guerra contra o lazer

Tempos de pandemia, tudo está fechado na cidade, exceto aquilo que é considerado essencial, como farmácias e mercados. Então, na véspera do dia dos namorados, a prefeitura autoriza a reabertura de shoppings. Parques públicos, nem pensar em reabri-los. Eles continuariam fechados ainda por bastante tempo depois disso. O recado é claro: você pode sair de sua casa e frequentar aglomerações em lugares fechados se for para consumir, mas fazer um passeio ao ar livre para cuidar de sua saúde física e mental, isso não pode.

Agora resolvem antecipar feriados municipais deste ano e do ano que vem criando, para os setores que aderirem, um feriadão de dez dias. Algumas dessas pessoas podem querer viajar, todos sabem como tem sido difícil esse período de confinamento que acaba de completar um ano. Viajar não significa necessariamente estar em praias cheias, bares disputados ou outras formas de aglomeração. Espairecer, respirar outros ares, ver pessoas queridas, descansar, essas atividades também são importantes e trazem benefícios para a saúde.

Mas isso não pode.

Quando chega o feriadão, diversas cidades do interior e do litoral anunciam barreiras sanitárias com o objetivo de intimidar as pessoas e desestimular viagens. Ninguém será impedido de passar pelas barreiras, mas quem encontrar uma dessas em seu caminho ficará sujeito a diversas formas de constrangimento: esperas que podem ser longas, uma quantidade imprevisível de perguntas e outros possíveis aborrecimentos.

As milhares de pessoas pegando ônibus e trens cheios para ir ao trabalho todos os dias não parecem preocupar essas autoridades. Mesmo com uma catástrofe em curso, esses gestores resistem às recomendações de especialistas da área da saúde para que seja decretado o lockdown, que poderia em poucas semanas diminuir sensivelmente o ritmo do contágio. Para eles, mais importante que tomar atitudes radicais para conter a pandemia é atender as demandas dos empresários, que querem seus empregados produzindo a qualquer custo. De vez em quando, anunciam alguma medida de efeito midiático para tentar causar na opinião pública a impressão de que estão fazendo alguma coisa.

A decretação desse longo feriado seguida da criação de barreiras sanitárias, mais uma vez mostra como a gestão pública é incapaz de levar em conta a importância do lazer para a saúde das pessoas. Todos conhecem os cuidados a serem adotados quando estão em lugares públicos. É o que as pessoas fazem quando precisam ir trabalhar. Se for para o lazer, porém, tomar os devidos cuidados não basta. A única opção é privar-se disso por tempo indeterminado. Muitos médicos têm alertado para a importância de fortalecer a imunidade neste período, e está demonstrado que o convívio social é benéfico para o sistema imunológico. Impedir que as pessoas mantenham práticas benéficas para a saúde num momento como este é um ato irresponsável. O lazer não pode ser tratado como ameaça coletiva.

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