Em 2013, o dia 11 de novembro caiu numa segunda-feira. Naquele dia, os ciclistas que usavam a Ciclovia Rio Pinheiros como conexão entre a zona sul e a zona oeste sofreram um profundo desgosto ao descobrir que não poderiam mais fazer esse trajeto de forma segura e, sobretudo, extremamente rápida.
Um trecho importante dessa ciclovia foi sumariamente interditado. O comunicado oficial dizia que a interdição duraria 24 meses e apontava como justificativa as obras de construção de uma nova linha do metrô. Hoje completam-se dez anos ininterruptos do fechamento desse trecho, e não há qualquer perspectiva de que ele venha a ser reaberto num futuro próximo.
Também não há sinal de que a tal linha de metrô vá ficar pronta. Na verdade, as obras no trecho que afeta a ciclovia andaram em ritmo muito lento durante esse tempo. Neste aspecto, nenhuma surpresa: sabemos que a construção de linhas de metrô nesta cidade é planejada e executada conforme cálculos políticos do governo do estado, sendo a demanda por mobilidade urbana um fator bastante secundário.
Durante esses dez anos houve longos períodos em que nenhum trabalhador ou máquina era visto operando no local. Enquanto isso o trecho poderia muito bem ter sido reaberto, ainda que temporariamente. Mas não, isso daria trabalho. Teriam que organizar o canteiro de obras e limpar a pista, que transtorno. E, muito pior, quando as obras fossem retomadas, teriam novamente que enfrentar os protestos da comunidade de usuários e a possível repercussão na mídia do novo fechamento. É mais fácil deixar o esquecimento coletivo atuar, ele que atua tão bem neste país.
A estratégia funcionou. E assim, dez anos se passaram.

Essa ciclovia era muito prática para quem tem um deslocamento longo para fazer. Por estar em um lugar isolado da cidade, a decisão de ir por essa ciclovia já implica um bom desvio de rota para acessá-la. Esse desvio se justifica quando, em contrapartida, a pessoa tem uma conexão praticamente direta, livre de estresse, perigos e subidas, com o ponto que deseja atingir. Se essa conexão não é mais tão direta, demandando uma saída e uma nova entrada mais adiante, o uso deixa de valer a pena. Portanto, apesar de ter sido divulgada como interdição parcial, para muita gente a interdição foi total.
Exceto por alguns trechos isolados e desconexos, onde até dá para treinar ou passear com os filhos, a Ciclovia Rio Pinheiros deixou de existir há dez anos.
Desnecessário aprofundar aqui o quão inconvenientes são as alternativas que foram oferecidas aos ciclistas nesse tempo todo. Primeiro, uma ridícula van que aparecia de vez em quando para fazer a travessia dos ciclistas pelo trecho fechado, puxando uma carreta que levava as bicicletas. As pernas esfriando, o tempo passando. Quem escolhe andar de bicicleta é porque não tem mesmo mais nada para fazer, não é? Depois a pista da margem oeste do rio, que até pouco tempo atrás tinha como único acesso numa das pontas uma escada precária e bem inclinada que obrigava ciclistas ou a carregarem a bicicleta no ombro ou a encaixá-la numa canaleta muito desconfortável.
Tem também acessos via pontes, por dentro de estações de trem, por passarela flutuante. Tudo isso com as intermitências a que sempre esteve e sempre estará sujeita a infraestrutura cicloviária desta cidade.
Difícil estimar a quantidade de pessoas a quem essa ciclovia deixou de servir nesses dez anos, sobretudo considerando o aumento, visível a olho nu, do número de ciclistas na cidade hoje em comparação com 2013. Podemos imaginar a quantidade de usuários que essa estrutura teria atualmente, se fosse funcional. Poderíamos multiplicar isso pelo numero de horas economizado por essas pessoas se usassem essa ciclovia. Daria um numerão.
Do outro lado dessa balança estão os números da empreiteira que faz a obra, da empresa privada que hoje controla a linha de trem paralela à ciclovia e da concessionária que hoje administra a estrutura e vem transformando aquilo tudo em um shopping center. Para eles, somos um numerinho.