Arquivo do mês: agosto 2011

aqui pode

Há coisas que pode e há coisas que não pode.

No código de trânsito está escrito que não pode falar ao telefone enquanto se dirige um carro. Não sei de que mundo esse código fala, mas sei do meu mundo, o que eu conheço bem e observo todos os dias. Aqui, no meu mundo, na minha cidade, falar ao telefone dirigindo é algo que pode. Basta olhar. No começo, quando a lei foi criada, não podia. Ninguém usava o celular dirigindo e, se fazia, disfarçava muito bem. Agora pode. Ninguém mais disfarça!

No código de trânsito está escrito que não pode ultrapassar a velocidade máxima, não pode estacionar sobre a calçada, não pode dirigir com habilitação suspensa. Aqui, na minha cidade, pode tudo isso. Quando não pode, a realidade é bem diferente.

No código penal está escrito que não pode matar, porque quem mata vai preso.

Mas, olhando bem, a gente vê que isso depende da arma. Aqui, na minha cidade, aliás no país inteiro, matar pode. Basta que a arma seja um automóvel.

4 Comentários

Arquivado em mundo concreto

péssimo argumento

Algumas placas espalhadas pela cidade pedem cuidado ao dirigir argumentando o seguinte: “Motorista, você também é pedestre”.

O argumento é péssimo, pois é falso para muita gente. Existe um grupo nada desprezível de pessoas que de fato nunca são pedestres, pois utilizam o automóvel em 100% dos deslocamentos. Elas jamais fazem um trajeto a pé, jamais passam por um local público sem a proteção da bolha de aço e, às vezes, da blindagem. Caminham apenas dentro de suas casas, escritórios, centros comerciais fechados com estacionamento interno, áreas comuns de condomínios fortificados.

E o grupo é cada vez maior, com vários fatores contribuindo para o crescimento. O principal deles é a cultura do medo. Um outro, decorrente do primeiro, é um projeto de vida que vem se tornando bastante comum: morar em bairros projetados para isolar as pessoas, ou em grandes condomínios fechados, verdadeiros feudos, com serviços locais e diversificados dentro de seus territórios e que protegem os moradores do perigoso contato com o mundo lá fora.

Melhor seria se o argumento não dependesse da inversão de posições. Apesar de as escolas insistirem que nossa sociedade permite a tal da mobilidade social, sabemos que ela é bastante restrita, e que algumas posições sociais são inabaláveis.

Se respeito aos outros depender da possibilidade de as posições se inverterem, ou pelo menos de a pessoa um dia passar a ter as mesmas fragilidades dos outros, temos um grupo de pessoas dispensadas desse trabalhoso cuidado, pois não têm nada a temer.

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