Arquivo do mês: julho 2019

superpoderes

Para que o espaço comum possa ser compartilhado, é preciso que as pessoas ajam com bom senso e respeito ao direito de todos que ali convivem. Como o bom senso nem sempre está presente, existem as regras de convivência. Fica então combinado que as pessoas seguirão aquelas regras sempre que estiverem ocupando o espaço comum. As regras de trânsito servem exatamente para isso.

Desnecessário argumentar sobre como certos comportamentos são inadequados: parar em fila dupla, andar na contra-mão, estacionar na ciclofaixa, interromper o tráfego de uma avenida para fazer conversão ou retorno onde isso não é permitido.

Muitos motoristas, porém, dispõem de um recurso especial para quando precisam fazer esse tipo de coisa: o pisca-alerta. Basta acionar um botão no painel do carro, e eles podem violar o bom senso e as regras de convivência, na certeza de contar com a compreensão dos outros motoristas e até dos agentes de trânsito.

O pisca-alerta lhes dá superpoderes.

Funciona magicamente, pelo menos em seu mundinho autocentrado. Uma simples luzinha que pisca nos quatro cantos do carro lhes traz a liberdade de serem felizes, imunes a essas regras tão chatas e aos direitos dos outros, que afinal só estão aí para atrapalhar sua vida. E se o resultado for uma autuação, é porque o guarda é incompreensível, e claro que trabalha para a indústria da multa.

É interessante observar o sentido desse uso do pisca-alerta. O simples gesto de acionar o pisca-alerta já indica que o motorista percebe aquela atitude como não natural, e daí a necessidade de dizer alguma coisa sobre ela. Colocada em uma frase, a mensagem seria algo como “eu sei que é errado fazer isso que estou fazendo”. Se não fosse assim, não haveria por que sinalizar. Mesmo sabendo que está errado, o motorista de fato faz a manobra. No senso comum, o pisca-alerta está associado a situações em que algo excepcional está acontecendo. Neste contexto de uso, a informação poderia ser sintetizada verbalmente como “eu preciso muito fazer isto”.

Encadeadas, essas duas mensagens resultariam na frase “Eu sei que é errado fazer o que estou fazendo, MAS eu preciso muito fazer isto”. Em duas afirmações ligadas pela conjunção ‘mas’, prevalece a mensagem da segunda. Na atitude do motorista também. De um lado, o conhecimento de que aquilo é errado. Mas ele precisa muito, e portanto faz. Está aí a fórmula básica da convivência social à brasileira.

Na lei escrita, o Artigo nº 40 do Código de Trânsito Brasileiro define que o pisca-alerta deve ser usado “em imobilizações ou situações de emergência”, o que quer que seja isso. Com essa referência a situações de emergência, o texto da lei dá um significado ao uso do pisca-alerta: “estou em situação de emergência”. Imaginamos que o legislador que escreveu isso, assim como a interpretação da lei com base no bom senso, entendam ‘situação de emergência’ como aquela em que alguém está desmaiando, parindo uma criança, tendo um ataque cardíaco. Para o motorista, no entanto, a emergência neste caso diz respeito ao fato de estar atrasado para o trabalho, de o banco já estar fechando, de não haver vagas de estacionamento ali perto e ele não ter tempo para parar a dois quarteirões dali e depois caminhar até seu compromisso.

De qualquer forma, sabemos que ninguém age a partir da leitura das leis, simplesmente porque ninguém lê leis, nem mesmo num contexto como o processo de obtenção da habilitação para dirigir. O aprendizado dos comportamentos vem muito mais da observação daquilo que é de fato praticado pelos outros. Por aqui, é assim que se faz. Mas é claro que há uma escolha. Mesmo sendo assim que se faz por aqui, cabe ao motorista decidir se sua necessidade justifica uma ação que ele sabe que é errada.

O uso do pisca-alerta como um superpoder para cometer infrações é um bom exemplo das nossas pequenas corrupções do cotidiano e se constitui numa situação bem didática para entender o mecanismo pelo qual o interesse privado e imediato acaba triunfando sobre interesse coletivo, seja ele na forma de bom senso ou de lei escrita. Um número imenso de pequenas decisões desse tipo, sendo tomadas o tempo todo por várias pessoas, é um elemento estruturante da realidade na qual vivemos.

É interessante perceber como essas pequenas corrupções não ocorrem apenas quando ninguém está vendo. Acontecem também em situações abertas, totalmente diante dos olhos do público. A pessoa tem consciência de que pode contar com a compreensão dos outros, que provavelmente fariam (ou de fato fazem) o mesmo. Talvez seja justamente daí que emana o superpoder.

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