Arquivo do mês: abril 2020

voltar para frente

Com as medidas de isolamento para conter a propagação do vírus, as ruas estão vazias de automóveis. Baixou a poluição sonora, a poluição atmosférica, a poluição visual. Ninguém precisa de instrumentos de medição ou dados estatísticos para perceber essas mudanças. Este período de exceção proporciona aos habitantes das grandes cidades experiências sensoriais de uma paisagem urbana bem diferente daquela que normalmente é considerada como dada, inevitável, única possível.

As restrições de circulação um dia vão acabar, e a tendência é que tudo volte ao seu normal: barulho, congestionamentos, pessoas disputando seu espaço apenas nos vãos que os automóveis não ocupam. Porém, a partir desta experiência, ninguém mais pode dizer que desconhece essa outra realidade urbana possível.

Bruno Latour nos convida a refletir exatamente sobre aquilo que não queremos que volte a ser como antes. E tão importante quanto apontar aquilo que não queremos mais é pensar nos meios, não apenas para que a nova configuração seja possível e sustentável, mas também para que ninguém saia prejudicado dessa reorganização do sistema produtivo.

No que se refere à mobilidade urbana, especialmente a um modelo de cidade que priorize o transporte coletivo e os modais ativos, comentamos a seguir algumas medidas administrativas (de cima para baixo), que poderiam ter seus efeitos potencializados, e como elas podem inspirar atitudes individuais com potencial de provocar efeitos de maior escala (de baixo para cima).

Transporte coletivo
Com boa parte dos automóveis em casa, as vias urbanas estão mais livres e os ônibus podem circular muito melhor. Antes que os automóveis retornem, é preciso encher as ruas de ônibus de forma que, quando o isolamento deixar de ser necessário, ninguém mais tenha motivo para reclamar que eles demoram muito ou que estão sempre lotados. Conforme a máxima de Enrique Peñalosa, um sistema de transportes desenvolvido não é aquele em que até os pobres andam de automóvel, mas aquele em que até os ricos andam de ônibus. Se a ideia é fazer com que um grande número de pessoas troquem o automóvel pelo transporte público, o momento é agora.

Tarifa zero
A utopia pode parecer distante, mas esta oportunidade é inédita e única. Transporte público gratuito é um forte incentivo para que muitas pessoas passem a se locomover de ônibus. Quando a prefeitura assume a gestão do transporte urbano e a cobrança deixa de existir, diversos custos saem dessa conta: o lucro do setor privado, o sistema (burocrático, administrativo, computacional) de cobrança, os cobradores (que devem ser absorvidos em outros postos de trabalho). Ao mesmo tempo, o maior acesso das pessoas à cidade incentiva a atividade econômica e isso retorna ao orçamento público na forma de impostos. Com a diminuição da poluição atmosférica causada pelos altos índices de uso do transporte individual, a economia logo vai aparecer também no orçamento da saúde. Ao retomar a administração do transporte público, a prefeitura pode gerir diretamente as linhas de acordo com as demandas e características de cada bairro da cidade, pautada por critérios de interesse público. O gesto da prefeitura de reassumir o transporte urbano tem um importante sentido político, ao afirmar que transporte urbano é um serviço público essencial na vida de uma cidade e não uma atividade econômica que existe para ganhar dinheiro.

Restrições à circulação de automóveis
O período de isolamento está mostrando que certas atividades produtivas podem funcionar sem que todos tenham necessariamente que ir todos os dias para um mesmo local de trabalho. Se é fato que o uso de automóvel é alto entre os funcionários de cargos administrativos do mundo corporativo, o trabalho a distância tem o potencial de tirar das ruas um bom número de automóveis, que aliás geralmente transportam uma só pessoa. As ruas ficam mais livres para a circulação dos ônibus e dos automóveis dos trabalhadores que realmente precisam transitar dessa forma, pois transportam produtos ou equipamentos para prestar serviços. Havendo restrição à entrada de automóveis (exceto entregas e prestadores de serviços) em certas áreas bem servidas de transporte de alta capacidade e com alta concentração de funções administrativas que podem se beneficiar do trabalho a distância, muitos trabalhadores poderão trabalhar em casa ou em escritórios remotos e, quando for realmente necessário, poderão usar o transporte público para se encontrar presencialmente com suas equipes. A restrição de circulação em algumas áreas estratégicas suprime viagens inteiras de automóvel, e portanto seus efeitos são sentidos em todas as regiões pelas quais cada um desses automóveis teria que trafegar para chegar no destino.

Política de estacionamento
Ao oferecer vagas gratuitas de estacionamento nas cidades, o poder público dá um subsídio ao transporte individual, pois assume um custo que deveria ser do motorista pelo uso do espaço público. Dessa forma, estimula o uso do automóvel. A gestão de estacionamento nas cidades é um importante instrumento da administração municipal, sendo uma das formas que ela tem de determinar o uso que é feito do espaço público. Este período de isolamento, em que as pessoas estão criando novas formas de viver o cotidiano, é um momento precioso para que a sociedade perceba que os custos de um transporte vão muito além do valor do combustível consumido na viagem: há custos ambientais, na saúde pública, no uso do espaço urbano, na saúde mental dos cidadãos. Está comprovado que novos arranjos são possíveis, não apenas nos sistemas produtivos, mas também nos esquemas de vida pessoais. Ao retirar incentivos ao uso do transporte individual, o poder público propõe que as pessoas reconsiderem seus projetos de vida, sobretudo no que se refere à distribuição dos seus destinos pela cidade e às formas de se deslocar.

Mesmo que governo nenhum adote medidas corajosas como essas, o momento é propício para potencializar mudanças que partem do plano individual. Períodos de suspensão da normalidade oferecem a oportunidade de olharmos com certo afastamento para esquemas de vida, rotinas, arranjos que nos envolvem dando a impressão de serem os únicos possíveis. Podemos aí encontrar verdadeiros absurdos, camuflados de naturalidade pelos anos de repetição sem alternativa. Em algum momento, o sistema produtivo tentará retornar plenamente à normalidade. Então os novos aprendizados serão postos à prova. E aí, você vai mesmo deixar que tudo volte ao que era antes? Na mobilidade, como em outras esferas da vida, aprendemos a sabotar a propagação não apenas de agentes infecciosos, mas também de hábitos dos quais estamos tentando, há tempos, nos livrar.

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