Arquivo do mês: outubro 2009

estranha pressa

Abre o semáforo. As motos disparam como um enxame de mariposas em direção ao próximo sinal fechado, e lá ficam grudadas, atraídas pela luz vermelha. A imagem é de Joca Reiners Terron (Hotel Hell), e é perfeita não só para as motos, mas também automóveis, ônibus e outros veículos motorizados.

O sinal logo adiante está vermelho, o motorista do carro ou ônibus sabe disso, e mesmo assim acelera, muda marcha, ultrapassa o carro lento à frente, buzina para o ciclista, numa estranha pressa de chegar logo ali na frente. E parar.

É o domínio absoluto do cérebro reptiliano sobre a mente racional.

Nem o desperdício de combustível e freios, nem a consciência da estupidez do gesto ou do desconforto desnecessário imposto aos passageiros (sobretudo no caso dos ônibus); nada disso conta. Não há tempo para rever comportamentos. Quem conduz devagar nesse momento, porque já percebeu que em ponto morto chegará no mesmo lugar ao mesmo tempo, esse será xingado, no mínimo em pensamento. Alguns motoristas ansiosos farão a ultrapassagem olhando feio e concluindo que é por causa desse tipo de gente lerda que o trânsito não anda.

Até isso eles poderiam aprender pedalando pelas ruas da cidade. Se vou ter que brecar logo ali, por que gastar tanta energia acelerando? O gasto de energia física, sentido no corpo, ensina o que um raciocínio simples, se houvesse, já poderia ter mostrado. E a aprendizagem não pararia por aí.

Pois não se trata somente de desperdício de combustível e freios. Há uma série de movimentos totalmente desnecessários (pisar na embreagem, mudar a marcha, pisar no freio e segurar o corpo do efeito da freada) que só se justificam como formas de enfrentar o tédio que é viver no trânsito.

E o mais importante. Há uma grande quantidade de energia não física colocada nesses movimentos todos: a atenção nos gestos rápidos e nas decisões apressadas, o falso relaxamento quando o carro pára, a expectativa do outro amarelo que anuncia a abertura e do melhor momento para engatar a primeira, a falsa sensação de que está abreviando a viagem ao se comportar dessa forma.

Tudo isso atende por um nome: ansiedade. Ansiedade é doença.

Essas pessoas deveriam estar se tratando; não dirigindo.

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kriptonita

Termino a leve subida da Patápio Silva e paro no primeiro sinal da Henrique Schaumann. Daqui até meu destino final só há descida e um grande trecho plano.

Uns carros se incomodam atrás de mim, e fazem manobras um pouco mais agressivas para me ultrapassar e logo parar no próximo sinal ali em baixo, na Cardeal ou na Teodoro. Adiante, na grande caixa da Brasil, eu passarei pelo meio de todos eles e, pelo menos até meu destino final, uns 4km adiante, nenhum automóvel voltará a me alcançar.

Nenhum, independente de potência, marca, tamanho ou preço.

Do planeta kripton, berço do Super-Homem, vem um intrigante elemento do mito, a kriptonita.

Um mito é bom quando explica com elegância, e por diferentes lados, algum aspecto da vida. Interessante assistir, de cima de uma bicicleta, ao outro momento da força. Aquele em que o superpoder vai pelo ralo.

“Pobre Super-Homem, nada pode contra mim neste lugar!”, e talvez seja esse um adjetivo particularmente ofensivo para muitos super-homens.

Fica fácil entender o ódio dessas máquinas contra ciclistas e motociclistas, que seguem livres seu caminho apesar de uma ou outra gota de chuva.

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