Arquivo do mês: maio 2011

pressa

Observando as pessoas deste lugar, parece até que é bom estar com pressa.

Com pressa, você não precisa ficar cumprimentando todo mundo na rua e na padaria. Não precisa dar bom dia quando passa pelo porteiro, e pode até passar um sinal vermelho de vez em quando.

Aliás, não só de vez em quando, porque ter pressa aqui não é de vez em quando.

Você diz que está atrasado porque tinha trânsito, portanto hoje você está com pressa e amanhã também estará.

A pressa é um tempo próprio, um estado de espírito permanente.

Tá bom, já sei, você está com pressa então não dá pra esperar… Aproveita e fura a fila de carros que esperam para virar na próxima rua.

Você vem por fora da fila e entra na frente de alguém que já estava ali há mais tempo. Esperto você, né?

Pela maneira de você conduzir seu brinquedinho, vrrrum vrrrum, as pessoas verão que você está com pressa, serão compreensivas com você.

Com pressa você pode furar fila, ultrapassar pela direita arriscando ciclistas e pedestres, virar a esquina correndo sem olhar, passar o sinal vermelho, buzinar como um bebê mimado, agredir o motorista da sua frente jogando o farol alto… Com pressa você não precisa dar passagem para ninguém, nem parar para o pedestre que quer atravessar na faixa.

Já entendi.

A pressa aqui é um ótimo recurso.

2 Comentários

Arquivado em cultura urbana

ser e parecer

A proteção que um capacete dá ao ciclista começa bem antes de ele bater a cabeça no chão.

Sabemos que na nossa sociedade não basta ser, é preciso também parecer. Sem notar como assim contribuem para alimentar o consumismo, as pessoas, muitas vezes inconscientemente, deixam de legitimar um papel social se ele não for verossímil conforme guarda-roupa, cenografia, maquiagem.

Ainda que você não contribua para esse jogo, lembre-se que ao pedalar pelas ruas de São Paulo sua vida muita vezes depende muito mais dos outros do que de você, portanto é bom levar isso em conta.

Quando você usa capacete, fica mais fácil para muitos motoristas perceber que você não está ali de brincadeira passeando para saborear o ar puro da cidade, que a bicicleta é o seu meio de transporte e que você não está ocupando parte do seu espaço à toa.

Percebendo isso, é bem provável que eles te tratem com um pouco mais de respeito. É impressionante, mas a diferença que isso faz é considerável. Bem antes de atuar no plano físico, o capacete tem também um valor simbólico e contribui para que o acidente não aconteça.

Pelo menos com relação a este aspecto, não precisa do enxoval completo de ciclista para ir trabalhar (use-o se você tem outros motivos para isso). Basta o capacete. É o suficiente para facilitar a aprendizagem do motorista no momento em que ele for te ultrapassar. Logo ali na frente vocês provavelmente vão se encontrar de novo, e você vai ultrapassá-lo. Já serão velhos conhecidos, talvez ele até te reconheça pela cor do seu capacete, e o reencontro vai reforçar a lição. Recordar é viver.

1 comentário

Arquivado em bicicleta