cancelas inúteis

Pedestres e ciclistas ocupam o espaço comum sem nada que os isole uns dos outros. Assim, podem negociar a passagem apenas com troca de olhares ou até com palavras, se for necessário. Semáforos foram inventados para dispensar os motoristas de ter que negociar, tornando possível trafegar em maiores velocidades quando a luz estiver verde.

Aos domingos, a avenida Paulista fica fechada para os automóveis. Pedestres e ciclistas ocupam livremente o espaço da rua como se fosse o tempo em que não havia carros. Transitam pela rua sem medo de serem atropelados. Ficam temporariamente dispensados de ceder o espaço da rua para essas máquinas que, com ou sem motivo, sempre têm pressa.

Enquanto vigora a Paulista sem carros, os semáforos perdem a função, pois os cruzamentos das vias transversais também são fechados. Deveriam ser desligados ou permanecer no amarelo piscante durante esse período. Porém continuam funcionando. Tem mais. A ciclofaixa dominical, mesmo no trecho em que atravessa a Paulista sem carros e sem cruzamentos, utiliza aquelas cancelas operadas por funcionários a cada cruzamento e travessia de pedestres, sinalizando redundantemente a luz vermelha dos semáforos, como acontece em toda sua extensão. Essa sinalização redundante por cancelas é bastante questionável já nos trechos em que há carros em volta. Mas no trecho da Paulista sem carros produz uma situação, digamos, inusitada.

A rua está cheia de pessoas, andando por todos os lados e em todas as direções. Aí o semáforo fica vermelho. As pessoas continuam andando em todas as direções. O ciclista teoricamente tem que parar, diante da haste com a bandeirinha de PARE atravessada diante dele, para ficar observando as pessoas andando em todas as direções.

Numa via onde não há carros, as pessoas não precisam aguardar o sinal vermelho para atravessar, sequer precisam de travessias de pedestres. A rua é toda das pessoas, e os ciclistas, que também são pessoas, podem muito bem conviver com quem está a pé. Devem, como em qualquer lugar ou situação, tomar cuidado com os pedestres e dar-lhes prioridade. Isso é o que manda o bom senso ou, na ausência dele, as regras de convivência escritas na forma de lei. Lembremos que se trata de uma rua de lazer, onde pedestres, ciclistas, patinadores, carrinhos de criança, patinetes, triciclos, palhaços, malabaristas e poetas convivem normalmente, sem nenhum conflito.

A Paulista sem carros não é diferente. As pessoas atravessam em qualquer ponto, caminham em qualquer lugar, param para conversar em qualquer canto, eventualmente até mesmo dentro da ciclofaixa. Em algum momento perceberão que estão no espaço das bicicletas. Ou não. Se alguém precisar, é só pedir licença. Tudo se negocia, olho no olho. Mesmo nos domingos mais festivos e ensolarados, o tráfego de bicicletas jamais chega a ser tão contínuo e ininterrupto a ponto de precisar que um agente externo interrompa o fluxo para os pedestres atravessarem. E mesmo que chegasse, em algum momento algum ciclista pararia para dar passagem a alguém que visivelmente está esperando para atravessar. Ainda que, na falta de um adulto digno o suficiente, uma criança precisasse tomar essa atitude, esse momento chegaria inevitavelmente.

Parece, entretanto, que os operadores da ciclofaixa dominical pensam diferente. Enxergam as bicicletas como máquinas irracionais a serem contidas e domadas. Pelo jeito estão demais acostumados a lidar com carros e esqueceram de como funcionam as pessoas.

O problema é que, ao organizar a infraestrutura dessa forma, acabam passando uma mensagem perversa: a de que a convivência só funciona se for mediada por agentes externos. A patética bandeirinha de PARE acaba sendo percebida como um recurso necessário para proteger os pedestres dos “perigosos” ciclistas. É evidente que os pedestres de fato precisam de travessias semaforizadas para protegê-los dos automóveis, essas armas mortais. Aqui, tudo é feito como se bicicletas fossem tão perigosas quanto carros em movimento.

Deixar que as pessoas negociem a passagem no espaço público de forma autônoma seria uma estratégia bem mais educativa para a convivência. Se por acaso houvesse algum conflito, ele logo se resolveria e, na vez seguinte as pessoas agiriam de outra forma. Esse aprendizado aconteceria com grande parte das pessoas (talvez não com aquela parcela de doentes mentais e de crianções mimados, despreparados para o convívio em sociedade, mas queremos acreditar que estes são minoria).

Ao fechar fisicamente a passagem (e isso acontece em toda extensão da ciclovia dominical, não só na Paulista sem carros), essas cancelas com a bandeirinha de PARE dispensam os ciclistas de ter que olhar ao redor, observar os movimentos, avaliar ativamente os riscos e tomar cuidados com os outros. Resumindo, ensinam a andar pelo espaço público sem ter que pensar. Quadrúpedes com aqueles antolhos que tapam a visão lateral não fariam pior.

Nascida para proporcionar experiências sociais relativamente novas aos paulistanos, a ciclofaixa dominical, ao adotar essas estratégias, perde a chance ter alguns efeitos civilizatórios. E acaba servindo de exemplo para uma das máximas de Hans Monderman, engenheiro holandês criador do conceito de espaços compartilhados: “Trate as pessoas como idiotas e elas se comportarão como idiotas”.

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