analfabetismo cartográfico

Utilizar um mapa é uma habilidade como qualquer outra: desenvolve-se com a prática. Requer o conhecimento de uma linguagem, alguma noção espacial e um pouco de imaginação.

Em nosso dia a dia, executamos diversas tarefas triviais, muitas vezes sem perceber que elas também requerem algum tipo de habilidade: montar um brinquedo infantil, escrever um recado, fazer um desenho simples, escolher uma roupa para vestir, preparar uma receita, conectar um aparelho à televisão, cantar junto com os outros. Cada uma dessas tarefas tem sua própria linguagem, usa conhecimentos que qualquer um consegue obter sem necessidade de um curso e, como quase tudo na vida, fica melhor se feita com imaginação.

Dispondo de um mapa e de algumas informações que o cenário geralmente fornece, a pessoa consegue se localizar nele, encontrar o local aonde quer ir e criar um trajeto para chegar ao destino.

O problema é que, como qualquer outra, a habilidade de lidar com mapas atrofia com o desuso.

Aplicativos e aparelhos de localização baseados em GPS são brinquedinhos bem divertidos, é verdade. Você coloca o seu destino, ele já sabe onde você está, então ele inventa um trajeto até lá e começa a emitir ordens.

Você apenas obedece. Que dádiva, não precisar pensar!

Nas poucas reclamações que já ouvi a respeito desses aplicativos, o motivo era a segurança. Ao indicar o trajeto, o aplicativo teria enviado a pessoa para um local “ameaçador”: uma favela, uma quebrada, um “bairro perigoso”, uma “rua em que não dava para passar e foi difícil fazer a volta e sair dali”.

Medos, cada um tem os seus. Se a pessoa quer considerar certos tipos de paisagens urbanas ou humanas como ameaçadoras, precisamos respeitar isso.

Porém, o que há de mais ameaçador nesses brinquedinhos é a dependência que ele gera.

Antes, a melhor forma de encontrar um lugar desconhecido na cidade era usar um guia de ruas. Esses guias são mapas paginados e encadernados, com um índice das ruas. A maioria traz também o sentido de direção das vias, linhas de ônibus, numeração dos endereços, e outras informações úteis.

Hoje temos tudo isso disponível em meios digitais. O mapa aparece na tela, pode ser movido, ampliado e reduzido com os dedos ou o mouse do computador. É possível trocar instantaneamente o mapa esquemático por uma foto de satélite, o que permite encontrar pontos de referência.

Esses recursos são incrivelmente úteis, tornam a pesquisa muito mais rápida e precisa, acrescentam informações que não existiam nos mapas de papel e têm os seus dados atualizados e corrigidos constantemente. Se forem utilizados de forma ativa e crítica, mapas digitais são ferramentas poderosas e libertadoras.

Acontece que uma parte significativa dos usuários prefere nem olhar para o mapa. Limita-se a informar o destino e executar os comandos da máquina, de maneira passiva.

Mal olham para o mapa, e assim essa linguagem vai ficando cada vez mais estranha. Muitos deles também não conseguem olhar a paisagem, focados que estão nos comandos da voz, e assim deixam de observar características do trajeto ou marcos de referência. Dessa forma, deixam de aprender o caminho, e provavelmente precisarão novamente da voz da máquina se tiverem que voltar lá no dia seguinte.

Aí está o mecanismo de criação e perpetuação da dependência.

O que chamo de analfabetismo cartográfico é a incapacidade de compreender e usar um mapa. Um dos indícios desse analfabetismo é quando a pessoa desenvolve um comportamento de resistência. Ao se deparar com um mapa, ela tem uma reação de aversão, dizendo algo como “nem me mostre isso que eu não entendo nada”.

Pela forma como esses recursos digitais são usados hoje, estamos a caminho de um analfabetismo cartográfico generalizado.

Conhecemos bem algumas das outras formas de analfabetismo. Pessoas incapazes de interpretar um texto têm dificuldade em compreender notícias relevantes, informações sobre um produto ou uma comunicação ou pedido por correio eletrônico. Quem não sabe fazer contas simples não será capaz de conferir um holerite, uma conta do restaurante ou de saber se a cerveja em latas de 473ml sai mesmo mais barata do que as latas de 350ml.

Qualquer forma de analfabetismo faz com que as pessoas sejam mais dependentes e, portanto, sejam consumidores mais deslumbrados e passivos.

Mas, com um brinquedinho tão divertido, parece ter pouca gente preocupada com isso.

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Arquivado em cultura urbana

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