janeiro branco

Janeiro sugere recomeço. Convida a fazer planos, rever hábitos. Cuidar da mente é necessidade de sobrevivência para quem vive em lugares ricos em insalubridades.

Eu chegava de um treino, inundado de endorfina, feliz da vida. Encosto na praça para um caldo de cana. Sincronicidades. Uma moça me entrega um folheto sobre o Janeiro Branco.

Neste mês, instituições e coletivos ligados à saúde mental propõem que olhemos para o assunto de forma ampla. O folheto sugere falarmos sobre isso. Então cá estou, deixando a minha contribuição.

Saúde mental é, em primeiro lugar, prática. Prática diária.

O cuidado com a saúde mental deveria começar muito antes de se pensar em procurar uma terapia ou consumir um fármaco. Aliás, quando alguém chega ao ponto de recorrer a essas drogas pesadas, talvez já seja muito tarde.

Médicos de fato costumam falar da importância de hábitos saudáveis e atividades físicas. É comum, porém, que isso venha apenas em caráter de sugestão, apresentado quase como um complemento cosmético para outras intervenções, estas sim consideradas como o verdadeiro tratamento. Infelizmente, a atividade corporal não costuma receber a mesma ênfase dada a prescrições, dietas ou encaminhamentos para outros serviços da área da saúde. No máximo uma folhinha de receituário indicando algumas sessões de fisioterapia.

Muitas vezes, é só quando aparece uma pessoa amiga interessada em te ver bem, que conhece por experiência própria os efeitos das práticas de movimento, que você vai ouvir com a devida seriedade: vá pedalar, vá correr, vá nadar, vá caminhar todos os dias, pois isso vai mudar a sua vida!

Trata-se de um tipo de atenção e acolhimento um pouco diferente daquele recomendado por essas campanhas que, como os médicos em seus consultórios, falham em dar destaque ao movimento.

A atividade física é importante não apenas para tornar a vida menos sedentária e, assim, diminuir as chances de um ataque cardíaco. Ao mexer com oxigênio, fluxo sanguíneo, pele, fibras musculares, vento na cara, sensações corporais e neurotransmissores, as práticas ativas são essenciais para a saúde da cabeça. Assim, contribuem objetivamente para diminuir a procura por consultórios terapêuticos, unidades de saúde e farmácias (o que, do ponto de vista econômico, pode ser um problema, mas isso é assunto para outro momento).

Quando se fala de políticas públicas para a saúde mental, é preciso ir além dos postos de acolhimento, serviços de atenção psicossocial, distribuição gratuita de drogas psiquiátricas.

Infraestrutura cicloviária é política pública de saúde mental. Campos de futebol e quadras esportivas em equipamentos públicos são políticas de saúde mental. Condições adequadas para a circulação de pedestres, não apenas para quem corre de manhã, mas para quem deseja se deslocar de forma ativa, caminhando até os seus compromissos, tudo isso contribui para reduzir os índices de depressão em uma sociedade.

Para se construir a cultura de cuidados emocionais proposta pelo Janeiro Branco é preciso não apenas falar cotidianamente sobre o assunto, mas também transformar isso numa prática diária. A saúde mental é uma construção constante, resultado de uma série contínua de escolhas.

Pessoas comprometidas com os cuidados do corpo logo aprendem a observar como a escolha que fazem no almoço – entre um pacote de baconzitos e uma refeição equilibrada, por exemplo – resulta em sensações diferentes logo em seguida, na mesma tarde.

Funciona igual para a cabeça. Quem troca o conforto do sofá por uma pedalada noturna percebe, logo na manhã seguinte, a mente mais disposta e o humor melhorado. A partir daí, já não se pode mais alegar desconhecimento.

“Não pense que a cabeça aguenta se você parar”. A frase do Raul, epígrafe deste blogue, está aí para lembrar que, assim como o corpo, a mente também necessita do movimento.

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