a grande árvore

Era uma vez uma grande árvore cheia de frutos maduros, no ponto de serem colhidos. Bastava balançar a árvore que os frutos caíam, prontos para serem saboreados. A árvore estava muito carregada, qualquer que fosse o lugar sob ela, cairia uma quantidade igual de frutos. Era o resultado de meses de trabalho, em que as pessoas dali haviam se dedicado aos cuidados: regar, fertilizar, fazer as podas adequadas. Em certo dia, as pessoas finalmente chegavam com seus cestos. Cada um encontrava um lugar em baixo da árvore e colocava seu cesto no chão. Alguém balançava a árvore. Cestos cheios, todos então voltavam para casa para desfrutar da colheita. Ninguém dependia daqueles frutos para viver, mas todos se deliciavam com eles, que além de tudo eram a recompensa por sua dedicação. Cada um levava somente o que coubesse em seu cesto.

Havia cestos maiores e cestos menores, cada um trazia aquele que tinha em casa. Apesar de a divisão não ser totalmente equânime, isso não parecia ser um problema. Ninguém ali havia comprado um cesto maior de propósito, com o objetivo de pegar mais frutos que os outros. E, mais importante, quem levava mais frutos para casa, por ter um cesto maior, não estava tirando aqueles frutos a mais de outra pessoa. Havia lugar de sobra sob a árvore, os frutos que não caíam em nenhum cesto ficavam ali mesmo no chão, oferecendo depois uma bela refeição para os pássaros.

Resumindo: tem para todo mundo, cada um leva o que conseguir obter. Lindo. Mas por quanto tempo é possível que o fato de uns levarem para casa mais que outros não traga problemas?

Muitos coletivos parecem se sustentar em um acordo tácito bem semelhante a esse dos cestos. Especialmente nos grupos informais com proposta de horizontalidade e sem remuneração pelo trabalho, todos têm teoricamente a mesma possibilidade de colher os frutos das ações realizadas pelo conjunto das pessoas. E aqueles que levam mais frutos não estão tirando de ninguém.

Será porém necessário alguns levarem mais que outros? Para que pegar tanta fruta? Esbaldar-se além do necessário? Vender? Trocar? Inquietações como essas começam a surgir e, como raramente há espaço para que elas sejam explicitadas em uma conversa, podem corroer as relações.

Por mais que não haja remuneração monetária pelo trabalho, qualquer um do grupo pode receber sua remuneração em prestígio. Alguns contentam-se em simplesmente ter para si que estão atuando em prol da causa. Para outros, entretanto, é importante que sejam ao menos reconhecidos pelo que fazem, especialmente quando passam a dedicar muitas horas de suas vidas ao projeto coletivo.

É comum que grupos desse tipo produzam propostas e soluções muito criativas e inovadoras em suas respectivas áreas. Portanto é natural que as pessoas queiram ser reconhecidas por suas ideias. Muitas vezes é justamente esse reconhecimento que alimenta a participação das pessoas nesses projetos em que não há remuneração monetária.

Quando alguns passam a aparecer muito mais que outros, a diferença de tamanho dos cestos, que em princípio não era um problema, começa a incomodar. Cria-se então aquela situação que é muito bem resumida na frase de uma grande amiga: “Por mais que seja horizontal, a gente está sempre está trabalhando para alguém”.

Pela própria diversidade de personalidades, interesses e habilidades, alguns estarão em condição de beneficiar-se mais que outros do trabalho. Ainda que todos tenham teoricamente a mesma oportunidade, é importante observar o que está acontecendo. Como notado acima, ninguém no grupo depende daqueles frutos para sobreviver. Porém o grupo depende das pessoas para sua continuidade. É a grande árvore que se alimenta por meio daqueles cestos.

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