escada para o céu

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Mudanças de hábitos são processos gradativos, que requerem tempo, clareza e coragem. No caso de hábitos coletivos é ainda mais complexo, pois as pessoas de uma população têm disposições e ritmos diferentes.

Como será, por exemplo, o caminho para uma sociedade libertar-se da carrodependência?

Um documento publicado em 2011 pelo Departamento de Transportes da Inglaterra, com o objetivo de orientar o corte nas emissões de carbono, utiliza um modelo interessante para ajudar a planejar o processo de mudança: a Escada das Intervenções. O conceito foi trazido da área da saúde pública, onde pode ser usado, por exemplo, para abordar melhorias nos hábitos alimentares de uma sociedade.

Usando a Escada das Intervenções, é possível classificar as possíveis medidas conforme a relevância e efetividade das mudanças que elas provocam na vida coletiva. Naturalmente, ela progride do menor para o maior nível de intervenção, como indicado pela seta à esquerda.

Escada das Intervenções. Fonte: Creating Growth, Cutting Carbon: Making Sustainable Local Transport Happen. CLIQUE PARA AMPLIAR

Para pensarmos o tema da mobilidade, o ponto de partida é a realidade que vemos hoje na maioria das grandes cidades em relação ao transporte urbano: um sistema em grande medida baseado no transporte motorizado individual, altamente poluente e consumidor voraz de espaço público.

O primeiro degrau da escada é a ausência total de intervenções: ‘Fazer nada ou apenas monitorar a situação’. Relatórios de novos emplacamentos de automóveis, boletins de congestionamentos, dados sobre poluição atmosférica, estudos sobre o aumento assustador do número de motocicletas e contagens de volume de tráfego nas vias urbanas constituem um monitoramento passivo de como essa matriz de transportes deteriora a qualidade de vida nas cidades.

No segundo degrau está ‘Fornecer informações: informar e educar as pessoas’. Aqui estão as campanhas que contam às pessoas que o planeta está poluído, que automóveis emitem monóxido de carbono, que caminhar faz bem, que usar transporte coletivo também é bacana, que é bonito respeitar os outros e certas ações de conscientização que chegam a dar vergonha alheia.

O degrau seguinte é ‘Dar escolhas: permitir que as pessoas mudem seus comportamentos’. Triste notícia para as prefeituras que pensam que estão fazendo muito pela mobilidade ao construir ciclovias e ciclofaixas, essa ação corresponde apenas ao terceiro dos oito degraus na Escada das Intervenções. Aos cicloativistas que só enxergam ciclovias como objeto e causa maior de suas lutas, fica também o convite à reflexão. Mesmo que a proposta seja focada na melhoria da vida dos ciclistas, para mudar a cidade e combater a carrocracia é preciso ter uma visão mais ampla da situação.

O quarto degrau é ‘Guiar as escolhas mudando as opções padrão: tornar as escolhas mais saudáveis a opção padrão’. Aqui podemos pensar nas diversas situações em que a escolha de ir de carro é tratada como a mais óbvia e natural. Imagine a divulgação de um evento, na qual a informação sobre “estacionamento no local” é uma das primeiras e mais destacadas, sendo que as linhas de ônibus e metrô que servem o local aparecem só no fim da lista, se é que aparecem. Que tal se informassem logo de cara como chegar de transporte público e fornecessem um telefone para “outras informações”, onde as pessoas poderiam perguntar sobre estacionamento? Quantas vezes esses materiais de divulgação informam sobre “bicicletário no local”? O mais comum, infelizmente, é que simplesmente ninguém da organização pense em reservar um espaço para bicicletas. Nesse caso, é preciso voltar um degrau.

Quinto degrau: ‘Guiar as escolhas através de incentivos: usar incentivos financeiros e de outros tipos para guiar as pessoas a buscarem certas atividades’. Aqui entram benefícios para quem usa bicicleta para ir ao trabalho, incentivos fiscais na produção e venda de bicicletas, subvenções para a troca de um automóvel por uma bicicleta elétrica, descontos nos ingressos para quem chega a um evento de bicicleta ou transporte público. Bom lembrar que incentivos como esses não são apenas simbólicos. Eles muitas vezes correspondem a um repasse ao usuário de parte da economia que o meio de transporte utilizado por ele representa no orçamento (público ou privado) daquele que dá o incentivo.

Já no sexto degrau passa-se a ‘Guiar as escolhas através de desincentivos: usar desincentivos financeiros ou de outros tipos para influenciar as pessoas a não buscarem certas atividades’. O uso de automóveis nas cidades jamais deveria ser subsidiado, como acontece quando se oferecem vagas gratuitas de estacionamento ou isenções fiscais. Ao contrário, deveria haver sobretaxação, pelo dano que essa escolha causa à saúde física e mental das pessoas. Cobrar pelo estacionamento nas ruas, pelo menos nas regiões centrais de grandes cidades, é uma forma de desincentivar o uso do automóvel, e a arrecadação decorrente deveria beneficiar o orçamento público, não entidades privadas. Outro exemplo de desincentivo é o pedágio urbano, lembrando que ele tem um sério problema: apenas seleciona, por um critério econômico, quem trafega e quem não trafega numa região. Para os ricos, o pedágio urbano acaba sendo um estímulo ao uso do automóvel, pois eles terão ruas mais livres só para eles.

No sétimo degrau, a ideia é ‘Restringir as escolhas: regular de forma a restringir as opções disponíveis para as pessoas’. Algumas cidades do mundo estão proibindo, em certas áreas centrais, o acesso de veículos movidos a diesel. O próximo passo será proibir também veículos a gasolina, permitindo apenas o acesso de veículos elétricos. Em uma cidade inglesa, estão implementando filtros de tráfego que limitam em certos horários o acesso dos veículos que apenas cruzam a área central, fazendo com que desviem por outras rotas.

E no oitavo grau, finalmente, é o momento de ‘Eliminar escolhas: regular de forma a eliminar completamente certas escolhas’. Aqui chegamos àquelas cidades que estão estudando banir totalmente os automóveis de certas regiões. A vida é outra, a paisagem é outra, a cidade finalmente volta a ser das pessoas.

Há dois aspectos especialmente interessantes no modelo da Escada das Intervenções. Como a mudança é gradativa, cada degrau tem o efeito de preparar a sociedade para a implementação do seguinte. Assim, o modelo permite que se pense no próximo passo, conforme a realidade de cada local, mesmo na ausência de um consenso sobre se ou quando chegaremos no último degrau. No Brasil, a sociedade carrodependente terá um chilique se um candidato a prefeito apresentar a proposta de eliminar completamente os automóveis de áreas onde ficam os escritórios de gente bem sucedida. Já uma proposta que esteja apenas no degrau seguinte pode muito bem ser debatida.

Outro aspecto bacana é que o modelo permite classificar as medidas que estão sendo tomadas ou discutidas em cada contexto específico, permitindo colocar as cidades em seus devidos degraus. Em que degrau está a cidade onde você mora?

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