projeto de vida

Você gostaria de poder ir trabalhar diariamente sem ter que enfrentar horas de trânsito numa cidade entupida? Mas você tem feito alguma coisa para que isso se concretize? Ou está esperando que o metrô “chegue” perto de sua casa ou de seu trabalho para só então se livrar do trânsito?

Quem quer mesmo viver sem depender do automóvel precisa levar isso em consideração no momento de tomar algumas decisões importantes na vida. Decisões sobre local de moradia e local de trabalho, por exemplo. Sim, estou falando de projeto de vida.

As alternativas já existem: morar perto do trabalho e ir trabalhar a pé ou de bicicleta; optar por um trabalho que seja perto de casa e ir trabalhar a pé ou de bicicleta; escolher um trabalho perto de uma estação do metrô e uma moradia perto de qualquer outra estação de metrô, ainda que precise caminhar alguns minutos para chegar à estação.

O leitor provavelmente considera que ter acesso a alguma dessas alternativas seja um privilégio reservado para poucos.

É verdade que sempre haverá muita gente excluída de qualquer uma destas três opções, já que a distribuição de ofertas de trabalho é ridiculamente desigual entre os bairros e regiões de São Paulo. Com a concentração geográfica de ofertas de trabalho que existe aqui, nem um metrô igual ao de Londres resolveria o problema.

O fato é que muitas pessoas que poderiam escolher onde morar e/ou onde trabalhar não o fazem. Tenho impressão de que esse número é bem maior do que se imagina. Não é uma questão de riqueza material, é uma questão de prioridades pessoais.

Se apenas essas pessoas, que têm essa possibilidade, optassem por um projeto de vida em que o automóvel não fosse diariamente necessário, haveria muito menos gente parada nas vias entupidas da cidade. E há também aqueles que já moram e trabalham perto de metrô mas preferem ir de carro. Cada um com suas escolhas.

A vida é estruturada como se o automóvel fosse uma parte inseparável da pessoa, uma extensão do corpo.

A situação de ter que se deslocar diariamente entre dois locais muito distantes um do outro não é uma situação natural. Por muito tempo, na história, isso não era possível. Só se torna possível quando há meios de transporte minimamente eficientes que facilitem esse deslocamento.

Espera-se, acredito, que um meio de transporte permita o deslocamento em condições consideradas aceitáveis, cada um com o seu critério e o seu limite quanto ao que seja aceitável.

A opção de trabalhar longe de casa ou de morar longe do trabalho só deveria existir nessas condições. Ou não deveria ser uma opção.

Milhões de paulistanos optaram por viver fora dos limites do aceitável.

A cultura paulistana toma por natural uma situação que definitivamente não tem nada de natural. Somente pensando dessa forma é que passa a ser um privilégio morar perto do trabalho ou ter estações de metrô perto de casa e do trabalho.

Tal inversão lógica é o que permite existir esse fenômeno urbanístico e cultural que é São Paulo.

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