capuz

Ao fazer o seu trabalho, o carrasco usa um capuz. Isso lhe garante o anonimato. Ele oculta a face para garantir que em nenhum momento vai se sentir constrangido por fazer o que está fazendo.

Quando se pratica um gesto moralmente condenável, é melhor não oferecer o próprio rosto ao conhecimento dos demais, especialmente daqueles que sofrem as consequências de tal gesto.

Em outras palavras: é mais fácil ofender ou prejudicar os outros tendo a identidade escondida.

Tal lógica parece explicar, ao menos parcialmente, a proliferação de vidros escuros nos automóveis que circulam pela cidade.

Antigamente, vidros escuros eram utilizados apenas nos carros de chefes de estado ou de gente muito, mas muito rica e importante. Hoje é praticamente a regra. Muitos carros saem da loja com o filme escuro já aplicado nos vidros.

A resolução 254/2007 do CONTRAN, que regulamenta a matéria, é praticamente ignorada. O texto estabelece que a transmissão luminosa não pode ser inferior a 70% no para-brisa e nos vidros laterais dianteiros do veículo.

Entretanto, bastam alguns minutos de observação dos carros que circulam pela cidade para constatar que películas mais escuras que o permitido são comercializadas e usadas livremente. Tudo indica que, no julgamento dos motoristas, os benefícios percebidos das películas escuras superam de longe os custos das improváveis sanções pelos vidros fora da regulamentação.

Ter um carro com vidros escuros – ou muito escuros – permite não apenas que o motorista, escondido dos agentes de trânsito, fale ao telefone ou fique fuçando em seus brinquedinhos digitais enquanto dirige. Permite que ele seja muito mais agressivo na forma de dirigir, podendo cometer gestos escabrosos sem nenhum receio de possíveis olhares de reprovação.

Observe e verá. Alguns carros têm os vidros muito escuros. Esses motoristas são justamente aqueles que, com mais tranquilidade, furam filas no trânsito, ignoram faixas de pedestres, tiram finas de ciclistas, entram e saem de garagens jogando o carro em cima dos obstáculos humanos que estiverem na calçada.

Ao ser vítima de uma manobra agressiva como essas, você procura o motorista para, no mínimo, lançar-lhe um olhar zangado. E você não encontra o agressor. Olha para o vidro do carro e, por mais que faça uma ideia de onde está o rosto dele, você não consegue ver nem a mais sutil silhueta.

Se ele está rindo da sua cara ou apenas olhando para frente como se você não estivesse ali, você jamais saberá. E isso também não faz a menor diferença. Ele completará a manobra, seguirá tranquilamente e continuará agindo dessa maneira, pois está protegido física e moralmente.

Nesse momento fica bem fácil entender por que o carrasco usa o capuz.

E em meio ao nosso estranho processo civilizatório, o número de motoristas que escolhem andar encapuzados continua aumentando.

3 Comentários

Arquivado em cultura urbana

3 Respostas para “capuz

  1. Pingback: crimes no acostamento | vento na cara

  2. Pingback: olho no olho | vento na cara

  3. Pingback: carros elétricos e a cidade do futuro | vento na cara

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s