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sossego à venda

Uma importante estratégia da sociedade de consumo para gerar demanda é tirar das pessoas algo que elas têm por natureza para depois vender de volta a elas.

Tira a saúde, oferecendo cidades poluídas e uma vida semelhante a uma corrida de ratos, enchendo as pessoas de depressão e câncer, e então vende planos médicos, remédios caros e cirurgias de ficção científica. Tira o silêncio e o ar puro, com cidades saturadas de automóveis, para depois vender casas em bairros isolados ou condomínios em áreas afastadas e municípios vizinhos, contribuindo com a metástase urbana. Tira a comunidade e o espaço público, fazendo com que as pessoas tenham medo umas das outras, e depois oferece salões para festas infantis, shopping centers e antidepressivos.

Agora a wazificação dos motoristas está acabando também com o sossego que antes existia nas vias locais. Seja porque de fato desconhecem o caminho, seja porque vivem tentando ganhar segundos de vantagem em trajetos espertos, seja simplesmente porque gostam da companhia do brinquedo, os motoristas estão se transformando em cumpridores de ordens dadas por máquinas. O resultado é que, graças aos aplicativos de navegação por satélite, ruas que antes recebiam tráfego motorizado apenas de moradores e pessoas da vizinhança estão virando rotas alternativas e recebendo tráfego intenso. Especialmente em alguns horários do dia, são invadidas por filas de automóveis que estão de passagem e antes usavam vias coletoras ou arteriais da região.

Uma vez que determinada rua local é percebida pelo algoritmo como mais rápida, o programa colocará essa rua no trajeto e mandará os carros para lá. Os motoristas obedecerão. Nesse momento, acabou o sossego, o silêncio, o som dos passarinhos, a brincadeira das crianças na rua, a conversa de vizinhos em frente de casa. Pelo menos em princípio, isso acontece tanto em bairros ricos como em bairros pobres pois, teoricamente, o programa avalia cada via apenas com base nas informações de velocidade média e incidentes notificados. Porém, talvez outros parâmetros atuem ou venham a atuar na escolha de ruas feita pelo aplicativo.

Já faz alguns anos que a onipresença dos mecanismos de busca trouxe ao debate jurídico o tema do direito ao esquecimento. Se uma pessoa esteve envolvida em algum episódio difamatório que tenha sido muito noticiado, alguém que pesquise seu nome mesmo dez ou vinte anos depois continuará encontrando essas mesmas notícias. Com base no direito ao esquecimento, por meio de ordem judicial, a pessoa pode conseguir que o Google deixe de apresentar no resultado das buscas as notícias envolvendo seu nome.

Isso é possível porque os resultados das buscas são afetados por dados presentes na base que descrevem as informações que estão lá, orientando o processo de busca. Por meio de uma simples alteração desses dados, é possível fazer com que uma página eletrônica passe a ser ou priorizada nos resultados da busca (quando o interessado pagou pela visibilidade de uma marca, por exemplo) ou rebaixada na lista e mesmo omitida (quando existe determinação para isso, por exemplo, páginas com conteúdo pornográfico). O fato é que o resultado de uma busca não é determinado apenas pelas palavras ou expressões solicitadas pelo usuário. Há outros dados atuando.

Um processo semelhante no banco de dados de ruas pode fazer com que uma via deixe de ser escolhida pelo algoritmo que monta os trajetos. Tecnicamente, isso é tão simples de fazer como tirar uma determinada página do resultado das buscas. A gigante Google é também dona do Waze e dos dados fornecidos por todos os usuários durante sua navegação com o aplicativo. Exceto por umas poucas restrições legais, e sujeita a eventuais ordens judiciais específicas, essa corporação atua com poucos limites no mercado, perseguindo agressivamente seus interesses econômicos.

Tudo em nossa sociedade, em algum momento, passa a ter um preço. A visibilidade já tem seu preço. Anúncios em mecanismos de busca e impulsionamento de mensagens em redes sociais são serviços já bastante triviais, com tabelas de preço abertas, considerados legítimos (e é curioso como muita gente continua acreditando no mito da imparcialidade). Se é que já não existe em circuitos mais restritos, é bastante provável que dentro de poucos anos venha a existir uma tabela oficial com o preço do esquecimento, assim como já acontece com o preço da visibilidade.

O mesmo vale para o esquecimento de ruas, que funciona de maneira igualmente simples, do ponto de vista técnico. Imagine que formidável. Muda-se um parâmetro de uma rua na base de dados e, dez minutos depois, os automóveis magicamente desaparecem dela!

Seja pela via jurídica, que implica altos custos advocatícios, seja pelo pagamento direto de um serviço, no momento em que o esquecimento tiver um valor de mercado assim como a visibilidade já tem, o sossego que havia sido expropriado pelo aplicativo pode finalmente ser comprado de volta.

A partir do momento em que um banco de dados e um programa de computador controlam diretamente os movimentos das pessoas (que apenas executam instruções), os padrões de deslocamento e de ocupação das vias da cidade passam a estar sob um controle centralizado. Sendo o controlador uma organização privada com interesses econômicos, o sossego passa a ter um preço e estará disponível, naturalmente, para aqueles que puderem pagar por isso.

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carros elétricos e a cidade do futuro

Os automóveis elétricos chegarão mais cedo ou mais tarde, e a tendência é que eles substituam a frota de veículos movidos a combustível. Muitas pessoas estão vendo nisso a grande salvação para a mobilidade urbana, pois acreditam que os carros elétricos vão eliminar os males causados pelos carros com motor de combustão.

Para sistematizar um assunto e facilitar sua compreensão, tabelas e listas comparativas são recursos bastante didáticos. O próximo passo seria desenhar, mas vou assumir que por enquanto isso é desnecessário.

Segue então uma breve lista para ajudar a avaliar até onde vai essa melhoria.

males dos automóveis com motor de combustão

  1. Produzem gases tóxicos, material particulado e mau cheiro.
  2. Fazem muito barulho.
  3. Alimentam a demanda por petróleo, que motiva guerras e intervencionismo na disputa pelas jazidas.
  4. Provocam grandes catástrofes humanas e ambientais, decorrentes do derramamento de petróleo nos oceanos, vazamento de oleodutos e tanques de gás, explosão de refinarias.
  5. Têm alto poder de letalidade em atropelamentos e colisões.
  6. São usados para intimidar os outros na disputa por espaço nas vias.
  7. Favorecem o espalhamento das cidades, a gentrificação e o afastamento entre a maioria das pessoas e os serviços disponíveis, comprometendo de forma ampla o direito à cidade.
  8. Oferecem uma proteção visual ao motorista, facilitando ainda mais a adoção de comportamentos agressivos, incivilizados e antissociais.
  9. Isolam as pessoas umas das outras, afetando o convívio social, destruindo comunidades e contribuindo com a epidemia de distúrbios psiquiátricos.
  10. Geram demanda por vagas de estacionamento em locais públicos e privados, fazendo com que um espaço precioso seja retirado das pessoas e reservado para máquinas ficarem paradas.
  11. Produzem um padrão de convivência em que os outros tendem a ser vistos como obstáculos ou como rivais na disputa por um espaço altamente escasso.
  12. Modificam sensivelmente a paisagem urbana, que fica entulhada desses objetos de metal e vidro opaco quando poderia ser dominada por árvores, pessoas conversando, crianças brincando, obras arquitetônicas, arte urbana, paisagismo, montanhas, horizonte de vida.
  13. Ao proporcionar deslocamentos com pouco esforço e muitos privilégios, estimulam comportamentos infantis, típicos de crianças mimadas.
  14. Favorecem o sedentarismo, aumentam a preguiça, a obesidade e a incidência de doenças cardíacas e distúrbios do aparelho digestivo.
  15. Dispondo de equipamentos que podem ser usados para agredir, estimulam a intolerância e promovem uma lógica egocêntrica de ocupação do espaço comum.
  16. Contando com fortes incentivos e subsídios públicos, colaboram para a perda da prática de caminhar, provocando a desertificação das ruas e consequente aumento da sensação de insegurança, o que naturalmente alimenta a indústria do medo, para a alegria de uns poucos.
  17. Pelos mesmos motivos, com as caminhadas cada vez mais raras, comprometem o acesso a pequenos comércios e serviços locais, provocando o desaparecimento desse tipo de atividade econômica e a migração dessa demanda para grandes empreendimentos comerciais, para a alegria de uns mais poucos ainda, aumentando a desigualdade econômica e social.

Acho que está bom, né? Esta lista está longe de ser exaustiva, pois isto aqui não é nenhum doutorado. E eu imagino que você esteja curioso para ver logo a lista de males dos automóveis com motor elétrico, afinal ela deve ser bem menor. Passemos a ela.

Como em uma versão textual do Jogo dos Sete Erros, observe atentamente e procure encontrar as diferenças, que talvez nem cheguem a sete…

males dos automóveis com motor elétrico

  1. Produzem gases tóxicos, material particulado e mau cheiro. [ELIMINADO]
  2. Fazem muito barulho. [ELIMINADO]
  3. Alimentam a demanda por lítio, componente essencial das baterias elétricas, o que certamente motivará guerras e intervencionismo na disputa pelas jazidas.
  4. Provocarão grandes catástrofes humanas e ambientais, decorrentes do descarte massivo de lítio e outros componentes das baterias elétricas.
  5. Têm alto poder de letalidade em atropelamentos e colisões.
  6. São usados para intimidar os outros na disputa por espaço nas vias.
  7. Favorecem o espalhamento das cidades, a gentrificação e o afastamento entre a maioria das pessoas e os serviços disponíveis, comprometendo de forma ampla o direito à cidade.
  8. Oferecem uma proteção visual ao motorista, facilitando ainda mais a adoção de comportamentos agressivos, incivilizados e antissociais.
  9. Isolam as pessoas umas das outras, afetando o convívio social, destruindo comunidades e contribuindo com a epidemia de distúrbios psiquiátricos.
  10. Geram demanda por vagas de estacionamento em locais públicos e privados, fazendo com que um espaço precioso seja retirado das pessoas e reservado para máquinas ficarem paradas.
  11. Produzem um padrão de convivência em que os outros tendem a ser vistos como obstáculos ou como rivais na disputa por um espaço altamente escasso.
  12. Modificam sensivelmente a paisagem urbana, que fica entulhada desses objetos de metal e vidro opaco quando poderia ser dominada por árvores, pessoas conversando, crianças brincando, obras arquitetônicas, arte urbana, paisagismo, montanhas, horizonte de vida.
  13. Ao proporcionar deslocamentos com pouco esforço e muitos privilégios, estimulam comportamentos infantis, típicos de crianças mimadas.
  14. Favorecem o sedentarismo, aumentam a preguiça, a obesidade e a incidência de doenças cardíacas e distúrbios do aparelho digestivo.
  15. Dispondo de equipamentos que podem ser usados para agredir, estimulam a intolerância e promovem uma lógica egocêntrica de ocupação do espaço comum.
  16. Contando com fortes incentivos e subsídios públicos, colaboram para a perda da prática de caminhar, provocando a desertificação das ruas e consequente aumento da sensação de insegurança, o que naturalmente alimenta a indústria do medo, para a alegria de uns poucos.
  17. Pelos mesmos motivos, com as caminhadas cada vez mais raras, comprometem o acesso a pequenos comércios e serviços locais, provocando o desaparecimento desse tipo de atividade econômica e a migração dessa demanda para grandes empreendimentos comerciais, para a alegria de uns mais poucos ainda, aumentando a desigualdade econômica e social.

Portanto, aí está. Seja bem-vindo à cidade do futuro!

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analfabetismo cartográfico

Utilizar um mapa é uma habilidade como qualquer outra: desenvolve-se com a prática. Requer o conhecimento de uma linguagem, alguma noção espacial e um pouco de imaginação.

Em nosso dia a dia, executamos diversas tarefas triviais, muitas vezes sem perceber que elas também requerem algum tipo de habilidade: montar um brinquedo infantil, escrever um recado, fazer um desenho simples, escolher uma roupa para vestir, preparar uma receita, conectar um aparelho à televisão, cantar junto com os outros. Cada uma dessas tarefas tem sua própria linguagem, usa conhecimentos que qualquer um consegue obter sem necessidade de um curso e, como quase tudo na vida, fica melhor se feita com imaginação.

Dispondo de um mapa e de algumas informações que o cenário geralmente fornece, a pessoa consegue se localizar nele, encontrar o local aonde quer ir e criar um trajeto para chegar ao destino.

O problema é que, como qualquer outra, a habilidade de lidar com mapas atrofia com o desuso.

Aplicativos e aparelhos de localização baseados em GPS são brinquedinhos bem divertidos, é verdade. Você coloca o seu destino, ele já sabe onde você está, então ele inventa um trajeto até lá e começa a emitir ordens.

Você apenas obedece. Que dádiva, não precisar pensar!

Nas poucas reclamações que já ouvi a respeito desses aplicativos, o motivo era a segurança. Ao indicar o trajeto, o aplicativo teria enviado a pessoa para um local “ameaçador”: uma favela, uma quebrada, um “bairro perigoso”, uma “rua em que não dava para passar e foi difícil fazer a volta e sair dali”.

Medos, cada um tem os seus. Se a pessoa quer considerar certos tipos de paisagens urbanas ou humanas como ameaçadoras, precisamos respeitar isso.

Porém, o que há de mais ameaçador nesses brinquedinhos é a dependência que ele gera.

Antes, a melhor forma de encontrar um lugar desconhecido na cidade era usar um guia de ruas. Esses guias são mapas paginados e encadernados, com um índice das ruas. A maioria traz também o sentido de direção das vias, linhas de ônibus, numeração dos endereços, e outras informações úteis.

Hoje temos tudo isso disponível em meios digitais. O mapa aparece na tela, pode ser movido, ampliado e reduzido com os dedos ou o mouse do computador. É possível trocar instantaneamente o mapa esquemático por uma foto de satélite, o que permite encontrar pontos de referência.

Esses recursos são incrivelmente úteis, tornam a pesquisa muito mais rápida e precisa, acrescentam informações que não existiam nos mapas de papel e têm os seus dados atualizados e corrigidos constantemente. Se forem utilizados de forma ativa e crítica, mapas digitais são ferramentas poderosas e libertadoras.

Acontece que uma parte significativa dos usuários prefere nem olhar para o mapa. Limita-se a informar o destino e executar os comandos da máquina, de maneira passiva.

Mal olham para o mapa, e assim essa linguagem vai ficando cada vez mais estranha. Muitos deles também não conseguem olhar a paisagem, focados que estão nos comandos da voz, e assim deixam de observar características do trajeto ou marcos de referência. Dessa forma, deixam de aprender o caminho, e provavelmente precisarão novamente da voz da máquina se tiverem que voltar lá no dia seguinte.

Aí está o mecanismo de criação e perpetuação da dependência.

O que chamo de analfabetismo cartográfico é a incapacidade de compreender e usar um mapa. Um dos indícios desse analfabetismo é quando a pessoa desenvolve um comportamento de resistência. Ao se deparar com um mapa, ela tem uma reação de aversão, dizendo algo como “nem me mostre isso que eu não entendo nada”.

Pela forma como esses recursos digitais são usados hoje, estamos a caminho de um analfabetismo cartográfico generalizado.

Conhecemos bem algumas das outras formas de analfabetismo. Pessoas incapazes de interpretar um texto têm dificuldade em compreender notícias relevantes, informações sobre um produto ou uma comunicação ou pedido por correio eletrônico. Quem não sabe fazer contas simples não será capaz de conferir um holerite, uma conta do restaurante ou de saber se a cerveja em latas de 473ml sai mesmo mais barata do que as latas de 350ml.

Qualquer forma de analfabetismo faz com que as pessoas sejam mais dependentes e, portanto, sejam consumidores mais deslumbrados e passivos.

Mas, com um brinquedinho tão divertido, parece ter pouca gente preocupada com isso.

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faixa exclusiva

Alguém teve a estúpida ideia de criar uma faixa exclusiva para aquelas pessoas que caminham sem olhar para frente, preocupadas apenas com o brinquedinho que levam em mãos. Isso aconteceu em uma grande cidade belga, na área de pedestres da região central.

Seja de admiração, seja de desespero, a notícia faz rir, dizendo que a faixa para quem escreve no celular enquanto anda foi criada para que as pessoas não se trombem nas ruas da cidade.

É mais uma infame invenção da cultura de consumo e individualismo dos nossos tempos. A faixa exclusiva concede aos usuários compulsivos de celulares o privilégio de poder andar sem ter que tomar cuidado com quem está no caminho. Oficializa o seu direito de usar o espaço público sem precisar se preocupar com os outros.

Pessoas que estão pouco se fodendo para os outros existem em toda parte. Essa faixa exclusiva chega apenas para premiar tão nobre atitude. Oferece uma recompensa a esses bons consumidores. Um agrado para aqueles que vivem sozinhos em seu mundinho onde quer que estejam.

Nossa cultura premia comportamentos patológicos.

No caso desta faixa exclusiva, trata-se de ação publicitária de uma empresa do comércio de telefones celulares da cidade.

Portanto, a inovação-piada veio de um publicitário. Em nossa sociedade, os publicitários são uma categoria profissional que goza do direito de fazer piadinha com coisa séria. (Não é à toa que, alguns anos depois da explosão dos cursos de publicidade, existe uma proliferação jamais vista de engraçadinhos, resultando nesta onda de comédia de mau gosto que vemos hoje em espetáculos teatrais, stand-up comedy e programas televisivos.)

O problema é que, mesmo sendo apenas uma piadinha com o espaço público, a ação está dando a ideia.

Você já conviveu com crianças? Se conviveu deve saber que, algumas coisas, a gente não pode falar na frente das crianças, não se deve nem dar a ideia. As crianças não entendem que foi só de brincadeira que falaram uma coisa ou fizeram um gesto e que, na verdade, aquilo não é legal. Se alguém dá a ideia, depois todos têm que agüentar a criançada querendo brincar daquilo sem parar, sem negociação.

Mesmo tendo sido pensada como uma ação temporária, ela pode ter efeitos irreversíveis. Acabam de dar a ideia para uma multidão de consumidores infantilizados, no mundo inteiro.

Já é espantoso saber que uma prefeitura tenha permitido uma brincadeira de tamanho mau gosto no espaço público.

Fiquemos de olho na repercussão disso. Vamos ver quem serão os outros lugares do mundo a permitir esse atentado contra as condições de convivência no espaço público, entre tantos outro que se fazem hoje.

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tempos difíceis

Um depoimento provável.

Hoje eu não vivo sem meu GPS. Para qualquer lugar que eu vá, ele me diz o caminho a fazer.

E fico lembrando daqueles tempos difíceis em que não existia GPS.

A gente perdia um tempão pensando no melhor caminho até o destino. Tinha que aprender nomes de ruas, olhar placas e referências, tinha que conhecer bairros desconhecidos.

Tinha que pegar o guia da cidade e abrir aqueles mapas todos, mapas de papel, que coisa mais tosca, mapas de papel!

Tinha que aprender a se localizar, tinha que entender aquelas ruas e travessas, tinha que imaginar as distâncias… Nossa, como eu conseguia?

A gente tinha que desenvolver a tal da inteligência espacial… Sim, já me disseram que é assim que chama. Que nome esquisito e complicado esse, inteligência espacial, só de pensar nele já me dá preguiça…

Mas o pior de tudo era ter que olhar para fora do carro.

Eu criava um roteirinho e tinha que segui-lo. Tinha que olhar pela janela, enxergar nomes de ruas, placas, árvores, casas, pessoas… Tinha que ver aquilo tudo que está lá fora, na rua, tudo tão precário e sujo.

A cidade, esses espaços públicos, feios e mal cuidados, a gente tinha que olhar pra isso tudo!

Hoje, não. Hoje eu tenho meu GPS, não preciso mais olhar para fora do meu carro.

Fico só pensando no tempo que eu gastava encontrando meu caminho.

Quanto tempo perdido, que eu hoje posso aproveitar jogando Candy Crush.

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futuro mágico

Um curioso documentário, chamado Soluções para o Trânsito, pode ser encontrado na internet e provavelmente já foi ao ar pelo canal pago Discovery Channel.

Trata-se de uma produção desse canal em parceria com a CCR, grupo privado que detém a exploração comercial de boa parte das rodovias que dão acesso à capital paulista, de algumas rodovias em outros estados, do rodoanel metropolitano, da linha privada do metrô de São Paulo e até mesmo da inspeção ambiental dos veículos na capital paulista. Ou seja, uma corporação formada para lucrar, de um lado, com uma infraestrutura radicalmente baseada no transporte individual e, de outro, com a gestão de suas mazelas.

Logo no início do filme aparece o selo da Lei de Incentivo à Cultura. Isso significa que foi utilizado dinheiro público para que a CCR possa apresentar ideias de seu interesse sobre o tema. Não é a primeira vez, e nem será a última, que um grupo privado assume explicita e descaradamente o papel de influenciador dos projetos urbanísticos e de mobilidade em São Paulo.

Ficamos então curiosos em saber quais são as “soluções”, no entender da CCR, para a cultura rodoviarista da qual ela tanto se beneficia.

O filme mostra experiências e projetos interessantes relacionados à mobilidade urbana, como o sistema BRT (bus rapid transit) de Curitiba, a rede de ônibus e ciclovias de Bogotá e até mesmo o projeto de hidroanel para a capital paulista proposto pelo arquiteto Alexandre Delijaikov, naturalmente sem resistir em chamá-lo de utópico.

Mas entre as experiências apresentadas, há duas especialmente alinhadas com a ideologia rodoviarista que domina o Brasil, onde as vendas de automóveis jamais podem ser ameaçadas.

Essas duas experiências são o pedágio urbano e o automóvel conduzido por computadores.

O filme mostra o sistema de cobrança na área central de Londres (naturalmente sem mencionar que seu pretenso impacto positivo é bastante controverso e difícil de se demonstrar) e apresenta depoimentos de gestores e especialistas favoráveis ao pedágio urbano. Um deles traz o argumento de que a arrecadação será usada para aumentar a velocidade de crescimento da rede de metrô que, segundo o filme, é hoje de 1,5km por ano e poderá ser multiplicada por dez. Tanto pelo cinismo do argumento quanto pela forma como é colocado, chega a parecer proposta de campanha eleitoral.

É evidente que a infame rede paulistana de metrô cresce tão devagar por opção política, porque preferem que seja dessa forma, e não por falta de dinheiro, como sugerem os noticiários sobre o assunto.

Do ponto de vista do interesse público, o pedágio urbano é ineficaz e sobretudo injusto, por <vários motivos>. Mas uma discussão séria, técnica e pautada por princípios não interessa à CCR, da qual só podemos esperar que defenda qualquer projeto que lhe aumente as receitas.

Outra das “soluções” apresentadas pelo filme é o automóvel conduzido por computadores. Utilizando imagens de computação gráfica, o filme mostra um ambiente totalmente organizado, com automóveis que andam tranquilamente em filas, cada um seguindo seu destino, conforme programado pelo proprietário.

Uma cena marcada sobretudo pela ordem, fazendo oposição ao caos que, segundo o clichê, caracteriza o trânsito de São Paulo. Coisa de ficção científica, que as pessoas adoram. Solução mágica, ideal para quem quer resolver problemas sem ter que se preocupar com os efeitos gerados.

Pensado a partir do interesse dos defensores do rodoviarismo, o projeto do automóvel conduzido por computadores é genial como “solução” para o trânsito, pois reforça algumas de suas ideias fundamentais.

  1. O problema são as pessoas, e as máquinas estão aí para nos salvar.
  2. Os automóveis são mesmo essenciais, e em nenhum momento deve-se cogitar substituí-los por outro meio de transporte.
  3. A solução do problema virá pela implantação de novas tecnologias, tornando desnecessário abrir mão de confortos e mudar comportamentos.
  4. O que cabe à administração pública não é rever as políticas de mobilidade, tendo que recorrer às impopulares medidas restritivas ao uso do automóvel, mas investir na pesquisa de soluções mágicas, ou melhor, encontrar parceiros privados que o façam (e a CCR está aí para isso).
  5. Em algum momento, toda a frota precisará ser substituída por veículos controlados por computadores, o que faz brilhar os olhos da indústria automobilística.
  6. Durante o processo de substituição da frota, as vias ou faixas já adaptadas ao controle eletrônico provavelmente serão de uso exclusivo daqueles que já substituíram seu automóvel por um controlado por computador.

Num passe de mágica, o automóvel conduzido por computadores agrada a todos ao mesmo tempo: motoristas deslumbrados, fabricantes de automóveis, empresas de tecnologia, gestores públicos, concessionários privados.

Nestes tempos de deslumbramento pela tecnologia, máquinas computadorizadas sempre vão encantar uma audiência infantilizada pela cultura de consumo, louca por brinquedos inovadores. Mais ainda se a proposta for trazida pelo Discovery Channel, apresentada como algo que a qualquer momento pode sair da ficção científica e passar a fazer parte da vida.

Ao mostrar os projetos de mobilidade de caráter verdadeiramente público, como os de Curitiba e de Bogotá, o filme está apenas sendo redundante. Afinal, mesmo por aqui, qualquer um defende investimentos em transporte coletivo, ainda que seja para que os outros utilizem.

Tudo no filme da CCR está perfeitamente de acordo com a ideologia rodoviarista paulistana. O acesso às “soluções” se dá através do dinheiro, gerando formas de exclusividade, ou seja, excluindo as pessoas do espaço público. As “soluções” virão de cima, do mundo mágico da tecnologia, sem exigir mudanças de hábito ou reorganização dos projetos de vida.

É nesse futuro mágico que se encontram as “soluções” da CCR para o trânsito de São Paulo.

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tecnologia

Antigamente, quem andava pela rua falando sozinho era chamado de louco.

Aí surgiram uns aparelhinhos esquisitos, bastava você segurar um desses ao lado da cabeça e poderia falar sozinho à vontade.

No ônibus ou na sala de espera, de repente uma voz solitária quebra o silêncio. Nossa, que estranho, deve ser um louco falando sozinho. Você olha e a pessoa está falando sozinha mesmo. Mas se estiver segurando o tal aparelhinho, qualquer um achará normal.

Então a tecnologia avançou ainda mais. As pessoas agora usam um fiozinho preto ou branco que desce pelo lado do rosto. Com um desses, você pode falar sozinho à vontade enquanto anda pela rua, pode até gesticular com as duas mãos que ninguém vai te achar louco.

A tecnologia é mesmo o máximo. E tem feito coisas incríveis pela saúde mental das pessoas.

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