campo minado

O desprezo de algumas pessoas pelo espaço público é marrom, tem consistência pastosa e cheiro característico. Agora tem também embalagem: um saquinho plástico amarrado pelas alças e largado na rua.

Hoje é um pouco mais comum a prática de recolher o cocô que o cachorro deposita nas vias públicas. Ao saírem com seus animais para seu necessário passeio, muitos donos de animais têm adotado o hábito de levar sacos plásticos. Logo que o animal termina de se aliviar, o tutor recolhe o material em uma sacola plástica. Muitos levam o pacote para casa e, acredito, o descartam junto com o lixo.

Há, porém, aqueles que deixam esses pacotes pelo caminho. Literalmente, no caminho de outras pessoas. Esses sacos são largados na calçada, às vezes junto a uma árvore, poste ou canteiro, ou são jogados no meio da rua.

Isso significa que agora também os ciclistas, além dos pedestres, correm o risco de serem vítimas daqueles que cagam para o espaço público.

Depois de horas sendo pisados e repisados pelos pneus e secando ao sol, ficam com uma forma achatada, e muitas vezes nós nem percebemos que aquilo é um saquinho de merda que foi jogado no espaço público.

Imagine o exato momento em que o pacote é pisado pela primeira vez por um carro ou ônibus. Sobretudo se estiver bem amarrado, o saco estoura. Pelo furo ou corte do plástico, aquele conteúdo fresco vai jorrar. O estrago pode ser grande. Ainda que de maneira indireta e disfarçada, quem larga esses saquinhos na rua está jogando merda nos outros.

Já viu um desses? Esmagado, ele geralmente fica irreconhecível. Foto: Dionizio Bueno.

Segundo o consenso vigente, levar um animal doméstico para defecar no espaço público é um gesto socialmente aceito se o tutor recolher o material em seguida. Porém, mesmo quando a consistência do material permite recolher todas peças do cocô, o resultado não é uma limpeza perfeita. Resíduos ficam no local. Isso tanto é verdade que o mesmo gesto na área comum de um condomínio, por exemplo, já não é bem aceito. No espaço público, pode.

De qualquer forma, costumamos ver no hábito de recolher o cocô algum avanço civilizatório. Por hora, nada garante que o avanço vai além de um gesto meramente exterior, a ser adotado somente quando há outras pessoas olhando. É grande ainda a quantidade de merda nas calçadas da cidade. Pelo menos na cidade em que vivo, é bastante improvável alguém ser repreendido publicamente por deixar cocô no espaço público.

Talvez alguns tutores sintam-se oprimidos por “essa história de agora ter que recolher o cocô do cachorro e levar para casa”. Só isso explica esses saquinhos de merda que vêm sendo largados pela cidade.

Quando as forças civilizatórias conseguem modificar consensos e produzir hábitos mais benéficos aos espaços comuns e à convivência, fica mais evidente que há também quem resista a tais avanços. Forças opostas às civilizatórias costumam ser associadas à barbárie. Por mais simplificadora que seja essa oposição conceitual, a ideia de barbárie nos faz pensar numa cena de disputas intermináveis, em que as pessoas vivem agredindo ou tentando matar. Numa versão atenuada, em vez de atirarem pedras ou bombas, as pessoas apenas jogam merda umas nas outras.

Além das situações em que já se faz isso simbolicamente, existe agora uma forma bastante discreta de fazer isso em sentido literal.

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