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ônibus caros

Uma passagem de ônibus custa hoje R$2,70. Um litro de álcool pode ser comprado por R$1,20. Logo, com o valor de uma passagem de ônibus compram-se 2,25 litros de álcool.

Segundo teste da revista Quatro Rodas, o modelo mais vendido no Brasil em 2009 (VW Gol) faz na cidade uma média de 6,9km por litro de álcool. Portanto, com o valor de uma passagem de ônibus é possível percorrer de carro até 15,5km. Se a conta for feita com base no preço e rendimento da gasolina, os resultados serão bem semelhantes.

Sei que corro o risco de dar uma informação nova a quem nunca tinha pensado nisso e, dessa forma, incentivar mais gente a trocar o transporte coletivo pelo individual. É um risco necessário para poder mostrar um dado estrutural do sistema de transportes de São Paulo. E, de qualquer forma, parece que muita gente já percebeu que não vale a pena pegar ônibus para viagens pequenas.

A Pesquisa Origem e Destino 2007, realizada pelo Metrô, indica que a maioria das viagens realizadas em transporte individual são curtas, duram por volta de 20 minutos.

viagens diárias segundo modo e duraçãofonte: Pesquisa Origem e Destino 2007 – Síntese das Informações da Pesquisa Domiciliar, p. 49

O gráfico mostra também que as viagens de transporte coletivo de 20 minutos são bem menos numerosas que as viagens de transporte individual de mesma duração. Mesmo se observarmos as viagens de transporte coletivo de 30 minutos (supondo que o trajeto leve 50% mais tempo do que se fosse feito de carro, o que nem sempre é verdade), vemos que o número é ainda muito inferior.

Na pesquisa não há informações sobre as distâncias dessas viagens, mas podemos estimá-las. Considerando uma velocidade média de 35km/h (bem superior à dos horários de pico), uma viagem de 20 minutos corresponde a uma distância de aproximadamente 11,7km. Ou seja, com o preço da passagem de ônibus a R$2,70, os motoristas que realizam essas viagens estão fazendo bom negócio ao ir de carro.

São contas bastante simples, e permitem tirar uma conclusão nada animadora: boa parte dos carros que estão por aí a atravancar as ruas jamais serão substituídos por transporte coletivo enquanto ele for caro desse jeito.

Não basta às companhias de transporte coletivo lucrar. Elas têm que lucrar muito. Se um automóvel percorre 15km com o valor de uma passagem, imagine quanto se percorre com o valor pago por 50 passageiros, e ainda usando diesel como combustível.

Fala-se muito em melhoria do transporte coletivo como forma de diminuir o problema do trânsito. Estes dados indicam que muito pouco vai mudar se o preço da passagem também não for reavaliado.

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região metropolitana

A porção de terra usualmente referida por Região Metropolitana de São Paulo é, entre todos os lugares que existem, um lugar bastante estranho e peculiar. Se cidades são parte do fenótipo estendido da espécie humana, não há metáfora quando se diz que esse lugar estranho e peculiar é também um tecido nocivo em estado de metástase.

Divide-se em sub-regiões e seu contorno externo forma uma figura bem definida, ainda que sem nome. Se você mora nesse lugar, descubra qual sub-região você habita.

mapa da Região Metropolitana de São Paulofonte: Pesquisa Origem e Destino 2007 – Síntese das Informações da Pesquisa Domiciliar, p. 9

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pesquisa origem e destino

Há alguns meses saíram os resultados da Pesquisa Origem e Destino 2007 realizada pelo Metrô. A página eletrônica da empresa disponibiliza os dados somente para pessoas jurídicas, e por isso este texto se baseia em dados publicados pelo Estadão.

Segundo o Metrô, a pesquisa “tem por objetivo o levantamento de informações atualizadas sobre as viagens realizadas pela população da metrópole em dia útil típico”, e serve de base para estudos de planejamento do sistema de transportes da metrópole. A pesquisa é realizada desde 1976 em intervalos de dez anos.

Dos 43 gráficos da síntese publicada pelo Estadão, apenas dois fazem referência ao uso de bicicletas.

O gráfico 6 mostra a evolução do número de viagens diárias por modo, sendo eles: motorizado coletivo, motorizado individual, bicicleta, a pé. O número de viagens de bicicleta é baixíssimo, como se poderia supor apenas pela observação das ruas da cidade. Mas desde 1977 (há dados referentes a bicicleta somente a partir desse ano) vem crescendo tanto em número absoluto quanto em percentual. Nos últimos dez anos, cresceu de 162,5 mil viagens em 1997 (0.51%) para 305,1 viagens em 2007 (0.79%). O aumento do número absoluto de viagens nesse período é menos desolador: 88%.

E o gráfico 20 mostra o tempo médio diário de viagens por modo e por renda. Permite concluir que em todos os modos apresentados (coletivo, individual, a pé, bicicleta) o tempo médio gasto nas viagens varia muito pouco conforme as cinco faixas de renda avaliadas. Há um dado curioso referente a bicicletas. Partindo da primeira faixa de renda (até R$760 de renda familiar), o tempo médio das viagens vai baixando linearmente até a quarta faixa. Porém, na quinta faixa de renda (acima de R$5700) o tempo médio volta a subir, ainda que sutilmente. Algum palpite que explique isso?

uma breve comparação
O texto de uma das matérias informa que “quase metade de todas as viagens com transporte individual dura menos de 15 minutos”, sem entretanto fornecer dados mais precisos. E já que agora estamos todos abrindo mão da precisão, não custa nada arriscar uma conta aproximada.

No MapLink há a informação de que a velocidade média dos automóveis em horários de pico é 17km/h (a matéria é de junho de 2008, portanto esse dado já deve ter piorado). A velocidade média de uma bicicleta varia aproximadamente entre 13km/h e 16km/h, dependendo da topografia, das condições do trajeto e da pressa, considerando uma pessoa sem nenhum preparo físico especial.

Um trajeto de 15 minutos à velocidade média dos automóveis em horário de pico é um trajeto de 4,3km. Esse mesmo trajeto feito de bicicleta levaria algo entre 16 e 20 minutos. Perceba a diferença: entre 1 e 5 minutos a mais que de carro, fora o resto (custo, saúde, diversão).

Um ciclista com um preparo físico um pouco acima da média poderia fazer esse mesmo trajeto em 1 ou 2 minutos a menos que de carro.

E um atleta como Paul Tergat, recordista da corrida de São Silvestre, com sua velocidade média de 20,8km/h, faria o trajeto em 12 minutos e meio, correndo.

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