olho no olho

Escolhemos viver entre as máquinas, precisamos aprender a conviver com elas.

Elas têm sua própria linguagem, comunicam-se através de gestos e sons. São bastante enfáticas ao realizar demonstrações de força e atos de intimidação. As máquinas criam suas próprias formas de interação e isso estabelece as leis das ruas. Ao optar por dirigir, o motorista está aceitando viver segundo essas leis.

Mas pedestres e ciclistas não somos máquinas. Ainda que estejamos sempre vulneráveis à superioridade física das máquinas, sem uma armadura de aço para nos proteger, nem por isso devemos colaborar para reafirmar as leis das ruas.

Com frequência teremos que disputar espaço com as máquinas, mas faremos isso sem perder a ternura.

Ao caminhar pela cidade, o pedestre terá que cruzar o caminho das máquinas a cada esquina. Faixas de pedestre podem ou não existir nesses pontos de travessia, mas isso não fará muita diferença.

Ao pedalar pela cidade, o ciclista terá que se impor sobre as máquinas sempre que, estando na via preferencial, aproximar-se de um cruzamento. Pode até haver placas sinalizando essa preferência, mas isso também não garante nada, e é possível que a máquina, sendo mais forte, tente entrar na frente.

Nos dois casos, somente um recurso poderá prevalecer sobre a força bruta da máquina: olho no olho.

Pedestre ou ciclista, se você estiver em posição que lhe dê prioridade, faça o que tem que fazer. Ocupe o seu espaço. Mas faça isso olhando nos olhos do motorista que tentar disputar com você.

A mensagem emitida pelo seu olhar será bem clara.

“Sim, eu estou passando aqui. Tenho prioridade neste local e o senhor vai sim esperar.”

É incrível como essa mensagem chega com eficácia lá do outro lado, o motorista entende perfeitamente e age de acordo.

Evidentemente você vai fazer isso com algum grau de segurança para recuar ou desviar caso o motorista permaneça na sua arrogância. As ruas estão cheias de psicopatas e, protegido por uma armadura de aço, o motorista não tem quase nada a perder. Você tem.

Em alguns casos será difícil encontrar o motorista lá dentro por causa dos vidros pretos. O olhar de uma pessoa é de fato algo muito poderoso e ameaçador, e assim cada vez mais motoristas escolhem se proteger atrás de um capuz.

Você não precisa ver o motorista para olhar em seus olhos. Você sabe mais ou menos em que posição do pára-brisa ele se encontra, simplesmente olhe naquela direção. Ele não tem como saber que você não está enxergando. Seu olhar e sua mensagem chegarão do mesmo jeito, e ele vai esperar.

Junto com o olhar, deve vir um gesto e uma postura corporal de quem está seguro no que está fazendo e tem conhecimento dos seus direitos. Seja assertivo. A assertividade é uma atitude que transmite clareza e segurança, sem agredir. Ambiguidade e hesitação podem comprometer a sua mensagem, e você não vai atingir seu objetivo, que é ocupar o seu espaço com segurança.

As máquinas são muito mais fortes do que você, não espere dela qualquer compaixão. É bem possível que exista lá dentro um outro ser humano, capaz de agir com responsabilidade e de respeitar os acordos de convivência. Mas, caso não exista, o olho no olho é o melhor recurso para tentar atingir algum resquício de humanidade que haja lá dentro.

1 comentário

Arquivado em bicicleta

Uma resposta para “olho no olho

  1. curti. Está bonito, poético, verdadeiro.

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