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azar ou sorte

Clichês fazem o mundo girar. Se isso infelizmente se aplica à comunicação como um todo, é assim mais ainda no jornalismo esportivo.

No ciclismo de estrada, é comum que atletas de destaque ganhem apelidos: Eddy Merckx, O Canibal; Alberto Contador, El Pistolero; Bernard Hinault, O Texugo.

Ativo nos anos 1960 e 1970, o francês Raymond Poulidor sempre foi muito querido em seu país. Mesmo sendo derrotado por seu rival conterrâneo Jacques Anquetil, continuava muito superior a ele em popularidade.

Foto: Mário Aleixo / RTP

O povo francês lhe chamava de Poupou (pronuncia-se “Pupu”), mas o fato de raramente vencer uma corrida rendeu-lhe, por obra dos comentaristas, um outro apelido: O Eterno Segundo.

Numa entrevista relativamente recente que é citada neste boletim do Tour, Poulidor disse o seguinte:

“Estive oito vezes sobre o pódio, nunca vesti a camisa amarela.
As pessoas me dizem que eu tive azar, mas isso não é verdade.
Eu tive muita sorte.”

Vejamos. Poulidor venceu uma Volta da Espanha, um Campeonato Francês, duas Paris-Nice, uma Milan-San Remo, uma Flèche Wallonne e outras tantas corridas importantes. Com 40 anos ainda corria a Paris-Roubaix, uma corrida particularmente dura para os atletas.

De fato nunca venceu um Tour de France, mas foi o primeiro em diversas etapas e esteve oito vezes entre os três melhores na classificação geral.

E talvez o mais impressionante: das 14 vezes (repito, catorze vezes) que correu o Tour, abandonou apenas duas, ou seja, completou doze vezes seus mais de 3.500 quilômetros. Ficou em terceiro lugar na classificação geral do Tour em sua última participação, em 1976, com 40 anos.

Azar?

O que faz a falta de assunto.

Eu penso que ele teve muita sorte.

Raymond Poulidor faleceu em novembro do ano passado, aos 83 anos.

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