Arquivo do mês: maio 2020

pautada

Ato de violência verbal em que se usa a pauta da reunião para cortar, abreviar, deslegitimar ou invalidar a fala de uma pessoa.

Assim como a carteirada, a pautada faz parte do conjunto dos gestos agressivos da conversação. É obviamente muito prejudicial no relacionamento entre as pessoas, sobretudo quando acontece em um grupo de trabalho com proposta de horizontalidade.

Ocorrências esporádicas de gestos autoritários podem até estar no campo da casualidade, sendo vestígios da cultura que nos esforçamos para superar. Quando são recorrentes, porém, gestos autoritários são sempre, pela própria definição dos termos, indícios da ausência de horizontalidade. A recorrência demonstra que existe um consenso local no sentido de tolerar o gesto. Lugares que professam horizontalidade enquanto toleram autoritarismo são consumidores de ideologia de butique.

Vejamos então um exemplo de situação. Um grupo de trabalho está em reunião. Há entre cinco e dez participantes, e as falas acontecem livremente, sem limite pré-estabelecido de tempo ou lista formal de inscrições. A ordem das falas segue o bom senso, conforme as pessoas vão manifestando intenção de falar. Um dos participantes está falando, expressando sua avaliação de um determinado assunto. Eventualmente problematiza alguma questão, de forma a analisar os resultados e sentidos da atuação daquela organização.

Então, alguém toma a palavra e interrompe a fala que está em andamento, dando uma pautada nessa pessoa.

“Olha, vamos ser objetivos porque ainda temos muito o que falar hoje.”

“Será que você pode concluir? Precisamos avançar.”

“Então, voltando para a pauta, eu gostaria que a gente encaminhasse…”

O sentido de frases como essas depende, naturalmente, da situação discursiva. É possível que a pessoa cortada esteja de fato fora do tema ou esteja usando um tempo de fala muito acima da média naquele contexto. Nesses casos, a interrupção pode ser uma atitude de cuidado com o espaço de conversa e o tempo dos participantes. Há porém situações em que a interrupção não se justifica por esses critérios, e é aqui que podemos falar em pautada, pois trata-se de um gesto arbitrário. Somente os participantes de cada situação específica podem avaliar isso.

Nos casos das interrupções arbitrárias, podemos pensar em alguns fatores relacionais por trás do gesto. Talvez o conteúdo do que está sendo falado esteja em conflito com opiniões pessoais daquele que interrompe ou com opiniões mais ou menos consensuais no grupo. Falas que incomodam são mais suscetíveis de serem interrompidas. É possível também que algo na forma de a pessoa se expressar esteja desagradando. Fala prolixa, falta de clareza, raciocínio de complexidade muito alta ou muito baixa, determinados registros linguísticos (os chamados “níveis de fala”) e outros aspectos dessa natureza influenciam a avaliação, geralmente inconsciente, que se faz dos discursos.

Podemos pensar também em questões mais pontuais, como aspectos da relação entre quem está falando e quem dá a pautada (divergências pessoais pré-existentes), ou ainda dados circunstanciais, como o fato de a pessoa que interrompe não estar acompanhando o raciocínio ou por estar com a atenção em outras coisas ou por limitações pessoais. Nestes casos, o gesto da interrupção parece ainda mais arbitrário.

O cuidado com o tempo e o foco das conversas é um aspecto importante para o bom funcionamento dos grupos. Por outro lado, o excesso de controle é bastante nocivo para a criatividade, a inteligência coletiva do grupo e a própria qualidade da convivência. Este último aspecto é especialmente importante nos grupos de trabalho não remunerado, em que a participação se sustenta principalmente pela vontade de estar junto.

Grupos que não encontram uma maneira orgânica e espontânea de controlar a dinâmica das conversas acabam adotando formalismos muitas vezes excessivos, como cronometragem do tempo das manifestações, bastão da fala, lista de inscrições rígida. Esses métodos mecânicos de regrar a interação também são prejudiciais para a criatividade, a espontaneidade e o prazer da convivência.

Se há algo de arte na prática da conversa é justamente porque, para o seu bom funcionamento, ela depende de uma regulação sutil, consensual e distribuída, pela qual todos precisam zelar, não apenas um secretário responsável por conduzir a reunião de maneira muitas vezes fria e burocrática. Nos termos dos modelos caórdicos de organização, trata-se de encontrar um ponto de equilíbrio saudável, a meio caminho entre a ordem e o caos.

Deixe um comentário

Arquivado em definições