esquerda livre

Bem aos poucos, os usuários do metrô vão aprendendo a deixar a esquerda livre nas escadas rolantes quando preferem ficar parados.

É verdade que a empresa demorou algum tempo para começar a estimular essa atitude através da sinalização das estações, e ainda faz isso de maneira bem tímida. Mas a lentidão com que a prática é adotada coletivamente parece um dado sociológico significativo.

Entre os que não aderiram, há dois tipos de comportamentos. Há aqueles que obstruem a escada mas cedem passagem quando solicitados. E há aqueles que reclamam, ainda que apenas com expressão de desagrado, quando alguém lhes pede passagem. É justamente porque existem estes últimos que muita gente se constrange e, em vez de pedir licença quando gostaria de passar, fica parada atrás deles e assim acaba colaborando para a obstrução.

Seria um pouco difícil identificar as origens do hábito de ficar parado na escada rolante. Esse hábito é hoje tão generalizado que é quase automático alguém supor que é para isso que serve a escada rolante, que essa é a forma correta de viajar nela.

Acontece que as escadas rolantes de uma estação de metrô são áreas públicas de passagem. Existe sim a possibilidade de se ficar parado, especialmente quando a pessoa tem alguma limitação física, bastando para isso que ela fique à direita, deixando a esquerda livre para quem quiser passar.

Numa área pública de passagem, deveria ser natural que as pessoas tomassem certos cuidados, não obstruindo totalmente o espaço, procurando observar a sinalização, prestando alguma atenção nos outros usuários, cedendo a passagem quando solicitadas e até mesmo desculpando-se quando percebem que atrapalharam alguém. Isso é o que acontece em muitos países civilizados.

Há quem se comporte dessa forma, ainda que sejam poucos. Observe e verá.

Mas por que tem tanta gente fechando a passagem nas escadas do metrô e, pior ainda, reclamando quando alguém lhes pede licença?

Esse comportamento parece revelar alguns aspectos da relação que as pessoas têm com o espaço público e talvez, em um nível mais abstrato, com a própria ideia de público.

Para o senso comum, público é um adjetivo cujo significado equivale a, aproximadamente, “de todos”. Mas na prática, aquilo que é público fica sujeito a usos privados temporários, durante os quais o caráter público fica suspenso.

Tal postura poderia ser resumida na seguinte frase: “Eu esperei pela minha vez, agora eu uso isto aqui como eu bem quiser”.

É verdade que, dependendo da situação, há certas condições para que um equipamento cumpra sua finalidade. Se alguém é atendido em um hospital público, a sala do médico de fato fica temporariamente ocupada pela pessoa, pois o uso que se faz de um consultório supõe privacidade, silêncio e atenção dedicada do profissional. Se alguém ocupa uma mesa individual de biblioteca pública, é razoável ocupá-la, durante algum tempo, com seus materiais de pesquisa, pois é essa a finalidade de uma biblioteca.

Mas locais de passagem servem para passar. Todos têm o direito de ocupar fisicamente o local, desde que se esteja passando. Se há necessidade de ficar parado, há locais apropriados para isso.

É bastante estranho que alguém possa reclamar quando lhe pedem licença para passar em um local de passagem.

A noção de público parece um tanto distorcida. O público está sempre sujeito a privatizações temporárias; o uso de um espaço público nada mais é que uma sucessão de espaços privados. No momento em que aquilo for meu, posso esquecer que existem os outros, e que ninguém venha me dizer que estou errado.

A privatização de um recurso público parece natural em nossa cultura.

Isso se observa também no uso que se faz de outros tipos de locais de passagem: calçadas, alamedas de parques, ciclofaixas de uso compartilhado, áreas de acesso.

Agora, se as pessoas se comportam dessa forma quando estão a pé, o que podemos esperar delas quando estão dentro de um automóvel, fisicamente protegidas por uma bolha de aço, imunes até mesmo aos olhares dos outros graças aos vidros opacos?

6 Comentários

Arquivado em cultura urbana

6 Respostas para “esquerda livre

  1. Leonardo

    muito bom o texto…

  2. Lili

    Concordo com todo esse texto acima.
    Mas gostaria de lembrar que, no metrô também é anunciado (via microfone) o tempo todo.
    NAS ESCADAS ROLANTES FACILITE A CIRCULAÇÃO.
    QUEM PERMANECE À DIREITA FACILITA A CIRCULAÇÃO.
    Poxa é difícil de ouvir, entender e praticar também?
    Nossa!!!!! Isso irrita muuuuuuito.

  3. Ontem eu ouvi a seguinte frase: “Acho um absurdo as pessoas quererem passar na escada rolante. Eu dou passagem, não fico à esquerda, mas eu acho um absurdo.”
    Diante dessa frase, eu em choque perguntei: “Pq vc acha um absurdo?” porque de verdade, eu queria entender o motivo. Não consegui descobrir, pq os argumentos eram: se quer subir rápido, usa a escada fixa. Perguntei de volta: “para o que vc acha que serve a escada rolante? Para ficar parada nela e ela levar você? Na verdade, ela serve para agilizar o deslocamento. Para melhorar o fluxo de passagem.”
    E agora estou escrevendo a respeito disso e fiz uma pesquisa no google, que me trouxe até aqui. Se importa de eu replicar uma parte do seu texto, postando o link para cá?

    Obrigada!

  4. Pingback: ultrapassagem pela direita | vento na cara

  5. Lourenço

    Num país onde as pessoas não respeitam assentos reservados, seja para deficientes ou idosos, vagas de estacionamento ( em locais privados ou públicos), vamos dizer ou esperar o q?! E o pior; quando vc repreende quem faz mal uso, ainda é xingado!!!!
    Este é nosso Brasil!!! Pena…….

  6. Pingback: pedestres na ciclovia | vento na cara

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