o paradoxo do otimismo

Nossa época exige que sejamos otimistas. Sem isso, não há sentido em gastar tanta energia para tentar tornar a vida um pouco melhor.

Hoje a vida nas grandes cidades é orientada para os automóveis. Espaço público precioso é desperdiçado para servir de estacionamento. Estabelecimentos de comércio, serviços e espaços de convivência são pensados para quem vai chegar de carro, muitas vezes dificultando a vida de quem chega sem carro. Imóveis habitáveis e eventualmente de valor histórico são destruídos para que as vias sejam alargadas de forma a receber ainda mais carros. Leis ambientais são sistematicamente transgredidas para que milhares de veículos altamente poluentes possam continuar em circulação. Imensos montantes de dinheiro público são alocados na forma de subsídios diretos e indiretos para facilitar o acesso dos consumidores aos automóveis e o seu uso nas cidades.

O resultado disso são os assustadores índices de poluição, que seguem crescendo. Nunca morreu tanta gente em decorrência das doenças respiratórias causadas pelos poluentes emitidos por veículos motorizados. Os danos vão muito além da poluição ambiental. Com os tempos de percurso cada vez maiores, as pessoas vão ficando mais longe umas das outras. A cidade se espalha indefinidamente, aumentando as distâncias e dificultando que parentes, amigos e pessoas amadas se encontrem e se abracem. Nunca foi tão alta a incidência de transtornos mentais agravados ou mesmo criados pela poluição sonora e por uma vida estúpida e solitária, passada em grande parte dentro de um automóvel parado no caminho de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sendo o lazer cada vez mais escasso. População mundial crescendo, índices de urbanização crescendo, a tendência natural é só de piora.

Há porém quem trabalhe para reverter esse processo. Pessoas e organizações ligadas à mobilidade a pé ou em bicicleta discutem e atuam para que um cenário diferente comece a se concretizar.

Como somos otimistas, agimos com a certeza de que as ações surtirão o efeito desejado e os objetivos serão alcançados. Se formos realmente otimistas, acreditaremos que a melhoria acontecerá num futuro imediato, em meses ou poucos anos, ou mesmo que já esteja em curso.

Pensando graficamente, os índices de poluição, barulho, doenças físicas, depressão, desagregação comunitária e falta de sentido decorrentes da carrocracia, que só vieram aumentando até aqui, formam no papel linhas ascendentes, subindo em ângulo maior nas últimas décadas, em que a piora foi mais intensa. Quando a vida começar a melhorar, todos esses índices começarão a cair, gerando linhas descendentes no gráfico. É provável que sigam para sempre caindo, pois a humanidade terá finalmente superado a era do automóvel, essa vergonha histórica. Outras fontes de poluição, barulho, morte, depressão e falta de sentido eventualmente venham a atuar com essa mesma força na história da humanidade, mas essas linhas, relacionadas à sociedade do automóvel, jamais tornarão a subir.

Assim sendo, o nosso momento histórico corresponde ao topo da montanha no gráfico: o pico da poluição automotiva, o pico do barulho urbano, o pico das doenças respiratórias e cardíacas, o pico das horas perdidas em deslocamentos, o pico da separação humana decorrente de um planejamento urbano feito para máquinas e não para pessoas.

Eis o paradoxo. Se as mudanças desejadas se concretizarem da forma mais otimista possível, somos NÓS, entre todos os seres humanos que já estiveram ou que virão a estar sobre a face da Terra, aqueles que terão sofrido essas mazelas todas em sua maior intensidade.

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