Arquivo do mês: março 2019

espaço compartilhado

Segregar os diferentes modais de transporte não necessariamente é a melhor forma de aumentar a segurança viária nas cidades. Shared space, ou espaço compartilhado, é um conceito de planejamento urbano e viário no qual as vias públicas, especialmente em áreas centrais de baixa velocidade, são organizadas com o mínimo possível de barreiras, separações e sinalizações.

Pedestres, ciclistas e motoristas são colocados todos juntos para compartilharem o espaço comum e encontrarem, entre eles, formas de negociar o direito de passagem.

Independente da aplicabilidade em cada situação específica, o conceito é interessante por diversos motivos, e talvez o principal deles seja o fato de tratar os cidadãos como adultos.

A ideia central dos espaços compartilhados é que quanto menos elementos houver dando certezas e proteções, maior será a atenção de cada um aos outros. Soa estranho de tão simples e óbvio, não?

Pense num semáforo. Para que ele existe? Para decidir pelas pessoas de quem é a vez.

Sabe aquelas duas crianças que brigam o tempo todo e não conseguem brincar sozinhas por não saber compartilhar o mesmo brinquedo? Para que elas não acabem se machucando, muitas vezes um adulto intervém estabelecendo uma regra. Primeiro uma brinca, depois a outra brinca. Enquanto não conseguirem conviver sozinhas, terão que ser tratadas que nem criancinhas.

A mensagem de um semáforo verde é: “Pode passar sem ter que olhar se vem alguém na transversal. Eu garanto que farei o outro parar para que você não precise negociar. Em algum momento será a sua vez de parar, mas você abre mão de parte da sua liberdade em troca de não ter que se preocupar com os outros.”

Nem pedestres nem ciclistas precisam de semáforos para conseguir conviver nas intersecções. Automóveis precisam.

Isso naturalmente tem uma finalidade no planejamento viário. Ao não ter que olhar ou negociar a passagem, o motorista fica dispensado de reduzir a velocidade, e isso aumenta a velocidade média da via. Portanto o semáforo existe para aumentar a velocidade operacional dos modais motorizados, melhorando sua atratividade em comparação com os outros modais. É uma escolha política.

Em muitos países usam-se rotatórias onde nossos planejadores colocam semáforos, inclusive em intersecções de vias de grande fluxo. É uma opção pela autogestão, deixar que os motoristas negociem direitos de passagem. Assim como acontece nos espaços compartilhados.

Naturalmente há controvérsias. A possibilidade de uso do espaço por deficientes visuais parece ser o único argumento consistente contra os espaços compartilhados. Mesmo assim, talvez seja o caso de se buscarem soluções específicas, manter a discussão viva, não de encerrá-la bruscamente por causa disso.

Mais importante que a resolução final que se dá em cada caso concreto é a reflexão que a ideia propicia sobre comportamento no espaço comum. Se é possível conceber uma situação onde os cidadãos são suficientemente adultos e responsáveis para negociar seu direito de passagem de maneira autônoma, conseguimos também enxergar as situações que parecem diametralmente opostas a isso. Como por exemplo a ideia de dispensar ciclistas dominicais de observar semáforos e olhar ao redor, que fica ainda mais absurda num equipamento público com função educativa.

O conceito de espaço compartilhado foi criado pelo engenheiro viário holandês Hans Monderman e é adotado de diferentes formas em cidades do mundo. Há aquelas em que não deu certo e também há Drachten, uma cidade holandesa de 45mil habitantes, comparável em população a Louveira (SP), Tremembé (SP), São Lourenço (MG), Caeté (MG), Mamanguape  (PB) e Seabra (BA). Graças a um esquema de espaço compartilhado, número médio de acidentes por ano em um determinado cruzamento dessa cidade caiu de 9 para 1. A velocidade do tráfego nas vias agora é constante e o congestionamento reduziu.

O mais interessante é que, passada a fase de adaptação, atingiu-se um estado de equilíbrio, e hoje os veículos motorizados e as bicicletas trafegam na mesma velocidade. Preciosa demonstração de como a vantagem comparativa de velocidade dos automóveis em relação às bicicletas é mantida artificialmente nos ambientes urbanos.

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