perder o medo dos outros.

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épico 2013

ÉPICO 2013

Solo, 4 dias, aproximadamente 310km.

dia 1: São Paulo – Campinas (Barão Geraldo)
dia 2: Campinas – Holambra
dia 3: Holambra – Morungaba
dia 4: Morungaba – São Paulo

EP13

Trajeto completo aqui.

Definição de Épico aqui.

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épico

ÉPICO s.m. Viagem de bicicleta feita sem o auxílio de qualquer outro meio de transporte, com início e término na residência do viajante e com duração igual ou maior que três dias. Geralmente envolve uma partida venturosa e um retorno triunfante.

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sortes

Você dirige, eu pedalo.
Você se arrasta, vou voando.
Você tem medo; eu, nem cinto.
Eu vivo vento, você encurralado.

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cruz da babilônia

A Cruz da Babilônia é uma série de quatro roteiros que, projetados sobre a grande mancha de concreto, formam uma intrigante figura.

imagem: Google Earth

Os quatro destinos, Evangelista de Souza, Taiaçupeba, Canguera e Jarinu, estão a mais ou menos setenta quilômetros contados a partir da Praça do Ciclista, em São Paulo. Todos eles estão também relativamente próximos a uma estação de trem, o que nos finais de semana pode facilitar a volta.

Evangelista de Souza, o braço sul da Cruz da Babilônia, é uma vila ferroviária abandonada no extremo sul do município, no distrito de Engenheiro Marsilac. Nesta viagem você não sai do município em momento algum, mas vai pedalar por um bom tempo na área rural de São Paulo. É um trajeto predominantemente plano, apenas com algumas subidas longas na Avenida Teotônio Vilela.

Taiaçupeba, o braço leste da Cruz da Babilônia, é um bairro de Mogi das Cruzes, já bem próximo à divisa com Bertioga, no alto da serra. Para chegar lá você atravessa a imensa zona leste paulistana e alguns municípios pequenos, sem sair da Região Metropolitana de São Paulo. É o trajeto mais plano e fácil dos quatro, atravessando a zona leste pela ciclovia.

Canguera, o braço oeste da Cruz da Babilônia, é um bairro de São Roque localizado no final da Estrada do Vinho, em uma região de pequenas serras. Nesta viagem você atravessa vários municípios da Região Metropolitana e finalmente sai dela por Itapevi. Dos quatro, é o trajeto de maior ascensão total e também o que tem a subida mais inclinada, já bem perto do destino.

Jarinu, o braço norte da Cruz da Babilônia, é um município localizado entre Jundiaí e Atibaia, totalmente fora da Região Metropolitana de São Paulo. É talvez a viagem mais tranquila das quatro, e apesar de a ascensão total ser relativamente grande, não há subidas muito inclinadas. É também um trajeto muito agradável, com paisagens naturais variadas.

Precisando tomar vento na cara? Basta ter uma direção. Foi assim que fiz estas quatro viagens.

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sinceros agradecimentos

A você, motorista, dirijo meus sinceros agradecimentos. Graças a você, continuo vivo. Se hoje estou aqui escrevendo é porque não fui abalroado enquanto pedalava pela cidade. Você tem estado atento a tudo que acontece à sua frente nas ruas.

Que bom que, na hora em que se aproximava de mim, não resolveu atender o telefone, ou trocar o CD. Já imaginou, por exemplo, se estivesse olhando pra telinha do GPS? Eu não estaria lá no mapa, e alguns minutos depois não estaria mais no mundo real também.

Ainda bem que não resolveu de repente ultrapassar pela direita, bem no momento em que eu estava lá, mesmo porque você teria que reduzir logo adiante e a manobra perigosa não mudaria nada na sua vida. Na minha, sim.

Enquanto você voltava pra casa dirigindo bêbado, depois da festinha, eu pedalava pela cidade tranquilamente, depois de algumas cervejas, tomando o vento fresco na cara. Por sorte, você pegou outra rua, e eu não estava no seu caminho. Você provavelmente teria visto dois ciclistas e tentaria passar no meio deles.

Por tudo isso, te agradeço.

Apenas agradeço, não há muito mais que eu possa fazer. O espaço que ocupo nas ruas é pequeno. Preciso dele tanto quanto você.

Motorista, você tem sido bastante responsável, reconheço isso. E talvez já tenha percebido, isso nunca fez você chegar atrasado ao seu destino. Continue assim.

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a sunday in hell

Muito provavelmente o mais belo filme sobre ciclismo feito até hoje, e não é preciso ver todos para saber.

O cara entendeu, e colocou ali para quem quiser ouvir, o silêncio da bicicleta. Isso é suficiente.

a sunday in hell

Conhecida como O Inferno do Norte, a corrida Paris-Roubaix é famosa por seus vários trechos em estradas de pedra. O documentário mostra a prova de 1976, e vale a pena mesmo para quem não é muito fã de filmes sobre competições esportivas. Nenhuma semelhança com os atuais canais de esporte, que precisam de dois idiotas falando o tempo todo para que as pessoas não se sintam entediadas e mudem de canal.

Você verá uma travessia de 258km desde o ponto de vista do ciclista, que ouve apenas o som da corrente, do vento na cara e, quando atravessa um povoado, das pessoas que vieram para ver.

Sobre a trilha sonora, prefiro ficar quieto. Só posso adiantar que você vai ouvir um solo de tímpano.

Veja o filme num momento de tranquilidade e inspiração, num local sem muito barulho, com o áudio ligado em um aparelho de som digno ou em um bom fone de ouvido.

Ouça o filme com atenção. Aproveite que não tem legenda e viaje nas paisagens. O que você puder compreender da tranquila narração em inglês será suficiente.

Quando acabar desligue tudo, pegue sua bicicleta e volte para o vento.

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ilha do bororé

Com a construção da Barragem de Pedreira, em 1927, uma grande área começou a ser inundada às margens do Rio Jurubatuba. Formou-se então a Represa Billings, construída para alimentar a usina hidrelétrica de Henry Borden, em Cubatão. A inundação fez com que algumas áreas ficassem isoladas. Uma grande porção de terra às margens do Rio Taquacetuba transformou-se em península. O acesso por terra é ainda possível pelo sul, mas é mais fácil chegar de balsa.

Esse local ficou conhecido como Ilha do Bororé e tem cerca de três mil habitantes. A oeste está o Grajaú e a leste está o município de São Bernardo do Campo, ambos separados da ilha por grandes braços da represa. Ao sul, liga-se com os arredores dos bairros de Parelheiros e Colônia Paulista.

A paisagem é de área rural, com vegetação nativa de mata atlântica, e faz parte da APA Bororé-Colônia. A Ilha do Bororé será atravessada pelo trecho sul do rodoanel, e devemos torcer para que não haja acesso dessa via à Ilha, pois o isolamento garante a tranquilidade e a preservação do local.

O trajeto até a Ilha do Bororé tem aproximadamente 35km contados a partir do bairro de Pinheiros. Até Jurubatuba, é possível seguir uma rota paralela à Marginal Pinheiros por vias seguras. Cruzado o rio, passa por dentro do bairro de Interlagos e depois pelo Grajaú.

O único trecho relativamente complicado é a Faria Lima. Além de o chão ser muito ruim, motoristas de carros e ônibus têm aí um comportamento particularmente agressivo. No centro de Santo Amaro tem muita gente atravessando a rua; os veículos motorizados costumam ficar praticamente imobilizados, e acabam sendo inofensivos. Os arredores da nova ponte Vitorino Goulart da Silva e do autódromo são o trecho mais tranquilo da parte urbana da viagem. A Teotônio Vilela e a Belmira Marin são cheias de veículos motorizados (fumaça!) e eles têm alguma mobilidade, portanto cuidado. Passada a entrada para o bairro de Xangilá, falta só uma longa descida para chegar na balsa: se joga!

Encoste sua bicicleta em uma das laterais da balsa e receba o vento na cara. A travessia é rápida, portanto aproveite. Às vezes tem biscoito de polvilho pra vender dentro da balsa, e nas duas margens tem cerveja em lata. A partir daqui é só sossego. Dentro da ilha, a estrada tem subidas e descidas suaves e é bem tranquila, passa pouco carro. Tem verde por todos os lados e um visual da represa de vez em quando. Tem uma igrejinha, caldo de cana e um lugar que serve comida caseira.

Em vez de voltar pelo Grajaú, você pode seguir até a segunda balsa, que cruza um canal mais largo que o primeiro. Foi o que fiz da primeira vez que fui à Ilha. No meio do canal passa a divisa entre São Paulo e São Bernardo. Depois da segunda balsa a estrada é de terra. A certa altura você passará por baixo da Imigrantes, e existe uma pequena trilha por onde dá para subir até a rodovia. Nesse local você está pouco mais de três quilômetros ao sul do pedágio. Dá para pedalar com relativa tranquilidade pelo acostamento até a divisa entre Diadema e São Paulo (km 12), cruzar a estrada pela passarela e voltar por dentro do Jabaquara.

Detalhe importante: planeje uma refeição decente em algum ponto da viagem, pois voltando pela Imigrantes são praticamente cinco horas de pedal.

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marco zero

Começando hoje? Mmm, não é bem assim…

Pois é, máquinas conseguem esquecer tudo, basta apertar um botão, puxar o fio da tomada, arrancar a pilha. A gente se inspira nelas e tenta fazer igual, “dar um reset”. Eu mesmo já tentei algumas vezes, não deu certo.

marco zeroUm dos meus brinquedos favoritos, o velocímetro da bicicleta, ganhou pilha nova no último dia 9 de janeiro. Assim, ele se lembra das minhas andanças sobre duas rodas desde o início deste ano.

Sincronizando as coisas: o marco zero deste blogue equivale à marca 601,8 km percorridos desde o último reset do velocímetro.

Criei este blogue para registrar os ventos que passarão e também os ventos passados antes deste marco zero.

Tomo vento na cara quando estou sobre a bicicleta, mas não só. Tomo vento na cara na janela do meu quarto de dormir, na praia, na caminhada pelas estradas. Fica aqui um pouco dessa brisa.

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